terça-feira, 24 de outubro de 2017

A Segunda vida do Ditador - 2º Capítulo

O doutor Octávio Mesquita era o chefe da Casa Civil da Presidência da República. Estava nessa função desde o início do segundo mandato presidencial. Era ainda um jovem político, na casa dos trinta anos, mas já com uma assinalável folha de serviços prestados ao partido enquanto líder dos jovens sociais-democratas. Conhecia bem o aparelho e também a forma de o contornar. A política estava-lhe no sangue pelos genes paternos e foi sem qualquer dificuldade ou hesitação que decidiu integrar a maçonaria quando ainda era estudante universitário. O seu nome surgira durante um encontro semanal do Presidente do partido de governo com o mais alto magistrado da nação. 
O convite surpreendeu-o num pequeno período de férias que gozava no Algarve. A princípio ficou aborrecido pois contava ser considerado ministeriável aquando da futura remodelação governamental. Esboçou a birra institucional em sede própria, mas os barões e o primeiro-ministro acabaram por convencê-lo de que aquela seria a jogada política mais acertada na conjuntura que atravessavam.
“De facto sempre fui bom a espiar e a condicionar” - reconheceu na altura, e o seu ego ficou apaziguado. Desconfiou da argumentação, é certo, mas reconsiderou.
- Há muitos cães para cada vez menos ossos - lembrou-lhe a esposa, sempre boa conselheira.
Reconheceu mérito na observação da cara-metade, e como era um otimista, rapidamente vislumbrou uma oportunidade única naquela nomeação inesperada.
- Problema, oportunidade - decidiu, enquanto emborcava de um trago o scotch de vinte cinco anos que um conhecido empresário lhe tinha oferecido no Natal.
Estava atrás de uma janela no interior da estufa de inverno que a primeira-dama mandara construir em lugar estratégico no imenso jardim do palácio. Observava através de uma enorme parede envidraçada o que se passava alguns metros adiante.
O Presidente, envergando um avental com as cores nacionais, ia explicando a uma dúzia de alunos do colégio alemão e respectiva Professora, a técnica mais correta para plantar um arbusto exótica naquele ambiente, enquanto enunciava os nomes em latim de todas as árvores que ali cresciam de uma forma exuberante.
Como sempre sucedia em situações semelhantes, o Presidente estava solto e desinibido. Até parecia que tinha nascido para aquilo. Sorria, esbracejava e até conseguia gracejar, contando as histórias do costume. Nada que se comparasse à postura rígida que assumia quando tinha que se pronunciar sobre um tema delicado ou dirigir-se à nação em momento de solenidade.
Octávio tremia cada vez que o Presidente tinha que se dirigir ao país pelas televisões. Não tinha muita vocação para rever os textos que os consultores produziam, mas era o processo criativo que o preocupava particularmente. Havia uma reunião preparatória, na sala azul, em que o Presidente apresentava o tópico do comunicado aos seis consultores literários, quatro rapazes e duas raparigas que ele mesmo entrevistara e contratara. Teria preferido que todos eles fossem profissionais da escrita de reconhecida capacidade, mas havia que dar prioridade a certos pedidos que era impossível ignorar. Em suma, não confiava muito na capacidade daqueles jovens licenciados que fora obrigado a admitir, e por isso conseguiu convencer o mais alto magistrado da nação a contratar uma empresa de revisão literária para dar a pedra de toque aos comunicados oficiais. Ficava mais descansado.
O Presidente tinha sido bem explícito aquando do seu primeiro encontro:
- Meu caro Octávio, neste segundo mandado não quero cansar-me muito. A idade vai pesando e quero apenas levar até ao fim esta minha missão patriótica de representar este povo. Por vezes pergunto-me se ele merece o meu sacrifício e o da minha mulher.
Os seis consultores tinham setenta e duas horas para produzir um texto que o chefe da Casa Civil deveria ler em voz alta para que se constatassem alguns erros de forma ou conteúdo. Era a fase crítica pois no fundo seria ele a decidir aquilo que o povo iria ouvir pela voz presidencial. Isso comovia-o, levando-o por vezes às lágrimas no silêncio do seu gabinete, na ala norte do palácio. O processo terminava com um ensaio televisivo efetivado por uma empresa publicitária especialmente contratada para o efeito.
- É caro mas vale a pena - disse-lhe o Presidente uma vez - pelo menos ficamos com a garantia de que tudo corre bem, com a dignidade que o momento requere.
Octávio coçou o nariz com o indicador direito, sinal de que tinha terminado a visita ao passado, e focou-se no momento. Voltou a concentrar-se naquilo que conseguia observar lá ao fundo, no jardim, no sector das árvores tropicais. A cena era idêntica a tantas outras que já testemunhara, mas tinha o sortilégio de sempre o surpreender. Como aquele filme de culto que visualizamos vezes sem fim sempre com o mesmo entusiasmo.
O Presidente estava acompanhado por um engenheiro florestal italiano recentemente contratado como consultor paisagista, e por dois jardineiros que lhe indicavam a melhor maneira de utilizar a pá. Eram estes dois funcionários do palácio os únicos que trabalhavam, na verdadeira aceção do termo. Também eram os únicos que envergavam fato de trabalho. O Presidente e o engenheiro envergavam fato de gala, preparados para o almoço que a presidência ofereceria aos alunos e à Professora do Colégio Alemão.
“Talvez caia bem junto da Senhora Merkel” - confidenciara-lhe o Presidente quando ele lhe transmitiu o pedido daquele prestigiado estabelecimento de ensino.
- Há certas pessoas que precisavam de uma boa pazada - gracejou, e a pequenada riu muito. Educadamente, a um tom, sem exageros. Tudo muito protocolar, perante o ar de autoridade sem autoritarismo da jovem Professora.
A criançada parecia gostar e escutava ordeiramente e com toda a atenção as explicações do primeiro magistrado da nação.
- Se as nossas crianças fossem assim - disse o Presidente olhando distraidamente para o vazio - talvez um dia pudéssemos ter o sucesso do povo alemão.
A Professora anuiu e o engenheiro sorriu luminosamente, fazendo um gesto intraduzível com os dois braços, num movimento largo. Parecia mais interessado na Professora, jovem e atraente, do que no processo de plantação.
Entretanto José Soares subia a rampa de acesso à Casa Civil. Com um ar preocupado. Tinha que pensar bem naquilo que iria dizer ao doutor Octávio. Detestava aquele seu ar de superioridade, aquele sorriso permanente de quem se julga mais esperto que todos. Mas tinha que ignorar isso. Abandonar o ego. E quem sabe? Talvez aquela estranha visita viesse agitar as águas, fosse uma espécie de pedrada no charco, um sinal do além. Não podia era cair no ridículo ou passar por lunático. A aproximação ao assunto tinha que ser feita com diplomacia e nisso ele era bom. Para sobreviver naquele mundo tinha que ser especialista na arte de falar sem se comprometer.
- O Senhor Doutor está na estufa de inverno a dar assistência ao senhor Presidente - diz o secretário do Chefe da Casa Civil, em surdina, mas denotando alguma irritação - Não pode ser incomodado.
- Mas olhe Dr. Godinho, que o assunto é extremamente importante - insiste o coronel José Soares, o que leva o secretário a esboçar um trejeito de irritação, que logo substitui por um rasgado sorriso, enquanto diz:
- Espere só um momento, por favor. E qual é a urgência?
- Uma visita de Estado inesperada - diz o coronel, algo atrapalhado, mas logo se arrependeu da frase.
O secretário franze a testa surpreendido com o facto. Ia dizer qualquer coisa mas hesitou e depois encaminhou-se na direcção da enorme porta em madeira dourada, com um passo ritmado. A porta fechou-se e o coronel respirou fundo. Aquela sala era uma autêntica antecâmara da morte. Paredes lisas e vazias, sem qualquer quadro ou cadeira. Desconfortável ao máximo. Feita de propósito para ser evitada.
Godinho regressou passados alguns minutos. Tinha de novo aquele semblante neutro que tanto poderia significar tristeza ou alegria, violência ou calma, interesse ou afastamento. Voltara ao normal e foi com aquele tom monocórdico habitual, que lhe disse:
- O senhor doutor Octávio Mesquita vai recebê-lo agora.
José Soares agradeceu e encaminhou-se para a porta dourada. Parecia aliviado por poder abandonar a antecâmara. Inverteram-se os papéis. Agora era o coronel que saia enquanto o secretário o observava com aparente indiferença.
- Bom dia coronel Soares - diz Octávio Mesquita, sem se voltar. Ouviu seguramente os passos do militar no soalho e talvez tivesse visto o seu reflexo na vidraça.
- Bom dia senhor doutor. Surgiu um assunto inesperado que urge resolver.
- Coronel - dia Mesquita com um ar ironicamente sério - não há nada mais importante neste momento do que aquela lição de natureza que o senhor Presidente está a dar aos alunos do colégio alemão.
- Acho que era do seu interesse acompanhar-me à rampa do portão sul.
- Mas de que visita de Estado se trata? Não há nada na minha agenda.
José Soares ia responder, mas Octávio Mesquita volta-se subitamente, algo preocupado:
- Seria uma falha imperdoável se eu me tivesse esquecido de alguma receção importante, não acha?
Os dois homens eram praticamente da mesma altura e estavam agora a pouca distância um do outro. Não nutriam grande amizade um pelo outro. O militar via no político um oportunista e o político via no militar uma ameaça.
