domingo, 11 de março de 2012

Elviro

A primeira coisa que me vem à memória quando relembro o Professor Elviro Rocha Gomes é a sua extraordinária capacidade de sonhar.
Guardo religiosamente uma cópia de um dos seus numerosos livros, que me ofereceu em 1962 com dedicatória do seu filho e meu colega e amigo Jaime Isidoro Naylor da Rocha Gomes, que perdi de vista em Junho de 1968 e reencontrei, muito por acaso, há uns anitos, na noite da baixa de Faro.
Foi essa oferta feita a propósito de uma récita que o Professor Elviro organizou no Centro Cultural do Algarve, e onde eu entrava a declamar o célebre "Santo Condestabre, alma pura e bela..."... (na foto)
Jaime brincava com o pai a propósito do "Sempre elas", poema em que o Professor Elviro dava a entender que umas garotas andavam sempre atrás dele, para no fim percebermos que se tratavam das suas costas.

Quem não se lembra do célebre "Dedo perpendicular ao tecto?", exigência do professor Elviro para que se pudesse responder às suas questões?
Professor de Francês, Inglês e Alemão, salvo erro, uma figura extraordinariamente humana e culta, numa época em que poucos o eram ou se atreviam a ser.
Casado com uma senhora inglesa,de apelido Naylor, salvo erro de LEEDS, que na altura tinha uma fabulosa equipa de futebol.

Até sempre

Química das lágrimas

Homenagem à minha Professora de Química de 1966/67


A propósito de uma minha amiga que procurava o amor duma forma desesperada resolvi escrever algo sobre o que do meu ponto de vista está subjacente a essa interminável procura.
Estou absolutamente convencido que é pelo facto de as nossas vidas serem geralmente vazias, que nós criamos problemas, que depois tentamos resolver...digamos que se trata de um jogo perverso: escondemo-nos para depois irmos à procura de nós próprios.
No amor, ou naquilo a que chamamos amor, isso é mais evidente...há alguém dentro de nós que procura, pela sua imaturidade, outro alguém com as mesmas características.....e depois advêm as lágrimas....

AS LÁGRIMAS podem ser derramadas em diversas circunstâncias. Partindo do princípio de que a beleza é a distribuição da luz mais adequada à nossa retina, as lágrimas poderão traduzir a incapacidade da retina, bem como da própria lágrima, para reter a beleza.
De um modo geral, o amor chega à velocidade da luz e a separação à velocidade do som.
É a degradação da maior na menor velocidade que nos humedece os olhos. Sendo nós finitos, seres que apenas são atravessados temporariamente pela VIDA, uma partida deste mundo parece-nos sempre definitiva; deixá-la para trás é deixá-lo para sempre.
Porque a partida é um exílio dos olhos nas províncias dos outros sentidos; no melhor dos casos, nas fissuras e abismos dos cérebros.Porque o olho se identifica, não com o corpo a que pertence, mas com o objecto da sua atenção.
E para o olho, por motivos puramente ópticos, a partida não é o corpo a deixar a cidade, mas a cidade a abandonar a pupila. Do mesmo modo, o desaparecimento do ente amado, em particular se for gradual ,causa sofrimento, seja quem for que se mova, e quais os motivos peripatéticos porque o faça.
Sendo as coisas o que são, a CIDADE onde vivemos é a menina dos nossos olhos.
Depois dela, tudo nos desilude.
Incluindo este vosso eternamente grato

hp
Será a lágrima uma premonição do futuro do olho?

Filosofia com saias

Sobre a santíssima trindade dos filósofos gregos, composta por Sócrates, Platão e Aristóteles, haveria muito a dizer, mas, como dizem os Chineses, sabiamente, " se nada se disser, tudo está dito". Creio porém, agora que tenho algum tempo para fechar os olhos e ver, que eles não se enquadram no cliché que imagina o filósofo como um ancião sábio.

Sócrates era um brincalhão e um orador de rua.Tinha desenvolvido uma técnica que consistia em tornar o seu interlocutor inseguro com recurso a passos de mágica lógicos ao ponto de este, por fim, engolir qualquer explicação que lhe fosse oferecida.

