domingo, 18 de março de 2012

Beleza interior

Alguns pensamentos passados a letrinhas, juntinhas de uma forma harmoniosa, imprevista, instintiva, tiram-me completamente a capacidade de argumentar.
As belezas, a de dentro e a de fora são insondáveis.
Resta-me apenas a consolação de reservar para o banho de imersão, que religiosamente , ao som de Telemann tomo às duas da madrugada, a pergunta inevitável:
Como poderemos colocar a segunda à frente da primeira sem lhe fazer sombra?

Raízes

Portugal prefere ser uma aristocracia política a ser uma democracia próspera de gente inteligente .
É o fruto que colhemos de um lascismo secular e de tradições que agora se consolidam, de falsos valores morais.
Dessa distorção moral advêm todos os nossos males.
As raízes do oportunismo e da ganância rebentam por todos os lados, sob a forma de sentimentos, de hábitos,de preconceitos.
Gememos sob o peso da nossa pouca exigência.

Declíneo

Há quem pense que o grande declínio da instituição família, no ocidente, advém da excessiva liberdade das mulheres, que, querendo igualar os homens em oportunidades, os ultrapassaram nos erros e nos vícios.

As armas e os barões

Cavaco Silva, na visita que fez em Abril passado à República Checa, nem sequer se indignou com as críticas agressivas de Václav Klaus sobre o défice excessivo de Portugal e o Tratado de Lisboa.
Uma prova inequívoca de que o nosso país está a ser governado por indivíduos sem alma, sem carisma, que fariam corar de vergonha os assinalados barões de Camões.

Uma noiva para Renato

Renato Prates precisa urgentemente de uma mulher.As intenções dele são puramente práticas - apenas necessita de alguém sensivel e convenientemente amorosa para posar como sua noiva durante alguns meses entre a sociedade refinada.
Ele tem o seu próprio plano e uma falsa noiva manterá as caçadoras de maridos ao largo enquanto ele trata do seu negócio.
A solução mais simples é contratar uma.
Afinal de contas, a miserável que aceite tal emprego ficará decerto grata por qualquer favor.
No entanto, encontrar a candidata ideal é um desafio maior do que ele espera - até encontrar a menina Carolina Caillaut.
Os seus hábitos mundanos, a sua desocupação, a sua elegância mal tratada, os seus cabelos espetados, não conseguem esconder a sua figura encantadora e o fogo dos seus olhos dourados.
E a sua condição infeliz, introspectiva, fechada sobre si mesma,faz com que a genersa oferta de Renato seja inegavelmente apelativa.
Mas Carolina está insegura sobre o que este disfarce pode exigir.
Claramente Prates está a esconder um ou dois segredos, e as coisas parecem estranhamente erradas na sua magnífica casa em Hammersmith.
Descobrirá então que os segredos dele são mais sombrios do que a decoração da casa, e que aquela brincadeira será uma aventura muito mais perigosa do que a tinham feito crer.
Renato, por seu lado, sente o seu coração racional a ser agitado por aquela mulher bela, inteligente e sensual.
A pouco e pouco nasce entre eles uma forte cumplicidade que os levará a percorrer os caminhos perigosos do Soho em busca de um inimigo mortal de Renato.
Poderá alguma vez o amor vencer o desejo de vingança, de destruição?
Poderá a procura de um objectivo positivo ser mais forte que a necessidade imperiosa de destruição?

O Acordo

Não procuro aqui uma solução para o ateísmo ou para o problema de identidade de Deus, ou mesmo a chave para os enigmas do Universo, a solução para as finanças e economia para este país.
Procuro apenas uma satisfação íntima, convosco...

(Discurso do primeiro-ministro, em tom conciliador, na AR, antes da cimeira da OTAN)

Homenagem no feminino

Hoje quero homenagear a mulher, e faço-o em silêncio, em consciência, escutando a mãe Natureza.
A doçura é uma virtude feminina, mesmo quando esse feminino tende a usar mais a mente, mais a lógica da interpretação, e menos o lado misterioso que a vida tem para oferecer.
O que a doçura tem de feminino, ou pelo menos o que aparenta tê-lo, é uma coragem sem violência, uma força sem dureza, um amor sem cólera.
É o que tão bem ouvimos em Schubert, o que lemos tão bem em Jorge Amado.
Paz interior, uma vivência apenas no presente, aqui e agora, sem lembranças do passado ou projecções no futuro.
A doçura feminina é uma paz real ou desejada; é o oposto da guerra, da crueldade, da indiferença, da brutalidade, da violência.
A doçura é o que em meu entender aproxima mais a mulher do humano do que o homem.
Mantenham pois a doçura, essa virtude graças à qual a humanidade tem algum humanismo.
E não usem a mente,caminhem na vertical, conheçam-se e sejam felizes.

CARONTE

Vamos todos para o mesmo sítio.
Apenas por caminhos diferentes.
Imagino a estupefacção dos que instintivamente tentarem puxar do cartão de crédito, ou do cartão do partido...

Mistificação

Habituei-me a viajar sem bagagem, com pouco peso.
Sempre pronto a partir.
Considero-me de certa forma um privilegiado, se bem que o meu ego ache que fiz por merecê-lo.
Quando as coisas começam a cheirar mal neste cantinho onde nasci e onde nasceram os meus antepasssados (até Leonor Velho Pereira, que nasceu na Galiza em 1620), abro as asas e dou o salto. Não tenho paciência. Desisti. Refugio-me em Belo Horizonte, onde posso descansar numa rede, seminu, ouvindo a voz da floresta de água, sonhando com os sabores da Dádá, ou enfio o chapéu de côco e vou tomar o breakfast em Picadilly.
Manias, diz o meu irmão, que nunca entendeu as minhas necessidades em ir para tão longe, quando tenho o mar de Sagres onde mergulhar e ver a tempestade passar por cima..

Tudo isto por causa da confusão em que os políticos, os de cá e os da Europa, nos meteram.
Cansei-me desses aventureiros sem escrúpulos, nem alma, que fizeram da "arte de Sócrates" uma profissão, e depois a transformaram numa espécie de cartel, onde tudo vale para enriquecer facilmente.
Confesso que tive muitas esperanças em Abril, como quase todos os da minha geração.Mas rapidamente fui lendo nas entrelinhas e fiz o retrato-robô.
Ouço com um sorriso nos lábios, de comiseração, sem espanto, as pessoas dizerem, na rua, no feicebuk, ou no plano inclinado:
"Temos de exigir aos políticos que desempenhem bem as suas funções.Foram mandatados para desenvolver o país e cometeram imensos erros) !?
As pessoas comuns, desatentas, por lascismo, comodismo, ignorância ou inconsciência (inclino-me para esta opção), pensam que estes políticos, que nós pensamos que elegemos, mas que foram previamente escolhidos pelas máquinas partidárias, pensam, dizia eu, que eles ERRARAM.
Mas não! Eles fizeram exactamente aquilo que se propuseram fazer: Melhoraram a sua vida, enriqueceram, ganharam poder, teceram a rede que os há-de segurar quando os alicerces cairem.
E curiosamente, os portugueses, habituados a serem mandados, na monarquia, e governados, na república, acham que com as próximas eleições tudo irá mudar.
Continuam, no seu sonambulismo,a acreditar na mistificação

Casalítico

Muitos casais encaram o casamento como os partidos o poder:
- Quando o atingem perdem a vontade de implementar as ideias que os levaram lá!

Chiste machista

Qué hubiera sucedido si en lugar de 3 Reyes Magos, hubieran sido 3 Reinas Magas?