- Acho que está ali o Ditador - disse por fim.
- Quem?
- O Ditador.                                  
- Qual deles? - ironiza.
- O Presidente do Conselho. O Professor.
Octávio Mesquita ficou alguns segundos a olhar para o outro com uma cara aparvalhada. Depois colocou a mão direita na testa, olhou para o relógio de pulso, de seguida afastou-se na direcção da vidraça. Talvez estivesse a sonhar, andava cansado ultimamente. Desenvolvera a técnica de voltar atrás no tempo pelo simples facto de regressar à posição inicial. Aprendeu a técnica num daqueles livros da moda que ensinavam a encontrar o espaço interior. Geralmente resultava. Fazia isso quando uma conversa não lhe agradava, ou não tinha uma resposta adequada. Voltando ao início ganhava tempo e tinha a esperança que nada daquilo tivesse existido. Olhou para o exterior durante alguns segundos. Lá estava o Presidente a escavar um buraco com as estudantes à volta.
“Parece feliz” - pensou.
Voltou-se de seguida, com um movimento brusco. Afinal o chefe da segurança ainda ali estava. Que chatice. Afinal aquele diálogo tinha mesmo acontecido.
“Se calhar não me esforcei o suficiente para encontrar o meu Ser” - decidiu.
Afastou-se da vidraça e com um discreto aceno de cabeça, convidou José Soares a acompanhá-lo até uma zona interior da estufa, de onde não podiam ver nem serem vistos. Estava verdadeiramente incomodado com aquela interrupção.
- Você só pode estar a brincar, coronel. Anda a ver fantasmas e isso não é compatível com as funções que desempenha.
- Acredito que isto lhe pareça uma loucura. Eu próprio fiquei surpreendido e é por isso que vim falar consigo. Imagine que se trata de alguma manobra política por parte da oposição.
- Parece que está mesmo a falar a sério. Onde é que está esse indivíduo?
- Ainda está no táxi, mas já no interior do palácio.
- Pode ver-se do lado de dentro?
- Sim, doutor. Tive o cuidado de mandar o carro estacionar bem perto da janela norte da ala da portaria.
Octávio Mesquita segue a passo apressado na direcção da porta que dava acesso ao corredor da portaria. José Soares tem alguma dificuldade em segui-lo de perto e quase corre.
- Mais alguém está a par disto?
- Só o tenente Miguel Maia, o taxista e talvez o guarda de serviço no portão exterior.
- O taxista é de confiança?
- Parece que é ucraniano mas é inofensivo.
- Nunca fiando, coronel, nunca fiando. E há que ter muito cuidado com os ucranianos. Não se esqueça do conflito latente com os russos.
- Onde é que está o táxi? - pergunta Octávio, espreitando pela janela.
- Mudaram-no para o lado da sombra. Está ali mais à direita - diz Soares depois de olhar através da janela - O tenente Maia está com eles.
O Chefe da casa Civil espreita pela janela, depois olha com alguma preocupação para o coronel e volta a concentrar-se no banco traseiro da viatura. Volta a olhar para José Soares segurando com a mão esquerda no cortinado, mantendo a boca aberta. Estava lívido.
- Macacos me mordam. Parece mesmo o Ditador.
Octávio caminha de um para o outro lado da sala, afagando o queixo com o indicador e polegar direitos. O coronel estava perfilado esperando instruções, e no seu íntimo sentia uma inexplicável satisfação. Talvez algo estivesse para acontecer. Não sentia grande simpatia por aqueles rapazinhos, como lhes chamava, aqueles boys que olhavam para os militares como se fossem cães amestrados a quem atiravam uns ossos de vez em quando para que os defendessem quando fosse necessário. Tomaram de assalto o poder, que distribuíam entre si sem pudor algum, com absoluto desprezo pelo sofrimento das pessoas.
- Vou ter de avisar o Presidente - diz finalmente Octávio Mesquita - Fazemos assim, coronel. Encaminhe o visitante para o gabinete das visitas sociais inesperadas, e diga ao meu secretário o que se passa. Ele que não o perca de vista.
- Com certeza, doutor.
- Não. Ele que fique sozinho. É melhor assim - reconsiderou Mesquita, com o indicador no ar e os olhos cravados no soalho. Era a sua posição preferida quando raciocinava sob pressão - E nem uma palavra a ninguém. Já há muita gente a par da ocorrência. Imagine se as televisões sabem deste furo. 
- E que faço com o taxista?
- Mande-o embora mas dê-lhe a entender que os seus comentários poderão ter consequências. Entende? Entretanto mande o SEF investigá-lo. Pode ser que esteja ilegal.
- Entendido, doutor.
Os dois homens separaram-se. José Soares dirigiu-se para o exterior. O sol brilhava intensamente e começava a aquecer depois de um inverno extraordinariamente rigoroso. Octávio Mesquita caminhava devagar em direcção à estufa. Tinha que pensar bem na estratégia a seguir. Essencialmente deveria concentrar-se na sua posição. Não podia de forma alguma cometer qualquer deslize que o descredibilizasse perante o Presidente. O segredo residia na maneira como daria a notícia. Olhou para o relógio. Onze e meia. A visita das alunas da escola alemã estava quase a terminar, mas era conhecido que o Professor se entusiasmava com aquela cena da agricultura e perdia a noção do tempo. Talvez se tivesse perdido um excelente agricultor. E em vez disso surgiu um político de qualidade duvidosa. Tentou afastar esses pensamentos perigosos. Os livros que andava a ler sobre autoconhecimento traiam-no em alturas críticas. Mas a verdade é que todos aqueles que se tornam naquilo que não são ficam sempre a perder. Esperou um pouco mais. Talvez não fosse bom interromper aquela autêntica aula sobre a melhor forma de plantar uma árvore contra o vento.
Olhou de novo para o relógio. O Presidente tinha uma agenda apertada naquela quinta-feira. O almoço seria servido perto da uma, depois havia o repouso de meia hora na sala azul, ouvindo Bach. A primeira-dama não estava, felizmente. Tudo se complicava quando ela se intrometia na agenda oficial. Fora ao Algarve passar dois dias na casa de praia que acabara de ser entregue.
“Mesmo a tempo da visita da princesa do Mónaco, no início do verão” - dissera, quando recebeu a confirmação do construtor.
Às quinze horas chegava o novo embaixador do Burundi para apresentar cumprimentos e credenciais e pelas dezassete chegava o primeiro-ministro para a reunião semanal. Não se podia esquecer de lhe dar uma palavrinha. Recordar-lhe a promessa feita de o guindar a uma posição de relevo na hierarquia partidária. Era evidente que o primeiro-ministro apostara tudo na Europa durante a sua legislatura, não se importando de ficar queimado no país. A mensagem era simples: quem vier atrás que feche a porta. Passaria uns anos como dirigente algures na Europa, em Bruxelas onde poderia seguir as pisadas do Presidente da Comissão. Passaria então a defender os ideais de progresso, seria uma voz portuguesa no mundo civilizado, e com sorte, passado o tempo necessário para atingir a moralidade, surgiria como candidato natural a Belém.
“A memória de facto é muito curta e tudo pode ser desmentido” - pensou, imaginando-se já na pele de futuro primeiro-ministro.
O movimento no exterior libertou-o dessas cogitações e devolveu-o à realidade. Saiu da estufa e com o seu melhor sorriso dirigiu-se para o exterior. Cumprimentou efusivamente a elegante Professora alemã, a quem depositou dois beijos pouco protocolares, cumprimentou o engenheiro italiano com movimentos amplos de mãos tão ao gosto transalpino e por fim deu os parabéns reverenciais ao Presidente, que não cabia em si de contente. Limpava as mãos a um pano perfumado que um dos jardineiros lhe entregou e foi com um largo sorriso nos lábios que expressou o que lhe ia na alma. Via-se que gostava daqueles encontros na natureza. Já o seu semblante se fechava nas reuniões políticas e nas receções protocolares.
- Sabe como é, Mesquita. Quando se tem o bichinho da terra no corpo…
- Muito mais agradável que estar fechado num gabinete - atreveu-se Octávio.
- Nem me fale nisso meu rapaz. Se quer um conselho, nunca se meta nisto.
As despedidas foram feitas já no interior da estufa, onde uma secretária presidencial oferecia aos jovens visitantes e à sua Professora uma lembrança presidencial.
Um último adeus, ainda com o sorriso protocolar, e por fim ficaram sós.
- Que temos agora, Octávio? - pergunta o Presidente, ainda com um vago sorriso estampado no rosto.
- Uma visita inesperada, senhor Professor.
- Sabe bem que detesto surpresas, Mesquita. O programa tem que ser previamente aprovado, como sabe.
- Permito-me aconselhá-lo a abrir uma exceção, senhor Presidente. Com o devido respeito.
- E quem é essa visita surpresa? Algum familiar, presumo, a pedir algum favor.
- Não, senhor Presidente. Pedia-lhe que verificasse por si mesmo. Está na sala das visitas sociais inesperadas, com o doutor Godinho.
O Presidente olha para o relógio de pulso e decide que ainda tem alguns minutos. Precisava de se refrescar, passar a água pelo rosto, voltar a pentear-se.
- Que falta que a minha mulher faz aqui. Mandava-a receber essa visita em meu lugar. É para isso que serve a primeira-dama - graceja.
Depois recompõe-se e coloca a máscara de primeiro magistrado. O Presidente abandonara definitivamente o papel do camponês e assumira a postura do homem de estado que nunca se engana e raramente tem dúvidas.
- Acha mesmo que devo perder tempo? Olhe que fica à sua responsabilidade, doutor Mesquita.

