domingo, 11 de março de 2012

O amor aos pés da escada

O amor chega à velocidade da luz e parte à velocidade do som.
Não sou apologista do amor.
Prefiro a paixão.
A velocidade nunca diminui, e nunca nos cansamos do prazer de percorrer o caminho.
Veja-se o caso de D.Juan.
Se amar fosse o bastante, as coisas seriam simples de mais.
Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida. Não é por falta de amor que o D. Juan vai de mulher em mulher.
É ridículo representá-lo como um iluminado em busca do amor total. Mas é porque ele as ama com idêntico entusiasmo e sempre com inteireza, que lhe é necessário repetir esse dom e esse aprofundamento.
Daí todas esperarem ofertar-lhe aquilo que nunca ninguém lhe deu.
De todas as vezes se enganam profundamente e só conseguem fazer-lhe sentir a necessidade de tal repetição.
«Finalmente», exclama uma delas, «dei-te o amor».
E há quem se espante por Don Juan sorrir dessa ingenuidade.
«Finalmente, não», diz ele, «mais uma vez».
Porque seria necessário amar raramente para amar muito?

Este devaneio serve de mote para falar da minha Professora de Ciências entre 1963 e 1965.
Alta, elegante, solta, magrinha até, livre e apaixonada.
Ela contradiz totalmente a minha teoria.
Era vê-la sair do carro do esposo , que amorosamente a deixava à entrada da escadaria do LNF.
Após o beijo apaixonado, ela subia lentamente as escadas.
Ele, em baixo, esperava para a ver voltar-se e dizer adeus, uma, duas três , quatro vezes.
Uma vez contámos cinco.
Cena deliciosa.
Finalmente entrava no átrio e desaparecia da vista do amado esposo.
Ele então arranca, já com saudades dela, e a Professora, sempre sorridente e cantarolando, vai cumprir a missão de ensinar à rapaziada os segredos da vida.
Muitas vezes distante, cantarolando, como que a antever, com um gozo calculado, a hora do reencontro.
Finalmente, não!
Mais uma vez.

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