quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A segunda vida do ditador, primeiro capítulo

H. P. Bellis





A segunda vida do Ditador


Quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014









Ninguém desce duas vezes o mesmo rio
HERÁCLITO



  

Ainda hesitou mas acabou por se colocar na fila do elétrico, mesmo em frente ao ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Olhou demoradamente para os edifícios que tão bem conhecia e que davam corpo àquele espaço a que muitos chamavam sala de visitas da cidade de Lisboa.
A pergunta que lhe queimava a alma permaneceu escondida atrás da surpresa, mas por vezes espreitava.
“Que faço eu aqui no meio da multidão?”
Limitou-se a seguir o exemplo das outras pessoas. Não fazia a menor ideia de como ali tinha chegado. Talvez tivesse sido acometido daquela perturbação transitória da mente a que alguns chamavam amnésia seletiva. A verdade é que parecia haver um enorme hiato na sua memória.
“O célebre hiato de dor?”
Não acreditava na teoria fantasiosa das abduções ou dos arrebatamentos, apesar de ter sido um fervoroso estudioso do livro sagrado, mas aquela situação encaixava-se plenamente nessa tese defendida por alguns cientistas lunáticos que juram a pés juntos que não estamos sozinhos no Universo.

 “Estarei a sonhar?” - interrogou-se a determinada altura, optando pelo óbvio, mas depressa confirmou que tudo aquilo se passava em tempo real. Era demasiado verdadeiro. Os ruídos, os cheiros, algumas pessoas com uns estranhos tampões nos ouvidos, os aparelhos que quase todos tinham nas mãos e onde tocavam com os dedos num pequeno teclado, as palavras incompreensíveis que pronunciavam num português estranho. 


Frases e interjeições cujo sentido lhe escapava, que pareciam um código. Aguçou os ouvidos e assumiu uma posição de observador atento.
O que mais o impressionava, contudo, era o facto de muitos falarem sozinhos, esbracejando ou mesmo praguejando, como se tivessem enlouquecido. Deu por si a tentar arranjar uma explicação para isso, mas depressa desistiu.
“Valha-me a Virgem Maria” - pensou, em desespero, mas depois acalmou-se. Baixou um pouco a cabeça, sobre a esquerda, como sempre fazia quando buscava um argumento inteligente, mas nada acontecia. Aparentemente perdera a capacidade de arranjar uma boa explicação. Aquilo ultrapassava-o.
À medida que o tempo passava, ia sentindo alguma perturbação. Olhou discretamente para as pessoas que estavam na fila do elétrico, como se receasse o seu julgamento. Subitamente sobressaltou-se. Lembrou-se da explicação mais simples.
“Estarei morto?” - pensou, e o seu coração disparou, enquanto olhava demoradamente para os pés. Ficou perturbado ao ter consciência dos dois objetos que trazia consigo. Na mão direita uma pasta preta e na esquerda um guarda-chuva da mesma cor que parecia desajustado pois estava um dia de calor intenso. Instintivamente virou-se para trás com um ar alucinado, procurando ajuda, apalpou o peito e finalmente acalmou.
A rapariga que o precedia na bicha ainda levantou os olhos do pequeno aparelho que segurava delicadamente nas mãos, e sorriu beatificamente esperando a pergunta que não surgiu. O coração regressou subitamente a um ritmo normal.
Esboçou uma leve tentativa de fazer a pergunta que lhe queimava os lábios, mas conteve-se a tempo.
“Felismina?” - pensou, e o coração disparou de novo mas desta vez não foi atrás da emoção.
Arrependeu-se no último momento e voltou-se para a frente. Respirou fundo durante algum tempo. Essa técnica de relaxamento era infalível.
“Estarei ainda anestesiado?” - interrogou-se, e lembrou-se das experiências de quase morte que já tinha lido algures.
“Será que estou em coma?” - sobressaltou-se durante uns segundos, mas depressa se acalmou. Era tudo demasiado real.
Recordava pouca coisa. Era importante revisitar esses momentos pois havia demasiados hiatos.
O seu cérebro fervilhava. Tinha que fazer um esforço de memória. Talvez assim encontrasse um fio condutor.
A beleza da rapariga despertou-lhe a memória adormecida. Curiosamente recordava com clareza o seu passado mais distante enquanto o recente permanecia envolto em misteriosa névoa.
Felismina! Subitamente lembrou-se da esbelta professora que se sentiu atraída por ele de uma forma irresistível na edílica e pacata cidade de Viseu, um mundo remoto rodeado de pinheiros e pedras onde pessoas e animais conviviam pacatamente . Um mundo bucólico afastado das convulsões sociais da capital.
Às primeiras palavras trocadas, de fugida, no átrio da Igreja que ambos frequentavam, ela confessou que se sentira atraída pelo seu aspecto distinto, o ar reservado, o azul das olheiras e o perfil a lembrar Holmes, o célebre detetive de Conan Doyle.
As recordações distantes chegavam-lhe aos repelões e a certa altura receou estar a falar sozinho em voz alta. Olhou discretamente em seu redor, mas tudo estava na mesma. A jovem atrás dele sorriu uma vez mais. Talvez ele se estivesse a comportar de uma forma cómica. Ela tinha agora uns tampões nos ouvidos ligados a uns fios que desapareciam num bolso das calças.
O movimento na praça aumentava de intensidade. Todos pareciam correr.
Era um introvertido frequentemente assaltado por fundas depressões e Felismina não demorou muito tempo a descobrir essa sua interioridade. O jovem seminarista indiciava uma personalidade complexa naquele mundo interior que se mantinha encerrado mesmo nos fugazes momentos de intimidade no adro da Igreja ou nos claustros do seminário.
“A minha alma é atormentada por mil cuidados, e sobrevêm as enxaquecas” - acabou por confessar, revelando o seu grande amor pela mãe, que idolatrava incondicionalmente.
Felismina soube interpretar como ninguém a sua alma, e acabou por se afastar lentamente do jovem seminarista. Não podia perder tempo com um futuro clérigo, apesar da atracção que sentia pelo adolescente de dezasseis anos. Para ele, contudo, não houve desilusão mas aprendizagem. Descobriu em si a desinibição para conviver com as provincianas mais frágeis e delicadas. Apercebeu-se de que gostava das mulheres como um todo e que elas constituíam sem sombra de dúvida a outra metade que o completaria.

