sábado, 10 de março de 2012

Emoções no estômago

O que digo ou escrevo nem sequer me comove.
Faço-o como quem come um bife ou bebe uma bejeca, sem emoção, sem objectivo algum que não seja permitir ao corpo e ao espírito que continuem a ser irrigados pelo fluido vital, enquanto a bomba no peito tiver válvulas de retenção.

Força de viver

Só continuo vivo para te contentar.
Mas custa-me imenso fazê-lo pois os remorsos maceram-me continuamente a minha mente. Não posso aceitar isso, se bem que pense que é o que desejas.
E bem sabes que tudo faria por ti.
Tudo.
Até permanecer vivo contra todas as probabilidades, contra todas as leis da natureza.
Não aceito isso.
Não posso continuar a aceitar essa ideia, que no meu caso, se transforma imediatamente em determinação.
E a tua vida? Ainda és nova e bela, saudável.
Irás pensar em ti só depois de eu morrer?
Faz algum sentido teres que em ajudar a vestir para que te possa acompanhar a uma festa?

Sangue dos outros

Ninguém sofre as nossas dores por nós.
Quando muito podem os outros tentar aliviar-nos desse fardo cuja intensidade desconhecem, não podem conhecer, sugerindo a sua inimportância, a sua transitoriedade, recordando-nos que a vida é bela, o mundo uma coisa maravilhosa. Há que ter fé.
Cheios de boa vontade, no seu egoísmo, egocentrismo, pensam nunca vir a sofrer o mesmo, ou equivalente,pois há coisas que só acontecem aos outros, grupo estatístico a que não pertencemos, a que nunca pertenceremos.

O assassino

Ele evolui constantemente.
Quanto mais gente mata, mais zangado fica, e desfigura as suas vítimas como se quisesse apagá-las, torná-las irreconhecíveis.
Parece que à medida que evolui no crime sem ser travado pelo longo braço da lei, perde o controlo sobre a sua violência, tornando-se uma autêntica bomba relógio, à procura de algo que faça sentido para ele.
O que os especialistas dizem é que ele denota uma sensação permanente de angústia, que o faz identificar sistematicamente o alvo errado, tornando-nos assim, a todos nós, alvos potenciais da sua cegueira assassina.

Introspecção

Encosto-me ao parapeito e olho o horizonte.
É uma atitude que ultimamente assumo a horas mortas, quando o dia já quase que o não é, mas ainda se notam os reflexos dourados nos prédios altos do lado nascente, que o astro-rei já não vislumbra.
A vantagem de se habitar o último andar do último prédio da rua, que desemboca num parque público é evidente.
O trânsito é diminuto ou nulo, e posso olhar sem ser interrompido pelas buzinadelas, pelo chiar dos travões dos carros conduzidos por pessoas apressadas, pelos gritos estridentes de graúdos e miúdos em correrias infernais.
Ao invés, posso contemplar a natureza, aquela que quase por milagre foi mantida intacta, e até me dou ao luxo de escolher os ângulos de visão, aproximando-me ou afastando-me do parapeito, de modo a dar a ilusão de que tenho à minha frente uma mata densa, de que estou de facto no meio de uma floresta tropical.
Mas esta ilusão é apenas dos sentidos.
A mais importante, a que me transporta para o quase êxtase e me dá a sensação de estar no centro do mundo, ou mesmo no fim do mundo, é a de ver nessas alturas, a horas certas, a vida como uma antecâmara de algo superior, de que apenas vislumbro os recortes, a periferia, mas que me dá a certeza de que a minha posição é privilegiada, uma espécie de antecâmara para outra dimensão, que existe de facto, mas cuja entrada tem que ser conquistada, não apenas imaginada.

Agridoce

As sementes podem ser amargas, mas o fruto é doce.

Dilema

Pensar ou sentir face à observação?
Este dilema sempre me fascinou, e olhando para o céu azul entrecortado, recortado por grandes manchas cinzentas, pergunto-me se tudo não terá origem na observação.
Pensar seria então a consequência de uma análise interior da observação, enquanto o sentir derivaria de uma intervenção exterior face a ela.
Poderá pensar quem nunca observou?
Poderemos observar sem o pensamento?
Limito-me a observar e resolvo o dilema.