Isto que acabo de escrever ilustra bem o início de toda a Filosofia : a sua grande Insegurança. Alguém nota que o que passa por verdade não faz sentido algum, não sendo mais do que um montão de preconceitos alimentados pelos desejos dos humanos e tornados possíveis pela estreiteza das suas vistas... (acho que estreiteza é um bom eufemismo; outro poderia ser a distração ...vejam como andamos tão distraídos que até reelegemos o Presidente da República passados 5 anos).

Por isto tudo não será por acaso que o Teatro e a Filosofia surjam pela mesma altura: também para o filósofo o mundo é um teatro. No entanto, para ele a peça que vê não passa de uma ilusão que apenas os ingénuos entre os espectadores confundem com a realidade, ele, pelo contrário, interessa-se pelos bastidores, que são o local onde a encenação é orquestrada. Em resumo: o filósofo olha para debaixo das saias da realidade. Procura a verdade nua e crua. O seu objectivo é o esclarecimento...Que surpresa teria o filósofo se o objecto de estudo fosse o Mirabeau da canalha!

É também por isso que, tal como o teatro, a Filosofia nasceu da Religião.
Durante toda a Idade Média ela não passou de um dos paus para toda a obra da Teologia, o que apenas significa que o resultado estava sempre garantido de antemão. Isso acabou quando a religião, após o grande cisma da Igreja, perdeu todo o seu crédito nas guerras religiosas,tendo sido posteriormente resgatada pelo célebre Papa Gregório VII, Hildebrando de Cluny, como sabemos....não se poderia exigir mais a um homem morto!


Zé Ricardo

Invariavelmente eu e o Zé Ricardo Passos disputávamos o último lugar nos torneios anuais de hóquei em campo, disputados na "eira" do nosso gheto.
Não admirava, éramos os mais novos de um grupo que convivia saudavelmente no espaço limitado a norte pela parte sul da mata do Liceu, a oeste pela Avenida de Olivença, e a este pelos muros da propriedade do Colégio do Alto, cedido pela família Fialho às religiosas, a custo zero, para salvação das suas almas.
Faziam parte o Manel Ruivo, O Teodoro, o Zé Fernandes, eu, o Zé Ricardo, o Zé Manel, Freire,Idalécio, Ventura, Jorge, António Nobre Rodrigues, e outros de que não recordo o nome.
O torneio anual era invariavelmente ganho ou pelo Teodoro ou pelo Zé Fernandes, que eram decididamente os mais fortes.
Zé Fernandes faleceu prematuramente aos dezassete anos, e como foi a minha primeira morte ficou gravada na memória em todos os detalhes.
O Zé Ricardo também nos deixou prematuramente, e como nos separámos ainda crianças, fico sempre com a sua imagem da altura.
Quero recordá-lo aqui esperando que esteja em forma quando brevemente nos voltarmos a defrontar.

Podemos tirar os homens da nossa presença, podemos esforçar-nos por os ignorar, esquecer, reduzir ao nada, mas alguns continuarão vivendo, invisíveis, na nossa solidão.