“As dimensões física e psicológica de um relacionamento íntimo” - recordou.

A vida de sotaina terminaria ali, depois de Felismina. O mundo feminino atraía-o e atormentava-o. Quase tanto como o mundo político de cuja agitação começou a ser consciente. Em Viseu e em todo o país surgiam artigos que atacavam o governo, o rei e a Igreja Católica. Depois o assassínio do rei e do herdeiro.
“Ali mesmo à esquina” - pensa, olhando para o seu lado esquerdo - “Será que estas pessoas se lembram desse trágico e decisivo acontecimento?” - interroga-se e tem a tentação de se voltar para trás mas suspende o movimento.
O barulho e a agitação aumentavam à sua volta debaixo de um sol abrasador.
“Felizmente trouxe o chapéu” - pensou, levando instintivamente a mão à aba. Olhou à volta para descobrir outros mas ele parecia ser a exceção. Curiosamente algumas mulheres usavam mas os homens não.
Não teve tempo para fazer interpretações. A memória estava inquieta.
Recordava agora indistintamente. Aquele assassinato cobarde foi o acontecimento marcante da sua personalidade política. Não ficou indiferente a esses acontecimentos, e como católico praticante começou a insurgir-se contra os republicanos jacobinos em defesa da Igreja, e até escreveu vários artigos nos jornais. Estudou profundamente o poeta e jornalista francês Charles Maurras, interiorizando o seu conceito fundamental de um nacionalismo exacerbado. O antissemitismo e antiprotestantismo eram temas comuns nas suas escritas. Reforma, Iluminismo e Revolução tinham todos contribuído para que os indivíduos se colocassem à frente da nação, com consequentes efeitos negativos nesta última. Segundo ele, a democracia e o liberalismo continuavam a fazer as coisas ainda pior.
“A sociedade ordenada e elitista, livre” - recordava, enquanto olhava em redor com uma expressão facial altamente crítica - “Algo correu muito mal” - pensou.
“Coimbra, a menina Maria!” - lembrou-se, subitamente - “Mudei para lá no ano da vitória dos republicanos. Para estudar Direito”- concluiu quase vitoriosamente.
Este pensamento súbito, o equivalente literário a uma mudança de capítulo mental, remeteu-o para o passado recente. Ou pelo menos para um passado menos longínquo, tanto quanto conseguiu apurar.
“Que estará na pasta?” - interessou-se subitamente, mas desistiu da ideia. Não queria abri-la ali na fila do elétrico, no meio da multidão.
Mais tarde lá iria. Talvez encontrasse algumas explicações.
“Talvez o detalhe venha depois” - entusiasmou-se.
A memória surgia fragmentada, sem uma sequência lógica e coerente. Parecia um resumo em que se mostravam apenas os fragmentos da história considerados importantes.
Tinha bem presente aquele maldito acidente no Forte de Santo António. Lembrava-se claramente que se preparava para tomar o banho matinal quando escorregou no chão húmido. A dois passos da banheira. Uma distração imperdoável. Ele, sempre tão cuidadoso com os caminhos que pisava. Não perdeu os sentidos, apesar de ter batido com a nuca no chão, com alguma violência, e recordava que a sua grande preocupação era poder vir a ser encontrado como veio ao mundo, mostrando as suas vergonhas. Ainda se fosse alguma coisa que se visse, mas na sua idade tudo ia minguando. Felizmente quem apareceu, um pouco antes de desmaiar, foi o seu barbeiro particular, o Manuel Marques, que o cobriu com uma toalha e lhe disse “acalme-se Senhor Professor”, enquanto lhe segurava a cabeça, desajeitadamente.

