REENCONTRO
Demorou-se muito tempo na contemplação do horizonte.
Tinha um
um ar sério, a testa enrugada, como se algo o preocupasse. Não se conseguia
libertar daquela estranha sensação de que algo não estava bem. O momento estava
incompleto, sentia-o, mas não poderia dizer exactamente o que faltava. Nem
mesmo a vista maravilhosa sobre o mar que dali se disfrutava o conseguia
retirar daquela espécie de melancolia que o invadia continuamente. Fixou-se de
uma forma hipnótica nos mastros dos veleiros que balouçavam ao ritmo da pequena
ondulação provocada pelo movimento da marina, e sentiu uma espécie de apelo.
Fez um sinal discreto ao empregado de mesa.
Decidiu
caminhar um pouco pela borda da marina. Pagou o café ao simpático funcionário e
ensaiou uma espécie de esgar para retribuir a amável saudação que o jovem
funcionário lhe prestou, enquanto arrumava a cadeira. Pensou nisso durante
breves segundos, surpreendido com a facilidade com que certas pessoas se
dedicavam a cada momento, à sua vida. Ele não conseguia, denotava sempre um ar
de alguma ansiedade, como se fosse um intruso da própria vida, estivesse ali a
mais, ou a sua existência se devesse a um puro engano, e a qualquer momento
algo ou alguém surgiria para o desmascarar.
Caminhava
agora perto da água e perguntava-se como seria possível que a edilidade não
mandasse instalar ali uma protecção para impedir, dificultar, quedas acidentais
ou mesmo intencionais, que seriam necessariamente perigosas, fatais. A este
pensamento tem um arrepio. Seria tão fácil acabar com aquele sofrimento atroz
que o impedia de ser feliz. Sobreveio o seu instinto de sobrevivência.
Afasta-se da bordinha num gesto brusco, como se tivesse optado no derradeiro
instante pela salvação. Como se estivesse na linha férrea à espera que o
comboio o atingisse e resolvesse salvar-se no último instante. Alguém que o
observasse ficaria com dúvidas sobre a sua sanidade mental, ou julgaria que
tivesse sido picado por uma vespa.
“Terei
sobrevivido a alguma coisa? Terei sido traído por algo em quem confiava e que
já não posso identificar?” - vai pensando enquanto retoma o controlo emocional
e o coração recupera o ritmo normal.
Passa a
linha férrea e decide caminhar pelo passadiço de madeira que entra pela ria
adentro. Nunca ali tinha ido, apesar de saber da sua existência. Tenta
encontrar uma explicação para essa lacuna, como sempre fazia quando se
confrontava consigo mesmo. Geralmente quedava-se na sua contemplação atrás do
pequeno muro caiado de branco, restaurado ao abrigo de um financiamento
atribuído pela autarquia. Eram já poucas as automotoras que circulavam naquela
linha mas o perigo era notório e ali estavam os avisos sonoros e escritos em
painéis vermelhos para se evitarem os acidentes. Não encontra explicação válida
mas a mente não lhe dá tréguas:
“Como é
possível que nunca me tenha atrevido a vir até aqui” - pensa, mas de súbito é surpreendido
pela beleza da paisagem.
A passadeira
era bastante comprida, teria no mínimo uma centena de metros e permitia o
distanciamento suficiente da cidade para que se pudesse fazer esse exercício de
a observar à distância. Começou por olhar para a ria, voltando costas à cidade,
admirando aquele mundo maravilhoso que só agora contemplava com alguma atenção.
Estranho!
Aquela beleza sempre ali estivera mas para ele era como se nunca tivesse
existido, apesar de saber que existia.
“ Desconhecimento aparente do
conhecido”.
Ficou a pensar nisto enquanto tentava seguir com o olhar o voo
errático de umas aves brancas e grandes que não sabia identificar. Não eram
cegonhas nem patos, isso sabia bem, mas aquele desconhecimento indicava-lhe
claramente que se devia ter interessado um pouco mais por aquele mundo ali tão
perto. Afinal fazia parte da cidade, complementava-a, e ele apenas conhecia uma
parte do todo. Este pensamento sobressaltou-o e repentinamente virou costas ao
mar. Encostou-se à estrutura de madeira encerada que delimitava o passadiço. Algumas
gaivotas repousavam na água à sua frente e pareciam observá-lo com curiosidade.
Encarava agora o casario de frente, mas de longe, num silêncio que apenas não
era total, profundo, pois ouviam-se os gritos das aves, espaçadamente, o salto
de um ou outro peixe naquele espelho de água que o rodeava, e o ruido de um
motor de embarcação, ao fundo, como ecos distorcidos de mundos mágicos.
“Talvez também
tenha perdido a verdadeira alma da cidade!” - decidiu, e sentiu um enorme
alívio no seu cérebro - “ Nunca é tarde para se reencontrar aquilo que nunca se
perdeu pois nunca se teve”.
Aquela pressão
que o afligia permanentemente e obrigava a pensar na sua génese, pareceu tê-lo
abandonado como por magia.
Esteve durante
bastante tempo a olhar para um e outro lado, como se fosse uma criança que vê o
mundo pela primeira vez, sem tentar adjectivar ou sequer entender.
Olhava
apenas.
Percebeu então que aquela sensação de vazio que experimentava constantemente
não se devia a qualquer escolha errada feita no passado, a qualquer lacuna
emocional, mas ao simples facto de não ter vivido integralmente todos os
momentos da sua vida. Pensava demasiado, e nesse frenesim perdera o essencial,
aquilo que é.
De tal forma que interiorizou que o que existia era aquilo de que
tinha conhecimento e não aquilo que verdadeiramente era. Fazia o mundo à sua
imagem e com essa atitude redutora passava ao largo da verdadeira imagem do
mundo.
Da sua própria
imagem, pois ele integrava esse mundo.
Mais, ele era
o mundo, e só agora o entendia.