Acordo ortográfico

Não sei se estou mais entusiasmado com a aprendizagem do sotaque que vou fazer ao Brasil, se com a comida baiana da Dádá, se com o curso que me vão ministrar, de Pai de Santo.
É o pagar de uma promessa que fiz a um orixá há uns anitos na ópera de Manaus.
Assim por assim, já fiz tantos cursos ao longo da vida que o que preciso mesmo é de os esquecer e voltar-me para o místico.
Creio até que será a única maneira de suportar o que aí vem.
Os presságios avolumam-se, de facto.
Mas devo ser sincero - o que de facto me leva a voltar lá muitas vezes, para além da atmosfera única e da tranquilidade, são os políticos brasileiros.
São absolutamente honestos quanto à sua desonestidade.
Ao pé deles os nossos são uns amadores.
Apenas menciono aqui, e já na expectativa que o futuro acordo linguístico traga também desenvolvimentos políticos ao mais baixo nível, três frases paradigmáticas de um conhecido governador de Estado:
1ª frase: (campanha eleitoral) " Vocês mi conhecem...eu roubo mas eu faço..."
Obviamente que nós também cá temos disto, o que nos coloca perante duas opções: ou votamos nos que roubam e fazem ou votamos nos que apenas roubam. Mas, já se ouviu algum político luso em campanha dizer o seu objectivo com todas as letras? Não me lembro!
2ª frase: (Na noite eleitoral, após a vitória folgadíssima) " Não, meu chapa, felizmente não sou homem de convicções...isso limitaria muito a minha existência"
Obviamente que tem razão! Como pode um verdadeiro político ter convicções? No mínimo nunca seria eleito.Não é preciso muita imaginação.Vejam o Engenheiro (que parece ter sido, que eu saiba, o único chefe de Governo a ter que ir à televisão mostrar o canudo).
3ª frase: ( à pergunta sobre qual seria a sua primeira medida) "Vou já prêpará o time para a próxima campanha eleitoral"
Obviamente que sim. É de homem! Dizer o que todos fazem mas só ele diz é ter coragem.Se eu votasse no Brasil o meu voto iria direitinho para ele.
Claro que hoje em dia a prioridade de um recém-eleito é a reeleição, lá como cá.

Mal posso esperar pelo acordo ortográfico.

Idade da inocência

Esta fotografia tem quase 5o anos.
Ano lectivo 1958/59!
2ª classe.
Nela se vêem um conjunto de miudos na escadaria da velhinha Escola da Sé, que dava acesso à Escola anexa do Magistério Primário.
Claramente, com a sua atitute maternal e carinhosa está a nossa saudosa professora Drª Lucinda, (a quem nunca agradeci devidamente todo o seu amor) e as Professoras estagiárias Maria Carolina Costa Fernandes, Maria Leone Leal Costa e Júlia Rosalina Brito Neves, que me concederam um autógrafo para a posteridade.
Este é o cenário.
Os bastidores eram porém mais complicados.
Estamos então numa cidade de Faro fechada sobre si própria, quase medieval, marialva num certo sentido .
Pobres e pobreza convivem a rodos.
Cidade fechada.
Muitos de nós sobrevivem com o leite que o Estado Novo fornece impreterivelmente às 10 h da manhã.
Muitos destes miudos dormem nas instalações precárias da Casa dos Rapazes, no Bom João ou perto da Escola Industrial.
Cidade indiferente.
Há um que sobrevive fazendo de ardina, outro de engraxador.
Estou a vê-los aqui, nesta foto, e pergunto-me o que lhes terá acontecido.
Cidade triste em certo sentido.
Em oposição há um certo grupo social que contrasta claramente com a maioria, seja frequentando a Gardy ou andando a cavalo na Rua de Santo António.
Cidade amada.
As injustiças existiram, existem e existirão.
Como diria Osho, não podemos amar o Criador sem amar a Criação.
Descobri que toda a minha família da parte da minha mãe, até finais do século XVII, eram da freguesia de S.Pedro.
Aí vivi os melhores momentos da minha vida, até aos 17 anos.
Continuo a regressar, mas é um facto que ninguém vai duas vezes ao mesmo sítio.
Até sempre.

Casa dos rapazes de Faro

Para o meu amigo Quim

Na sequência de um comentário de um antigo colega meu à minha última entrada, em que recordava o medo que nós tínhamos ao atravessar o Arco do Repouso, a ponto de nos benzermos, tenho que fazer algo para recordar os meus colegas da Casa dos Rapazes.
À falta de génio para o fazer, socorro-me de Dedalus.

"...Os seus dedos tremiam, ao despir-se no dormitório. Disse aos seus dedos que se apressassem. Tinha de se despir e depois ajoelhar e fazer as suas próprias orações e meter-se na cama antes que o gás baixasse, para não ir para o Inferno quando morresse.Tirou as meias, enrolando-as e enfiou rapidamente a camisa de dormir, ajoelhando-se, a tremer, junto da cama, e recitou rapidamente as suas orações, cheio de medo que baixassem o gás. Sentia os ombros a tremer enquanto murmurava:

Deus abençoes o meu pai e a minha mãe e mos conserve!
Deus abençoe os meus irmãozinhos e mos conserve!
Deus abençoe a Lara e o tio Jaime e mos conserve!