Sorriu pelo facto de se lembrar claramente dessa cena. Estava no bom caminho para encontrar o fio da meada. Bastava concentrar-se, mas o ruido ambiente prejudicava esse seu esforço de concentração. Franziu a testa, descontente, e olhou instintivamente para o sol. Mais tarde recordaria esse movimento.
De seguida, o passado voltou.
Claramente ouviu o barbeiro gritar pela Senhora Maria e pela Rosália, a jovem camareira, e depois pelo Hilário, o calista que sempre ali aparecia aos sábados. Estava em pânico e não havia motivo para isso.
Ouviu uma enorme gritaria e alguns choros em fundo. Mas tudo se passava como se estivesse no fundo de um poço. Os sons chegavam-lhe ao cérebro de uma forma distorcida, em câmara lenta, conforme confidenciaria mais tarde, já aparentemente recuperado, à menina Maria, a sua fiel e rígida governanta.
A partir desse momento tudo se tornava menos claro. Apenas alguns vislumbres como num filme incompleto.
“Talvez tivesse desmaiado depois” - pensou, enquanto esfregava os nós dos dedos, sinal de grande concentração. A rapariga que o precedia na fila do elétrico não tirava os olhos dele, franzindo a testa num ar interrogativo.
Ainda pensou perguntar-lhe se o conhecia, mas deteve-se no derradeiro instante. Ao virar os olhos na sua direcção, ela fingiu procurar algo na mala de mão.
Talvez se estivesse a comportar de uma forma estranha e assustasse as pessoas. Olhou discretamente em sua volta para confirmar se era observado por mais gente. Aparentemente ninguém concentrava nele a sua atenção.
“Serei invisível?” - sobressaltou-se, mas depressa afastou essa ideia peregrina ao reparar que a rapariga que o precedia o olhava fixamente. Por aí estava descansado.
Pareciam todos entregues aos seus próprios pensamentos, virados para si mesmos ou falando para aqueles estranhos aparelhos.
“Serão transmissores?” - A este pensamento, virou-se para o rio, lá ao fundo, que refletia alguns raios de sol que lhe chegavam ao cérebro como um calmante. Sempre gostou de se perder na contemplação do Tejo, que lhe trazia relampejos da glória passada do país. Esse momento de relaxamento avivou-lhe a memória sobre aquela infeliz ocorrência.
O filme mental prosseguia, contra todas as expectativas.
Com algum esforço recordou que o chefe da sua casa civil, o doutor Mendes, um rapaz ainda jovem e inexperiente, irrompeu pouco depois na casa de banho, esbaforido, quase alucinado, apertando o colarinho, perguntando o que acontecera.
“ Vou telefonar ao doutor Coelho” - disse o Mendes, depois de ser posto ao corrente do sucedido.
Dirigiu-se depois a toda a pressa para o interior do solar, quase derrubando o Hilário, que permanecia imóvel na entrada da casa de banho com uma maleta preta na mão. O calista estava branco como a cal da parede e parecia ter bloqueado. A sua arte eram os calos e não estava preparado para emergências daquele tipo.
“ Onde está a Dona Maria de Jesus?” - gritava o doutor Mendes, em fundo, enquanto discava o número do médico pessoal do Senhor Professor, registado na agenda sobre a escrivaninha.
Terminavam aí as suas recordações. Percebeu que elas vinham de uma forma avulsa. Ficou preocupado por não conseguir ir mais longe na observação do passado, mas depressa encontrou uma explicação para esse falhanço.
A mente é uma coisa prodigiosa. Dá-nos sempre esperança. Talvez tivesse sido distraído pelas palavras de indignação proferidas em voz alta por alguns passageiros mais impacientes.
“ Isto está cada vez pior. Maldito governo”.
“Qualquer coisa não está bem. Invectivar as autoridades assim, em plena luz do dia? ” - pensou, depois de ter contido a sua vontade de interpelar veementemente os descontentes.