Anátema

Dizia ela que não se deve exigir muito aos ricos, pois que a maioria da população, sendo pobre, depende dos primeiros para subsistir, que são os únicos com capacidade para gerar emprego e mais riqueza.
Se os ricos fossem incomodados com impostos, se a sua fortuna fosse beliscada de algum modo, o país cairia rapidamente na miséria.
As famílias de posses são poucas, e portanto devem ser acarinhadas, tudo se deve fazer para que elas sejam cada vez mais poderosas.
Só assim se poderá manter o equilíbrio social.
É pois lógico que seja a multidão de pobres a suportar os encargos públicos, de uma forma suave.
De pobres já não passam, e assim o país poderá manter o equilíbrio e a saúde das suas finanças.

Viver

Viver é não pensar rigorosamente em nada!

Analistas avençados

Temos uns quantos sábios na praça pública, venerados pelos que mandam, que se julgam deuses por debitarem em horário nobre televisivo, considerações que dizem ser originais, ou no mínimo inovadoras, novas filosofias, que preparam de véspera, ao pormenor.
Arranjam vocábulos esquecidos e metáforas arrojadas para suportarem as suas teorias, enquanto vão promovendo alguns artigos comerciais nos intervalos dos assuntos versados.
Se por um qualquer acaso do destino, caem em contradição e são com isso confrontados, vitimizam-se e contra atacam no programa seguinte, pois não poderão dar parte de fracos ou reconhecer qualquer brecha nos seus pensamentos, o que poderia por em causa a sua imortalidade.
Vêm-se como seres imortais, mesmo que por acaso venham a sucumbir, infalíveis mesmo quando falham descaradamente nas previsões, e imprescindíveis, como devem ser os oráculos, que devem ser escutados atentamente enquanto debitam as suas profecias, envoltos nos vapores rutilantes da sua diarreia mental. Quanto mais fútil for a intervenção, maior o aplauso da maioria que se revê nessa futilidade.
Talvez apenas meia dúzia de espectadores atentos veja nessas profecias aquilo que verdadeiramente elas são: uma guarda avançada das decisões dos que representam, de forma a abrir brechas nos subconscientes dos ouvintes, preparando-os para o inevitável.
Tudo é combinado com os que detêm o poder, obviamente, e os tais espectadores atentos, se porventura arranjam tempo de antena, são imediatamente considerados retrógrados e desestabilizadores.
De que vale a opinião acertada de um douto, perante o aplauso generalizado dos ignorantes?
É assombroso como no país a sabedoria está altamente concentrada numa elite diminuta, sempre os mesmos, com pequenas oscilações, enquanto a esmagadora maioria dos cidadãos tem um coeficiente de inteligência a roçar o mínimo.
E é vê-los dissertar, perante o olhar embevecido dos palermas, sobre quase tudo, desde o futebol, que é sempre de bom-tom, pois os aproxima da ralé, até aos mistérios do universo, cujas últimas descobertas dominam na perfeição pois leram as gordas dos últimos trabalhos científicos.
No meio dissertam sobre a economia, a Europa, que conhecem como ninguém e sabem quais os caminhos que ela deve trilhar para fazer face aos poderes emergentes no oriente e na América latina.
E em todos estes temas os sábios do regime entram em conflito intelectual uns com os outros, de uma forma correcta e civilizada, sim senhor doutor, olhe que não senhor doutor.
Que melhor prova precisaríamos para ver que nenhum tem a certeza de nada, caso contrário não emitiriam opiniões diversas.
Confesso que o que mais me faz sair do sério é quando esgrimam gráficos que comprovam a sua razão, como se fossem espadas, e todos procuram que a realização mostre o seu, que é o melhor de todos e tudo explica, incluindo o futuro próximo, e fazem-no com tal convicção que até há quem acredite neles.

Justiça, que é isso?

