Visitei-a no passado domingo.
Essencialmente, deixei-a falar. Tudo o que dizia , dizia-o com dificuldade, mas com vivacidade.
O discurso é previsível, até aos mais ínfimos pormenores.
Sorrio com enlevo, vendo o prazer que lhe dá contar uma vez mais as suas memórias, que no fim a deixam esgotada.
Em breve substitui-la-ei como protagonista da tragédia pessoal.
Observo-a com toda a atenção, e dou-lhe a mão, como se de um fio condutor se tratasse.
Uma mão que se estende a quem está a ser puxado para o abismo.
Não posso deixar de estabelecer comparações, o que faço freneticamente, para não ser vencido pela emoção.
Digo-lhe filosoficamente, daquela maneira que ela tanto aprecia, que resolvi os meus problemas ao deixar de pensar neles.
Dantes, quando tinha saúde, Fernanda costumava levantar os ombros, mostrando indiferença. Agora limita-se a levantar as sobrancelhas.
Depois da doença lhe ter tornado o corpo pesado, substituiu os gestos, que agora a fatigam excessivamente, por jogos fisionómicos . Diz que sim com os olhos, não com os cantos da boca, levanta as sobrancelhas em vez do sombros.
Sinto que tem pressa que eu me vá embora.
Não gosta que a veja assim, tão vulnerável e despojada.
Beijo-a com um sorriso confiante, e digo-lhe um até amanhã, desejo-lhe as melhoras.
Fernanda relaxa finalmente do esforço que fizera para aparentar uma réstea de vitalidade, e afunda-se no travesseiro, esgotada, quando desapareço.
Finalmente posso chorar.
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