quarta-feira, 14 de março de 2012

Ressurreição

Quando te olho e penso que podes estar morta e que então já não terei a dor de te contemplar e a angústia de escutar o teu pranto tranquilo e o desejo de te afogar com as minhas mãos...vejo os teus olhos velarem-se e caíres como morta e ficares fria como quem perdeu a alma depois de longas horas de chuva e escuridão.
Mas, nesse mesmo instante, choro o teu fim tão prematuro e o meu tremendo poder e torno a pensar no teu riso contagiante, por detrás das portas, e na cálida morbidez da tua pele, e no teu rico passado...

E choro por ti e por mim e penso que podes renascer em breve e levantar-te sadia e bela como antes e tornar a rir-me com com essa tua boca, com esses olhos castanhos que refletem a minha alma, com esses cabelos claros que esvoaçam na tua fronte.

E apenas acabo de o pensar, estás de novo ante mim, viva, suave, sorridente, ausente, sem uma lágrima presa às pestanas, e mal te aperto a mão branca, tu abraças-me, longa e suavemente....

Amar ou odiar em Faro

Os homens hesitam menos em prejudicar um homem que se torna amado do que outro que se torna temido, pois o amor mantém-se por um laço de obrigações que, em virtude de os homens serem maus naturalmente, dada a sua natureza humana, se quebra quando surge ocasião de melhor proveito.

Mas o medo, ah! o medo esse mantém-se por um temor do castigo que nunca nos abandona.
Sendo aceitável esta noção maquiavélica, que poderemos nós esperar de uma relacção?

Se somos amáveis estamos de peito aberto à traição dos que dizendo amar-nos , apenas espreitam a oportunidade de quebrar os invisíveis laços; se somos temidos, apenas podemos esperar uma falsa adoração.

Como é difícil a vida de um político ou de um amante.

O problema maior

O maior problema do homem, como das nações, é a independência.
Poderá ser solucionado alguma vez?
O que possuimos parece nosso, mas somos sempre possuidos pelo que temos, seja material, espiritual, amoroso......A unica propriedade indiscutível devia ser o EU, e, contudo, vendo bem, onde está o resíduo absoluto que não depende de ninguém?
Os outros participam, ausentes ou presentes, da nossa vida exterior e interior.
Não há forma de nos salvarmos.
Mesmo na solidão perfeita, sentimo-nos, com espanto, uma espécie de átomos de um monte, células de uma colónia, gota de um mar.
Há, no nosso espírito e na nossa carne, a herança dos mortos; o nosso pensamento é devedor dos defuntos e dos vivos; a nossa conduta é guiada, mesmo contra a nossa vontade, por seres que não conhecemos e que desprezamos.
Tudo o que sabemos aprendemos com os outros.
Qualquer coisa que adquiramos é obra de outros, e sem o operário, o artesão, sem o artista, estaríamos mais nus que Job ou Robinson Crusoe.
Falamos uma língua que não inventámos, e os que vieram antes impõem-nos,sem que nos apercebamos, os seus gostos, os seus sentimentos, os seus preconceitos.
Se desmonto o meu EU peça a peça, encontro sempre fragmentos que procedem de fora (não estamos nós a ser condicionados pelo ausente, nesta escrita?).
Até poderíamos etiquetar em cada fragmento a sua origem: isto é da minha mãe, aquilo é do meu irmão, aquilo de Blimunda, isto de Knulp, a outra de Sofia....
Se realizarmos a fundo o inventário das apropriações, o EU converte-se numa forma vazia, numa palavra sem sentido próprio.
Pertenço a uma classe, a um povo, a uma raça; não consigo evadir-me, faça o que fizer, de certos limites que não foram traçados por mim ( Knulp tentou e fracassou...ainda não lhe posso agradecer a tentativa) .
Cada ideia é um eco, cada acto um plágio.
Podemos tirar os homens da nossa presença, podemos esforçar-nos por os ignorar, esquecer, reduzir ao nada, mas alguns continuarão vivendo, invisíveis, na nossa solidão.

Vale

Confesso!
Não estava enganado a respeito do Dr. João Vale e Azevedo.
Estava completamente enganado.
Sou daqueles que pensaram que o Dr. era estúpido por se ter posto a jeito.
De entre tanta gente corrupta, inteligente, colunável, que anda ou andou por aqui e por aí, apenas o Dr. tinha sido apanhado.
Confessemos que não abonava nada relativamente à sua inteligência e conhecimento dos buracos da lei portuguesa.
Sim porque a lei, sendo feita em meia dúzia (talvez sejam menos) de empresas de advogados ligados directa ou indirectamente à AR, tem as suas próprias escapatórias.
A que só se acede com uma password que custa os olhos da cara.
Ora o que surpreende é que, sendo a Empresa do Dr. Vale uma dessas eleitas, ele tenha sido apanhado pela sua própria rede.
Sabemos que em Portugal, se alguém é condenado sem ter sido culpado, é seguramente culpado pelo facto de ter sido condenado.
Veja-se o caso da Casa Pia.
Mas não pretendo fugir ao raciocínio , que afinal justifica esta pequena crónica.
Parece que o Dr. Vale e Azevedo afinal está em Londres a viver em SW2, à grande e à inglesa.
Achei delicioso o detalhe que as nossas TV´s deram ao Bentley, onde o Dr. entra pela manhã, já com os newspapers abertos sobre o bar, no habitáculo posterior.
Afinal o Dr. surpreendeu-me e pela positiva.
Fugiu a tempo e bem.
Não é só a Presidente da Câmara de Felgueiras que tem os seus informadores.
Afinal Vale vale o seu peso (que aumenta diariamente) em ouro.
Estou mais descansado.
Está a salvo, desta mesquinhez que é o nosso país, a nossa polícia, a nossa justiça.
E pode estar descansado.
Se a nossa PJ não consegue apanhar os que cá estão, como irá fazer para apanhar o Dr., que agora até é vizinho do Sr. Abramovich?
Afinal temos (e sempre tivemos) homem.
Vale!!!