- Sinto que devo correr esse risco, senhor Presidente.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A segunda vida do ditador, primeiro capítulo

H. P. Bellis





A segunda vida do Ditador


Quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014









Ninguém desce duas vezes o mesmo rio
HERÁCLITO



  

Ainda hesitou mas acabou por se colocar na fila do elétrico, mesmo em frente ao ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Olhou demoradamente para os edifícios que tão bem conhecia e que davam corpo àquele espaço a que muitos chamavam sala de visitas da cidade de Lisboa.
A pergunta que lhe queimava a alma permaneceu escondida atrás da surpresa, mas por vezes espreitava.
“Que faço eu aqui no meio da multidão?”
Limitou-se a seguir o exemplo das outras pessoas. Não fazia a menor ideia de como ali tinha chegado. Talvez tivesse sido acometido daquela perturbação transitória da mente a que alguns chamavam amnésia seletiva. A verdade é que parecia haver um enorme hiato na sua memória.
“O célebre hiato de dor?”
Não acreditava na teoria fantasiosa das abduções ou dos arrebatamentos, apesar de ter sido um fervoroso estudioso do livro sagrado, mas aquela situação encaixava-se plenamente nessa tese defendida por alguns cientistas lunáticos que juram a pés juntos que não estamos sozinhos no Universo.

 “Estarei a sonhar?” - interrogou-se a determinada altura, optando pelo óbvio, mas depressa confirmou que tudo aquilo se passava em tempo real. Era demasiado verdadeiro. Os ruídos, os cheiros, algumas pessoas com uns estranhos tampões nos ouvidos, os aparelhos que quase todos tinham nas mãos e onde tocavam com os dedos num pequeno teclado, as palavras incompreensíveis que pronunciavam num português estranho. 


Frases e interjeições cujo sentido lhe escapava, que pareciam um código. Aguçou os ouvidos e assumiu uma posição de observador atento.
O que mais o impressionava, contudo, era o facto de muitos falarem sozinhos, esbracejando ou mesmo praguejando, como se tivessem enlouquecido. Deu por si a tentar arranjar uma explicação para isso, mas depressa desistiu.
“Valha-me a Virgem Maria” - pensou, em desespero, mas depois acalmou-se. Baixou um pouco a cabeça, sobre a esquerda, como sempre fazia quando buscava um argumento inteligente, mas nada acontecia. Aparentemente perdera a capacidade de arranjar uma boa explicação. Aquilo ultrapassava-o.
À medida que o tempo passava, ia sentindo alguma perturbação. Olhou discretamente para as pessoas que estavam na fila do elétrico, como se receasse o seu julgamento. Subitamente sobressaltou-se. Lembrou-se da explicação mais simples.
“Estarei morto?” - pensou, e o seu coração disparou, enquanto olhava demoradamente para os pés. Ficou perturbado ao ter consciência dos dois objetos que trazia consigo. Na mão direita uma pasta preta e na esquerda um guarda-chuva da mesma cor que parecia desajustado pois estava um dia de calor intenso. Instintivamente virou-se para trás com um ar alucinado, procurando ajuda, apalpou o peito e finalmente acalmou.
A rapariga que o precedia na bicha ainda levantou os olhos do pequeno aparelho que segurava delicadamente nas mãos, e sorriu beatificamente esperando a pergunta que não surgiu. O coração regressou subitamente a um ritmo normal.
Esboçou uma leve tentativa de fazer a pergunta que lhe queimava os lábios, mas conteve-se a tempo.
“Felismina?” - pensou, e o coração disparou de novo mas desta vez não foi atrás da emoção.
Arrependeu-se no último momento e voltou-se para a frente. Respirou fundo durante algum tempo. Essa técnica de relaxamento era infalível.
“Estarei ainda anestesiado?” - interrogou-se, e lembrou-se das experiências de quase morte que já tinha lido algures.
“Será que estou em coma?” - sobressaltou-se durante uns segundos, mas depressa se acalmou. Era tudo demasiado real.
Recordava pouca coisa. Era importante revisitar esses momentos pois havia demasiados hiatos.
O seu cérebro fervilhava. Tinha que fazer um esforço de memória. Talvez assim encontrasse um fio condutor.
A beleza da rapariga despertou-lhe a memória adormecida. Curiosamente recordava com clareza o seu passado mais distante enquanto o recente permanecia envolto em misteriosa névoa.
Felismina! Subitamente lembrou-se da esbelta professora que se sentiu atraída por ele de uma forma irresistível na edílica e pacata cidade de Viseu, um mundo remoto rodeado de pinheiros e pedras onde pessoas e animais conviviam pacatamente . Um mundo bucólico afastado das convulsões sociais da capital.
Às primeiras palavras trocadas, de fugida, no átrio da Igreja que ambos frequentavam, ela confessou que se sentira atraída pelo seu aspecto distinto, o ar reservado, o azul das olheiras e o perfil a lembrar Holmes, o célebre detetive de Conan Doyle.
As recordações distantes chegavam-lhe aos repelões e a certa altura receou estar a falar sozinho em voz alta. Olhou discretamente em seu redor, mas tudo estava na mesma. A jovem atrás dele sorriu uma vez mais. Talvez ele se estivesse a comportar de uma forma cómica. Ela tinha agora uns tampões nos ouvidos ligados a uns fios que desapareciam num bolso das calças.
O movimento na praça aumentava de intensidade. Todos pareciam correr.
Era um introvertido frequentemente assaltado por fundas depressões e Felismina não demorou muito tempo a descobrir essa sua interioridade. O jovem seminarista indiciava uma personalidade complexa naquele mundo interior que se mantinha encerrado mesmo nos fugazes momentos de intimidade no adro da Igreja ou nos claustros do seminário.
“A minha alma é atormentada por mil cuidados, e sobrevêm as enxaquecas” - acabou por confessar, revelando o seu grande amor pela mãe, que idolatrava incondicionalmente.
Felismina soube interpretar como ninguém a sua alma, e acabou por se afastar lentamente do jovem seminarista. Não podia perder tempo com um futuro clérigo, apesar da atracção que sentia pelo adolescente de dezasseis anos. Para ele, contudo, não houve desilusão mas aprendizagem. Descobriu em si a desinibição para conviver com as provincianas mais frágeis e delicadas. Apercebeu-se de que gostava das mulheres como um todo e que elas constituíam sem sombra de dúvida a outra metade que o completaria.

“As dimensões física e psicológica de um relacionamento íntimo” - recordou.

A vida de sotaina terminaria ali, depois de Felismina. O mundo feminino atraía-o e atormentava-o. Quase tanto como o mundo político de cuja agitação começou a ser consciente. Em Viseu e em todo o país surgiam artigos que atacavam o governo, o rei e a Igreja Católica. Depois o assassínio do rei e do herdeiro.
“Ali mesmo à esquina” - pensa, olhando para o seu lado esquerdo - “Será que estas pessoas se lembram desse trágico e decisivo acontecimento?” - interroga-se e tem a tentação de se voltar para trás mas suspende o movimento.
O barulho e a agitação aumentavam à sua volta debaixo de um sol abrasador.
“Felizmente trouxe o chapéu” - pensou, levando instintivamente a mão à aba. Olhou à volta para descobrir outros mas ele parecia ser a exceção. Curiosamente algumas mulheres usavam mas os homens não.
Não teve tempo para fazer interpretações. A memória estava inquieta.
Recordava agora indistintamente. Aquele assassinato cobarde foi o acontecimento marcante da sua personalidade política. Não ficou indiferente a esses acontecimentos, e como católico praticante começou a insurgir-se contra os republicanos jacobinos em defesa da Igreja, e até escreveu vários artigos nos jornais. Estudou profundamente o poeta e jornalista francês Charles Maurras, interiorizando o seu conceito fundamental de um nacionalismo exacerbado. O antissemitismo e antiprotestantismo eram temas comuns nas suas escritas. Reforma, Iluminismo e Revolução tinham todos contribuído para que os indivíduos se colocassem à frente da nação, com consequentes efeitos negativos nesta última. Segundo ele, a democracia e o liberalismo continuavam a fazer as coisas ainda pior.
“A sociedade ordenada e elitista, livre” - recordava, enquanto olhava em redor com uma expressão facial altamente crítica - “Algo correu muito mal” - pensou.
“Coimbra, a menina Maria!” - lembrou-se, subitamente - “Mudei para lá no ano da vitória dos republicanos. Para estudar Direito”- concluiu quase vitoriosamente.
Este pensamento súbito, o equivalente literário a uma mudança de capítulo mental, remeteu-o para o passado recente. Ou pelo menos para um passado menos longínquo, tanto quanto conseguiu apurar.
“Que estará na pasta?” - interessou-se subitamente, mas desistiu da ideia. Não queria abri-la ali na fila do elétrico, no meio da multidão.
Mais tarde lá iria. Talvez encontrasse algumas explicações.
“Talvez o detalhe venha depois” - entusiasmou-se.
A memória surgia fragmentada, sem uma sequência lógica e coerente. Parecia um resumo em que se mostravam apenas os fragmentos da história considerados importantes.
Tinha bem presente aquele maldito acidente no Forte de Santo António. Lembrava-se claramente que se preparava para tomar o banho matinal quando escorregou no chão húmido. A dois passos da banheira. Uma distração imperdoável. Ele, sempre tão cuidadoso com os caminhos que pisava. Não perdeu os sentidos, apesar de ter batido com a nuca no chão, com alguma violência, e recordava que a sua grande preocupação era poder vir a ser encontrado como veio ao mundo, mostrando as suas vergonhas. Ainda se fosse alguma coisa que se visse, mas na sua idade tudo ia minguando. Felizmente quem apareceu, um pouco antes de desmaiar, foi o seu barbeiro particular, o Manuel Marques, que o cobriu com uma toalha e lhe disse “acalme-se Senhor Professor”, enquanto lhe segurava a cabeça, desajeitadamente.