- Ellas habrían pedido ayuda para llegar.
- Habrían llegado a tiempo.
- Habrían ayudado en el parto.
- Habrían hecho una limpieza en el establo.
- Habrían llevado regalos útiles.
- Habrían llevado una comidita.

Pero... ¿qué hubieran dicho al salir de allí? Tan pronto hubieran salido dirían...

- ¿Vieron las sandalias que María estaba usando con aquella túnica?
- El niño no se parece a José.
- ¿Cómo es que ella puede dejar todos aquellos animales dentro de la casa?
- Y el burro que ellos tienen está bastante acabado...
- Yo sólo quiero ver, cuándo ella te va a devolver la cazuela, que le llevaste con el macarrón.
- Me dijeron que José está desempleado...
- Virgen que caramba! Yo me acuerdo muy bien de ella, en la época del colegio!

Becas

Há momentos que consegue reservar apenas para si.
Revê os ensinamentos que foi captando aqui e ali, esforça-se por aplicá-los e subitamente o milagre acontece: fica só diante de si mesma.
Nesse instante mágico, sentada na sua cadeira que quase ocupa totalmente o exíguo espaço onde medita, tem a impressão que toda a vida à sua frente, e pensa:
"É tudo uma maldita mentira! Não vale a pena pois estou acabada. A minha vida está à minha frente, terminada, fechada, como um saco de compras, e contudo tudo o que lá está dentro, está inacabado".
Durante um breve instante, Fátima tentou julgar-se. Foi tentada a dizer:
"É uma vida bela!"
Mas subitamente cai em si. Não era possível julgá-la, pois tratava-se simplesmente de um esboço. Becas tinha passado toda a sua vida a disparar contra a eternidade, não tinha entendido nada.
Com que dureza corria Becas atrás da felicidade, atrás do amor, atrás da liberdade.
Para quê? Gostaria de se libertar das amarras da vida, tinha casado, tinha sido infeliz, recuperara, criara uma página social, falava e escrevia em sessões públicas.
Levava tudo a sério, como se fosse imortal.
Não tinha saudades de nada. Havia muitas coisas de que poderia ter saudades: o primeiro beijo, o primeiro filho, de quem não tem notícias há muito, a praia no mês de Setembro, aquela viagem à Índia...
Mas a desilusão tinha desfeito o encanto de tudo.
Pensou chorar, olhando-se no pequeno espelho que refletia o seu rosto seráfico. Qualquer coisa passa sempre daquele para este lado.
"É sempre assim quando olho para dentro de mim. Qualquer coisa passa dela para mim. Pensei que esta sensação tivesse acabado", sussurra.
Se insistisse na concentração, se entrasse mais fundo na sua alma, o seu olhar ficaria preso para sempre na contemplação.
Estava só.

Ethos

O que mais me chamou a atenção na cimeira da OTAN foi a imagem sorridente e patética de um jornalista da rtp1, que dizia, em horário nobre, com um ara perfeitamente extasiado e orgástico:
"Coloquei duas questões ao presidente Obama, e ele chamou pelo meu nome"(?!).

Já estou a imaginar a reacção do mesmo jornalista quando comparecer perante Deus, e este, depois de pronunciar o seu nome, lhe disser:
"Podes colocar as questões que entenderes, Vitor, mas és tu quem terá que responder, em consciência".
Provavelmente estará morto!

Decadência

Visitei-a no passado domingo.
Essencialmente, deixei-a falar. Tudo o que dizia , dizia-o com dificuldade, mas com vivacidade.
O discurso é previsível, até aos mais ínfimos pormenores.
Sorrio com enlevo, vendo o prazer que lhe dá contar uma vez mais as suas memórias, que no fim a deixam esgotada.
Em breve substitui-la-ei como protagonista da tragédia pessoal.
Observo-a com toda a atenção, e dou-lhe a mão, como se de um fio condutor se tratasse.
Uma mão que se estende a quem está a ser puxado para o abismo.
Não posso deixar de estabelecer comparações, o que faço freneticamente, para não ser vencido pela emoção.
Digo-lhe filosoficamente, daquela maneira que ela tanto aprecia, que resolvi os meus problemas ao deixar de pensar neles.
Dantes, quando tinha saúde, Fernanda costumava levantar os ombros, mostrando indiferença. Agora limita-se a levantar as sobrancelhas.
Depois da doença lhe ter tornado o corpo pesado, substituiu os gestos, que agora a fatigam excessivamente, por jogos fisionómicos . Diz que sim com os olhos, não com os cantos da boca, levanta as sobrancelhas em vez do sombros.
Sinto que tem pressa que eu me vá embora.
Não gosta que a veja assim, tão vulnerável e despojada.
Beijo-a com um sorriso confiante, e digo-lhe um até amanhã, desejo-lhe as melhoras.
Fernanda relaxa finalmente do esforço que fizera para aparentar uma réstea de vitalidade, e afunda-se no travesseiro, esgotada, quando desapareço.
Finalmente posso chorar.

2010

Winston Smith questiona a opressão que se exerce nos cidadãos. Se alguém pensar diferente, comete crimidéia , e fatalmente será vaporizado. Desaparece, deixa de ser contável.
Daí, que hoje, na ditadura do partidarismo, poucos se atrevam a protestar pelas arbitrariedades (dizem que são inevitáveis) e muitos se percam nas coisas virtuais, mais simples, mais complexas.

Pathos

Ethos consiste na credibilidade, magnificiência, cultura, estado social, capacidade intelectual do orador.
Pathos representa o jogo com as paixões e emoções dos ouvintes.
A forma como o orador se dispõe a conquistar os corações do seu público, fazendo-o prescindir do controle racional das opiniões.
Podemos concluir que no facebook existe uma ética patológica?

Violência doméstica

O odor espesso de incenso encheu-lhe as narinas e a boca, enquanto avançava prudentemente no interior do quarto, para uma mancha pálida que parecia flutuar.
Era o rosto de Paulo.
Paulo começara a ter o hábito de se vestir de negro sempre que lhe batia, e refugiava-se no interior da divisão, confundindo-se com a obscuridade, rezando pelos seus pecados.
Pensava assim esquecer rapidamente a sua recaída, depois de tantas promessas.
Mariana olha-o agora de perto, e diz, para si mesma:
"É tão belo!"
Paulo dormia. Tinha um meio-sorriso cândido, a cabeça inclinada, como se quisesse acariciar a face com o ombro.
Mariana tenta recapitular o que se passara havia pouco:
Ao primeiro golpe que lhe abrira o sobrolho, Mariana quase desmaiara, e Paulo ficara de repente como um animal, olhando-a com espanto, como se não a reconhecesse.
Ao segundo golpe, Mariana caira e batera violentamente com o rosto numa cadeira.
Paulo dera então um pequeno gemido, como se tivesse recuperado a consciência, e a sua mão fez um gesto de repulsa.
Mariana olhara para ele com um ar duro, enquanto se afastava para o quarto, como costumava acontecer.
"Como irá ele acordar?". Isso preocupava-a.
Sabia que aquilo não era o seu marido.
Tinha medo que ele acordasse com os olhos rasos de lágrimas, de remorso, como sempre.
"Como sou estúpida! Será que tenho feito o possível para evitar estas alucinações de Paulo?"
Será que ele enlouqueceu por minha causa? Será que um dia as suas feições ficarão permanentemente toldadas e nem sequer se aperceberá disso? Será que enlouquecerá e me vai matar?"
Mariana curva-se sobre a mão de Paulo e pousou os seus lábios ensanguentados nela.
"Matar-te-ei antes!"