Como surge um autarca

Francisco nasceu prematuro no seio de uma família abastada do Algarve; a mãe, Quitéria, nunca se conformou com a ideia de ter gerado um filho de um homem que a abandonou duma forma miserável antes da feliz hora.
Quanto mais o pequeno florescia, mais ela se afundava num abatimento obstinado.
Desde o dia em que soubera da fuga do seu amado, agravara-se a estranha moléstia do período de gravidez, recusara resposta a todas as questões, falava apenas quando estava sozinha, mas de forma tão incompreensível, que mais parecia outro idioma.
Nem olhava para o filho quando o traziam para mamar ao peito mirrado e quase seco, apesar do leituário que lhe haviam posto ao pescoço, um amuleto de ágata engastado em prata, retirado do espólio da sua bisavó Cremilde.
Quando fez um ano, Francisco viu-se pela primeira vez sobre um cavalo, um lusitano de grande mansidão, nado e criado na propriedade de Quarteira, indiferente às alturas e às mãos femininas estendidas na prevenção da queda, apesar das pragas do avô Domingos, indignado com os terrores do mulherio inconsciente.
Aos três anos, tentando substituir um ganhão na rabiça do arado, escorregou e bateu com a cabeça no ferro, abrindo no sobrolho um lanho que lhe deixaria a primeira e mais feia das futuras cicatrizes.
Francisco foi enviado para um colégio no Porto onde deveria aprender tudo aquilo que lhe seria indispensável para poder estar a um nível intelectual apreciável; a sua perspicácia era inata , e como tal deveria ser potenciada .Durante esses anos, a sua presença nas terras familiares apenas era notada em períodos de férias e servia para se percepcionar a sua evolução quer em termos físicos quer de carácter.
Finalmente regressado dos estudos, Francisco regressa a Casa, e depressa começa a praticar aquela que seria uma das suas vocações - as mulheres.
Com efeito, das de menos de trinta anos, rara era a que não lhe sentira ainda o peso do corpo, fosse no campo ao entardecer, na sombra de umas rochas à beira mar, ou no conforto de uma cama, sendo tão violento o seu apetite que não olhava à beleza ou perfeição de formas, mas somente ao viço natural da idade jovem.
Revelava-se assim um autêntico garanhão e pouco prudente nos afectos clandestinos, a ponto da sua mãe dizer, com azedume amenizado por discreto orgulho, que deixara de haver mulheres sérias no Algarve desde o regresso do filho…
Se não era homem de afectos prolongados, tão-pouco a sua volubilidade se poderia considerar leviana.
Para ele, possuir uma mulher diferente todos os dias, embora pouco tempo depois devesse voltar às já suas conhecidas, pois o seu número limitado não permitia uma constante renovação, era apenas um ritual, mais devedor de obrigação do que do prazer, idêntico ao de se aperaltar nos fins de tarde, ou de fazer um discurso político…
Começou então , paralelamente à actividade de correr as mulheres da região, a fazer discursos políticos nas Festas de Verão ,na Pontinha ou no Pontal, que eram música para os ouvidos atentos dos proprietários algarvios, e onde Francisco rapidamente vislumbrou a possibilidade de saciar um segundo prazer, que lhe abriria as portas não dos flancos dourados do gineceu, mas das bolsas recheadas por décadas de exploração……
Ele anda por aí...

O Político feliz

Lanço aqui um desafio para que identifiquem o político português com o perfil ajustável às características que enumero a seguir.
Parecendo uma tarefa fácil, não o é, de facto.
Há aqui seguramente alguns detalhes que poderão fazer a diferença.
Afinal não é Berlusconi quem quer, mas quem sabe.
O Político feliz é seguramente aquele que vive objectivamente, duma forma optimista, com afeições livres, interesses vastos, e rapidamente se torna objecto de interesse e afeição por parte dos outros .
De certo modo a Felicidade tem muito a ver com o facto de se receber afeição por parte dos outros, de nos sentirmos desejados, sem ter que forçar essa espécie de reconhecimento.
Quem recebe não é quem pede, mas quem dá: estaremos aqui perante a parábola: Dar para receber.
Contudo tem que o fazer de uma forma que pareça honesta, sincera e sem calculismos; não poderá dar afectos de uma forma idêntica a quem empresta dinheiro para receber com juros; isso é imediatamente percebido pelas pessoas.
Enquanto dispender energias a pensar nas causas do seu mal, o político feliz permanecerá encerrado dentro de si, da sua armadura, e como tal, não sairá desse círculo vicioso onde impera a Infelicidade.
Deverá evitá-lo a todo o custo.
Les jeux sont faits.