Sorriu pelo facto de se lembrar claramente dessa cena. Estava no bom caminho para encontrar o fio da meada. Bastava concentrar-se, mas o ruido ambiente prejudicava esse seu esforço de concentração. Franziu a testa, descontente, e olhou instintivamente para o sol. Mais tarde recordaria esse movimento.
De seguida, o passado voltou.
Claramente ouviu o barbeiro gritar pela Senhora Maria e pela Rosália, a jovem camareira, e depois pelo Hilário, o calista que sempre ali aparecia aos sábados. Estava em pânico e não havia motivo para isso.
Ouviu uma enorme gritaria e alguns choros em fundo. Mas tudo se passava como se estivesse no fundo de um poço. Os sons chegavam-lhe ao cérebro de uma forma distorcida, em câmara lenta, conforme confidenciaria mais tarde, já aparentemente recuperado, à menina Maria, a sua fiel e rígida governanta.
A partir desse momento tudo se tornava menos claro. Apenas alguns vislumbres como num filme incompleto.
“Talvez tivesse desmaiado depois” - pensou, enquanto esfregava os nós dos dedos, sinal de grande concentração. A rapariga que o precedia na fila do elétrico não tirava os olhos dele, franzindo a testa num ar interrogativo.
Ainda pensou perguntar-lhe se o conhecia, mas deteve-se no derradeiro instante. Ao virar os olhos na sua direcção, ela fingiu procurar algo na mala de mão.
Talvez se estivesse a comportar de uma forma estranha e assustasse as pessoas. Olhou discretamente em sua volta para confirmar se era observado por mais gente. Aparentemente ninguém concentrava nele a sua atenção.
“Serei invisível?” - sobressaltou-se, mas depressa afastou essa ideia peregrina ao reparar que a rapariga que o precedia o olhava fixamente. Por aí estava descansado.
Pareciam todos entregues aos seus próprios pensamentos, virados para si mesmos ou falando para aqueles estranhos aparelhos.
“Serão transmissores?” - A este pensamento, virou-se para o rio, lá ao fundo, que refletia alguns raios de sol que lhe chegavam ao cérebro como um calmante. Sempre gostou de se perder na contemplação do Tejo, que lhe trazia relampejos da glória passada do país. Esse momento de relaxamento avivou-lhe a memória sobre aquela infeliz ocorrência.
O filme mental prosseguia, contra todas as expectativas.
Com algum esforço recordou que o chefe da sua casa civil, o doutor Mendes, um rapaz ainda jovem e inexperiente, irrompeu pouco depois na casa de banho, esbaforido, quase alucinado, apertando o colarinho, perguntando o que acontecera.
“ Vou telefonar ao doutor Coelho” - disse o Mendes, depois de ser posto ao corrente do sucedido.
Dirigiu-se depois a toda a pressa para o interior do solar, quase derrubando o Hilário, que permanecia imóvel na entrada da casa de banho com uma maleta preta na mão. O calista estava branco como a cal da parede e parecia ter bloqueado. A sua arte eram os calos e não estava preparado para emergências daquele tipo.
“ Onde está a Dona Maria de Jesus?” - gritava o doutor Mendes, em fundo, enquanto discava o número do médico pessoal do Senhor Professor, registado na agenda sobre a escrivaninha.
Terminavam aí as suas recordações. Percebeu que elas vinham de uma forma avulsa. Ficou preocupado por não conseguir ir mais longe na observação do passado, mas depressa encontrou uma explicação para esse falhanço.
A mente é uma coisa prodigiosa. Dá-nos sempre esperança. Talvez tivesse sido distraído pelas palavras de indignação proferidas em voz alta por alguns passageiros mais impacientes.
“ Isto está cada vez pior. Maldito governo”.
“Qualquer coisa não está bem. Invectivar as autoridades assim, em plena luz do dia? ” - pensou, depois de ter contido a sua vontade de interpelar veementemente os descontentes.
Já estava há cerca de uma hora, em pé, naquela fila que engrossara significativamente nos últimos minutos. Não sabia como ali tinha chegado, mas estava a trabalhar nisso. Não convinha entrar em pânico e fazer cenários. A verdade revelar-se-ia a qualquer momento. Entretanto ia observando com ar de espanto tudo o que o rodeava, mas não se libertou totalmente da sua inquietação.
“Há uma explicação para tudo”.
Fez durante algum tempo um esforço tremendo para se lembrar do que sucedera a seguir ao telefonema do Mendes, mas depressa desistiu dessa tentativa. Lembrava-se claramente de o ter ouvido chamar pela Maria de Jesus, mas daí em diante era o vazio total.
Sentia-se estranhamente confuso com toda aquela agitação na praça. Algumas pessoas, especialmente as mais velhas, olhavam-no com alguma curiosidade. Com aquela expressão que se costuma fazer quando pensamos reconhecer algo ou alguém.
Um déjá vu!
“Estarei assim tão mudado?” - interrogou-se. Colocou a pasta com cuidado no empedrado e passou discretamente a mão direita pelo queixo. Surpreendeu-o o facto de ter a pele mais suave.
“Estarei mais novo?”
Invariavelmente algumas pessoas fixavam-se nele durante breves instantes e voltavam a olhá-lo discretamente uma segunda vez. Depois franziam a testa. Talvez estranhassem a forma como se vestia. Curiosamente pareciam preocupados por vê-lo de pasta e guarda-chuva num dia soalheiro. Ou talvez o reconhecessem, apesar de raramente aparecer em público. Mas isso era pouco provável pois ele não reconhecia ninguém, e mesmo aquela praça, que frequentara oficialmente várias vezes, lhe parecia estranha.
Tentava dar explicações a si mesmo, num diálogo imaginário que não controlava. A explicação para não conhecer ninguém parecia-lhe óbvia.
“Eu também não saía muito de São Bento. E nenhum estadista conhece pessoalmente o povo que governa”.
Fascinou-a a lembrança do palácio. Afinal nem tudo estava esquecido. Tinha consciência de quem era. Ou tinha sido. A este último pensamento perturbou-se um pouco mas recuperou rapidamente. Começava a assimilar o momento presente, como tanto gostava.
A forma como todos falavam e se vestiam, especialmente os jovens, era uma coisa extraordinária. Curiosamente era isso que mais estranhava. Era evidente que muita coisa mudara, desde as pessoas até aos carros.
A própria praça parecia diferente. Talvez fosse da cor ou algo que não podia definir. E havia muitos estrangeiros, a avaliar pelas conversas que não conseguia acompanhar, numa linguagem estranha.
“Está tudo diferente” - surpreendeu-se.
“Terei viajado no tempo?” - sorriu a este pensamento.
“Mas a estátua ainda ali está” - reconfortou-se olhando para o cavaleiro de bronze.
O fato cinzento, a gravata da mesma cor, a velha pasta que voltara a segurar, o chapéu e o guarda-chuva preto, destoavam completamente da informalidade generalizada e colorida com que aquelas pessoas se apresentavam. Talvez por isso muitos o olhavam de soslaio como se fosse uma aberração. Parecia estar desenquadrado, fora do cenário.
“Fora do tempo?” - pensou.
Subitamente chegou o carro elétrico, para seu grande alívio. Tinha apenas sete pessoas à sua frente, mas umas largas dezenas atrás de si.
“Finalmente” - suspirou com um ar de enfado, enquanto ajeitava a gravata, depois de vencer com alguma dificuldade os dois degraus de acesso à cabine. A mala e o chapéu-de-chuva não ajudavam e ainda se desequilibrou.
Estava visivelmente enferrujado. Ainda esboçou a intenção de protestar veementemente pelo atraso que considerava inadmissível, mas acabou por se conter. Não estava bem certo da sua posição. Era preferível arrumar as ideias, avaliar as suas percepções. Numa palavra, saber o que estava ali a fazer. Como tinha ido ali parar.
Dirigiu-se ao motorista, seguindo o exemplo da passageira que o antecedia. A senhora estava bastante indignada e fartou-se de emitir insultos em voz alta, reclamando dos atrasos e do alto preço dos bilhetes. Foi um procedimento que o deixou muito impressionado e lhe retirou a presença de espírito.
“Uma senhora a praguejar?”
- São cinco euros até Belém - disse o funcionário sem olhar para ele.
- Cinco…? - balbuciou, algo perturbado - lembrou-se que nunca tinha dinheiro com ele.
Acompanhara visualmente o movimento da passageira pelo corredor fora, perante a indignação do motorista, que o olhava fixamente por cima dos óculos escuros. Parecia reconhecê-lo. Pelo menos foi essa a sensação que teve ao notar algum espanto naqueles olhos alucinados.
- Não tenho o dia todo, amigo. Se não tem dinheiro o melhor é sair.
Ficou sem palavras, e olhava pateticamente para o condutor.
Atrás dele a pequena multidão empurrava e começava a vociferar, emitindo alguns impropérios.
- Estes velhos reformados … - dizia um.
- Vão mas é trabalhar, parasitas - acrescentava outro.
- Só atrapalham. E levam-nos o dinheiro todo com as reformas - ouvia-se ainda uma voz estridente vinda do exterior.
- Dá lugar aos novos - grita-lhe um rapaz aos ouvidos.
- O senhor comporte-se - atreveu-se a dizer com uma voz zangada, voltando-se para trás. E num assomo de indignação não se conseguiu conter. Puxou pelos galões pela primeira num tom autoritário.
- Por acaso sabe com quem está a falar?
O jovem faz uma careta e olha-o de uma forma provocatória, perante a evidente impaciência do condutor que queria fechar a porta e não conseguia. Blasfemou em surdina e depois praguejou alto e bom som:
- Só me saem duques!
Era bastante encorpado e tinha uma tatuagem na mão. Levantou-se e convidou-o a sair controlando a fúria o melhor que podia.
- Ó amigo, ou sai a bem ou ponho-o lá fora. Não tenho o dia todo. Se não tem dinheiro nem passe não pode viajar. As borlas acabaram e são penalizadas com multa elevada.
Algumas pessoas começaram a protestar no interior do elétrico, mas outras olhavam-no em silêncio com uma estranha incredibilidade e franziam a testa.
- Quando é que esta merda arranca? - gritou um militar que ia de pé lá ao fundo.
- Tens a certeza? - perguntava a velha senhora à amiga, em surdina, sem deixar de o observar com incredulidade. Estavam as duas sentadas na segunda fila do lado do condutor e não tiravam os olhos dele.
Decidiu desistir. Recuou, e os passageiros atrás dele abriram alas para que saísse, no meio de insultos e vaias.
O elétrico pôs-se em marcha enquanto a porta se fechava com um estrondo que abafou os palavrões do passageiro que entalou o casaco no mecanismo.
Afastou-se alguns metros. Desistiu da ideia de apanhar o elétrico. Uma nova fila começou a formar-se atrás dos que não conseguiram lugar. Já ninguém parecia reparar nele. Estavam todos entretidos com aquele aparelho misterioso que manipulavam de uma forma automática. Ele parecia ser o único observador. Todos os outros estavam fechados sobre si mesmos.
A vida continuava como se nada tivesse acontecido.
Ficou alguns segundos parado na calçada, de costas para o rio, observando o movimento do elétrico até este entrar no largo da câmara municipal. Tentava desesperadamente entender o que se estava a passar.
Subitamente lembrou-se. Tinha que ir rapidamente ao palácio de Belém falar com o Presidente. Aí estava a explicação para se encontrar na fila do elétrico. Não se lembrava era do assunto que o levava a deslocar-se a Belém.
“Talvez tivesse sido melhor mandar chamar o motorista” - pensou, mas espantou-se com esse pensamento. Havia muita coisa mal explicada mas tinha que ir devagar.
Era imperioso detectar o facto que explicasse aquela aparente viagem no tempo. Sim, era disso que se tratava, claramente. O espaço era o mesmo, a cidade também, mas o tempo era outro, claramente. O seu cérebro fervilhava na ânsia de pesquisar o passado.
“Algo de muito errado terá acontecido”- decidiu.