Indiferença

Estou a pensar se a nossa indiferença perante as tragédias quotidianas que nos são servidas suculosamente pelos media, não terão a ver com a globalização.
No meu tempo, quando havia uma desgraça, só dela tomávamos conhecimento indo lá, vendo e cheirando a morte.
Agora, tudo é servido à distância, e muitos de nós se interrogam se aquilo será mesmo assim.
Assim a modos como as crianças de hoje que pensam que as galinhas são aqueles bichos que existem no Supermercado.

Infelicidade de Maria B

Maria B. divorciou-se recentemente de um político conhecido, depois de um casamento de quinze anos.
Dizia ela, com uma lágrima furtiva ao canto do olho:
"Hélio, sinto-me tremendamente infeliz!"
"Porquê? Convenhamos que um político e uma psicóloga honesta nunca poderiam funcionar" - disse-lhe, para a animar.
"Não tem nada a ver com isso.
Sinto-me infeliz pelo facto de não sentir qualquer infelicidade pela separação".

Carne pracanhão

Na guerra, como na política, quem expõe o peito às balas é o chamado povo.
E se por acaso cometer algum feito heróico, como salvar o dia, ou o país, é sempre secundarizado pelos ratos que surgem então de todos os lados para se apoderarem dos louros e dos euros.
Assim foi com Salgueiro Maia, assim será com a classe média portuguesa, impotente para se defender do estupro a que a sujeitam.
Por culpa própria, diga-se.

Listening to Engels

As dependências económicas não são mais que um efeito ou um caso particular da violência política.
Elas são sempre portanto factores de segunda ordem, e são sempre as mais sensíveis.
É preciso encontrar o elemento primordial na violência política imediata, e não somente num poder económico indirecto.
A crise por que passamos é pois fruto de uma violência premeditada de que poucos se apercebem.
Pudera!
Com tantas distracções, tanto lascismo, tanta ignorância, tanta inconsciência.

Beatriz

Em ambiente viciado pelo ódio ou mesmo pelo desespero, ou ainda pela indiferença, Beatriz iniciou uma brilhante carreira como autora de sonhos e esperanças reais, no feicebuk. Reproduzia nos seus @amigos a capacidade de desvendar os seus segredos mais íntimos e sórdidos ;tal facto iria contudo desencadear reacções muito diversas...

Sandra e eu

A realidade e a ficção entrecruzam-se para mostrar uma única escapatória perante o absurdo da existência e da morte em que decorre o dia a dia de Sandra : a sua inegualável vontade de transcender qualquer sucesso na própria vida, numa tentativa de corrigir os estragos do tempo, que acabam sempre por transformar (por falta de maturidade, creio eu) o amor em ódio, a beleza em fealdade, a lealdade em traição e o idealismo em corrupção.
Mas Sandra sabe que nos meus braços está em segurança.
Diria que fomos feitos um para o outro.
Atingimos aquele ponto em que podemos dizer ou fazer tudo o que o coração ou o corpo nos ditar, uma vez que tudo o que em conjunto fazemos emerge do nosso centro; o amor partilhado até à exaustão, com que enchemos a nossa noite é como que um bálsamo que nos permite enfrentar o dia seguinte de alma limpa.
E assemelha-se a uma ode à esperança, a única capaz de desvelar as miragens da natureza humana, de que por acaso fazemos parte.

Loucuras de Outono

Somos de tal modo "recheados" com conhecimentos, desde crianças, que provavelmente já nos esquecemos do nosso destino; do mesmo modo que a beleza de um corpo nu só pode ser admirada por aqueles que andam geralmente vestidos.
Pois se andamos todos nus....
Temos que nos afastar (ou aproximar) da morte para podermos viver?
Quem nunca viveu constrangido nunca sentirá a liberdade, quem nunca esteve perto da morte nunca entenderá a verdadeira vida?
Enfim, loucuras....

Manuela, a nihilista

Minha querida, escuta o teu Ser interior.
Ele está sempre a dar-te pistas.
É uma voz baixa e calma.
Não grita contigo, isso é verdade.
Mas, se ficares por momentos em silêncio, começarás a sentir o teu caminho.
Deves fazer um esforço para seres a pessoa que realmente és, que eu sei que és.
Nunca tentes ser uma outra pessoa e tornar-te-às mais madura.
Maturidade, aliás, é aceitar a responsabilidade de seres autêntica, seja a que preço for.
A maturidade consiste em arriscar tudo para ser autêntico.
Olha bem para mim.
Eu segui apenas o teu conselho.
Eu era imaturo, e parti.
Decidi fazê-lo, para ir em busca , em peregrinação.
Agora sei quem sou.
Já não sou imaturo.
Mesmo que isso me tenha custado a vida, ficar-te-ei eternamente grato.
Já não penso pela cabeça dos outros, ou pela que eu pensava que tinha.
Manuela, tu votarias num político honesto?
Para ser honesto, teria que ser maturo, dizer apenas a verdade.
A maioria das pessoas não quer saber da verdade, apenas dos sonhos.
E tu continuas a sonhar...

Lisboa à noite

Decidiu adquirir uma pistola no mercado negro.
Depois de o fazer, começou a percorrer as ruas da cidade a horas mortas, despreocupadamente, acariciando a coronha da arma, de um xadrez negro, como quem afaga um ser amado.
Já não tinha medo, e esperava do fundo da sua alma, que alguém o abordasse com objectivos pouco amigáveis.
Só a vaga ideia da iniciação lhe colocava um sorriso ténue na cara enrugada.

A amiga virtual

Ela é imensamente famosa e conhecida nas redes sociais.
Ela tem o humanismo no sangue.
É um facto incontornável.
Respira humanidade e conhecimento por todos os poros, em todas as suas intervenções.
Ainda por cima encanta, com a sua beleza intangível e inacessível.
Pelo menos tem esse efeito em nós, pobres amigos virtuais que nos satisfazemos platonicamente com as suas fotos, os seus sorrisos, as suas viagens, as suas festas mundanas.
E damos por nós a ler e reler as suas frases de encantamento impregnadas, escorrrendo baba pelos cantos da boca.
Ela regozija-se quando está "on-line".
No momento em que descobre um dos seus amigos, sem mesmo o conhecer verdadeiramente, sente simpatia por ele.
Gosta do seu corpo, da maneira como está articulado, dos joguinhos que joga, dos postais virtuais e lindos que envia.
Gosta ainda das suas pernas que se abrem e fecham à vontade quando sobe a rua empinada outrora percorrida apenas por animais de tiro, e disso faz notícia na primeira entrada do dia.
Ela adora sobremaneira a forma como os seus amigos sorriem nas festas de garagem, revivendo os momentos em que eram felizes sem o saber, e desconheciam o medo.
Ela ama também o comportamento dos que foram feridos pela reeducação virtual, a sua capacidade de reinventarem os hábitos, os seus comportamentos, ajustando-os à nova moral virtual estabelecida.
Os amigos atiram-se aos seus comentários com gulodice, lêem-nos recostados na sua cadeira de escritório, pensam no grande amor infeliz e discreto que ela lhes tráz, e isso consola-os de muitas coisas, como serem feios e barrigudos, covardes, cornudos, de terem sido despedidos ou enganados.
E dizem da sua última intervenção:
"Gosto!"