40 anos de Maio de 1968

ALAIN GEISMAR
JACQUES SAUVAGEOT
DANIEL COHN-BENDIT


01 de Maio de 1968
Desfile tradicional da CGT, PCF e PSU da République até à Praça da Bastilha.
02 de Maio de 1968

Novos incidentes entre os estudantes e a polícia em Nanterre, sendo encerrada a Faculdade de Letras.
03 de Maio de 1968

Realiza-se no pátio da Sorbonne uma reunião de estudantes convocada pela UNEF (União Nacional dos Estudantes Franceses). Nessa madrugada, grupos de extrema-direita haviam pegado fogo às instalações da UNEF na faculdade de Letras, pintando cruzes célticas. Os estudantes exigem o acesso aos anfiteatros. O reitor Roche, quebrando uma regra que vinha da Idade Média, convida a polícia a entrar nas instalações universitárias. A polícia de choque – os CRS (Companhias Republicanas de Segurança) – cercam a Sorbonne e entram nas instalações, procedendo à detenção de numerosos estudantes. As carrinhas da polícia que transportavam os detidos são atacadas pelos estudantes com gritos “CRS = SS”. Cerca das 20 horas, o reitor manda encerrar a Sorbonne e o anexo de Censier e é retirado sob protecção policial. Entretanto, são detidos durantes as manifestações no Quartier-Latin cerca de 600 jovens. Nesse mesmo dia, o jornal L’Humanité, órgão do PCF, publicava um editorial de Georges Marchais, secretário para a organização e futuro secretário-geral, atacando a luta estudantil e, em especial “o anarquista alemão Cohn-Bendit”, a quem as autoridades apelidavam também de “judeu alemão”.
04 de Maio de 1968

São condenados a multas vários manifestantes presos na véspera. Daniel Cohn-Bendit, Jacques Sauvageot, vice-presidente da UNEF e Alain Geismar, secretário do Sindicato do Ensino Superior (SNE-sup) tornam-se os rostos mais conhecidos da contestação estudantil. Entretanto, a UNEF e SNE-sup, reunidos na rua Monsieur le Prince, onde funcionará durante várias semanas o quartel-general da revolta estudantil, apelam à greve geral ilimitada dos estudantes.
05 de Maio de 1968

Os tribunais de Paris continuam a julgar manifestantes, aplicando desta feita penas de prisão efectiva a quatro jovens. Começam a ser afixados os primeiros cartazes, na sua maioria produzidos com meios rudimentares em Belas-Artes, designadamente por processos serigráficos – ao longo do Maio de 68 referem-se cerca de 350 cartazes diferentes, que terão totalizado mais de 600.000 exemplares, limitando-se alguns a reproduzir as palavras de ordem do momento, revestindo a forma de jornais murais, enquanto outros recorrem a desenhos e caricaturas espontâneas e também de desenhadores conhecidos.
06 de Maio de 1968

Cohn-Bendit e outros 5 estudantes são convocados pela Comissão Disciplinar da Universidade. Novas manifestações. Mais de 15.000 pessoas tentam ocupar a Universidade, que continua nas mão da polícia de choque. Primeiras barricadas. A polícia realiza mais de 400 detenções e registam-se 487 feridos.
07 de Maio de 1968

Grande manifestação estudantil reúne mais de 50.000 pessoas e percorre a margem sul, de Denfert-Rochereau até à Etoile, evitando a polícia concentrada no Quartier Latin. A direcção da UNEF manda dispersar a manifestação mas militantes maoistas conseguem dirigi-la para confrontos directos com a polícia, que duram toda a madrugada.
08 de Maio de 1968

O ministro da Educação, Alain Peyrefitte, anuncia na Assembleia Nacional a reabertura da Sorbonne e Nanterre “se a desordem não se repetir”. À noite, novas manifestações estudantis e barricadas no Quartier Latin reúnem mais de 30.000 pessoas.
09 de Maio de 1968

O reitor reabre a Sorbonne e Nanterre, que continuam ocupadas pela polícia. Alain Geismar, dirigente do SNE-sup, apresenta a sua auto-crítica perante milhares de estudantes por ter procurado chegar a acordo com o reitor. O intelectual do PCF Louis Aragon é violentamente criticado pelos estudantes quando tenta dirigir-lhes a palavra, acabando por se comprometer a abrir as páginas da revista que dirige, "Lettres françaises".
10 de Maio de 1968

Manifestações diante da prisão de La Santé. A polícia bloqueia as pontes do rio Sena para a margem direita. Os estudantes ocupam o Quartier Latin e montam mais de 60 barricadas. Após horas de conversações, a polícia de choque ataca as barricadas cerca das duas da manhã. Os confrontos, de enorme violência, prolongam-se pela madrugada, recorrendo os estudantes aos paralelipípedos da calçada. Algumas rádios periféricas, cujos emissores operam no exterior, designadamente no Luxemburgo e Monte Carlo, transmitem em directo as negociações e, depois, as cargas policiais e os confrontos, enquanto a televisão (ORTF) apenas passa as posições governamentais.
11 de Maio de 1968

AS principais confederações sindicais – CGT, CFDT e FEN – convocam uma greve geral para o dia 13 de Maio. A Associação francesa dos críticos cinematográficos e jornalistas da televisão apelam à suspensão do Festival de Cinema de Cannes no dia da greve geral. O Primeiro-Ministro, Georges Pompidou, interrompe a visita que estava a fazer ao Afeganistão e, no regresso, anuncia a abertura da Sorbonne para esse mesmo dia 13.
12 de Maio de 1968

Pompidou promete a libertação de todos os detidos durante as manifestações. Entretanto, grupos de jovens operários juntam-se às manifestações estudantis.
13 de Maio de 1968

O tribunal da Relação coloca em liberdade provisória os condenados do dia 5 de Maio. A Sorbonne é aberta e, de imediato, ocupada pelos estudantes. A greve geral é um facto em todo o país. No Festival de Cannes, todas as projecções de filmes são suspensas. Há manifestações em toda a França. Em Paris, desfilam mais de 800.000 pessoas entre a gare de l'Est e Denfert-Rochereau e, no final, os estudantes não aceitam a decisão de dispersar tomada pelos dirigentes sindicais e continuam até ao Champ de Mars.
14 de Maio de 1968