Curiosamente, enquanto procurava uma solução para o seu problema imediato, vieram-lhe à memória mais alguns detalhes do seu acidente. Analisava-os agora com extrema atenção, procurando encontrar um fio condutor.
“ Todo o cuidado é pouco com a divulgação do ocorrido, entende?” - disse Dona Maria, zangada, impedindo o doutor Mendes de fazer a chamada - “O Senhor Professor não iria gostar do alarme desnecessário, percebe?”
Maria de Jesus estava no seu quarto a rezar o terço e não dera por nada. Foi a jovem Rosália que a informou do sucedido, e rapidamente tomou as rédeas da situação.
- Se a senhora o diz - conformou-se o chefe da casa civil, sabendo que não seria conveniente contrariar Maria de Jesus, que o olhava friamente.
- O Senhor Professor já está melhor. Agradecia que me deixassem a sós com ele para o ajudar a vestir-se - ordenou finalmente a governanta e ninguém se atreveu a esboçar qualquer tentativa de a persuadir a agir de forma diferente.
Ele já tinha sido conduzido para os seus aposentos com a ajuda do calista e do barbeiro, que o ampararam no percurso entre a casa de banho e o seu quarto ao fundo do corredor. Uma escassa dezena de metros. Recuperava lentamente e sentia-se melhor.
- Quem viu exatamente o que se passou? - perguntou finalmente à governanta.
- O Senhor Professor deveria ter tido mais cuidado - ralhou ela, fechando a cara como fazia sempre que estava irritada. Maria de Lurdes não entendia como é que aquele homem extremamente inteligente, que detinha todo o poder no país, não descobrira ainda que ela o amava profundamente e que daria a vida por ele, sem exigir nada em troca.
“És um perfeito idiota” - apetecia-lhe gritar alto e bom som enquanto o ajudava a vestir uma camisola interior.
“Estás rodeado de intriguistas e manipuladores que bem conheces mas não consegues reconhecer alguém que te ama incondicionalmente” - continuava a pensar, com um sorriso condescendente nos lábios.
- Que seria de mim sem ti - disse finalmente o Professor que parecia recuperar as cores e a presença de espírito.
- O Senhor Professor não precisa de ninguém. É um ser superior a quem o país tudo deve - respondeu Maria de Jesus com alguma ironia.
- Não quero que este episódio saia daqui. E temos que encontrar uma versão oficial que não seja motivo de especulações. Entende, Maria?
- Perfeitamente Senhor Professor. Já impedi o Doutor Mendes de chamar o Doutor Coelho.
O Professor fez um gesto de concordância, inclinando a cabeça para a esquerda.
- Tenho que falar com o Américo - disse depois com irritação - Este jovem que ele me recomendou é muito emotivo e pouco experiente. Nada disto pode transpirar. Reúna as pessoas envolvidas na sala azul, por favor, Maria.
- Com certeza Senhor Professor. Mas permita-me que lhe recomende alguns minutos de repouso. As quedas são sempre problemáticas.
- Tem razão, como sempre, Maria. Que seria de mim sem a sua presença e inteligência? Provavelmente teria que calcorrear o país em busca da sabedoria popular que Maria tão bem assimilou - responde ele, pegando-lhe na mão, delicadamente.
Sabia bem como a devia lisonjear.
- Já pensou na versão oficial do lamentável acontecimento, Senhor Professor?
- Em sua opinião qual seria o relato que o povo gostaria de ouvir?
- Qual o que o deixaria mais descansado?
- Sim, Maria. Exatamente.
- Recomendaria atribuir as culpas a algo exterior.
- Como assim?
- Algo que não estivesse relacionado com o Senhor Professor. Que não desse lugar a especulações sobre a sua forma física.
- Entendo. Talvez uma falha mecânica. Uma cadeira que se parte com o meu peso, por exemplo, não seria uma má ideia - diz ele, entusiasmado. E, pegando-lhe na mão, delicadamente:
- Que seria de mim sem si, querida Maria.
- Sou uma simples mulher do povo, Senhor Professor.
- Maria é o povo na sua verdadeira essência. Pelo menos estatisticamente. Tê-la a si por perto é saber a todo o momento aquilo que os portugueses querem. É conhecer os seus anseios mais fundos. As suas opiniões sobre os sentimentos do povo são-me extremamente úteis para as minhas tomadas de decisão políticas. E nem preciso percorrer vilas e aldeias para tomar o pulso à Nação.
- Bondade sua Senhor Professor - diz Maria com falsa modéstia.
Sabia bem que ele dava crédito às suas informações e por vezes até forçava a nota para impor um pouco do seu cunho pessoal. Foi com uma grande satisfação interior que se despediu. Esses momentos de íntimo reconhecimento enchiam-lhe a alma.
- Agora devo apressar-me. Descanse um pouco por favor.
- Dê-me quinze minutos e depois venha chamar-me. E olhe que me decidi pela sua sugestão.
- A cadeira. Acho que é uma versão satisfatória, que Deus nos perdoe os nossos pecados - diz Maria de Jesus, benzendo-se.
- Tudo a bem da Nação, Maria. Ele entende - diz o Professor apontando para o tecto com o indicador direito.