Céptico dogmático

Se entre nós só houvesse uma diferença de gosto, eu nunca te incomodaria com este meu comentário.
Mas tudo acontece como se tu possuisses toda a verdade, toda a graça, e eu não.
Sei que não sou muito simpático para com os outros, que não me limito a dizer banalidades, como tu.
E é natural que os nossos amigos não gostem de me ler.
Prefiram o discurso sorridente, a superficialidade.
Fartos de desgraças estão eles, dizes tu, enquanto cultivas mais um nabo no farmville.
Eu sou livre de gostar ou não de xarém com ameijoas, mas se não gosto do que aqui leio, sou um miserável e não interesso a ninguém neste mundo virtual.
Parece que existe aqui o monopólio da vida.
Parece que em cima de cada página do feicebuk deveria haver um letreiro dizendo:
"Ninguém entra aqui se não for superficial, se não for humanista e optimista".
No fundo as palavras que escrevo não são minhas. Arrastam-se não sei há quanto tempo em inúmeras consciências, e não é sem repugnância que por vezes as uso.
Entenderei eu mal o objectivo deste jogo?
Será que sou o único a vislumbrar nesta ilusão um jogo tenebroso, inventado por alguém com objectivos inconfessáveis?
Estaremos nós a ser manipulados, a servir de cobaias numa experiência qualquer?
No fundo não estou furioso contigo.Pelo contrário, estou muito calmo e peço-te que aceites os meus respeitosos cumprimentos.

Choro das quatro, chá das cinco

Choraram durante muito tempo.
Daí a pouco ela acalmou e pôs a cabeça loira no ombro dele.
A caspa incomodava-a um pouco, e interrompeu o choro para limpar o casaco com o seu lenço bordado onde depositava as lágrimas.
Se fosse possível estar sempre assim!
Puros e tristes como dois órfãos.
Imaginava as suas grandes mãos a pegar-lhe na cintura, fazendo um pouco de cócegas.
Não é verdade que ele seja impotente.
Apenas um pouco distraído, lento.
Se ele quisesse..
Pensamentos magníficos que a ajudavam a ultrapassar as suas dúvidas.
Mas a vida era uma enorme vaga e arrancá-la-ia desse turpor.
Ela sorri através das lágrimas e beijou-o no queixo.
Era hora do chá.

Corpo de dor

Não é preciso ser particularmente sensível para pressentir a bola fervilhante de emoções de infelicidade que existe sob a aparência superficial de alguns, e que apenas espera o próximo acontecimento para poder reagir, da próxima entrada para poder confrontar, da próxima coisa que lhe possa causar infelicidade.
Invariavelmente estão a sorrir (lol´s) e a escrever educadamente, mas o seu corpo de dor está completamente latente.

Até quando, Sócrates?

Até quando, Sócrates, abusarás da nossa paciência?
Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura?
A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio?
Nem as manifestações, nem as greves gerais, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião da AR, nem o olhar e o aspecto destes deputados eleitos pelo povo, nada disto conseguiu perturbar-te?
Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?
Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?
Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na actual e anterior legislatura, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?
Oh tempos, oh costumes! A AR tem conhecimento destes factos, o Presidente tem-nos diante dos olhos; todavia, este homem continua actuante!
Mais ainda, até na ARele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar, um a um, para a chacina.
E nós, homens valorosos, cuidamos de cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura. Para a rua, Sócrates, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do Presidentel; contra ti é que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.
Pois não é verdade que uma personagem tão notável como era o anterior presidente, pontífice máximo. mandou, como simples particular, demitir Santana, que levemente perturbara a constituição do Estado?
E Sócrates, que anseia por devastar a ferro e fogo a face da terra, haveremos nós, o povo, de o suportar toda a vida?
E já não falo naqueles casos de outras eras, como o Freeport ou o Face Oculta.
Havia, havia outrora nesta República, uma tal disciplina moral que os homens de coragem puniam com mais severos castigos um cidadão perigoso do que o mais implacável dos inimigos.
Temos um decreto da MP contra ti, Sócrates, um decreto rigoroso e grave; não é a decisão clara nem a autoridade da Ordem aqui presente que falta à República; nós, digo-o publicamente, nós, o povo, é que faltamos.

Monarquia ou República?

Entre o Rei e o 1º ministro não há grandes diferenças.
Para o povo é sempre a mesma servidão: éramos mandados, agora somos governados.
Enquanto as mesas estiverem postas para uma minoria, e a maioria tiver de servir os propósitos da minoria, o sentido de que desobediência é pecado tem de ser cultivado.
E foi-o , tanto pelo Estado, monárquico ou republicano, como pela Igreja.
Ambos trabalharam em conjunto para defender as suas hierarquias.
O Estado precisava da Religião para ter uma ideologia que fundisse desobediência e pecado.
A Igreja precisava de crentes treinados pelo Estado nas virtudes da obediência.
Ambos se serviram da instituição "Família", cuja função consistia em treinar as crianças a obedecer desde o primeiro momento em que elas manifestassem ter vontade própria.
O Rei e o 1º ministro não gostam de indivíduos.
Preferem os grupos, os rebanhos.
Assim, desobedecer ao Rei ou ao 1º ministro é pecar contra Deus.
Há assim um mundo diabólico, em que o homem deve ser um corpo sem alma, sendo a vontade individual, a chamada rebeldia, uma sugestão do Diabo.
Para nos orientar, basta o Rei, o Ministro das Finanças, o Papa em Roma, e o confessor à cabeceira, na hora do passamento.


Quo pacto me habueris praepositum. Quae nos nostramque adolescentiam habent despicatum. Si res de amore secundae essent

Terêncio

Moralidade e Santidade

O Tribunal Constitucional declarou esta quinta-feira a prescrição do processo conhecido pelo «Caso dos hemofílicos», indicou a Sic Notícias. A decisão do órgão máximo da Justiça portuguesa significa que a antiga ministra da Saúde e actual vice-presidente da Assembleia da República Leonor Beleza e outros oito arguidos não terão de responder pelas acusações de dolo eventual no caso dos hemofílicos alegadamente contaminados com Sida entre 1985 e 1987.
Alguns hemofílicos morreram por terem contraído o vírus da Sida entre 1985 e 1987, por lhes ter sido alegadamente administrado um lote de factor - VII (derivado do plasma) contaminado, numa altura em que Leonor Beleza era titular da pasta da Saúde. O caso das 136 vítimas do sangue alegadamente contaminadas com o vírus da Sida foi denunciado em 1992. As vítimas continuaram a falecer até Agosto de 1994
Além de Leonor Beleza eram acusados a sua mãe (secretária-geral do Ministério da Saúde entre 1985 e 1987), Maria dos Prazeres Beleza, Rosa Maria Teixeira Pinto, Felizbela Nunes Caldeira, Maria Natércia Nunes Gomes, Maria Sílvia Rosas, Maria Helena Dias Agudo, Natércia Torres Pereira e Miguel Galvão.Diário Digital quinta-feira, 28 de Novembro de 2002


Faltam cinco minutos para as 14 horas quando Leonor Beleza pega num marcador e se volta para escrever num dos pilares virados para o Tejo: "Este centro foi inaugurado por sua excelência o Presidente da República. 5 de Outubro de 2010." O gesto é informal e a mesa de oradores inverosímil: o arquitecto indiano Charles Correa, José Sócrates, Cavaco Silva e James Watson, Nobel da Medicina e presidente do conselho científico da Fundação Champalimaud. Falariam todos menos Sócrates, que aparece nos ecrãs na cerimónia da primeira pedra do edifício futurista, em 2008. Cavaco Silva diz que o novo centro vem aliviar o sofrimento de milhões de doentes e põe Portugal na vanguarda mundial da investigação biomédica. Lembra-se António Champalimaud e sobe ao palco a filha mais velha, Maria Luísa, para agradecer a liderança de Leonor Beleza, a quem o empresário confiou o projecto.
informação06Out2010