Iniciam-se greves espontâneas: na Lorena (fábricas Claas), em Nantes (Sud-Aviation, com ocupação e sequestro do director), etc. O Presidente da República, general De Gaulle, parte em visita oficial à Roménia. O PCF e a FGDS apresentam na Assembleia Nacional uma moção de censura ao governo.
15 de Maio de 1968

Estudantes ocupam o teatro Odéon. Os operários das fábricas Renault, em Cléon, decretam a greve e ocupação ilimitada, hasteando bandeiras vermelhas. O movimento estende-se a numerosas fábricas da região.
16 de Maio de 1968

Estende-se o movimento grevista a mais de 50 empresas: entre elas, a Renault de Flins e a Renault-Billancourt, a principal instalação fabril do país. A Academia Francesa é ocupada.
17 de Maio de 1968

Mais de 200.000 operários em greve. Os sindicatos tentam impedir a aproximação entre os operários e os estudantes, designadamente nas fábricas de Billancourt. 1.500 profissionais do cinema e do jornalismo criam os “Estados Gerais do Cinema”, ocupando as instalações onde decorria o Festival de Cannes. Começa a greve da televisão (ORTF). François Mitterand reúne-se com Waldeck-Rochet, secretário-geral do PCF. Paris está ocupada por 70.000 polícias.
18 de Maio de 1968

De Gaulle regressa da Roménia. A greve geral já envolve mais de 2 milhões de trabalhadores, bloqueando toda a actividade económica.
19 de Maio de 1968

A emissão da ORTF passa a estar controlada pelos jornalistas e pelos técnicos. Começam a verificar-se filas diante das lojas, faltando muitos produtos.
20 de Maio de 1968

Ocupação do porto de Marselha. As centrais eléctricas e de telefones estão bloqueadas. O secretário-geral da CGT, de orientação comunista, pronuncia-se contra o carácter insurreccional da greve. Sartre responderá: “os comunistas temem a revolução”.
21 de Maio de 1968

A greve estendeu-se a mais de 7 milhões de trabalhadores. O secretário-geral do PCF propõe a outros partidos de esquerda a criação de um grupo unido da esquerda. Jean-Paul Sartre dirige-se aos estudantes na Sorbonne ocupada. Todos os teatros de Paris são ocupados.
22 de Maio de 1968

Cresce a greve geral. A moção de censura contra o governo é derrotada no Parlamento, embora por apenas 11 votos. É retirada a Daniel Cohn-Bendit, que tem nacionalidade alemã, a licença de permanência em França, quando ele está a participar numa manifestação em Amsterdão. Manifestantes atacam a sede do “Comité de Defesa da República”, criado em apoio a De Gaulle e ao governo. As centrais sindicais apelam ao diálogo com o governo.
23 de Maio de 1968

A greve alastrou a mais de 10 milhões de trabalhadores. Novas manifestações, barricadas e confrontos no Quartier Latin. A central sindical CGT recusa-se a apoiar as manifestações contra a proibição de permanência de Cohn-Bendit em França.
24 de Maio de 1968

Continuam os confrontos e as barricadas nas principais cidades francesas. A Bolsa de Paris é atacada por manifestantes. De Gaulle fala ao país (7 minutos) e promete um referendo no prazo de um mês. A noite salda-se com centenas de feridos, um manifestante é morto em Paris e um comissário de polícia em Lion.
25 de Maio de 1968

Prosseguem as manifestações e confrontos. Barricadas em Bordéus e em diversas zonas rurais. Nas instalações do Ministério dos Assuntos Sociais, Rua Grenelle, sindicatos, confederações patronais e governo iniciam negociações.
26 de Maio de 1968

São racionados os combustíveis. De Gaulle dá ordens a Jacques Foccart para a organização de uma manifestação de apoio a realizar nos finais de Maio. [Jacques Foccart, mais conhecido pela sua acção neo-colonial em África, tentou criar, em Maio de 68, um movimento estudantil próximo do governo, ao mesmo tempo que se dedicava a "acções especiais".]
27 de Maio de 1968

Às 07.15, é assinado na Rue Grenelle um acordo entre o governo, o patronato e os sindicatos, que é recusado pelos operários da Renault de Boulogne Billancourt – o acordo prevê, designadamente, o aumento do salário mínimo, a redução dos horários de trabalho e a baixa da idade de reforma.
28 de Maio de 1968

Demissão do ministro da Educação, Alain Peyrefitte. François Mitterand anuncia a sua candidatura em caso de vacatura da Presidência da República e propõe a constituição de um governo liderado por Pierre Mendès-France – o PCF não apoia. A CGT apela a uma manifestação em Paris para o dia seguinte.
29 de Maio de 1968

A manifestação convocada pela CGT reúne 500.000 pessoas em Paris. De Gaulle adia o Conselho de Ministros, criando pânico no próprio governo, e desaparece (saído do palácio do Eliseu às 11.15, só chega à sua casa de Colombey-les-deux-Eglises por volta das 18.30) – deslocara-se em segredo à base francesa de Baden Baden, para obter o apoio militar do general Massu, comandante das tropas francesas na Alemanha. Pierre Mendès-France afirma estar disponível para assumir a chefia de um governo provisório. [Jacques Massu, general para-quedista, conhecido pelo emprego sistemático da tortura durante a guerra da Argélia.]
30 de Maio de 1968

O general De Gaulle anuncia, às 16.45, a dissolução da Assembleia Nacional, recusando demitir-se e anunciando eleições antecipadas para Junho. Ao mesmo tempo, adia o referendo que prometera a 24 de Maio e ameaça recorrer às forças armadas. Nesse mesmo dia, realiza-se nos Campos Elísios uma manifestação de apoio, encabeçada por André Malraux, que reúne mais de 800.000 pessoas.
31 de Maio de 1968

De Gaulle procede a uma remodelação governamental. Prosseguem, por toda a província, manifestações de apoio ao general. Nesse fim-de-semana, muitos bens e serviços essenciais voltam a estar parcialmente disponíveis. Durante o mês seguinte, verificam-se confrontos violentos: designadamente, ocupação pela polícia, na noite de 6 de Junho, das fábricas Renault de Flins, morte a 10 de Junho do estudante liceal Gilles Tautin, morte a tiro do operário Pierre Beylot a 11 de Junho, nas fábricas Peugeot de Sochaux, morte do operário Henri Blanchet. Na primeira e segunda voltas das eleições legislativas (24-30 de Junho), a maioria governamental alarga-se substancialmente, alcançando quase 80% dos assentos parlamentares.