Já estava há cerca de uma hora, em pé, naquela fila que engrossara significativamente nos últimos minutos. Não sabia como ali tinha chegado, mas estava a trabalhar nisso. Não convinha entrar em pânico e fazer cenários. A verdade revelar-se-ia a qualquer momento. Entretanto ia observando com ar de espanto tudo o que o rodeava, mas não se libertou totalmente da sua inquietação.
“Há uma explicação para tudo”.
Fez durante algum tempo um esforço tremendo para se lembrar do que sucedera a seguir ao telefonema do Mendes, mas depressa desistiu dessa tentativa. Lembrava-se claramente de o ter ouvido chamar pela Maria de Jesus, mas daí em diante era o vazio total.
Sentia-se estranhamente confuso com toda aquela agitação na praça. Algumas pessoas, especialmente as mais velhas, olhavam-no com alguma curiosidade. Com aquela expressão que se costuma fazer quando pensamos reconhecer algo ou alguém.
Um déjá vu!
“Estarei assim tão mudado?” - interrogou-se. Colocou a pasta com cuidado no empedrado e passou discretamente a mão direita pelo queixo. Surpreendeu-o o facto de ter a pele mais suave.
“Estarei mais novo?”
Invariavelmente algumas pessoas fixavam-se nele durante breves instantes e voltavam a olhá-lo discretamente uma segunda vez. Depois franziam a testa. Talvez estranhassem a forma como se vestia. Curiosamente pareciam preocupados por vê-lo de pasta e guarda-chuva num dia soalheiro. Ou talvez o reconhecessem, apesar de raramente aparecer em público. Mas isso era pouco provável pois ele não reconhecia ninguém, e mesmo aquela praça, que frequentara oficialmente várias vezes, lhe parecia estranha.
Tentava dar explicações a si mesmo, num diálogo imaginário que não controlava. A explicação para não conhecer ninguém parecia-lhe óbvia.
“Eu também não saía muito de São Bento. E nenhum estadista conhece pessoalmente o povo que governa”.
Fascinou-a a lembrança do palácio. Afinal nem tudo estava esquecido. Tinha consciência de quem era. Ou tinha sido. A este último pensamento perturbou-se um pouco mas recuperou rapidamente. Começava a assimilar o momento presente, como tanto gostava.
A forma como todos falavam e se vestiam, especialmente os jovens, era uma coisa extraordinária. Curiosamente era isso que mais estranhava. Era evidente que muita coisa mudara, desde as pessoas até aos carros.
A própria praça parecia diferente. Talvez fosse da cor ou algo que não podia definir. E havia muitos estrangeiros, a avaliar pelas conversas que não conseguia acompanhar, numa linguagem estranha.
“Está tudo diferente” - surpreendeu-se.
“Terei viajado no tempo?” - sorriu a este pensamento.
“Mas a estátua ainda ali está” - reconfortou-se olhando para o cavaleiro de bronze.
O fato cinzento, a gravata da mesma cor, a velha pasta que voltara a segurar, o chapéu e o guarda-chuva preto, destoavam completamente da informalidade generalizada e colorida com que aquelas pessoas se apresentavam. Talvez por isso muitos o olhavam de soslaio como se fosse uma aberração. Parecia estar desenquadrado, fora do cenário.
“Fora do tempo?” - pensou.
Subitamente chegou o carro elétrico, para seu grande alívio. Tinha apenas sete pessoas à sua frente, mas umas largas dezenas atrás de si.
“Finalmente” - suspirou com um ar de enfado, enquanto ajeitava a gravata, depois de vencer com alguma dificuldade os dois degraus de acesso à cabine. A mala e o chapéu-de-chuva não ajudavam e ainda se desequilibrou.
Estava visivelmente enferrujado. Ainda esboçou a intenção de protestar veementemente pelo atraso que considerava inadmissível, mas acabou por se conter. Não estava bem certo da sua posição. Era preferível arrumar as ideias, avaliar as suas percepções. Numa palavra, saber o que estava ali a fazer. Como tinha ido ali parar.
Dirigiu-se ao motorista, seguindo o exemplo da passageira que o antecedia. A senhora estava bastante indignada e fartou-se de emitir insultos em voz alta, reclamando dos atrasos e do alto preço dos bilhetes. Foi um procedimento que o deixou muito impressionado e lhe retirou a presença de espírito.