Troy Davis, de 42 anos, que se encontrava no corredor da morte desde 1991, foi executado por injecção letal na prisão do Estado da Geórgia em Jackson, no dia 21 de Setembro, apesar das sérias dúvidas em torno da sua condenação.
António Ferreira da Silva matou o ex-companheiro da filha, o advogado Cláudio Rio Mendes, enquanto tinha a neta ao colo. As imagens do homicídio, retiradas de um vídeo amador, comprovam que a menina, de quatro anos, assistiu ao momento em que o pai foi assassinado com cinco tiros, a 6 de Fevereiro, no parque da Mamarrosa, em Oliveira do Bairro.
Em ambos os casos dizem que foi feita justiça.
Mas que raio de coisa é esta, a justiça, que num lado do Atlântico manda um assassino comprovado e confesso em liberdade, para a sua magnífica mansão, vivendo com a  neta cujo pai matou, apenas com uma pulseira descartável no pulso, sob o argumento d equ enão iria repetir o crime (pudera!) e no outro lado da rua, isto é, do oceano, liberta das agruras da vida, por injecção leal, um presumível assassino, cuja culpabilidade é duvidosa?

Se ambos os lados fizeram justiça, então um pelo menos está errado, se não forem os dois, e mesmo se quisermos acreditar na filosofia socrática que dizia que o fogo é o mesmo em Mamarrosa ou em Jacknonville, mas o pensamento dos homens é diferente nos dois locais, ficaremos perplexos ao ver que ambos os locais, escusos e pachorrentos, apelidam igualmente d ejustiça as decisões tomadas.

A menos que ambos estejam a ver fragmentos da justiça, e como tal, a ver o filme de uma perspectiva subjectiva, falível, parcial, esquisita.

Ou então poderemos ainda imaginar que os juízes que decidem baseados na sua longa experiência de vida e de justiça, estejam perfeitamente convencidos que independentemente dos erros que possam cometer, das atrocidades até, dada a natureza falível da condição humana, e os juízes, até prova em contrário, são humanos, justiça far-se-à sempre. Se não for neste mundo será certamente no outro.

Analista céptico

Mesmo assim cometo seguramente erros de análise. Só o todo é verdadeiro, e eu insisto em separá-lo em fragmentos, analisando fragmentos de vida de fragmentos de famílias, fragmentando a cidade, o todo local, para já não ir mais longe. Vidas separadas pela minha perspectiva, e pior ainda analisadas e passadas a papel.
E dada a natureza falível de quem a emite, contem limitações, o que significa que estou seguramente errado. Para ser fiel à verdade teria que conhecer o todo, verdadeiro, mas isso implicaria que estivesse na posse de todos os pensamentos e interacções, de cada um com o seu mundo, para já não falar no universo.
Uma impossibilidade, e sou assim levado a concluir que tudo o que escrever não passará de uma pálida imagem da verdade, que eu não sou louco e não tenho a veleidade de dizer que conheço a metafísica das relações humanas, pois isso seria uma evidência da minha loucura.
Limito-me assim a factos e impressões subjectivas, limitadas, passíveis de interpretações.
Ver as coisas para além das limitações do pensamento apenas está reservado aos deuses ou aos santos.

Lágrimas que prendem

É então que passo a papel as palavras que não te consigo dizer quando estás comigo, parece que ficam entaladas entre o coração e  a garganta, naquele nó que foi crescendo à medida que aumentava a distância entre nós, que não sei como começou mas que de repente surgiu como uma ponte intransponível, e digo sem coragem pois à falta de te confrontar com perguntas cujas respostas já sei, palavras malditas, prefiro escrever em frases mal ditas, mal construidas, e assim ganho algum ânimo, sorrio até com as recordações dos tempos em que caminhávamos de mãos dadas pelas ruas da cidade e ficávamos encantados a ver o fogo crepitar naquelas noites de frio intenso que agora ignoro.
E não notas ou talvez notes e não mo possas dizer por algum encantamento que não sei exconjurar o meu sorriso meigo e suplicante que te entrego quando chegas, fora de horas, simpático e distante, e me beijas furtivamente aproveitando o movimento de abertura da porta, a medo, como se tocasses algo que não deves, pois não consegues evitar a minha proximidade, mas parece que o meu rosto te queima, como se estivesses a cometer um pecado, que sei que sofres como eu e tenho pena que não o saibas, mas perco-me em detalhes que conheço gostas que eu faça e agradeces delicadamente a minha atenção que te tolda os olhos, mas esse é o meu momento em que te tenho só para mim, apesar da indiferença, e coloco-me a teu lado, quando nos deitamos, tocando-te apenas com um dedo, imperceptível, para não notares que sei que choras em silêncio, derramando lágrimas que pressinto e me dão forças para ficar.