Dizia Gaiana que a moralidade , ou mesmo a Santidade, em Portugal, é apenas uma questão de tempo

Separações

Tantas separações!Mas a mais dolorosa é a que experimentamos quando nos separamos de nós próprios, daquele que sempre pensámos ser, e nos embrenhamos na ruidosa farsa que é a nossa tragédia colectiva

Reflexões com a barriga vazia

As pessoas realmente frívolas são as que só amam uma vez na vida.
O que elas chamam lealdade ou fidelidade, chamo eu letargia do hábito ou falta de imaginação.
A fidelidade representa na vida emocional o mesmo que a coerência na vida do intelecto, apenas uma confissão de impotência.
A fidelidade!
Tenho de a analisar um destes dias.
Está intimamente associada à paixão da propriedade.
Há muitas coisas que atiraríamos fora se não receássemos que outros as apanhassem.

Reflexões sandrinas

Sempre uma pequena dúvida a acalmar, eis o que faz a sede de todos os instantes, eis o que constitui a vida do amor feliz.
Como o receio nunca o abandona, os seus prazeres não podem nunca entediar.
O carácter desta felicidade é a sua extrema seriedade.

Diálogos de lua cheia

"Quem é que tu amas?" pergunta Bellis.
"A ti, tal como és", diz Sandra.
"Podes desejar o que não existe, não podes amá-lo", profetiza Bellis.
"Nada mal, para um mouro", diz Sandra.
"Se assim é, por que diabo te esforças tanto para me modificar?", pergunta Bellis.
"Para poder deixar de te amar - aqui, a voz subiu e atingiu uma nota bastante alta - "para deixar de estar condenada a amar-te, para ser dispensada de te amar

Lógica filosófica

Pode-se pensar que o raciocínio lógico não tem qualquer interesse para o pensamento filosófico por ser meramente formal.
Apresenta um conteúdo já sabido e não procura novas verdades.
Um argumento pode ser válido, mas isso não garante que a conclusão seja verdadeira.
Como o que interessa à filosofia são as conclusões verdadeiras, neste raciocínio, a lógica não tem qualquer interesse.
Parece que a lógica silogística só serve para apresentar um conteúdo já sabido e não para a descoberta de novas verdades
Os filósofos procuram sempre bons argumentos para defender as suas ideias.
Mas para que um argumento seja bom é necessário que seja válido, e é a lógica que ajuda a determinar se um dado argumento é ou não válido.
A lógica desempenha dois papéis na filosofia: clarifica o pensamento e ajuda a evitar erros de raciocínio.
A filosofia ocupa-se de um conjunto de problemas.
Os filósofos, ao longo da história, têm dado resposta a esses problemas, tentando solucioná-los. Para isso, apresentam teorias e argumentos.
A lógica permite assumir uma posição crítica perante os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia, pois permite avaliar criticamente os problemas da filosofia.
Para reflectir sobre um problema são necessários bons argumentos; não basta afirmar que se trata de um falso problema.
A lógica permite avaliar criticamente as teorias e argumentos dos filósofos.
Será que uma dada teoria faz sentido? Como poderemos defendê-la? Quais são os seus pontos fracos e quais são os seus pontos fortes? E porquê?
A lógica permite que as ideias dos filósofos sejam testadas e avaliadas.
Sem esta atitude crítica não há atitude filosófica.
Logo, sem raciocínio lógico não poderá haver um verdadeiro pensamento filosófico.
Alguns filósofos não apresentam muitos argumentos.
Manifestam apenas as suas ideias inspiradas e visões criativas do mundo.
Mas o objectivo do estudo da filosofia não é aprender a repetir ideias sem as criticar.
O objectivo do estudo da filosofia é saber discutir essas ideias.
Ora, não é possível discutir as ideias dos filósofos e adoptar uma posição crítica sem um raciocínio lógico.
Há que comparar ideias e argumentos com os seus opostos.
E é aí que entra o raciocínio lógico.

Tripas

Orçamento de Estado sem confusões, bluffs e birrinhas institucionais é como tripas à moda do Porto sem mostarda: é uma coisa insípida, sem jeito nenhum.

Cabeças de gado para taxar

Como será possivel proporcionar o imposto à riqueza? Ontem, Manuela tinha 200 bois, hoje tem 60, amanhã 100. Ana tem 3 vacas, mas são magras, coitadas.Fátima só tem duas, mas gordas e roliças.Entre Ana e Fátima, quem é a mais rica? Os sinais de opulência são enganadores.O que é certo é que todos bebem, comem e vão a f...estas. Tributai as pessoas de acordo não com o que têm, mas com o que consomem. Essa a sabedoria que TDS procura desesperadamente e que eu aqui lhe dou, gratuitamente

Orçamento

"Não tirareis grande proveito do que arrebatardes aos ricos, dado que são pouco numerosos e privar-vos-eis, pelo contrário, de todos os recursos, mergulhando o país na miséria", diz TDS.
"Irei
então pedir um pouco de ajuda a cada habitante, sem olhar à sua fortuna, e recolherei o suficiente para as necessidades de Bruxe......las, sem necessitar de me interrogar se podem ou não", diz JSCPS.
"Assim poupareis os pobres, visto que lhes deixareis a fortuna dos ricos", insinua TDS.

Alentejanos

Como é um alentejano?É, assim, a modos que atravessado.
Nem é bem branco, nem preto, nem castanho, nem amarelo, nem vermelho....
E também não é bem judeu, nem bem cigano.
Como é que hei-de explicar?
É uma mistura disto tudo com uma pinga de azeite e uma côdea de pão.

Dos amarelos, herdámos a filosofia oriental, a paciência de chinês e aquela paz interior do tipo "não há nada que me chateie";
dos pretos, o gosto pela savana, por não fazer nada e pelos prazeres da vida;
dos judeus, o humor cáustico e refinado e as anedotas curtas e autobiográficas;
dos árabes, a pele curtida pelo sol do deserto e esse jeito especial de nos escarrancharmos nos camelos;
dos ciganos, a esperteza de enganar os outros, convencendo-os de que são eles que nos estão a enganar a nós;
dos brancos, o olhar intelectual de carneiro mal morto;
e dos vermelhos, essa grande maluqueira de sermos todos iguais.

O alentejano, como se vê, mais do que uma raça pura, é uma raça apurada.
Ou melhor, uma caldeirada feita com os melhores ingredientes de cada uma das raças.
Não é fácil fazer um alentejano. Por isso, há tão poucos.
É certo que os judeus são o povo eleito de Deus.
Mas os alentejanos têm uma enorme vantagem sobre os judeus: nunca foram eleitos por ninguém, o que é o melhor certificado da sua qualidade.
Conhecem, por acaso, alguém que preste que já tenha sido eleito para alguma coisa?
Até o próprio Milton Friedman reconhece isso quando afirma que
«as qualidades necessárias para ser eleito são quase sempre o contrário das que se exigem para bem governar».
E já imaginaram o que seria o mundo governado por um alentejano?
Era um descanso...

O Dinheiro dos outros

Subitamente, após meses tão densos como a própria história do país, os portugueses descobrem diante do triste espectáculo subitamente posto a nu nos seus aspectos mais sórdidos, que o preço do seu voto não é a paz ou o progresso, mas a coragem de assumir o risco e a angústia de suportar o crime dos seus eleitos, e o seu fingido remorso .