Benzeu-se e trepou rapidamente para a cama e, enrolando os pés na fralda da camisa, enroscou-se por baixo dos lençóis brancos e gelados, tiritando. Mas não iria para o Inferno quando morresse; e as tremuras haviam de parar. Uma voz desejou boa noite aos rapazes do dormitório da Casa dos Rapazes. Espreitou rapidamente por cima das cobertas e viu os cortinados amarelos em volta da sua cama que o isolavam por todos os lados. A luz foi baixando,lentamente.

Os sapatos do prefeito afastaram-se. Para onde iria? Desceria a escada e seguiria pelos corredores fora ou iria para o seu quarto? Viu a escuridão. Seria verdadeira a história do cão negro que se passeava pelo dormitório, de noite, com olhos do tamanho de lanternas das carruagens? Dizia-se que era o fantasma de um assassino...."

Eça

Texto escrito por Eça nas"Farpas"em 1871, ano do nascimento do meu bisavô José Joaquim Pereira


O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido

O abutre e o falcão

Guterres foi meu colega no IST.
Um aluno brilhante.
No fim do sétimo ano, ganha interesse pela Física que afirma ter sido a sua "paixão platónica" e acaba o curso liceal com média de 18 valores. O feito chama sobre ele a atenção da "Opus Dei", que o recruta.
Guterres aceita "sem fazer a mínima ideia" do que se tratava (1º sinal de inconsciência)
Abandona a Física e entra na política (2º sinal)
Tenta ser um bom primeiro-ministro.
Tenta ser um bom Alto Comissário da ONU para os refugiados.
O problema é que nós não devemos tentar ser.
Não nos devemos tornar.
Devemos ser.
E António é demasiado honesto para a política.
Ninguém vota num político honesto.
A este propósito vou contar A fábula do Jagudi e do Falcão (in Luis Graça)

É uma fábula guineense relativa ao exercício do poder, aos detentores do poder, aos que são arrogantes e aos que não têm pejo em oprimir, desprezar ou marginalizar os mais fracos, os mais pequenos, os socialmente menos qualificados...
O jagudi (abutre) não é altivo, nobre, aristocrático e guerreiro como o falcão, mas nem por isso deixa de ter o seu lugar na criação e de desempenhar o seu papel na natureza. É certo que é ele pouco ou nada considerado tanto pelos humanos como pelos outros animais.

......À sombra duma árvore, um alto poilão secular, descansa tranquilo um jagudi (abutre). No mesmo ramo em que ele se empoleira, caiado de branco devido aos dejectos de tantos outros que por ali passaram, veio pousar um altivo falcão. Depois de trocarem um breve e seco cumprimento, o falcão, sempre palrador e irrequieto, começou a insultar o jagudi, chamando-o de desprezível, de cobarde, de madraceiro e de muitos outros termos insultuosos e pejorativos que lhe vieram à cabeça, à sua cabeça, louca e leviana. Acusou-o, repetidamente, de ser a mais miserável e feia das criaturas de Deus.O jagudi ouviu tudo, sem nunca ter tido o mais pequenino gesto de impaciência, protesto ou de indignação. Nisto, passa entre os dois, a grande velocidade, uma linda ave, de penas multicolores.Logo o falcão se lançou em perseguição da ave. Mas fê-lo de maneira tão desastrada que por azar foi bater, em cheio com o peito, de encontro a um tronco robusto de uma árvore da floresta que se lhe atravessou no caminho. Louco, cheio de dor, lançando pios lancinantes, caiu ao chão, mortalmente ferido, sobre o tapete de folhas secas.Nesse preciso momento, o abutre levanta voo, com o seu ar pesado e pachorrento, e toma o seu lugar, imperturbável, à cabeceira do moribundo. O falcão, no estertor da agonia, ainda teve tempo de descortinar, horrorizado, a silhueta tenebrosa e agoirenta do jagudi, o seu bico afiado e o seu pescoço descarnado.
E, trémulo, perguntou-lhe:— Que vens aqui fazer, jagudi?
Ao que o abutre respondeu, impávido e sereno:— Aguardo o teu fim.