Chet Baker em fundo

Tão bela, tão fresca, tão solta, os seus cabelos curtos, de ébano, os olhos verdes, as calças que vestia, de cabedal, justas, o rosto perfeito que parecia ter um efeito hipnotizador sobre mim, e não consigo desviar os olhos um segundo sequer daquela aparição que parecia vir do céu ou do inferno, mas já nada me importava, nem o scotch nem a musica de Chet, e todo o ambiente cristalizara, sendo apenas nós numa imensa sala subitamente vazia, de repente emudecida, como se o tempo tivesse cristalizado e ela por fim repara em mim e esboça um sorriso trocista, inclina a cabeça para um e depois para o outro lado, ao som da música que me martelava as têmporas e parecia vir do fundo dos tempos.
E saímos num instante para a praia com uma garrafa de Royal Chalice, doce, rico, forte, como as luzes da cidade que deixámos para trás, e olhávamos agora os olhos um do outro, num desafio, tentando perceber os mistérios da noite e do amor.

Cidade abstracta

A classe superficial tenta justificar a sua existência falando e escrevendo sobre a cidade abstracta que imaginou e por onde passeia a sua ociosidade, e eleva-se acima dela, quase pairando sobre a inconsciência  diáfana em que assenta toda a sua vida.

Carta de amor

Não é tão bom sabermos que o Inverno está a chegar?
E que a vida vai ser um bocadinho mais serena, e tu vais estar em casa a escrever e a alimentar-te bem e vamos passar noites agradáveis enroscados um no outro e tu agora estás em casa, alegre, pois não
é bom para ti ficares demasiado triste, e eu sinto-me melhor quando tu estás bem, sinto-me invadida por estranhos sentimentos, dou por mim a reviver e a reformular muitas coisas antigas e sinto o frio e a quietude a irromper no meio dos meus maus presságios e medos, que a snoites de céu límpido mitigam e tornam mais nítidos e genuinos, mais tangíveis e mais fáceis de suportar.
Mas porque é que eu estou aqui a escrever-te estas coisas.
Mas olha que todos estes sentimentos são genuinos e tu provavelmente percebes ou sentes também aquilo que eu estou aqui a dizer e porque é que eu tenho necessidade de escrever isto.
A imagem que eu tenho de ti agora é estranha.
Sinto uma distância em relação a ti que tu talvez sintas também e que me dá uma imagem de ti que é carinhosa e amigável (e cheia de amor), e é por causa das ansiedades que nos invadem mas d eque na verdade nunca falamos e que também são semelhantes.
Vou dormir para sonhar e depois acordar.
Tens um rosto muito belo e eu gosto de o ver como o vejo agora.
Perdoa-me as conjunções e os duplos infinitivos e o que fica por dizer, mas a verdade é que não sei ao certo o que te queria dizer mas quero que leias algumas palavras, como se estivesses no feicebuke, escritas por mim neste sábado à tarde.
Parecemos dois bichos a fugir para tocas escuras e quentes para vivermos sozinhos as nossas mágoas.