A outra margem

Caminhei para o rio, através do voo errabundo das abelhas,negras e amarelas.
A água era escassa,lenta e lodosa.
Apesar disso, o rio encantou-me.
Caminhando pela margem, o rosto ao vento, e pisando no chão as borboletas imóveis, que a modorra adormecera, cheguei até ao passo.
O barco esperava-me e, num instante, estava do outro lado.
Confesso que tinha uma certa curiosidade em ver o Barqueiro, mas não o consegui vislumbrar.
Porque prefiro a outra margem?
Porque ali são mais copadas as árvores e o capim mais alto? Não, não é esse o motivo.
Amo as paisagens nuas, onde o Sol pode,como um vagabundo,estirar-se todo o dia.
Amo, talvez, a outra margem, porque é a outra - porque não é a minha; porque não é aquela a que me via obrigado a voltar todas as noites.
Amo a outra margem pelo silêncio, sim, é isso, o silêncio, a ausência de qualquer som humano ou animal.
Amo a outra margem pois não necessito dar ou receber seja o que for.
Caminhei um pouco.
Na primeira curva esperava-me o Demónio, como tinha sido combinado.
Partimos em silêncio, sem sequer nos cumprimentarmos.
Ao sairmos da vista do rio, o Demónio continuava silencioso, mas pareceu-me mais vivo e imperioso que nunca, e tive de morder os lábios para não gritar.
Seria este o preço da liberdade?
Chegámos finalmente a um velho cipreste, que balançava um pouco o alto cimo, com um ar misto de impaciência e censura.
...(aqui lembrei com saudade os meus amigos...)
Sentámo-nos com as costas apoiadas ao amplo e maciço tronco e o Demónio continuou calado.
Então, como se no mais profundo de mim se houvesse aberto de repente algum veio interior, senti borbulharem e sairem aos borbotões as palavras que havia de dizer:
«Mestre e amigo: chegou para ti o dia da tentação. Já não és capaz de tentar os homens e sucede que os homens vêm tentar-te.
Notei que o Demónio chorava e vi pela primeira vez os seus olhos rasos de água. Lágrimas de pesar, de raiva, de alegria? Durante o dia inteiro reflecti sobre isso e não soube o que resolver.
Agora, espero que a noite chegue para lho perguntar, em sonhos.

Entre-os-rios e Alto das Vinhas

Os mortos no Egipto Antigo tinham que passar por uma ponte "mais fina que um cabelo", e eram-lhes feitas duas perguntas a que deveriam responder com sinceridade.
Se não fossem honestos na resposta,cairiam no abismo profundo do inferno.
As perguntas eram as seguintes:
1. Conseguiste atingir a Felicidade em vida?
2. Conseguiste fazer alguem feliz em vida?

Lembrei-me desta parábola a propósito do acidente de ontem no Alto das Vinhas, entre Sesimbra e Setúbal, em que perdeu a vida uma miuda de 12 anos; e associei imediatamente essa tragédia à da ponte Hintze Ribeiro, há uns anitos atrás (a velocidade do esquecimento....).
Não pelo acidente em si, mas pela entrevista que a Governadora Civil de Setúbal se apressou a conceder aos media.

ENTRE-OS -RIOS
....O ex-ministro das Obras Públicas Jorge Coelho, que se demitiu na sequência da queda da Ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, lamentou, após conclusão do processo, que a culpa "tenha morrido solteira", depois de o tribunal ter ilibado todos os acusados.
Para Jorge Coelho,(hoje Consultor(?) da Mota-Engil - prémio bem merecido por ter habilmente fugido das suas responsabiliades) "não é possível que 59 pessoas tenham morrido a atravessar um equipamento cuja manutenção é da responsabilidade do Estado e, feita a investigação, ninguém seja responsabilizado".O antigo ministro disse recear que "a desresponsabilização" se torne "uma normalidade" em Portugal.
A ele se pode atribuir então a frase célebre: Abomino a impunidade mesmo quando dela beneficio.
É de político.

ALTO DAS VINHAS
Uma menina de 12 anos morreu e três crianças sofreram ferimentos ligeiros devido à colisão de um autocarro com cerca de vinte crianças a bordo com um pesado de mercadorias, na estrada entre Sesimbra e Setúbal
"A Estrada Nacional 379, que liga Azeitão a Sesimbra, e onde ao final da tarde de segunda-feira ocorreu um acidente que vitimou uma rapariga de 12 anos, deve ser avaliada pelo Observatório Distrital de Segurança Rodoviária - diz a Governadora Civil de Setúbal, Eurídice Pereira, que afirma que o organismo recentemente criado já tinha sinalizado a estrada no sentido de a avaliar...."
É de política.