Joaquim Magalhães

.....E no fundo, não sendo um revoltado, é a chaga aberta de um sofrimento íntimo, provocado por certas injustiças, a fonte dos seus desabafos....

Assim escrevia o Professor Joaquim Magalhães , na Primavera de 1943, na introdução do livro de
António Aleixo, "Este livro que vos deixo".
Estas linhas de Joaquim Magalhães caracterizam totalmente o Professor e o Homem, a quem eu, hoje chamaria sem dúvida o "último aristocrata do ensino no Liceu Nacional de Faro".
O facto de ter sido ele o "secretário" de António Aleixo, como este carinhosamente se lhe referia, é por si só esclarecedor do seu humanismo e consciência .

Mas venho essencialmente recordar o Professor de Francês do ano lectivo de 1963/64.
Penso que já naquela altura o Professor Magalhães tinha atingido aquele estágio só acessível aos eleitos, em que podia seguir cegamente os ditames do seu coração, sem medo de ultrapassar os limites do bem.
A sua voz pausada, o seu equilíbrio emocional, a sua pedagogia e a maneira como geria os conflitos eram de facto a sua imagem de marca.
Lembro-me que logo nas primeira saulas , havendo algum burburinho no fundo da sala (os meus saudosos colegas João Monteiro, Henrique Botto e Pratas.
O Professor Magalhães nada disse.
Sentou-se, calado, e assim permaneceu durante toda a aula.
O burburinho terminou e foi tal o espanto geral, que não se ouviu uma mosca durante 45 minutos.
Foi o silêncio mais ruidoso de toda a minha vida escolar.
Remédio santo.
Mas devo contar outra história, cujos detalhes se perderam, mas de que fica o essencial.
Havia um colega extraordinário, o Teixeira, carinhosamente alcunhado de "Chopin do twist", que vestia sempre um casaco característico, sempre sério, mas com uma capaciadde humorística fantástica.
Bastava olhar para ele para ver que estávamos na presença de um humorista fora de série.
Infelizmente de Francês sabia muito pouco e a sua "pronúncia" era ainda pior que a sua escrita.
Não sei hoje, à distância de 45 anos, se ele o fazia de propósito ou se aquela disciplina nada significava para ele.
Teixeira é chamado pelo Professor Magalhães para ler para a turma um texto em Francês.
Estou a rever a cena e ainda tenho vontade de rir.
Professor Magalhães sentado na sua cadeira, olhos semi-cerrados.
Teixeira pega no texto e começa a soletrar num "francês" absolutamente surrealista, sem pestanejar, sem voltar atrás, sem esboçar a mínima contração no rosto.
Professor Magalhães finge que dorme e mantém-se imperturbável.
A turma aperta a barriga de tanto rir.
Teixeira leva uns bons 20 minutos a ler.
Termina, pede licença para se sentar.
Professor Magalhães anui, e a campainha toca.
Pode dizer-se que fomos salvos pelo gongue, pois já ninguém aguentava aquela cena absolutamente hilariante, com as lágrimas nos olhos de tanto suster o riso.

Não sei o que aconteceu ao Teixeira.
Aliás ainda nem sei bem o que me aconteceu a mim.
Que esteja bem.