“Uma senhora a praguejar?”
- São cinco euros até Belém - disse o funcionário sem olhar para ele.
- Cinco…? - balbuciou, algo perturbado - lembrou-se que nunca tinha dinheiro com ele.
Acompanhara visualmente o movimento da passageira pelo corredor fora, perante a indignação do motorista, que o olhava fixamente por cima dos óculos escuros. Parecia reconhecê-lo. Pelo menos foi essa a sensação que teve ao notar algum espanto naqueles olhos alucinados.
- Não tenho o dia todo, amigo. Se não tem dinheiro o melhor é sair.
Ficou sem palavras, e olhava pateticamente para o condutor.
Atrás dele a pequena multidão empurrava e começava a vociferar, emitindo alguns impropérios.
- Estes velhos reformados … - dizia um.
- Vão mas é trabalhar, parasitas - acrescentava outro.
- Só atrapalham. E levam-nos o dinheiro todo com as reformas - ouvia-se ainda uma voz estridente vinda do exterior.
- Dá lugar aos novos - grita-lhe um rapaz aos ouvidos.
- O senhor comporte-se - atreveu-se a dizer com uma voz zangada, voltando-se para trás. E num assomo de indignação não se conseguiu conter. Puxou pelos galões pela primeira num tom autoritário.
- Por acaso sabe com quem está a falar?
O jovem faz uma careta e olha-o de uma forma provocatória, perante a evidente impaciência do condutor que queria fechar a porta e não conseguia. Blasfemou em surdina e depois praguejou alto e bom som:
- Só me saem duques!
Era bastante encorpado e tinha uma tatuagem na mão. Levantou-se e convidou-o a sair controlando a fúria o melhor que podia.
- Ó amigo, ou sai a bem ou ponho-o lá fora. Não tenho o dia todo. Se não tem dinheiro nem passe não pode viajar. As borlas acabaram e são penalizadas com multa elevada.
Algumas pessoas começaram a protestar no interior do elétrico, mas outras olhavam-no em silêncio com uma estranha incredibilidade e franziam a testa.
- Quando é que esta merda arranca? - gritou um militar que ia de pé lá ao fundo.
- Tens a certeza? - perguntava a velha senhora à amiga, em surdina, sem deixar de o observar com incredulidade. Estavam as duas sentadas na segunda fila do lado do condutor e não tiravam os olhos dele.
Decidiu desistir. Recuou, e os passageiros atrás dele abriram alas para que saísse, no meio de insultos e vaias.
O elétrico pôs-se em marcha enquanto a porta se fechava com um estrondo que abafou os palavrões do passageiro que entalou o casaco no mecanismo.
Afastou-se alguns metros. Desistiu da ideia de apanhar o elétrico. Uma nova fila começou a formar-se atrás dos que não conseguiram lugar. Já ninguém parecia reparar nele. Estavam todos entretidos com aquele aparelho misterioso que manipulavam de uma forma automática. Ele parecia ser o único observador. Todos os outros estavam fechados sobre si mesmos.
A vida continuava como se nada tivesse acontecido.
Ficou alguns segundos parado na calçada, de costas para o rio, observando o movimento do elétrico até este entrar no largo da câmara municipal. Tentava desesperadamente entender o que se estava a passar.
Subitamente lembrou-se. Tinha que ir rapidamente ao palácio de Belém falar com o Presidente. Aí estava a explicação para se encontrar na fila do elétrico. Não se lembrava era do assunto que o levava a deslocar-se a Belém.
“Talvez tivesse sido melhor mandar chamar o motorista” - pensou, mas espantou-se com esse pensamento. Havia muita coisa mal explicada mas tinha que ir devagar.
Era imperioso detectar o facto que explicasse aquela aparente viagem no tempo. Sim, era disso que se tratava, claramente. O espaço era o mesmo, a cidade também, mas o tempo era outro, claramente. O seu cérebro fervilhava na ânsia de pesquisar o passado.
“Algo de muito errado terá acontecido”- decidiu.