 “É isso. Sou presidente do Conselho, tratam-me por Professor e tenho que falar com o Presidente por causa do pessoal” - lembrou-se subitamente, e voltou a sua atenção para a pequena fila de táxis de cor creme estacionados em frente ao ministério, mesmo em frente às arcadas.
Caminha na sua direcção com algum cuidado, como se receasse qualquer coisa. Para na passadeira mesmo em frente à Rua Augusta e espera que o sinal abra para os peões. Várias pessoas foram chegando, e colocaram-se estrategicamente como se estivessem numa linha de partida de uma corrida qualquer. Passados alguns segundos de tensão crescente, o sinal cai para o verde. Atravessa, imitando a multidão, mas vai olhando a medo para ambos os lados, algo intimidado pelo roncar de duas motas que ameaçavam arrancar a todo o momento levando tudo à frente. Teve contudo tempo para comparar com o seu mundo conhecido.
“Já não há sinaleiros?”
Foi ultrapassado por quase toda a gente, ainda a meio da passadeira, com exceção de uma mulher idosa que caminhava um pouco atrás e à sua direita, e não parava de o observar com curiosidade.
“Esta gente anda toda com muita pressa” - pensou ainda - “Fugirão de alguma coisa?”
Não teve tempo para desenvolver a sua tese pois dois passos antes de chegar ao outro lado o sinal vermelho caiu e as motas arrancaram a toda a velocidade, quase o apanhando nessa correria. Nem deu por isso, absorvido que estava na contemplação dos táxis estacionados em frente às arcadas. Nem sequer ouviu o insulto com que foi brindado por um dos motoqueiros.
- Mexe essas pernas, velhadas!
“Mudaram de cor, curiosamente” - observa com alguma perplexidade - “Até que não estão mal, mas tenho de falar com o responsável pelos transportes. Faltam ali as cores nacionais. Pelo menos o verde. Mais um tema para a conversa com o Presidente”.
A velha senhora continuou a observá-lo durante alguns momentos, mas acabou por se afastar, abanando a cabeça. Entrou na Rua Augusta a passo vagaroso. Olhou para ela com curiosidade, inclinando a cabeça para o seu lado esquerdo, como era seu hábito, até a ver desaparecer.
- Está livre? - pergunta, espreitando pela janela do pendura do primeiro táxi da fila.
- Sim. Para onde é a corrida? - pergunta o jovem taxista com uma estranha pronúncia, sem contudo tirar os olhos do pequeno aparelho colorido que estava montado sobre o tablier, enquanto o passageiro se acomodava no banco de trás, tentando perceber o que seria aquilo.
- Para Belém, por favor.
- É a primeira pessoa que me pede por favor - exclama, genuinamente surpreendido, o jovem taxista. Perante o silêncio expectante do passageiro, pergunta, olhando pelo retrovisor, exibindo um largo sorriso. Estranhava a forma como o passageiro se vestia, o chapéu, o guarda-chuva, a pasta debotada.
- Vai a algum museu?  
Abre o pisca para a esquerda e diz qualquer coisa numa língua estrangeira para o colega do táxi da frente, que se limitou a fazer um aceno de interpretação duvidosa.
- Não. Vou falar com o Presidente - diz finalmente o Professor, quando já passavam o largo da Câmara.
- É de algum sindicato? - pergunta o jovem condutor, olhando de novo pelo espelho retrovisor, tentando avaliar o estranho passageiro - Talvez pudesse defender a nossa classe - graceja, esboçando uma careta que poderia ser interpretada como um vago sorriso.
- O senhor é estrangeiro? - pergunta o Professor, pausadamente, como era seu timbre. Reparou na estranha pronúncia do taxista e ficou curioso.
- Sou Ucraniano. Já cá estou há dois anos.
O Professor aguça os sentidos e avança o tronco para a frente, sinal de que estava verdadeiramente interessado no assunto.
- Dissidente da União Soviética? - perguntou, passados alguns segundos.
O taxista olha pelo retrovisor com um ar surpreendido.
- A União Soviética já não existe desde mil novecentos e noventa e um, caro senhor. Há vinte e três anos - explica, condescendente - Tem estado afastado da política, com certeza - complementa, olhando agora o passageiro com alguma atenção, pelo espelho.
Mikhail sabia que a política não era o forte dos portugueses, mas aquela manifestação de ignorância histórica ultrapassava todas as marcas. E passou a olhá-lo pelo retrovisor com intensa curiosidade. Ia sentado a meio do banco traseiro, numa postura estática, e olhava com extrema atenção para um e outro lado das ruas que iam atravessando. Tinha colocado a pasta sobre o colo e tinha as mãos sobre ela. Devia conter algo importante. Agora que o observava com mais cuidado, parecia reconhecê-lo. Conhecia-o de algum lado, mas não podia precisar. Já tinha visto aquela cara nalgum sítio, mas não conseguia lembrar-se apesar da sua boa memória visual. Perante o silêncio do passageiro, que parecia ter-se remetido a uma certa introspecção, Mikhail atreveu-se:
- Conheço-o de algum sítio. A sua cara não me é estranha.
- Sou o Presidente do Conselho.
Mikhail franziu a testa, sem comentar. Fazia algum esforço de memória, mas com tanta informação que chegava diariamente às catadupas, pela televisão e pelos jornais, pela internet, depressa desistiu. Tinha que se concentrar na condução. O trânsito era muito naquele início da manhã. Resolveu desenvolver um pouco as angústias que lhe iam na alma.
- A Ucrânia está à beira de uma guerra civil. O Presidente não quer que o país integre a União Europeia.
- União Europeia? - interroga o passageiro.
- Sim, já nos candidatámos, mas a Rússia não vê isso com bons olhos.
- A lealdade é a verdade do sentimento, meu caro senhor. É impossível ser desleal sem mentir, sem ludibriar a consciência alheia - balbuciou o Professor, mecanicamente, olhando a cidade pela janela.
- Não entendi - disse Mikhail.
- Estou a falar sozinho. Não se preocupe. Acontece-me muito.
Estava cada vez mais perturbado e olhava pela janela tentando situar-se.
“Alguma coisa muito estranha se está a passar” .
A cidade estava realmente muito diferente. E não eram necessárias muitas análises. Bastava ver a forma como as pessoas se vestiam, falavam, se movimentavam. Os jovens, então. Principalmente as raparigas, vestidas de forma imprópria. Táxis de cor creme, taxistas ucranianos a falar uma espécie de português e a discutir política internacional abertamente. Um caos.
Chegavam ao fim da Rua da Junqueira e aproximavam-se do palácio de Belém, no meio de um trânsito caótico.
- Em que sítio quer ficar? - perguntou Mikhail olhando de novo pelo espelho retrovisor.
- Quero ir ao palácio falar com o Presidente. Foi para isso que vim.
Mikhail parou o táxi mesmo em frente ao portão principal. O guarda que estava na guarita fez um discreto sinal para que se afastasse, mas o taxista insistiu que o seu passageiro tinha uma entrevista marcada com o Presidente. O ucraniano gesticulava e falava através da janela do lado do passageiro, de modo a fazer-se entender pelo guarda que não abandonava a sua posição estática.
Mikhail estava completamente deitado sobre o banco do pendura, de uma forma considerada suspeita. Rapidamente chegaram dois civis armados, que lhe solicitaram que encostasse um pouco mais à frente. Logo a seguir à guarita, sobre o passeio. No banco de trás o passageiro mantinha-se imperturbável numa posição digna e expectante. Parecia mais interessado em observar o interior do palácio do que na acesa discussão que se gerava entre o taxista e os dois homens.
- O senhor não pode parar em frente ao palácio. Arrisca-se a ter problemas sérios - diz um agente, ameaçador.
- Os seus documentos, por favor - diz o outro, enquanto olhava para o interior do táxi, tentando identificar o passageiro - Saia do veículo e não faça movimentos bruscos.
“E vim eu da Ucrânia por causa da insegurança” - lamenta-se Mikhail enquanto saía com as mãos no ar.
- Mas o meu passageiro é o Presidente do Conselho - protesta, algo nervoso, o que fazia com que falasse num português quase incompreensível.
- Não é preciso levantar os braços - diz o guarda mais novo.
- Presidente do Conselho? Mas qual conselho? - interroga-se o agente mais velho que parecia ser o chefe. Aproxima-se da janela traseira e fica espantado a olhar para o passageiro, que lhe pergunta com uma voz paternal:
- Mas há algum problema, senhor agente?
O coronel José Soares ficou durante alguns momentos sem conseguir articular palavra. Parecia ter visto um fantasma e levou alguns instantes para conseguir fechar a boca. Andava pela casa dos cinquenta anos e tinha conseguido aquela nomeação no início do primeiro mandato do Presidente. Teve que cobrar um favor político para que tal acontecesse, mas valera a pena. O trabalho como chefe da segurança do primeiro magistrado da Nação era um cargo bem remunerado e não dava grandes problemas. E podia viajar sempre que o Presidente fazia visitas de Estado ao estrangeiro e até já conseguira por algumas vezes integrar a esposa na comitiva, fazendo uso do seu direito de convite. As ajudas de custo eram tentadoras. Com a recente reeleição garantira praticamente aquele trabalho até à entrada na reforma, sem grandes preocupações.
Tinha que pensar rapidamente. Não se podia precipitar. Não podia cometer qualquer erro. Os media andavam em cima do Presidente e se havia coisa que ele não tinha era vocação para ser bode expiatório.
- Miguel, chega aqui - ordenou ao colega, um tenente do exército que o secundava no comando e que tentava em vão entender o taxista que já só falava em ucraniano, tal o seu estado de nervosismo.
- Algum problema, senhor coronel - pergunta o tenente, segurando os documentos de Mikhail que entretanto já cruzara os braços, arrependido de ter apanhado aquele cliente estranho. Encostou-se ao carro, olhando para o céu, como que pedindo inspiração divina.
O coronel mexia os dedos, nervosamente, e parecia ter empalidecido.
- Olha bem para o indivíduo que está no táxi.
Miguel aproxima-se da janela traseira do lado direito do veículo, olha para o passageiro que se mantinha imperturbável, recua, olha de novo para o interior do carro e finalmente volta-se para Soares:
- Parece o Ditador.
- Mas muito mais novo.
Os dois homens entreolham-se, depois observam o passageiro que permanecia calmo e sorridente, e finalmente dizem ao motorista, que se tinha colocado de cócoras, encostado ao pneu dianteiro direito:
- Entre no palácio por favor, encoste ali em cima perto da casa da guarda e espere instruções.
A um sinal imperceptível do coronel Soares, o guarda da guarita levanta a cancela.