O amor aos pés da escada

O amor chega à velocidade da luz e parte à velocidade do som.
Não sou apologista do amor.
Prefiro a paixão.
A velocidade nunca diminui, e nunca nos cansamos do prazer de percorrer o caminho.
Veja-se o caso de D.Juan.
Se amar fosse o bastante, as coisas seriam simples de mais.
Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida. Não é por falta de amor que o D. Juan vai de mulher em mulher.
É ridículo representá-lo como um iluminado em busca do amor total. Mas é porque ele as ama com idêntico entusiasmo e sempre com inteireza, que lhe é necessário repetir esse dom e esse aprofundamento.
Daí todas esperarem ofertar-lhe aquilo que nunca ninguém lhe deu.
De todas as vezes se enganam profundamente e só conseguem fazer-lhe sentir a necessidade de tal repetição.
«Finalmente», exclama uma delas, «dei-te o amor».
E há quem se espante por Don Juan sorrir dessa ingenuidade.
«Finalmente, não», diz ele, «mais uma vez».
Porque seria necessário amar raramente para amar muito?

Este devaneio serve de mote para falar da minha Professora de Ciências entre 1963 e 1965.
Alta, elegante, solta, magrinha até, livre e apaixonada.
Ela contradiz totalmente a minha teoria.
Era vê-la sair do carro do esposo , que amorosamente a deixava à entrada da escadaria do LNF.
Após o beijo apaixonado, ela subia lentamente as escadas.
Ele, em baixo, esperava para a ver voltar-se e dizer adeus, uma, duas três , quatro vezes.
Uma vez contámos cinco.
Cena deliciosa.
Finalmente entrava no átrio e desaparecia da vista do amado esposo.
Ele então arranca, já com saudades dela, e a Professora, sempre sorridente e cantarolando, vai cumprir a missão de ensinar à rapaziada os segredos da vida.
Muitas vezes distante, cantarolando, como que a antever, com um gozo calculado, a hora do reencontro.
Finalmente, não!
Mais uma vez.

Um caso uterino

Fenareta olhou demoradamente o filho, e algumas lágrimas derramou; o parto fora difícil, e ela, que era da profissão, bem o sentira, mas não era por isso que chorava. A razão era outra, e tinha a ver com o pequeno ser que literalmente lhe caira nas mãos: feio, sem traços característicos, mas com uma fisionomia autêntica - tentar conhecê-lo, a esse ser que carregara durante 37 semanas nas suas frágeis entranhas, era inegavelmente uma ocasião para reagir ao desafio do seu enigma.
A um canto, Sofronisco, pai biológico, cuja função tinha sido a de o enviar para as entranhas da mulher, entre duas marteladas na escultura que tivera entre mãos, cofiava a longa e suja barba.
Teria Fenareta tido a percepção que aquele ser nas suas mãos seria o responsável pelo estatuto futuro de menoridade das mulheres?
Teria ela tido essa percepção e nada fizera?
Poderá ser ela, Fenereta, a parteira do século de
Péricles, a causadora remota do declínio do feminino?
Ao não rejeitar pela morte, o seu filho recém-nascido, adquiriu o ónus do pecado que hoje nos conduziu a um referendo em Portugal sobre o aborto.
A tragédia principal da minha vida, pensaria Aristóteles, à beira da morte,é como todas as tragédias, uma ironia do Destino... repugno a vida real do feminino como uma condenação e repugno o sonho como uma libertação ignóbil; sou como um escravo que se embebeda à hora da sesta - duas misérias num corpo só.

Este pequeno devaneio parece-me necessária pois é de Aristóteles, que aprendeu de Platão que aprendeu de
Sócrates, que vem o conceito, que ainda hoje prevalece, que a mulher é um ser descartável, um erro, ou mesmo um equívoco da Natureza.
Por isso cá se discutiu o aborto, e não outra coisa qualquer.
Que referendo teríamos , se fosse a mulher, ou o feminino, o género humano dominante?
Que tipo de pergunta se faria sobre os ógrãos reprodutores masculinos?

Nem quero pensar nisso!
Confesso que gosto muito de mulheres.E por gostar, não quero manietá-las, limitá-las, menosprezá-las.
Chegar ao ponto de QUERER fazer a gestão do seu aparelho reprodutor é algo obsceno.
Até alguns políticos portugueses com a mais alta responsabilidade, que tão mal devem conhecer o interior das mulheres, emitem opinião.
Tudo tem um princípio, uma explicação, mesmo que não a conheçamos.
Mas neste caso, meus caros, nesta questão uterina, só pode haver um culpado: Fenereta, que teve nas mãos a oportunidade de abortar esse processo complexo de pensamento que nos conduziu , em pleno século 21,a mais um degradante episódio da já longa história de menoridade da mulher.
E convem entender o essencial: em dois mil anos, nem uma só promessa de padres ou políticos foi cumprida, contudo todos, incluindo o feminino, continuamos a acreditar neles.