Curiosamente, enquanto procurava uma solução para o seu problema imediato, vieram-lhe à memória mais alguns detalhes do seu acidente. Analisava-os agora com extrema atenção, procurando encontrar um fio condutor.
“ Todo o cuidado é pouco com a divulgação do ocorrido, entende?” - disse Dona Maria, zangada, impedindo o doutor Mendes de fazer a chamada - “O Senhor Professor não iria gostar do alarme desnecessário, percebe?”
Maria de Jesus estava no seu quarto a rezar o terço e não dera por nada. Foi a jovem Rosália que a informou do sucedido, e rapidamente tomou as rédeas da situação.
- Se a senhora o diz - conformou-se o chefe da casa civil, sabendo que não seria conveniente contrariar Maria de Jesus, que o olhava friamente.
- O Senhor Professor já está melhor. Agradecia que me deixassem a sós com ele para o ajudar a vestir-se - ordenou finalmente a governanta e ninguém se atreveu a esboçar qualquer tentativa de a persuadir a agir de forma diferente.
Ele já tinha sido conduzido para os seus aposentos com a ajuda do calista e do barbeiro, que o ampararam no percurso entre a casa de banho e o seu quarto ao fundo do corredor. Uma escassa dezena de metros. Recuperava lentamente e sentia-se melhor.
- Quem viu exatamente o que se passou? - perguntou finalmente à governanta.
- O Senhor Professor deveria ter tido mais cuidado - ralhou ela, fechando a cara como fazia sempre que estava irritada. Maria de Lurdes não entendia como é que aquele homem extremamente inteligente, que detinha todo o poder no país, não descobrira ainda que ela o amava profundamente e que daria a vida por ele, sem exigir nada em troca.
“És um perfeito idiota” - apetecia-lhe gritar alto e bom som enquanto o ajudava a vestir uma camisola interior.
“Estás rodeado de intriguistas e manipuladores que bem conheces mas não consegues reconhecer alguém que te ama incondicionalmente” - continuava a pensar, com um sorriso condescendente nos lábios.
- Que seria de mim sem ti - disse finalmente o Professor que parecia recuperar as cores e a presença de espírito.
- O Senhor Professor não precisa de ninguém. É um ser superior a quem o país tudo deve - respondeu Maria de Jesus com alguma ironia.
- Não quero que este episódio saia daqui. E temos que encontrar uma versão oficial que não seja motivo de especulações. Entende, Maria?
- Perfeitamente Senhor Professor. Já impedi o Doutor Mendes de chamar o Doutor Coelho.
O Professor fez um gesto de concordância, inclinando a cabeça para a esquerda.
- Tenho que falar com o Américo - disse depois com irritação - Este jovem que ele me recomendou é muito emotivo e pouco experiente. Nada disto pode transpirar. Reúna as pessoas envolvidas na sala azul, por favor, Maria.
- Com certeza Senhor Professor. Mas permita-me que lhe recomende alguns minutos de repouso. As quedas são sempre problemáticas.
- Tem razão, como sempre, Maria. Que seria de mim sem a sua presença e inteligência? Provavelmente teria que calcorrear o país em busca da sabedoria popular que Maria tão bem assimilou - responde ele, pegando-lhe na mão, delicadamente.
Sabia bem como a devia lisonjear.
- Já pensou na versão oficial do lamentável acontecimento, Senhor Professor?
- Em sua opinião qual seria o relato que o povo gostaria de ouvir?
- Qual o que o deixaria mais descansado?
- Sim, Maria. Exatamente.
- Recomendaria atribuir as culpas a algo exterior.
- Como assim?
- Algo que não estivesse relacionado com o Senhor Professor. Que não desse lugar a especulações sobre a sua forma física.
- Entendo. Talvez uma falha mecânica. Uma cadeira que se parte com o meu peso, por exemplo, não seria uma má ideia - diz ele, entusiasmado. E, pegando-lhe na mão, delicadamente:
- Que seria de mim sem si, querida Maria.
- Sou uma simples mulher do povo, Senhor Professor.
- Maria é o povo na sua verdadeira essência. Pelo menos estatisticamente. Tê-la a si por perto é saber a todo o momento aquilo que os portugueses querem. É conhecer os seus anseios mais fundos. As suas opiniões sobre os sentimentos do povo são-me extremamente úteis para as minhas tomadas de decisão políticas. E nem preciso percorrer vilas e aldeias para tomar o pulso à Nação.
- Bondade sua Senhor Professor - diz Maria com falsa modéstia.
Sabia bem que ele dava crédito às suas informações e por vezes até forçava a nota para impor um pouco do seu cunho pessoal. Foi com uma grande satisfação interior que se despediu. Esses momentos de íntimo reconhecimento enchiam-lhe a alma.
- Agora devo apressar-me. Descanse um pouco por favor.
- Dê-me quinze minutos e depois venha chamar-me. E olhe que me decidi pela sua sugestão.
- A cadeira. Acho que é uma versão satisfatória, que Deus nos perdoe os nossos pecados - diz Maria de Jesus, benzendo-se.
- Tudo a bem da Nação, Maria. Ele entende - diz o Professor apontando para o tecto com o indicador direito.

