quarta-feira, 14 de março de 2012

Descartes

A propósito de uma acesa discussão sobre a alfarroba, num magnífico forum da minha terra chamado ADEFESADEFARO apetece-me falar de ideologias, e da forma como elas condicionam a nossa vida e a nossa alma.
Na Europa, muita coisa é inventada duas vezes, sendo a primeira vez na Grécia, e a segunda na Europa dos primórdios da Modernidade; é o caso, por exemplo, da democracia, do teatro e também da Filosofia.
O pai fundador da moderna Filosofia, o francês René Descartes, palmilha a Alemanha como soldado durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).
Nas suas campanhas militares durante essa guerra, Descartes esteve na região de Ulm.
Ali fazia muito frio, e ele refugiou-se no interior de um forno - assim ele próprio o relata.
Dentro do forno, ele adormeceu e teve três sonhos.
Quando voltou a sair, tinha encontrado um novo ideal de Filosofia: a Matemática.
Os enunciados de Filosofia deviam ser tão fundamentais e lógicos e inexoráveis como os de Matemática.
A fim de criar espaço para semelhantes fundamentação, começou por duvidar de tudo.
E já tinha encontrado o fundamento de todos os fundamentos, o pedestal da Filosofia moderna e a rocha sobre a qual esta podia fundar a sua nova igreja.
Este fundamento era a conclusão: se duvido de tudo, mesmo assim não posso duvidar do facto de estar a duvidar.

Isso oferecia segurança.
O novo fundamento primordial era o Eu ou o sujeito.
Qualquer sujeito tem de fazer uma excepção quanto a si mesmo: a democracia não pode pôr-se a votos a si própria; o estômago não deve digerir-se a si próprio; o comilão não deve devorar-se a si próprio; o juiz não pode condenar-se a si próprio.Em resumo: o Eu não pode abstrair de si próprio.
E foi assim que Descartes pronunciou a frase mais famosa da história da Filosofia:
« Je pense, donc je suis»

A versaão mais conhecida desta frase é em latim e diz:
«Cogito ergo sum»

Em Português:
«Penso, logo existo»

Isto era revolucionário. Até então,as reflexões dos filósofos tinham sempre partido do mundo dos objectos.
Descartes, porém, muda a linha de partida da sua corrida de obstáculos filosófica para o interior da consciência.
A partir daí, ele atira-se ao mundo material, pega-lhe fogo e, com o fogo dos pensamentos, queima tudo que não seja estritamente necessário ao pensamento até, por fim, ter nas mãos apenas aquilo que é mensurável em termos matemáticos: extensão, forma, movimento e número. O resto - sabor, cheiro, temperatura e cor - ele declara serem temperos subjectivos que só a consciência humana é que adiciona à sopa material.
Deste modo, Descartes difunde a ideia de um mundo sem gosto, cor e som e que obedece exclusivamente às leis da mecânica.
Este mundo é destituido de qualquer encanto ou encantamento, encontrando-se submetido ao domínio da casualidade ( do princípio da causa e efeito) e da Matemática.
A partir daí, uma fractura atravessa o Cosmos outrora integral: na ruptura reflexiva com o mundo dos objectos, o sujeito descobre-se a si próprio como o condimentador da realidade e, de ora em diante, pode distinguir-se, enquanto espírito, da matéria.
Desde esse momento, o sujeito e o objecto defrontam-se como opostos. E o mundo dos objectos deixa cair as calças para se fazer examinar pelo sujeito da ciência. A subjectivação do Eu e a objectivação da Ciência vão de mãos dadas.
A isso chama-se dualismo ( do latim duo= dois).
E, como Descartes deixou à actividade da razão a sua independência frente ao mundo, ele tornou-se o pai fundador do Racionalismo (afirmação da primazia da Razão).

Tudo isto a propósito do biodiesel e da alfarroba.
Estou a ficar preocupado comigo!

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