Continuam a pedir-lhes a eles, aos portugueses, a decisão de escolher, de entre os vampiros, aqueles que parecem mais honestos, mais capazes de fugir à tentação de beber todo o seu sangue, todo o seu esforço. Uma vez que lhes voltarão a pedir a decisão, tomá-la-ão por fim, aceitando uma vez mais que sobre si recaia o peso da incompetência e da desonestidade dos escolhidos.

Alguns , conscientes de que escolheram a morte que os prostará, encolhem o sombros, sujeitando-se à inevitabilidade.Outros, arrastados por promessas falaciosas que não desejaram nem talvez entendam, ficarão reféns de uma fatalidade tão impenetrável como o rosto do político que agora lhes sorri, indiferente.

A Lição do Chile

Imaginamos muitas vezes que se nos esforçarmos muito, se tentarmos muito, se nos interessarmos muito por muitas pessoas, se tivermos muitos amigos, praticamos uma boa acção.
Mas nada mais errado. Fiquemos onde estamos, sem alaridos, limitemo-nos a olhar em nossa volta, e encontraremos seguramente alguém que necessite do nosso sorriso, do nosso afecto. E nós também seremos felizes, sem gastar uma vida à procura de quem de nós precise, à luz dos holofotes

Política de retrete

É absolutamente paradigmático do caos a que se chegou nesta ditadura da incompetência em que se transformou o nosso regime político, que Eduardo Catroga, o homem que penhorou as retretes de um clube vetone, no culminar de uma política financeira desastrosa, seja um dos principais negociadores do OE. Apetece dizer que dada a porcaria em que se transformou esta rábula que nos insulta , ele é o negociador indicado.

Intocáveis

Como dizia Aristóteles, um fogo não arde da mesma maneira em dois locais diferentes.
Do mesmo modo há palavras iguais que têm significados opostos consoante a latitude em que são empregues.
Na sociedade Hindu os intocáveis são aqueles que trabalham com trabalhos indignos, sujos, com os mortos, amontoados de cadáveres e outros empregos que os mantêm em constante contacto com aquilo que o resto da sociedade indiana considera nojento e desagradável.
Os intocáveis são considerados individualmente sujos, e assim não podem contactar fisicamente com os "não-sujos", as partes mais puras da sociedade. Vivem separados do resto das pessoas. Ninguém pode interferir na sua vida social, pois os intocáveis são os últimos no “ranking” social, são considerados sub-humanos e não fazem parte do sistema de castas.
Aos intocáveis, só é permitido usar as roupas que retiram do corpo dos mortos. Nas suas casas, comem em louças quebradas. Eles sofrem de restrições sociais extremas. Não podem rezar no mesmo templo, não podem beber da mesma corrente de água, pois poderiam polui-la e indirectamente poluir as outras castas que dali bebessem.
Nenhum intocável pode entrar no templo se lá estiver alguém de uma casta superior – como os padres do templo, a casta suprema, nunca estão fora, na prática os intocáveis não podem frequentar qualquer templo.
As vítimas de Tamil Nadu, o Estado indiano mais devastado pelos tsunamis, esperaram ansiosos a ajuda do governo e de agências humanitárias para poderem reconstruir as suas vidas, mas os intocáveis - excluídos do sistema de castas hindu, não a receberam. Neste distrito com importante população dalit (intocáveis), vivia a maioria dos 10 mil mortos do tsunami de 2004.
Em Junho de 2006, uma revista popular brasileira, publicou uma entrevista com um intocável que disse que a sua família tinha que beber água barrenta de um poço e, por ter invadido o quintal do vizinho, um seu irmão foi amarrado a uma árvore e devorado por formigas, tendo ele e o seu pai sido obrigados a assistir.
Na sociedade Portuguesa os intocáveis, ao invés da Índia, são aqueles que todos querem tocar, que todos se esforçam por entrevistar, aqueles de que todos querem seguir os exemplos.
Ser intocável, em Portugal, é sinónimo não de impureza mas de impunidade, e assim sendo, é sinónimo também de se pertencer ao mais elevado nível da Sociedade.
O que tem em comum o intocável em Portugal, seja ele num caso mais ou menos mediático de pedofilia, ou de uma burla qualquer, grande ou pequena, numa qualquer autarquia? A sua permanente boa disposição, o seu ar jovial e sorridente, a sua ironia e o seu inatingível sentido de humor. Humor fino, de salão, política e socialmente correcto, culto. Assim se define o intocável, seja ele ou não seguidor dos exemplos paradigmáticos de Gondomar, Oeiras ou Felgueiras, Casa Pia, Freeport, BPN ou Eduardo VII.

A Língua Portuguesa é excessivamente traiçoeira, diria mesmo excessivamente irónica, pois dum modo excessivo coloca em oposição o sentido real do sentido literal da palavra INTOCÁVEL.

Sabemos hoje....

Sabemos hoje que a corrupção de Estado é um facto.Sabemos hoje quem são os donos de Portugal.
Sabemos hoje quais os mecanismos que permitem enriquecer facilmente, quando se chega ao poder.
Sabemos hoje que 90% dos políticos emanam ou divergem de dois colossos financeiros portugueses, o BES e o BCP.
Sabemos hoje que as parcerias público-privadas servem para tudo menos para desenvolver o país.
Sabemos hoje que o poder político e o judicial mantêm relacções obscenas e de promiscuidade.
Sabemos hoje que o Estado , é um péssimo gestor, para usar um eufemismo.

Sabemos hoje...

Agora o que não sabemos é como usar esta informação.
Este lascismo proverbial e genético é condensado sabiamente no comentário daquele meu colega do liceu nacional de Faro, o Adriano, que na aula de Física, quando o professor Elias Pestana explicava a lei da atracção universal, comentava, para espanto de todos:

"De que me serve saber a lei da gravidade? Quando a maçã me cair na cabeça, esse conhecimento não me tira a dor"

Life is....

 A Vida é um intervalo entre eternidades.
Assim a modos como se tivéssemos sido colocados de castigo por causa de um qualquer acto ilícito.
Um erro imprevisível.
Do passado e do futuro não temos recordações sólidas, mas apenas vislumbres ocasionais.
E são esses vislumbres que nos ligam de uma forma imperceptível àquilo que já fomos e àquilo que julgamos que ainda não fomos.
Vislumbres que uns têm em maior intensidade que outros.
Todos sentimos em maior ou menor grau que "estamos de passagem", não sabemos muito bem de onde para onde, mas imaginamos que aquilo a que chamamos vida é apenas um intervalo entre coisas maiores, que o nosso verdadeiro ser está ou antes ou depois.
Todos queremos uma outra oportunidade.
Não fazemos agora, neste lapso de tempo com que fomos brindados, por castigo ou não, aquilo que prometemos fazer amanhã, ou que imaginamos já ter feito ontem.
Mas para fazer as coisas como deve ser, precisamos de mais vidas, mais oportunidades.
Daí a teoria, ou a esperança na reencarnação.
Surgiremos de novo, ontem ou amanhã.
Para fazer exactamente o que fazemos hoje.
Aqui e agora.

O Ego colectivo

É tão difícil viver comigo mesmo!
Uma das formas encontradas pelo ego para tentar fugir ao carácter insatisfatório da individualidade, é ampliar e reforçar a sua noção de identidade, identificando-se com um grupo - uma nação, um partido político, um clube de futebol...
Em alguns casos o ego pessoal parece dissolver-se totalmente quando um indivíduo dedica a sua vida a trabalhar altruisticamente para uma causa.
"Que alívio", dirão. Mas serão eles verdadeiramente livres ou terá o ego apenas migrado do individual para o colectivo?