34 anos de democracia

A Democracia não é uma palavra vã; o que tem sido é uma palavra mal compreendida.... Antero de Quental, in Conferências de Casino, 22 de Maio a 19 de Junho de 1871

Skinner estudou homens e ratos sem encontrar qualquer diferença.
Os ratos são simples seres.
O Homem é uma máquina altamente sofisticada.
Os ratos são simples máquinas.
É mais fácil estudar ratos.
É por isso que os psicólogos continuam a estudar ratos.
Estudam ratos e tiram conclusões sobre o homem.
E as suas conclusões estão quase sempre certas.
Será o homem, posto a nu no mundo globalizado, pelas suas limitações, apenas uma forma ampliada de um rato?
O Homem tornou-se muito eficiente a fazer coisas, e como tal, não precisa de usar a consciência.
Tornou-se mecânico,automático.
Como um rato.
Como uma máquina.
Não acredita em milagres.
Nem sequer cumprimenta já os seus semelhantes.
Não corre riscos.
Delega nos seus governantes e nos seus mentores religiosos.
Que têm feito um trabalho extraordinário.
Estamos todos adormecidos.
Seguros.
Mas os ratos ao menos continuam alerta.
Afinal ainda não somos homens.
Somos máquinas, ou ratos.
Comparo o homem, no estado em que vive, a um príncipe que tem um palácio, mas se esqueceu completamente dele, e apenas vive no átrio de entrada, pensando que isso é tudo o que possui.
Como será no 35º aniversário de Abril?

Freya

Toda a vida está por explorar: só conhecemos da vida uma pequena parte - a mais insignificante. E o erro provém de que reduzimos a vida espiritual ao mínimo, e a vida material ao máximo.
O homem é um ser finito ligado a todo o Universo.
E o segredo não é a adaptação a uma sociedade qualquer, a uma profissão qualquer...seja no País do Sol Nascente, na Noruega ou no Darfur....o segredo está na harmonia com o cosmos.
Deus é eterno com a máscara sempre renovada.
Deus, que olha pelos nossos olhos e fala pela nossa boca, há-de acabar por falar claro...

Valério

Não se pode falar do meu colega e amigo JOSÉ VALÉRIO TAVARES RIJO, o homem das "Quatro Estradas", sem falar do epigrama de Bocage, que se apresenta um pouco mais abaixo.
(...Influenciados pelos epigramas gregos e latinos, e especialmente pelos do epigramista latino
Marcial, os escritores portugueses do século XVIII compuseram um grande número de composições dessa natureza, atacando, entre outros, classes profissionais (médicos, oficiais de justiça, barbeiros), mulheres, bêbedos e inimigos em geral).

Levando um velho avarento
Uma pedrada no olho,
Põe-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.
Certo doutor, não das dúzias,
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.
"Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro eu dou por isso."