Mardou

Mistificação

A Verdade, tal como a Realidade, primas irmãs, é um todo unificado e portanto não se pode conhecer a si mesma.
Quem disser que o consegue fazer, só pode estar a mentir.
Apenas dispondo do pensamento, limitado, como ferramenta de análise, o ser humano divide a realidade una em fragmentos, o que dá origem a percepções erradas, inevitavelmente.
E dizemos que há um processo de causa-efeito, que isto depende daquilo, e por sua vez aqueloutro depende de outra coisa qualquer.
Todos os pensamentos, contudo, implicam que os analisemos segundo uma certa perspectiva, que pela sua natureza falível, significa que não são verdadeiros, pelo menos na globalidade.
Apenas o todo é verdadeiro, mas o todo é uma utopia, que o digam os juizes por exemplo, sempre  a errar.
Para além das limitações do pensamento, tudo está a acontecer agora, e não apenas as partes limitadas que a nossa mente abarca.
Como poderemos nós então imaginar o universo a expandir-se infinitamente, abrindo-se e fechando-se sobre si, numa, não, em duas sinusóides perfeitas, retornando ao não manifesto, quando tudo o que abarcamos é apenas o movimento, aparente, do sol?

A moral política

As pensões vitalícias de ex-governantes NÃO são afectadas pelos cortes!!!!
Que melhor sinal de que o CRIME compensa, sabendo -se que foram aqueles que conduziram MAL os destinos do país (mal do ponto de vista do contribuinte, entenda-se)

Ouvindo Gaspar

Ouvindo Gaspar.....já lá dizia o meu professor de Físia II, António da Silveira:

"o pior insulto que me podem fazer é tomarem-me por idiota!"

Nós estamos a cinco, seis anos de voltarmos ao nível de pobreza dos anos cinquenta, fruto da incompetênia, para usar um eufemismo, dos sucessivos governos, e da nossa identificação com os objetos.

Habituámo-nos a consumir, enquanto a indústria ia dando sinais preocupantes, e pelos vistos ignorados, de retrocesso.

O paradigma inicial "o que é bom para o homem?", foi sendo sucessivamente substituido primeiro por:"o que é bom para o sistema?", e agora, por fim :"o que é bom para o sistema financeiro internacional e anónimo?"

O amor segundo Bartolomeu

“O amor é uma coisa maravilhosa, meu filho. Devidamente utilizado, poder-nos-á trazer a verdadeira felicidade. Tens que conhecer bem as mulheres, mas apenas escolher as mais convenientes”, diz Bartolomeu, recostando-se uma vez mais na poltrona e bebendo o último gole do seu magnífico digestivo.
B evitou fazer a pergunta que lhe saltou do cérebro para os lábios, e apenas disse, olhando através da janela para observar a quase desértica região central de Espanha, que sobrevoavam agora a dez mil pés de altitude:

“Como estará a mamã?”

B

“Vejo que já a sabes toda. Poderia dizer que estou admirado, mas em ti, meu caro, já nada me surpreende. De facto o Estado precisa da religião de modo a ter uma ideologia que funda a desobediência com o pecado”.


“No fundo quem desobedecer ao industrial, desobedece a Deus”, sintetiza B, com um sorriso indulgente, a que o pai responde imediatamente, com um ar subitamente sério:

“Não menospre...zes essas pequenas, grandes ideias. Tem funcionado. Os homens hesitam menos em prejudicar um homem que se torna amado do que outro que se torna temido”.

“É natural. O amor mantém-se por um laço de obrigações que, em virtude de os homens serem maus naturalmente, dada a sua natureza humana, se quebra quando surge ocasião de melhor proveito”, filosofa B, lembrando-se das magistrais lições do seu professor de Filosofia, António Gomes.

“Eu não diria melhor. O medo, esse mantém-se por um temor do castigo que nunca nos abandona”, profetiza Bartolomeu.

“Sendo aceitável esta noção maquiavélica, que poderemos nós esperar de uma relação?”, interroga-se B, que adorava argumentar filosoficamente.

“Maquiavel! Italiano, como a família da tua mãe. Um mestre a seguir atentamente. Se somos amáveis, estamos de peito aberto à traição dos que dizendo amar-nos, apenas espreitam a oportunidade de quebrar os invisíveis laços; se somos temidos, apenas podemos esperar uma falsa adoração”, diz Bartolomeu Caldaços, perante a admiração de B, que desconhecia essa faceta do progenitor.

