domingo, 18 de março de 2012

Aristocratacia - a origem

"O homem é por essência previdente e sociável. É este o seu carácter.Não se pode conceber sem uma certa apropriação das coisas" - diz o sábio ao bobo.
"É então por isso que estão ocupados em espancar-se uns aos outros, com enxadas e picaretas, quando seria melhor que trabalhassem as terras?" - interroga o bobo, observando a batalha que no vale se desenrolava.
"Acusam-se mutuamente de roubo e usurpação" - diz o sábio.
"Mas, senhor, reparai naquele furioso que corta com os dentes o nariz do adversário, e queloutro que esmaga a cabeça da mulher com um enorme calhau" - diz o bobo aterrado.
"Estão a criar o direito. Fundam a propriedade e estabelecem os princípios da civilização, as bases das sociedades e os alicerces do Estado" - diz o sábio.
"Como assim?" - interroga-se o bobo, com os olhos muito abertos.
"Delimitam os campos. Vêde aquele de cabelo ruivo que desce o vale com um enorme tronco na mão" - aponta o sábio.
O ruivo aproxima-se do camponês e diz:
"O teu campo é meu".
A estas palavras bate com a moca na cabeça do agricultor, que morre imediatamente, esvaido em sangue.
"Mas isto é um assassinato" - diz o bobo angustiado.
"Eu chamaria a isto conquista, o fundamento de toda a aristocracia. Uma coisa é cultivar a terra, outra é possui-la. Estas duas coisas não se devem confundir" - diz o sábio.
"Mas então e o direito de posse?" - pergunta o bobo.
"Esse direito é incerto.Agora o de conquista, dos nobres, é duradouro, pois é obtido pela força. Este homem ruivo, ao matar o agricultor, acaba por fundar uma Casa nobre nesta terra. Temos que felicitá-lo por isso" - diz o sábio.
"Um conde?" - pergunta o bobo, perplexo.

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