O passageiro leva a mão direita à pala do chapéu e sorri beatificamente ao passar pelos agentes, evidenciando uma pose de Estado.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

PARANOIA, capítulo 5 (segunda versão ampliada e corrigida)

Miguel sabia há muito que o mundo era um lugar perigoso, e que por isso seria uma presa fácil dessa entidade falaciosamente perigosa, sempre pronta a fabricar os seus mártires. Era indispensável proteger-se, munir-se de uma arma invisível que lhe permitisse passar incólume por esse bairro perigoso a que metaforicamente chamava vida, e se possível que lhe possibilitasse ripostar de forma eficaz, silenciosa, sem se comprometer ou ser comprometido, muito menos denunciado ou apanhado.
Um atirador furtivo, talvez. Mas algo diferente do estereotipo, sem ter de se esconder ou camuflar fisicamente. Pensou até na invisibilidade, e curiosamente foi dessa visão que lhe surgiu a ideia.
A sua máscara seria outra. Teria que se tornar um actor, mas dos bons, talvez mesmo da classe dos excepcionais. E o seu palco não estaria confinado a quatro paredes!
O espectáculo não teria um público limitado pelo espaço disponível. Não! O seu campo de actuação seria a vida, o seu mundo particular, e a peça trataria o relacionamento com os outros. Era portanto um trabalho de representação a tempo inteiro.
“És um fingidor!” - disse-lhe uma vez a professora primária, talvez a única pessoa que lhe tinha entendido a alma, ao observar-lhe as emoções contidas - “ Davas um bom poeta”.
Na altura limitou-se a sorrir e alguns dias depois acabou por contar o episódio aos pais que acharam graça mas não atingiram o sentido profundo daquela observação da professora Eduarda. O que ela queria dizer é que há sempre alguém que nos consegue observar através da máscara, talvez por também usar uma equivalente, mas seguramente por estar atento aos sinais, ter um rasgo consciente que lhe possibilite ultrapassar o mundo ilusório onde vive clandestinamente.
Sob a aparência de uma calma e presença irrepreensíveis, Miguel nunca estava à vontade. Como se ansiasse chegar a casa e não encontrasse o caminho, não se lembrasse sequer da casa, ou se ali estivesse apenas a perder o tão precioso tempo para começar a fazer algo que não sabia bem o que era. E quando o objectivo parecia estar ali ao fundo da rua, ao meio do sonho, há algo que nos impede que lá cheguemos, como se na realidade fosse um local inacessível.
E contudo, na grande cidade, aquele enorme bairro a que decidiu chamar selva, todos pareciam ser felizes e ter objectivos, partilhavam espaços comuns em aparente ordem e equilíbrio. Teriam que estar necessariamente a fingir, pelo menos durante as horas de convívio, pois o mundo não é um lugar perfeito, como sabia por experiência própria. Teria de haver vencedores e perdedores, vítimas e carrascos, ódios ocultos, guerras mudas e diferenças insanáveis.
Miguel lembrava-se de alguém lhe ter dito que um filósofo dissera que o inferno é sempre o outro, e portanto era imperioso estar sempre na defensiva e prontos a antecipar o inevitável ataque. O grande desafio era saber de onde viria o próximo golpe.
Alguma coisa fervilhava, isso era certo, era quase palpável, e notara esse sintoma desde o primeiro dia que integrara aquele bairro na capital. Um ambiente pesado sob a capa de uma alegre convivência, fosse no emprego ou nas relações pessoais.
“Relações pessoais!” - pensava, e tentava encontrar alguma coisa na sua vida que se pudesse integrar naquela frase tão apelativa. Nada encontrou de relevante. depois de pensar um pouco no assunto. Havia o convívio inevitável com os colegas naquele espaço fechado que era o comboio, as trocas de turno, algumas noites no Porto na pensão do costume, os convites para sair que acabaram por desaparecer, porque nunca os aceitava por uma razão qualquer que sempre inventava.
“Relações pessoais!” - repetia.
Talvez consigo mesmo, e ainda assim era um convívio complicado, repleto de angústias e recriminações. Ele e ele próprio! As duas entidades que habitavam aquele corpo franzino e que aparentemente travavam uma luta encarniçada pela supremacia.
“Quem perdes és tu” - dizia o primo Manuel, quando o conseguia convencer a ir lá a casa, na outra margem, almoçar em família uma refeição decente, e quem sabe, cair em amores pela filha da vizinha Gracinda, a doce Alice que ficara fascinada com a cor suave dos seus olhos, um tom indefinível entre o esverdeado e o azul pálido, apesar de não lhe ter conseguido arrancar meia dúzia de palavras que lhe revelassem a alma.
- Uma boa rapariga - disse a prima Fátima, esposa de Manuel, com o seu habitual sorriso - Muito inteligente e prendada. E acho que gosta de ti.
Miguel suspendeu o gesto que iniciara e ficou com os talheres na mão, perto da fatia de carne que se preparava para cortar. Aqueles almoços em família, ele e os primos em comunhão, reminiscente dos tempos da aldeia, na enorme sala de jantar, devolviam-lhe alguma serenidade, apesar da relutância inicial em dar aquela maçada à família, como justificara para declinar os primeiros convites. Olhou para Fátima, depois para Manuel, como se não tivesse entendido muito bem a alusão à rapariga que já tinha encontrado um par de vezes, pois era vizinha dos primos naquele pátio onde todos se conheciam.
- Não ligues à tua prima - disse-lhe Manuel, piscando-lhe o olho - As mulheres não descansam enquanto não virem os rapazes metidos nos sarilhos da vida conjugal.
- Vê lá se te cai um dente - atalhou Fátima - Tens muita razão de queixa!
- Estou a brincar, mulher. Deixa lá o rapaz em paz. O que tiver que ser, será, não achas, Miguel?
- Claro, primo. Mas tudo tem o seu tempo, e o tempo se encarregará de fazer o que tem de ser feito.
O casal entreolhou-se e depois Manuel apressou-se a dizer:
- Isso mesmo, Miguel. O que tiver de ser tem muita força.
“Alguma coisa está a fervilhar” - pensava Miguel, já no autocarro que o levaria a Cacilhas para apanhar o barco para o Terreiro do Paço - “Mas não é fácil a identificação”.
Sentou-se no último banco de dois lugares lá trás, perto da janela esquerda, logo a seguir àquele assento contínuo de seis lugares, a que vulgarmente se chamava “pontapé nas costas” por causa dos solavancos. Ia olhando distraidamente para a paisagem que atravessavam, sempre a descer até Cacilhas, com muitas paragens e também muita escuridão, que a iluminação pública era cara, e por isso, esparsa. Os solavancos tinham a virtude, ou o defeito, de lhe provocar a sonolência, mas ao mesmo tempo também lhe davam o ensejo de ir revendo a sua vida. Haveria de recordar com saudade aquelas viagens de regresso que terão sido seguramente um dos seus momentos de maior introspecção. Curiosamente referiu isso uma vez ao seu analista, numa consulta posterior, alguns anos depois, e ele concordara com a tese do abanão consciente. Seria?
A travessia da avenida principal de Almada devolveu-lhe a atenção para o momento e num instante viu-se a entrar para o velho cacilheiro depois de descer aquela plataforma de acesso bastante insegura devido ao cachão provocado pelas diversas atracações e a algum vento que vinha do mar da palha. Era normal, segundo lhe confidenciou o marinheiro que de cigarrinho ao canto da boca ia segurando a corda da amarração. Miguel fez um gesto imperceptível com a cabeça mas a sua mente já estava noutro mundo e sentou-se á janela, no piso superior, onde apenas estavam mais dois passageiros com um ar estranho. O início da manobra ainda lhe mereceu alguma atenção, mas logo caiu naquele poço sem fundo povoado pelos seus pensamentos.
E se tentasse modificar a sua vida, ao modificar alguns aspectos da sua existência? - pensava nisto olhando de forma distraída para as águas algo revoltas do Tejo que entretanto fora coberto pela negrura da noite. Do outro lado as luzes da cidade que iam ganhando intensidade à medida que o barco avançava, algo devagar, e atrás de si ficava cada vez mais longe o local onde eventualmente ficara aquela que lhe poderia modificar a existência.