O ego colectivo tem, do mesmo modo que o individual, a mesma necessidade de criar relacções conflituosas, de ter inimigos, de ser /ter mais que o outro, de ter razão...
Cedo ou tarde, o ego colectivo entrará em conflito com outros egos colectivos, pois precisa de oposição (Lei da acção e reacção). Os seus adeptos recomeçam a sofrer! Talvez alguns, neste estágio, reconheçam a sua dose de loucura. Outros tornam-se cínicos e azedos e negam os valores. Não fugiram do seu ego individual, apenas o substituiram por outro, mais perigoso, o ego colectivo.
O ego colectivo é ainda mais inconsciente que o ego individual, e as multidões são capazes de cometer atrocidades que os indivíduos isoladamente nunca fariam.
Veja-se o caso do nazismo ou do assassinato de D. Carlos.
Apenas alguns serão impelidos a tomar consciência destes factos e começam a meditar neles.
Estes sim, libertaram-se do ego, pois não têm necessidade de definir a sua identidade.
Eles são, apenas e só.

Aristocratacia - a origem

"O homem é por essência previdente e sociável. É este o seu carácter.Não se pode conceber sem uma certa apropriação das coisas" - diz o sábio ao bobo.
"É então por isso que estão ocupados em espancar-se uns aos outros, com enxadas e picaretas, quando seria melhor que trabalhassem as terras?" - interroga o bobo, observando a batalha que no vale se desenrolava.
"Acusam-se mutuamente de roubo e usurpação" - diz o sábio.
"Mas, senhor, reparai naquele furioso que corta com os dentes o nariz do adversário, e queloutro que esmaga a cabeça da mulher com um enorme calhau" - diz o bobo aterrado.
"Estão a criar o direito. Fundam a propriedade e estabelecem os princípios da civilização, as bases das sociedades e os alicerces do Estado" - diz o sábio.
"Como assim?" - interroga-se o bobo, com os olhos muito abertos.
"Delimitam os campos. Vêde aquele de cabelo ruivo que desce o vale com um enorme tronco na mão" - aponta o sábio.
O ruivo aproxima-se do camponês e diz:
"O teu campo é meu".
A estas palavras bate com a moca na cabeça do agricultor, que morre imediatamente, esvaido em sangue.
"Mas isto é um assassinato" - diz o bobo angustiado.
"Eu chamaria a isto conquista, o fundamento de toda a aristocracia. Uma coisa é cultivar a terra, outra é possui-la. Estas duas coisas não se devem confundir" - diz o sábio.
"Mas então e o direito de posse?" - pergunta o bobo.
"Esse direito é incerto.Agora o de conquista, dos nobres, é duradouro, pois é obtido pela força. Este homem ruivo, ao matar o agricultor, acaba por fundar uma Casa nobre nesta terra. Temos que felicitá-lo por isso" - diz o sábio.
"Um conde?" - pergunta o bobo, perplexo.

Cultura e analfabetismo

O adolescente português chega geralmente ao fim do ensino obrigatório num estado mental e moral muito próximo da vida vegetativa.
É um ser humano? Antropologicamente, sem dúvida. Tem vida, mexe-se, tem figura humana. Até sabe usar o telemóvel e a internet, e ensaia o acto sexual, ou pensa que o faz, na via pública, em grupo ou isoladamente.
É um cidadão? Seguramente que não. Não sabe ler, não sabe o que ler, não sabe para que serve a leitura. Não sabe escrever, não tem ideias, não as sabe desenvolver, e mesmo que quisesse falta-lhe a cultura suficiente para desenrolar duas linhas seguidas com sentido.
Quando "escreve", fá-lo por siglas e com mais vivacidade que harmonia, sinal claro de falta de vocabulário.
É pois uma criatura que não poderá competir num mundo cada vez mais exigente.
Do seu país, da cultura do seu país, das tradições do seu país, das origens do seu país, das alegrias e dores de uma existência comum de mais de nove séculos, nada sabe.
Para ele a pátria é um sítio em Lisboa, governada por pessoas que falam muito na televisão, e que apanham por vezes quando fazem zapping para assistir às novelas tipo morangos com açucar e outras imbecilidades, e que depois se abotoam à grande, falam de coisas que ninguém entende como o pib o deficit ou as sondagens.
O seu único sonho é ser futebolista ou paparazi de futebolistas.
Em que se distingue este ser da terra, da besta, do escarlacho ou da gaivota?
Em falar? Que importa, se nada diz?

Desânimo

Fico com a sensação que a cada nova descoberta, a cada nova janela de oportunidade, que nos dá aquela alegria de estarmos vivos, se segue, como uma sombra, ou um anjo caído, a desilusão do encontro com os mesmos erros, os mesmos defeitos, as mesmas contrariedades, como se alguém nos quisesse cobrar constantemente os pequenos salpicos de felicidade que vão caindo na imensa toalha de desânimo onde se projectam as nossas sombras....

A Brasileira

Entrou na Brasileira sem qualquer razão aparente.
Ainda hesitou, mas subitamente algo o terá impelido a entrar num local que não visitava há muitos anos.
Ninguém o reconheceu, e essa foi a primeira sensação estranha que o percorreu. Sentou-se na mesa do fundo, aquela em que mais discretamente poderia observar e tentar encontrar algum vestígio das animadas sessões do passado.
"Terei mudado assim tanto, ou todos os que conheci se transformaram irremediavelmente?", pensava enquanto vagueava o olhar pelos poucos clientes àquela hora morta, que pareciam fixá-lo indiscretamente, como se suspeitassem dele ou lhe reconhecessem algum detalhe que teimara em não desaparecer.
Subitamente eles entraram, e foi como se tudo recomeçasse.
Outra vez

Viagem de comboio

Sentou-se perto da janela do combóio com destino a Marselha, e deu por si a olhar insistentemete para a jovem que aguardava com alguma impaciência a chegada de alguém.

Pelo menos assim parecia, dada a inquietação com que ela olhava para o relógio enorme que balouçava ao sabor do vento forte que se levantara, de seguida para o combóio, como que para confirmar que ainda ali estava, e depois para a porta de acesso à gare.

O seu rosto parecia contudo calmo, contrastando com a inquietação dos seus movimentos.

O primeiro apito soou, e para B deixou de ser importante o facto de o combóio sair ou não a horas do cais de Montlefrois.

Toda a sua atenção recaía agora sobre a jovem, que tinha que tomar uma decisão: corria para o combóio que claramente ainda conseguiria apanhar, ou ficava no cais esperando a chegada de alguém, ou de algo, que aparentemente se esquecera ou negligenciara o acordado..

Ascenção

No alto da escadaria o vento forte varria qualquer possibilidade de se ouvir o mínimo som. Estava a salvo de escutas indesejáveis, e por isso parou por momentos, agarrando-se à parede para não cair.
Estava cansado. Subir duzentos e vinte e quatro lanços de escada não era para qualquer um, e admirou-se do seu feito.
Tomara a iniciativa dessa acção de uma forma repentina, como são todas as que se tomam quando já não há soluções e o desespero assume o comando dos nossos sentidos.
Estava desesperado quando começara, mas surpreendentemente, talvez pelo cansaço, esquecera-se completamente dos motivos que o tinham levado a iniciar semelhante façanha.
Estava duplamente perdido...