“Como é difícil a vida de um político ou de um amante”, conclui B

MISTÉRIOS DO 25 DE ABRIL

Porque não foi tomada a sede nacional da PIDE, na António Maria Cardodo e os elementos neutralizados, no 25 de Abril de1974?

1. Os seus enes gozaram de alforrias de acção e movimentação, saindo e entrando por diversas vezes no edifício, e até elementos afectos ao regime entraram e saíram placidamente com as mãos desembaraçadas, já com o golpe em curso.
2. A PIDE chegou a planear o resgate de Caetano, já acantonado no quartel da GNR.
Nem tão-pouco, inexplicavelmente, era um alvo prioritário inicial para o Movimento das Forças Armadas.


3. Para esta inércia de Purgatório existe uma explicação: a PIDE não era para ser extinta, mas aquela gentalha sanguinária não tinha cariz passível de reconversão à causa e serviço democráticos, nem mesmo precedida por uma companhia de pífaros e trombetas. Como se viu pelo banho de sangue.


4. Foi a reacção popular, a martelar entusiasta e participativa, um abalo de moral e clamorosa invicta, que mudou o caminho da história e forçou a natural extinção dum dos maiores pilares do regime fascista.


5. A PIDE acabou como nascera: escória miserável que cobardemente atira sobre o povo a matar, fazendo jus aos seus tristíssimos pergaminhos.



Aqui ficam os nomes, para que não desapareça a memória nos tempos a vir daqueles que morreram quando caminhavam para a Liberdade em momento de grande regozijo, quando o reino alcançara a paz desejada.

• António Lage, 32 anos de idade;

• Fernando Luís Barreiros dos Reis, de 24 anos de idade, natural de Lisboa, soldado da 1.ª Companhia de Penamacor, e que se encontrava de licença;

• Francisco Carvalho Gesteiro, de 18 anos de idade, empregado de escritório, natural de Montalegre;

• José Guilherme Rego Arruda, de 20 anos de idade, natural dos Açores, estudante em Lisboa, primo do meu colega de quarto na RUPN, no primeiro ano

• José James Harteley Barnetto, de 37 anos de idade, natural de Vendas Novas.



Eis alguns dos feridos, que receberam tratamento hospitalar:

• Aarão de Almeida, de 44 anos;

• Agostinho Manuel Soares, de 18 anos;

• António José Santos Lima, de 17 anos;

•António Maria da Cruz, de 18 anos;

•António Pereira Esteves, de 35 anos;

•António Ribeiro, de 20 anos,

•Armando de Jesus Lopes Afonso, de 17 anos;

• Armindo Fernandes de Oliveira, de 16 anos;

• Camélia Ferreira Pimenta, de 23 anos, residente no Barreiro;

•Fernando Simão Martins, de 16 anos;

•Francisco José da Silva Ramos;

•Joaquim Inácio Ruivães Cristo, de 19 anos; •Jorge Salgueiro Costa, de 24 anos;

•José Dinis Pereira, de 26 anos;

•José Luís Bernardes Fernandes, de 19 anos, residente em Oeiras;

•José Luís Gutierres, de 19 anos;

•Luís de Oliveira, de 20 anos;

•Manuel Pereira Alves, de 24 anos;

•Maria da Conceição Neto, de 20 anos;

•Maria dos Anjos Afonso Santos Martins, de 21 anos, residente na Póvoa de Santo Adrião;

Ego

Vivemos tão encerrados nas nossas esferas de preocupação egóica que mal nos apercebemos de que os políticos, movidos pela ganância, egoismo e egocentrismo, no fundo os padrões da moderna moralidade, apenas se preocupam com o seu desenvolvimento pessoal em detrimento do bem social.
E por isso enriquecem, usando o smais variados mecanismos, sendo que um dos mais apetecíveis é a corrupção.
Custa-me... a crer que os sucessivos governos desde Soares não soubessem, nem estivessem avisados da perigosidade das políticas seguidas.
E, tal como o burro que só sente a mosca quando lhe entra pela carne, o povo português só agora desperta, ainda de uma forma sonolenta, para a realidade. E a realidade vem nos livros: quanto toca a pagar, o povo é rei.

