Fenareta olhou demoradamente o filho, e algumas lágrimas derramou; o parto fora difícil, e ela, que era da profissão, bem o sentira, mas não era por isso que chorava. A razão era outra, e tinha a ver com o pequeno ser que literalmente lhe caira nas mãos: feio, sem traços característicos, mas com uma fisionomia autêntica - tentar conhecê-lo, a esse ser que carregara durante 37 semanas nas suas frágeis entranhas, era inegavelmente uma ocasião para reagir ao desafio do seu enigma.
A um canto, Sofronisco, pai biológico, cuja função tinha sido a de o enviar para as entranhas da mulher, entre duas marteladas na escultura que tivera entre mãos, cofiava a longa e suja barba.
Teria Fenareta tido a percepção que aquele ser nas suas mãos seria o responsável pelo estatuto futuro de menoridade das mulheres?
Teria ela tido essa percepção e nada fizera?
Poderá ser ela, Fenereta, a parteira do século de Péricles, a causadora remota do declínio do feminino?
Ao não rejeitar pela morte, o seu filho recém-nascido, adquiriu o ónus do pecado que hoje nos conduziu a um referendo em Portugal sobre o aborto.
A tragédia principal da minha vida, pensaria Aristóteles, à beira da morte,é como todas as tragédias, uma ironia do Destino... repugno a vida real do feminino como uma condenação e repugno o sonho como uma libertação ignóbil; sou como um escravo que se embebeda à hora da sesta - duas misérias num corpo só.
Este pequeno devaneio parece-me necessária pois é de Aristóteles, que aprendeu de Platão que aprendeu de Sócrates, que vem o conceito, que ainda hoje prevalece, que a mulher é um ser descartável, um erro, ou mesmo um equívoco da Natureza.
Por isso cá se discutiu o aborto, e não outra coisa qualquer.
Que referendo teríamos , se fosse a mulher, ou o feminino, o género humano dominante?
Que tipo de pergunta se faria sobre os ógrãos reprodutores masculinos?
A um canto, Sofronisco, pai biológico, cuja função tinha sido a de o enviar para as entranhas da mulher, entre duas marteladas na escultura que tivera entre mãos, cofiava a longa e suja barba.
Teria Fenareta tido a percepção que aquele ser nas suas mãos seria o responsável pelo estatuto futuro de menoridade das mulheres?
Teria ela tido essa percepção e nada fizera?
Poderá ser ela, Fenereta, a parteira do século de Péricles, a causadora remota do declínio do feminino?
Ao não rejeitar pela morte, o seu filho recém-nascido, adquiriu o ónus do pecado que hoje nos conduziu a um referendo em Portugal sobre o aborto.
A tragédia principal da minha vida, pensaria Aristóteles, à beira da morte,é como todas as tragédias, uma ironia do Destino... repugno a vida real do feminino como uma condenação e repugno o sonho como uma libertação ignóbil; sou como um escravo que se embebeda à hora da sesta - duas misérias num corpo só.
Este pequeno devaneio parece-me necessária pois é de Aristóteles, que aprendeu de Platão que aprendeu de Sócrates, que vem o conceito, que ainda hoje prevalece, que a mulher é um ser descartável, um erro, ou mesmo um equívoco da Natureza.
Por isso cá se discutiu o aborto, e não outra coisa qualquer.
Que referendo teríamos , se fosse a mulher, ou o feminino, o género humano dominante?
Que tipo de pergunta se faria sobre os ógrãos reprodutores masculinos?
Nem quero pensar nisso!
Confesso que gosto muito de mulheres.E por gostar, não quero manietá-las, limitá-las, menosprezá-las.
Chegar ao ponto de QUERER fazer a gestão do seu aparelho reprodutor é algo obsceno.
Até alguns políticos portugueses com a mais alta responsabilidade, que tão mal devem conhecer o interior das mulheres, emitem opinião.
Tudo tem um princípio, uma explicação, mesmo que não a conheçamos.
Mas neste caso, meus caros, nesta questão uterina, só pode haver um culpado: Fenereta, que teve nas mãos a oportunidade de abortar esse processo complexo de pensamento que nos conduziu , em pleno século 21,a mais um degradante episódio da já longa história de menoridade da mulher.
E convem entender o essencial: em dois mil anos, nem uma só promessa de padres ou políticos foi cumprida, contudo todos, incluindo o feminino, continuamos a acreditar neles.
Confesso que gosto muito de mulheres.E por gostar, não quero manietá-las, limitá-las, menosprezá-las.
Chegar ao ponto de QUERER fazer a gestão do seu aparelho reprodutor é algo obsceno.
Até alguns políticos portugueses com a mais alta responsabilidade, que tão mal devem conhecer o interior das mulheres, emitem opinião.
Tudo tem um princípio, uma explicação, mesmo que não a conheçamos.
Mas neste caso, meus caros, nesta questão uterina, só pode haver um culpado: Fenereta, que teve nas mãos a oportunidade de abortar esse processo complexo de pensamento que nos conduziu , em pleno século 21,a mais um degradante episódio da já longa história de menoridade da mulher.
E convem entender o essencial: em dois mil anos, nem uma só promessa de padres ou políticos foi cumprida, contudo todos, incluindo o feminino, continuamos a acreditar neles.
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