As pessoas que sofrem, que caem na desgraça, facilmente se voltam para para quem lhes prometer uma solução.
Ou seja, as pessoas podem aguentar e ser pacientes com o seu sofrimento se virem uma utopia no horizonte.
Mas "utopia" é aquilo que nunca acontece.
É uma alucinação.
Políticos e padres vivem de promessas.
Mas nos últimos dez mil anos nenhuma promessa foi cumprida.
E mentem tanto que já o fazem inconscientemente.
Duvido muito que conseguissem atravessar a tal ponte no Antigo Egipto.
Nem talvez fossem capazes de atravessar a Hintze Ribeiro ou o Alto das Vinhas.
Provavelmente já conheciam a sua fraqueza.

Medicina e Cunhas

Conversa entre o filho de um ministro e a filha de outro ministro:

- Tens um minuto?
- Sim, claro.
- Decidi ir para Medicina.
- Decidiste ir para Medicina... Assim?!
- ... Sim!
- Mas, ouve lá, falaste com o teu Pai ?
- Não! Falei com o teu.

Espelho meu

Precisa-se de matéria prima para construir um País
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres.
Agora dizemos que Sócrates não serve.
E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a Esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal e se tira um jó jornal, deixando os demais onde estão.
Pertenço ao país onde as Empresas Privadas são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ... e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito.
Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos.
Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame.
Um país onde o director da ASAE diz que quem não cospe para o chão não é bom cidadão.
Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não ceder o lugar.
Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas
dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como "matéria prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa.
Esses defeitos, essa "Chico-esperteza Portuguesa" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, eleitos por nós .
Nascidos aqui, não em outra parte...
Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?
Aqui faz falta outra coisa.
E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados ....igualmente abusados!
É muito bom ser português.
Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar.
Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.
Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de
mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e estou seguro que o encontrarei quando me olhar ao espelho.
Aí está.
Não preciso procurá-lo noutro sítio.

Henrique e a polidez

Daqui a uns anos todos diremos que o Henrique era um "tipo porreiro" - dizia o nosso professor de História Universal, António Gomes, dirigindo-se à turma, depois de expulsar da sala, uma vez mais, o nosso colega Henrique.
E de facto tinha razão, pois a Moralidade e nalguns casos, até a Santidade, são apenas uma questão de tempo.
Henrique de facto não era um mau rapaz, era até bastante polido.
Hoje, à distância de muitas décadas, entendo que era um imitador do sistema rígido, da estrutura autoritária, que existia na altura no Liceu Nacional de Faro.
Como podia, ou pensava podê-lo, dada a sua condição social, importunava constantemente alguns colegas (Silva Dias que o diga, constantemente a levar aquilo a que Henrique chamava "estacaços", e que consistia em murros na nuca durante as aulas), não de uma forma particularmente violenta, mas insistente.
A propósito do Silva Dias, fui colega dele na RUPN (Residência Universitária Pedro Nunes), onde encontrei outro alentejano dos quatro costados, o Salgado, famoso pelas "curvas logarítmicas" das suas botas alentejanas.
Hoje Henrique seria considerado um hiperactivo, na altura ainda se desconhecia o termo; eu diria que era um produto do sistema que desde as suas raízes (a escola), tenta impor-se à custa da liberdade individual.
Mas Henrique era extremamente polido.
Polidez que será a primeira das virtudes, e talvez a origem de todas elas.
É contudo a mais pobre, a mais superficial, a mais discutível.
Será mesmo uma virtude?
A Polidez não quer saber da Moral, nem a Moral da Polidez.
Um nazi polido em nada altera o nazismo, o horror...E este nada caracteriza bem a polidez.
Virtude meramente formal, virtude de etiqueta, de aparato.
A aparência, pois, de uma virtude, e não mais do que isso.

Globalização

Era uma vez uma princesinha inglesa, muito bonita mas infeliz, que tinha um namorado egípcio muito rico que tinha a mania que era playboy. Aconteceu que ambos tiveram um grave acidente, do qual resultaria a sua morte, num túnel por baixo de um boulevard parisiense, num carro fabricado na Alemanha com motor montado por operários checos ex-comunistas, conduzido por um belga que bebia whisky (escocês) em demasia e que, como belga, tanto podia ser francófono como flamengo.

Esse pormenor da história só interessa à polícia, incluindo os serviços secretos de sua majestade a rainha dos "great britons" e que é a bruxa má desta história.
E todos, a princesa e o candidato a princípe, mais o motorista belga e os guarda-costas da princesa, eram perseguidos por paparazzis italianos, em potentes motos japonesas de grande cilindrada, empunhando máquinas fotográficas japonesas com teleobjectivas de infra-vermelhos made in China, sob licença.
A princesinha, moribunda, ainda foi assistida, por uma equipa de emergência médica canadiana num grande hospital árabe de Paris, tendo-lhe sido ministrados medicamentos de uma multinacional farmacêutica, dessas sem pátria, com fábricas no Brasil.
A tecnologia de reanimação também era de uma outra multinacional que trabalhava no programa espacial da NASA (os senhores que mandam foguetões para a Lua e para Marte) e que acabava de fazer uma OPA hostil para ficar com a parte de leão do mercado da doença .

E eu, que sou portuga, estou-vos a contar esta história num blogue que existe na Internet, usando tecnologia desenvolvida por um senhor chamado Bill Gates e que vive na América dos cow-boys e que é podre de rico por causa da terceira vaga que ele cavalga como nenhum outro surfista do Hawai.
Vocês muito provavelmente estão a ler esta mensagem num computador que é um clone da IBM e que usa chips feitos em Taiwan, e num monitor sul-coreano, TFT de 17 polegadas, montado por trabalhadores do Bangladesh numa fábrica de Singapura, transportado em camiões TIR de uma empresa chinesa de Honk-Kong conduzidos por indianos, e que depois foram roubados (os camiões) por piratas malaios e indonésios, e descarregados por pescadores sicilianos que trabalhavam para a máfia chamada cosa nostra.