IVA

A propósito da alteração do IVA
Constituirá a existência concreta de um desejo uma norma ética?
Será Passos Coelho capaz de distinguir as necessidades, ou desejos, que apenas são sentidos de forma subjectiva, (e cuja satisfação leva a um prazer momentâneo), daqueles que estão enraizados na natureza humana e cuja realização conduz ao crescimento do homem, produzindo bem-estar?

... Por outras palavras, será Passos Coelho capaz de fazer a distinção entre as necessidades sentidas de forma puramente subjectiva e as necessidades objectivamente válidas, podendo parte da primeira distinção ser perniciosa para o crescimento humano e estando a segunda de acordo com osr equisitos da natureza humana.

Será Passos Coelho capaz de pensar?

Money, money, money

Dizia ontem um comentador de economia:

"As pessoas mais pobres não serão afectadas pelo aumento do IVA, pois só comem elementos básicos, como o arroz ou o feijão verde, que não são afectados pelo aumenta daquela taxa".

Fez-me lembrar uma frase de uma herdeira muito rica, que conheci:

... "Os pobres não precisam de dinheiro pois não estão habituados a viajar, a comer no Gambrinus, nos Champs Elisées..."
Esta argumentação é inatacável.

O Político consciente

“Enquanto houver burros, tem que haver quem os toque”, dizia no fundo do autocarro o corpulento passageiro, que falava pelos cotovelos, perante a admiração de todos, ainda mal habituados à recente liberdade oferecida ao país, depois de anos de ditadura, espartilho e contenção.


O homem, que apanhara o autocarro nos Restauradores, tinha um aspecto desmazelado, de camisa de fora das calças, aos quad...rados, barba por fazer, despenteado, e falava de tal maneira alto que ninguém lhe podia ficar indiferente.

O autocarro quarenta e dois subia a Fontes Pereira de Melo, e com um esgar de dor vindo do fundo das suas velhas entranhas, que se manifestou por uma chiadeira monumental, curvou à direita para se deter na paragem mesmo a meio da praça do Saldanha, no lado oposto ao Monumental.·
O corpulento passageiro quase tombou para cima da velha senhora do banco da direita, mas conseguiu equilibrar-se, e com um pedido de desculpas, dirigiu-se para a saída.

B, que seguia no banco de trás, e a tudo assistia com um sorriso nos lábios, esperou pacientemente que os passageiros à sua frente saíssem, tarefa complicada pela lentidão com que o corpulento passageiro avançava até à frente do autocarro, cumprimentando à direita e à esquerda. Finalmente, e já com um coro de protestos monumental, detém-se perto do motorista, que a tudo assistia impávido e sereno, e diz:

“Manuel Rebolo, presidente de Junta de Freguesia de Arroios, à vossa disposição. Viva o MFA e a Liberdade”.

Insanidade

O Governo sabe bem que o dinheiro que vai retirar aos portugueses não resolve NADA.
O que aconteceu na Argentina, nas Honduras, na Indonésia, na Índia, na América Central, na Grécia, mostram que a receita do FMI é sempre a mesma: esperam até os países arrearem, e dizerem-se insolventes, e depois mandam avançar os "abutres", as empresas que vão tomar conta da riqueza nacional a preço da uva mijona.
Vem nos livros.
Eu diria que aqui há PREMEDITAÇÃO.
Que nem sequer o governo pode invocar desconhecimento. Passos o que quer é garantir um lugar na Europa, como Barroso, mostrando que é subserviente, à custa das pessoas, que no fundo despreza.
Nem se pode portanto falar aqui do princípio da INSANIDADE de Einstein:

"Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes.”

Analistas

Podemos ficar uma vida inteira a analisar a infelicidade e a razão dos governados e as falhas e misérias dos governantes, mas toda a compreensão profunda que adquirirmos não servirá de nada enquanto se mantiver a situação anterior.