Dedução

Todo o conhecimento pode ser adquirido por via dedutiva.
Assim sendo, a certeza da inocência de alguns indivíduos recentemente condenados no caso Casa Pia, manifestada por muitos, é eventualmente justificada.
Certas paixões humanas, como apetites, aversões ou mesmo perversões, conduzem a actos predeterminados, de que nos poderemos livrar libertando a nossa razão das grilhetas das paixões.

Penso, como Hobbes, ou Bento Espinosa, que não gostamos de uma pessoa ou coisa por ela ser boa.

Ao invés, chamamos boa à pessoa ou coisa de que gostamos.

Proximidade

Quando me chego mais perto do meu ego,sinto sempre um arrepio pois consigo ver indistintamente todos os meus receios, todas as minhas limitações.
Por isso apenas o observo de longe, de soslaio, esperando que ele não repare nessa minha patética tentativa de o entender .

In "O Livro do ego" de Akraan Mitspur Rajik

Buda, Hume e feicebuke

Nunca um contraste foi tão nítido, tão evidente.O Facebook e outros sítios da chamada socialização virtual são disso o paradigma.
No ocidente nunca se levou muito a sério, e por vezes até se observa com um certo paternalismo, atribuido à ingenuidade, a filosofia budista, que é considerada fundamentalmente repugnante no acatamento da negação do eu.
Só algumas pessoas que já sofreram demasiado percebem que é o ego que perpetua o sofrimento individual.
Como Úrsula.
Se tivermos em conta o pensamento e a filosofia de Buda ou mesmo de Hume, que defendem que existe uma ilusão do eu, e conseguirmos praticar o exercício de colocarmos o nosso eu no seu devido lugar, o da inexistência, podemos enfrentar tudo, até a ausência do facebook, ou a morte, com serenidade.

O fruto proibido

Úrsula, surpreendi-me que fizesses referência a "frutos proibidos".Porquê "proibidos"?
Só quem está desatento ao que se passa em seu redor poderá rotular de "proibido" algum objecto ou pensamento.
A menos que um excesso de eficiência a fazer "coisas" te tenha tirado completamente a consciência.
Daqui, de um local maravilhoso e obscuro no Rio Grande do Norte, onde não se usa o carácter mas sim a consciência, não posso deixar de, ao agradecer o teu comentário, deixar-te este aviso:
As proibições só existem na nossa mente, e esta, pobre dela, não existe , pois é apenas um processo

MANAUS

Atravesso a pé as duas ruas que separam o hotel da grande praça diante do Teatro Amazonas, a grande Ópera de Manaus.
A camisa está húmida, o cabelo empapado em suor.
Manaus.
Buganvílias em flor, rosadas, vermelhas, uma praça quase vazia, o ruído em fundo dos autocarros.
Cinco horas da tarde.
Procuro desesperadamente uma brisa qualquer enquanto me encaminho dolorosamente para a fachada do imenso edifício rosado.
Quem imaginou e contruiu este teatro na selva só podia estar possuído pelos demónios.
E aqui há muitos.
Fantasmas dos portugueses da borracha, que em 1880 construiram este teatro no fim do mundo.
Preciso desesperadamente de beber algo fresco,respirar melhor.
Saio da Ópera e passo para a rua adjacente, não a dos turistas, mas a outra , a que leva ao bar que me indicaram.
Ninguém a quem pedir informações.
Encontro finalmente o Bar do Neilson, que afinal era uma varanda pendurada sobre o rio, um balcão sobrevoando o crepúsculo.

No centro da varanda, uma mesa de bilhar onde o pano verde rasgado não destoava da balaustrada de madeira envelhecida, nem do cheiro de peixe que vinha da cozinha.
Algum dia Deus teria agradecido este retrato do Rio Negro, um entardecer húmido e silencioso, que ia escondendo as casas miseráveis e a roupa suja das crianças à medida que a luz desaparecia do outro lado do rio.
O soalho rangiu quando a rapariga perfeita me trouxe a primeira garrafa de cerveja.
Um pequeno barco aproximou-se da margem, por baixo da casa, junto a uma pequena ladeira. O homem saltou do barco, arrumou os remos e saltou para o lodo.
-Tucunaré, tambaqui, pirapitinga,aruanã,pirarucu, bicuda, jacundá, traira e pirarara - dise o homem - peixe do rio, a gente frita eles ,dá uns golpes muito finos para cortar as espinhas e aí se pode comer à vontade.
Manaus, um amontoado de prédios enegrecidos pela luz de uma tragédia desconhecida, uma espécie de rendição ao clima, à temperatura.
Pergunta-me se sou argentino. Quando digo que sou português,esboça um sorriso e pergunta se viajo muito .
O Brasil ri de si próprio com grande classe, recuperando a honra perdida ao longo da hstória.
E é por isso que de certo modo aqui estou .
Para aprender a rir com classe de mim mesmo.
O riso abafa a tragédia, a desgraça e a corrupção dos poderosos.
Convido o homem para a minha mesa. Chama-se Luciano.
À terceira cerveja Brahma, Luciano diz-me que no Brasil se peca bastante. Há sempre criminosos do Amazonas em toda a parte.
Um verdadeiro filósofo .
Ampliando a natureza do pecado, aumentando a área do pecado,aumenta-se também o seu preço. Logo, há mais pecadores. Há mais clientes para o negócio do templo, diz Luciano.
Escuto, olhando o rio e suando em bica.
Havendo mais pecadores, há mais fiéis, mais lucro nas igrejas.
Sem saber como, a noite cerrada chegou.
Acabei comendo o tucunaré e posso assegurar que vou voltar.
Nem que seja para voltar a ouvir Luciano, enquanto observo o rio gigantesco, negro, lodoso e de profundidades desconhecidas, um coro de vozes vindas de todo o lado, das margens, dos céus, das florestas, dos igarapés desenhados sem ordem nem precisão, pássaros de todas as cores .
Manaus, terra de exilados,terra de consciências fortes.
Até sempre!

TGV e Fármacos

O Governo perdeu as estribeiras.
A sua actuação roça o paroxismo.
Chegou ao ponto de legislar às escondidas, adjudicar aos sábados, para ninguém poder ver, contestar, perguntar.
O que era vital para o país há três meses, passou subitamente a ser desnecessário, do mesmo modo que o balão de oxigénio o é para o afogado.
E ninguém contesta, ninguém pede explicações, como se tudo fosse normal.
Mas não foram as previsões que correram mal.
Antes fossem.
O que correu mal foi o excesso de ganância daqueles, sempre os mesmos, de um lado e do outro da mesa negocial, que mais parece um vaso sacrificial, que lucrariam, lucrarão com estas dispendiosas obras públicas.
Como manter a face quando ela já está perdida há muito tempo?
Como é possível que um país seja governado por aventureiros e amadores, que vêm na coisa pública apenas um meio de ascenção social e de enriquecimento fácil?

Só há duas maneiras de este estado (de coisas) se manter: Novo aumento de impostos generalizado, ou o fim do sistema nacional de saúde.
Para já, os mais pobres(?!) vão deixar de ter medicamentos gratuitos, enquanto o parlamento se prepara para aprovar por unanimidade mais um aumento salarial , para além de outras regalias.
É no mínimo justo dada a sua extraordinária contribuição para o agravamento da crise.
Ouve-se também falar que se vai criar uma farmácia numa das salas desocupadas da AR para fornecer gratuitamente os seus utentes e respectivas famílias.
Custa-me a crer que seja mentira.