“Alice!” - repetia, com um vago sorriso, lembrando-se das primeiras palavras trocadas com a jovem. Tinha mais estudos do que ele, era inteligente, carinhosa e sensível, mas tinha uma relação umbilical com a mãe, que de certa forma o preocupara. Gostava dela, sem dúvida, sentia-se até empolgado pela perspectiva da próxima visita, e quase se esquecia daquele outro ser que o atormentava constantemente.
“ Libertei-me por momentos dos fantasmas e dos pensamentos compulsivos” - constatou, para seu grande espanto - “Mas por quanto tempo?”.
 Mas estaria à altura dela, sendo apenas um modesto revisor do caminho-de-ferro, enquanto a jovem seguia uma carreira promissora na função pública? Notara a forma elegante como ela articulava o discurso, acompanhado sempre por expressões faciais que revelavam doçura, aquela qualidade feminina de que a mãe lhe falara em criança. Até ficou algo comprometido por não ter entendido o significado de algumas palavras que ela proferiu, mas não deu parte de fraco e manteve aquela atitude expectante, pensando na forma de superar aquele problema.
Era sempre a mesma coisa, e conseguia admiti-lo. Só pensava nele, de certa forma, mesmo quando tentava dar atenção a Alice, tão doce, tão bela, tão simples. Contudo, sentia no ar a atmosfera de um eventual relacionamento sério. Notara a enorme cumplicidade entre ela e a mãe, uma senhora alegre e prazenteira que enviuvara demasiado cedo e se vira obrigada a lutar duramente para educar a filha e proporcionar-lhe uma vida feliz. Era algo que o incomodava mas ainda não sabia porquê.
E de que forma uma eventual vida em comum lhe retiraria o controlo da sua vida, subitamente transformada naquilo a que se chama uma vida em comum? Cairia entre as duas mulheres, mãe e filha, como mosca na sopa, um corpo estranho que longe de complementar o quadro, poderia afinal borrar a pintura.
As preocupações com o Depois chegaram exactamente no momento em que o barco encostava ao cais com alguma violência, o que levou a que um passageiro se magoasse ligeiramente.
“Não ligam ao que está escrito em letras garrafais em vários quadros espalhados pelo barco, conforme é da norma do trânsito fluvial, e depois acontece isto” - lamentava-se o marinheiro de atracação, referindo a informação bem visível que pedia aos passageiros para não se levantarem antes da completa imobilização do barco. Miguel fez aquele esgar habitual que podia ser interpretado como concordância, mas não proferiu palavra e avançou para o cais. Coisa sem importância, e logo depois caminhavam todos em segurança pelo passadiço, bastante inclinado pela maré baixa, em direcção à sala de visitas de Lisboa.
Resolveu caminhar um pouco e sentir o pulso à cidade àquela hora tardia. O relógio do arco batia as onze horas. Demorara-se mais que o habitual, e a isso, Alice não era indiferente.
“De certo modo já está a afectar a minha vida!” - pensou, e logo o sorriso franco deu lugar a uma súbita dúvida que se revelava naquele franzir de testa que lhe devolvia a preocupação.
Esperou que o semáforo abrisse para os peões, apesar de não haver trânsito àquela hora. Observou com um ar crítico aqueles dois rapazes que atravessaram a passadeira mesmo com o sinal vermelho, mas guardou para si as interjeições pouco simpáticas que a mente de pronto lhe indicou.
“Cá estão os malditos sintomas! Nunca mais aprendo” - pensou de imediato, ao sentir a reacção do corpo àquela indignação. Não aprendia com a experiência muitas vezes repetida de personalizar todos os acontecimentos, de não reconhecer em tempo útil que reagia emocionalmente, instantaneamente, aos pensamentos que lhe povoavam a mente. O coração bateu mais depressa, os músculos contraíram-se, a respiração tornou-se mais acelerada. E como não verbalizara a sua indignação, por receio ou incapacidade, aquela energia negativa não fora dissipada. Voltava para a mente para aumentar a sua indignação e ansiedade e sabe Deus o mal que estaria a fazer ao funcionamento harmonioso do seu corpo.
Quando o sinal verde abriu, atravessou a passadeira, mas só descontraiu verdadeiramente quando os tais jovens desapareceram do seu campo de visão depois de passarem o Arco.
O silêncio da cidade adormecida que tantas vezes saboreava no interior do eléctrico, era agora saboreada com os pés bem assentes no chão. Naquele espaço mítico, o Terreiro do Paço, sala de visitas de Lisboa, parecia que todos os seus medos e dúvidas se dissipavam. À sua esquerda a estátua imponente do rei que vivera o terramoto terrível e que agora olhava permanentemente o rio à sua frente. Estava tão perto da história de que em criança ouvira falar nos bancos da escola, mas agora que olhava para aquele bloco de pedra já não achava que havia heróis. Apenas memórias depositadas pela cidade por sobreviventes que talvez tivessem segundas intenções. Não fora em nome da história do país que se sacrificara durante dois anos numa terra que afinal acabou por não conhecer minimamente?
“Quem irá observar com calma um local onde se pode perder a vida a cada instante?”
Fora claramente usado e tinha absoluta consciência disso. Era imperativo que alguém fosse confrontado com esse crime, aquelas mortes gratuitas que testemunhara, todo aquele sofrimento e ansiedade permanente em nome de símbolos mortos, de ídolos de pedra que justificavam todos os sacrifícios. Que sequelas lhe teriam ficado, que sofrimentos estariam ainda para surgir, que memórias adviriam quando menos se esperasse? Sofrera e agora ninguém sabia disso, era um ser incógnito na grande cidade, e estava entregue a si mesmo. O país usara-o, e no fim despedira-se dele com um sorriso e um aperto de mão de um general qualquer que nem sequer o olhou nos olhos. Talvez estivesse com pressa para ir almoçar ou fazer algo mais agradável do que estar ali naquela cerimónia pública a condecorar aqueles idiotas que se supunham heróis.
Estava a entrar na rua Augusta e a luminosidade despertou-lhe os sentidos.
Talvez estivesse a falar alto, e a esse pensamento sobressaltou-se e olhou em redor. Onde estava a coragem que os seus pensamentos compulsivos indiciavam?
Afinal era apenas um indivíduo sem qualquer importância social, um simples revisor do caminho-de-ferro, e a cidade estava cheia de informadores. Regressou ao seu estado normal de vigilância. Eram poucas as pessoas que caminhavam algo apressadas por aquelas artérias pombalinas. Algumas quase corriam na direcção do rio, talvez fossem apanhar os últimos barcos para a outra margem. Outras subiam a rua Augusta de forma mais tranquila, mas em silêncio, desconfiando daqueles com que se cruzavam na rua, a avaliar pela forma como o observavam.
Havia um certo medo no ar, era essa a sua convicção.
Sentia o perigo a cada olhar, a cada observação, a cada esquina. Os polícias que patrulhavam as ruas largas fariam seguramente parte do plano arquitectado, fosse isso o que fosse, e de nada lhe valeria argumentar que dera dois anos da sua vida e da sua saúde à pátria. Talvez o tomassem por um provocador, um comunista, e só de pensar nisso resolveu voltar à sua esquerda e embrenhou-se naquelas ruas paralelas, mais estreitas e sujas, menos iluminadas, enquanto estugava o passo.
Talvez tivesse cometido um erro ao não esperar pelo eléctrico na paragem da praça do comércio. Mas agora não havia como voltar atrás. Seria suspeito e não estava disposto a correr esse risco. Tinha que estar atento e pronto a saltar, sem contudo baixar a guarda. Não era por acaso que chamava a esse estado “o turno da noite”.
Olhou para o relógio. Onze e quarenta e cinco! Às cinco tinha que estar na paragem do eléctrico. Respirou fundo ao chegar ao Rossio, resistiu à tentação de subir o Chiado e dar uma volta pelo bairro Alto. Talvez pudesse fazer uma directa, mas depois como poderia desempenhar o seu trabalho de forma profissional com uma noite em branco aos ombros, a barba por fazer, as olheiras. E ainda teria de se lavar e mudar de camisa e cuecas e meias. E a Dona Matilde proibira os banhos depois da meia-noite para não incomodar os inquilinos do prédio.
“Talvez para a semana” - prometeu a si mesmo, depois de tomar a decisão de subir a avenida da Liberdade e ir apanhar o eléctrico da uma ao Marquês.

Caminhava agora em passo firme, atento a tudo e a todos, como o pássaro face ao mínimo ruído, pois sabia que dessa atenção levada ao paroxismo dependia a sua sobrevivência.