E de repente estamos numa minúscula ilha das Caraíbas onde o material (computador, monitores e demais periféricos) está a ser empacotado por campesinos mexicanos clandestinos, para depois ser transportado num porta-contentores russo de pavilhão panamiano, desembarcado em Roterdão e finalmente vendido por judeus holandeses, que escaparam ao holocausto nazi, e que até meados do Séc. XVII viviam em Portugal, prósperos, felizes e contentes.
Com eles desembarcaram, mais mortos que vivos, os novos escravos negros que fogem do inferno das Costas de marfim, das Libérias, das Serras leoas, das Guinés, dos Congos.
Apanhados pela polícia da eurolândia foram recambiados para as terras de fome e de morte onde nasceram.

Pois é, meus caros, isto é que é a globalização. Convenhamos que as histórias das princesas encantadas dos tempos dos avós que se chamavam afonsinhos, eram muito mais bonitas do que esta que é triste e sórdida e imoral.
Já não me lembro do nome da princesa mas para o caso tanto faz.
Em boa verdade, também não sei o verdadeiro nome dos chinos que montaram o meu computador e sem o qual eu nunca poderia comunicar com vocês .
Se puderem escrevam um e-card com musiquinha e animação.
Estamos a precisar de levantar o/a moral (desconheço o género, e não tenho aqui à mão o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, que passou a ser o meu livro de cabeceira e que eu uso em vez do xanax, e infelizmente já não posso recorrer ao saudoso Prof. Inocentes Afonso).

E ainda a propósito, queria aqui referir um adágio popular, que existe na na terra dos portugas, e que diz: "Quando passam rábanos é que é comprá-los".
Não encontrei até à data mais feliz e sintética definição do que é essa coisa da globalização.
Há uma profunda mas tranquila sabedoria neste adágio que só pode ser de origem moura porque os rábanos são cultivados pelos saloios da Estremadura lusitana e estes descendem dos mouros, como eu, os quais foram escravizados pelos feros francos cristãos da Reconquista.
Mas afinal parece que os algarvios não descendem dos mouros mas dos cónios, que na época vendiam "souvenirs" aos turistas fenícios que vinham da zona de Beirute, hoje em guerra civil.

Democracia moribunda

São muitos os presságios.
Diria mesmo que se acumulam exponencialmente.
É assim que eu antevejo a Morte da democracia, e para tal peço a ajuda de Stephen..

Os segredos dela: velhos leques de plumas, cartões de dança, debruados, com borlas, polvilhados de almíscar, uma bugiganga com contas de âmbar numa gaveta fechada.
Quando era menina, pendia, na janela solarenga de sua casa, uma gaiola com um pássaro. Escutava o velho Royce a cantar a pantomina do Turco, o Terrível, e ria-se, com os outros, quando ele trauteava:
Eu sou o rapaz

que sabe gozar
a invisibilidade

Alegria fantasmagórica, entrelaçada, perfumada de almíscar.
Entrelaçado e desvanecido na memória da Natureza com os seus brinquedos.
Recordações avassalavam-lhe o cérebro meditativo.
O copo de água da torneira da cozinha quando se acercava a hora do sacramento.
Uma maçã sem caroço, recheada de açucar mascavado, a assar, na chaminé, para ela, numa escura tardinha de Outono.
As suas belas unhas rubras com o sangue dos piolhos esmagados, nas camisas das crianças.
Num sonho, silente, viera ter com ela, o corpo corrupto na vasta mortalha escura a exalar um cheiro a cera e a pau de rosa,o seu hálito, inclinado para ela,com mudas, secretas palavras, um vago odor a cinzas húmidas.
Os olhos vidrados, olhando para lá da morte, a estremecer e a submeter a sua alma.
Só a ela.
O círio fantástico alumiando-lhe a agonia.
Luz de fantasmas no rosto torturado.
A respiração rouca, ruidosa,estertorando de horror,enquanto, ajoelhados,todos rezavam. Os olhos dela sobre mim,para me fazerem render......
E o murmúrio terrível, incessante:

Liliata rutilantium te confessorum turma circumdet; iubilantium te virginum chorus excipiat.