Eficácia

A compreensão separada da prática mantém-nos ineficazes!

Dúvida pertinente

 Eu também poderia fazer um grande discurso sobre mim, sobre o que sou, e Carla até poderia ficar impressionada.Acrescentaria conceitos aparentemente espirituais ao conteúdo da minha mente.
Mas isso seria apenas enganar-me a mim mesmo.
A realidade é que não sei quem sou.
Aliás, foi essa procura que em conduziu a alguns divórcios.
Que diria Freud desta constatação?
E que diria Carla, a freudiana?
A verdade é qu enunca estive tão perto de mim como quando estive na mesa de operações, recentemente.
Haverá uma explicação racional para isto?
Diria Freud que eu sou um ser infeliz?
Seria Freud feliz?
Quando não temos nada com qu enos identificarmos, afinal, quem somos nós?

Democracia

Acho que a democracia devia vir com um livro de reclamações

Obvio

Isto de ver o óbvio por vezes dá cá uma trabalheira...

Educação

Se me fosse possível começar uma revolução no país, começaria pela educação.
Não pela convencional, de que se fala muito, talvez demais, mas pela educação cívica.
O verdadeiro problema da nossa democracia está na ignorância.
Ela vive sob o temor permanente à influência dos ignorantes, que não são capazes de expressar exigências sociais inteligíveis à comunidade ou de entender e rebater os argumentos dos outros.
Os ignorantes bloqueiam quando são convidados a definir as suas preocupações ou prioritizar os seus anseios,  direitos e deveres de uma sociedade, para lá das adesões patológicas às tribos ou etnias.
E todos têm direito a voto.
E opor-se-ão às reformas necessárias que impliquem sacrifícios, e seguirão os muitos demagogos que lhes prometam paraísos com virgens ou a vingança das suas frustrações à custa de bodes expiatórios.
O problema da nossa democracia não está pois nos políticos desonestos que nos governam, mas no predomínio da maré da ignorância que permite que aqueles existam.

Acordo tácito

Entre os políticos e o povo que os elege existe um acordo tácito: o povo elege os menos maus dos candidatos e os políticos desempenham alegremente essa função.
Por isso uns e outros estão ilibados de culpas.
E é também por isso que os políticos são todos iguais, como o povo gosta de dizer.
São feitos à nossa imagem e semelhança, dizem-nos mentiras para não nos assustar e nós retribuímos a atenção continuando a depositar o nosso voto na urna.
Entretanto surgem uns loucos com a mania de que qualquer verdade é melhor do que a mais branca das mentiras.
São doidos.
E imaturos.
A verdade é para ser aplicada com parcimónia, em pequenas doses, senão o pobre ser humano estranho e frágil não a suporta.
E assim se perpetua o mundo dos enganos permitidos.
É por isso que o mundo é estranho, porque a teia de mentiras é tão elaborada e espessa que não permite vislumbrar a claridade.
E os poucos que tentam ver para além das sombras morrem asfixiados como peixes nas redes.
Que saudades que eu tenho da Ponta do Altar, ou mesmo da Ria Formosa.

Loucura?

As pessoas que se importam constantemente com as opiniões dos outros são imaturas.
Dependem da opinião alheia.
Não conseguem fazer nada com autenticidade, não conseguem dizer o que querem com honestidade . Dizem apenas o que os outros querem ouvir.
Reparem bem no discurso dos políticos.
Os políticos dizem aquilo que nós queremos ouvir.
Fazem-nos as promessas que nós queremos ouvir.
Eles sabem perfeitamente que não poderão cumprir essas promessas.
Não têm qualquer intenção de as cumprir.
Mas se eles dissessem com exactidão e com verdade qual é a situação, e tornassem bem claro para todos que muitas das coisas que nós lhes pedimos são impossíveis de concretizar, seriam corridos do poder.
Nós nunca escolheremos um político que seja honesto.
O ser humano é excessivamente estranho.
E o mundo do ser humano também.
Parece quase um manicómio.
Parece?