Com a declamação deste epigrama, Valério Rijo conseguiu o primeiro lugar de declamação numa récita liceal.
A sua mímica, aliada ao seu sinal facial característico, davam-lhe um poder interpretativo, dramático, que fazia dele um excelente declamador.
Era impossível não gostar dele, como amigo e colega, e também como artista.
Lembro-me da nossa despedida , nas grades do Liceu, do lado da Capela de Santo António, em Junho de 1968, olhando já com saudades o velho edifício liceal, onde passáramos sete dos melhores anos da nossa vida.
Encontrámo-nos depois na RUPN (Residência Universitário Pedro Nunes), na Rua Pedro Nunes, Nº 2, nas Picoas em Lisboa.
Residência universitária dos SS (Serviços Sociais), habitada, segundo um relatório da PIDE/DGS, a que tivemos acesso mais tarde,"algarvios, alentejanos e demais gente de mau porte".
De facto os 4 andares que formavam a residência eram na sua quase totalidade habitado spor estudantes do Algarve, Alentejo e Brasil.
Cedo os dotes artísticos declamativos de Valério Rijo doram descobertos na RUPN, e houve quem tivesse montado um ritual, em que diversos estudantes declamavam, perante toda a residência (eram aí uns cinquenta estudantes apinhados num quarto de 15 metros quadrados).
Reginaldo Faria Gonçalves, o homem de Tunes, aproveitando então a habilidade declamativa de Valério, combinou com alguns outros colegas mais velhos, uma sessão em que apareceu um "crítico literário"(não era mais do que um colega de outra Faculdade, salvo erro da Faculdade de Ciências).
O quarto de Reginaldo estava apinhado.
Estou a ver a cena.
Separados pelo tampo da escrivaninha, Valério lia os poemas, enquanto do outro, o "crítico literário", mordiscando um cachimbo para não rir, e escondendo as lágrimas por trás de uns espessos óculos de lentes não graduadas, fazia o seu papel.
No final, perante a crítica extremamente positiva, e com a promessa de se contactar o escritor José Régio, na altura docente em Portalegre, Valério, em lágrimas é levado em ombros pelos diversos pisos da RUPN.
Confesso que ainda hoje desconfio que Valério sabia que tudo não passava de uma brincadeira, e que até ao fim esteve a "gozar o pratinho".
Espero que assim tenha sido.
No fim tudo se esclareceu, quando num almoço na Faculdade de Ciências, a que recorríamos muitas vezes, dada a falta de qualidade da cantina do IST, Valério Rijo encontrou o falso crítico, que mais não era que um colega também com dotes artísticos.
Espero que Valério me leia e que ainda o possa contactar em vida.
Um abraço do teu amigo

O Burro lusitano

Enquanto houver burros tem de haver quem os pique.... dizia o meu colega Walter Fernandes, no meu primeiro emprego, por sinal na Holanda.
E nunca uma frase veio tão a propósito como agora, que se anuncia a "rentrée" política de Santana Lopes.
Sabemos que hoje a velocidade do esquecimento é proporcional à intensidade da "vida" moderna.
Mas qual será a fórmula matemática para a intensidade da estupidez?
É certo que os eleitores portugueses andam tão distraídos que até reelegem os Presidentes da República de 5 em 5 anos.
Que a malta nova nem sabe quem tem a maioria no parlamento.
É certo.
Mas repare-se neste caso concreto.
O homem foi enxovalhado, corrido a pontapé por excesso de incompetência, até adjectivado de truculento e trauliteiro por um outro cromo teórico dos media.
Que agora parece apoiá-lo (será para ter tema para novas conversas em família, daqui a uns tempos?)
Retirou-se mas agarrou-se pelas unhas às asas do outro tacho que nunca chegara a largar.
Andou por aí.
Sobreviveu , como todos aqueles da sua geração que andavam com o pai na algibeira.
Como mais nada sabe fazer de útil, sempre espreitou pelo buraco que os outros iam fazendo, e agora aí está de novo.
Eu farto-me de rir destes "gags", apenas superados em qualidade pelos que vêm do Atlântico .
Agora, à semelhança dos treinadores de futebol que ficaram no desemprego, aí está a dizer como se faz.
E nunca erra.
Como os generias de 5 e mais estrelas que vêm comentar aquelas guerras dos outros,no horário nobre da televisão.
É claro que esses generais só dizem generalidades, não são candidatos a nada.
São mais inofensivos.
Outra coisa que não posso deixar de notar é que esta "rentrée" anunciada aparece no Verão.
Como aqueles amantes de "sexo frio", que só conseguem arranjar fêmea nos períodos quentes.
E já (re)começaram as promessas, aquelas que não foram cumpridas anteriormente, e que agora o recandidado sabe que não puderá uma vez mais cumprir, e que não tem a mínima vontade de cumprir.
Enquanto houver burros....