Locke

Os presságios avolumam-se.
Devo então falar dos iluministas numa altura de pré-escuridão.
Com John Locke, a concepção do que é o homem volta a aclarar-se.
Gosto muito de John Locke, pois tomei contacto com ele aos 14 anos, quando entrei na fase da heterossexualidade, e deu-me algumas pistas.
Aliás, a Filosofia só tem algum interesse se nos ajudar a crescer.
O seu pai foi um íntegro partidário do Parlamento, e ele próprio torna-se o médico particular do primeiro lider do partido dos whigs, do Earl of Shaftesbury, e perceptor do neto deste, que mais tarde se tornará ele próprio um filósofo proeminente.
Locke escreveu duas obras que se enquadram entre as obras mais influentes de todos os tempos. Na primeira, "Um ensaio sobre o Entendimento Humano", ele dá razão a Hobbes quando admite que não existem ideias inatas, mas que todas as nossas concepções mentais têm origem em percepções sensoriais e que cada ser humano é uma folha em branco (tábua rasa), apenas preenchida pela experiência.
E dá razão a Descartes aceitando que apenas aquelas qualidades da realidade são autênticas e podem ser medidas matematicamente, e que todas as outras, que ele designa por secundárias, apenas resultam de combinações entre estas qualidades primárias.
O que é decisivo para Locke é a qualidade primária do movimento: com o descobrimento da gravitação por Isaac Newton, seu amigo, este tinha elevado o movimento uniforme ao novo ideal da ordem natural (tal como mais tarde, Albert Einstein irá fazer com a velocidade da luz).
Locke desloca a força da gravidade para o interior do homem e ali descobre a sucessão uniforme das ideias no espírito.No entanto, a procissão das ideias tem de ser observada a partir de uma instância que, por seu lado, tem uma certa durabilidade se for para ser percepcionada como uma unidade.
Para Locke, é precisamente esta relação interior observável entre a duração e a mudança que perfaz o sujeito.
O material de que são feitos os sujeitos é o tempo, e a forma como eles se organizam é a reflexão.
Esta obra tornou-se um marco no desenvolvimento da epistomologia (Filosofia do Conhecimento), e no livro de culto do Iluminismo Francês.
Foi ela que forneceu a plataforma sobre a qual toda a Filosofia subsequente até Kant formulou os seus problemas, do mesmo modo que acelerou a subjectivação (a introspecção ) da literatura no romance, tendo exercido uma grande influência sobre literatos, artistas e psicólogos, e foi ponto de partida para a libertação sexual da mulher do século XX.
Mais importante ainda terá sido a sua grande segunda obra, intitulada " Dois Tratados sobre a Governação", partindo Locke da hipótese de um Estado natural pré-societário mas que não é caracterizado pela guerra de todos contra todos, mas pela igualdade e liberdade de todos os indivíduos. Tal como em Hobbes,estes celebram um contrato, não delegam (transferem) os seus direitos num monarca absoluto, mas na própria sociedade.
A liberdade e a propriedade são pensadas em conjunto, não sendo colocadas em oposição mútua como mais tarde acontecerá com o Socialismo (não o de Sócrates).
Daí resultava uma consequência: um governo podia ser derrubado, se dispusesse da liberdade ou da propriedade dos cidadãos sem o consentimento dos mesmos.
Esta obra, para quem duvida da Filosofia, ou melhor, da sua importância, tornou-se na MAGNA CARTA da democracia burguesa e é considerada a primeira garantia dos direitos de liberdade.
Por si só, essa obra justificou a Glorious Revolution de 1688, a Revolução Americana de 1776 e a Revolução Francesa de 1789 .
A declaração de Independência dos Estados Unidos da América adopta quase à letra algumas das formulações de Locke.Esta, por seu lado exerce uma influência notória sobre o articulado da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão da Revolução Francesa. A teoria constitucional é importada para o continente por Voltaire e Montesquieu que a guardam no seu entreposto e, ampliada pelo poder judicial, a reexportam para a América; ela tornar-se -ia a grande obra de legitimação da doutrina da soberania popular e dos direitos humanos e da divisão de poderes num governo controlado pelo parlamento e, com isso, a base da civilização política que todos reconhecemos como nossa.A guerra civil, evocada por Hobbes como sinónimo de horror, transforma-se, pela diferença entre o governo e as oposições, na guerra civil pacífica das opiniões; assim, Locke aponta a via real para uma sociedade civil.

Digam lá agora que a Filosofia não interessa a ninguém!
Quando pensarem no nosso (e no dos outros países) sistema político, tirem o chapéu a John Locke.

Contornar a lei em Portugal

António da Silveira (1904-1985) O homem que detinha o poder de decidir quem seria Engenheiro ou não no Instituto Superior Técnico.
Era o "dono da Física", como se de Isaac se tratasse.
À boa maneira dos Imperadores Romanos, no Circo Máximo, ele olhava para a turma e, depois de uns segundos, (uma eternidade) decidia se apontava o polegar para o céu ou para o inferno.
Reprovava alunos no táxi e ainda por cima eram estes que tinham de pagar a corrida.
Houve quem se suicidasse, no ano de 1971 por causa de uma sua decisão.
Mas não é por esta faceta que relembro o Engenheiro Professor Silveira, que trabalhou de perto com Einstein.
Não!
Falo dele porque lhe pertence uma máxima que hoje é facilmente desmontada no nosso país.
Dizia ele que o IST era a única Escola do país que associava a Teoria à Prática.
De facto ,
na Teoria, sabemos como as coisas devem funcionar, mas na realidade não funcionam. Na Prática, as coisas funcionam, mas não sabemos muito bem porauê.
Ora no IST havia uma combinação da Teoria e da Prática:
"Nada funcionava e ninguém sabia porquê".

A única Lei que se aplica integralmente e sempre, no nosso país, é a Lei da Gravidade.
Todas as outras, desenhadas e idealizadas pelo poder legislativo, inventado por
Montesquieu, o iluminado iluminista, são passíveis de serem contornadas.
A primeira preocupação do legislador Português (uma espécie de alfaiate das leis à medida de certos interesses), é deixar aberta a possibilidade da lei ser legalmente contornada.
Contornada por aqueles que desejam a sua existência , de modo a poder reclamar a sua honestidade.
Não que isso esteja ao alcance de qualquer.
Não!
E mesmo que alguém seja condenado sem ser culpado, é seguramente culpado só pelo facto de ter sido condenado.
Culpado do crime de estupidez.
Veja-se o caso mediático de um antigo presidente do Benfica.
Existem gabinetes jurídicos especializados em descobrir os chamados "buracos legais" por onde se vai metendo a mão que vai mugindo a vaca.
Aparentemente a lei existe, e para isso existem os bodes expiatórios, para quem a lei se destina, os vencidos, os fracos e os ignorantes.
Tudo legal.
Surge sempre quem diga que não teve posses para contratar um "Bom advogado".
Eu diria simplesmente que não contrataram os advogados certos, os que têm os ases escondidos na manga.
Assim se vai dizendo que "Neste País a Lei não funciona"
Mas, contrariamente ao que dizia o Professor Engenheiro Silveira, desta vez, "Nada funciona, mas alguns sabem muito bem porquê."