 “É isso. Sou presidente do Conselho, tratam-me por Professor e tenho que falar com o Presidente por causa do pessoal” - lembrou-se subitamente, e voltou a sua atenção para a pequena fila de táxis de cor creme estacionados em frente ao ministério, mesmo em frente às arcadas.
Caminha na sua direcção com algum cuidado, como se receasse qualquer coisa. Para na passadeira mesmo em frente à Rua Augusta e espera que o sinal abra para os peões. Várias pessoas foram chegando, e colocaram-se estrategicamente como se estivessem numa linha de partida de uma corrida qualquer. Passados alguns segundos de tensão crescente, o sinal cai para o verde. Atravessa, imitando a multidão, mas vai olhando a medo para ambos os lados, algo intimidado pelo roncar de duas motas que ameaçavam arrancar a todo o momento levando tudo à frente. Teve contudo tempo para comparar com o seu mundo conhecido.
“Já não há sinaleiros?”
Foi ultrapassado por quase toda a gente, ainda a meio da passadeira, com exceção de uma mulher idosa que caminhava um pouco atrás e à sua direita, e não parava de o observar com curiosidade.
“Esta gente anda toda com muita pressa” - pensou ainda - “Fugirão de alguma coisa?”
Não teve tempo para desenvolver a sua tese pois dois passos antes de chegar ao outro lado o sinal vermelho caiu e as motas arrancaram a toda a velocidade, quase o apanhando nessa correria. Nem deu por isso, absorvido que estava na contemplação dos táxis estacionados em frente às arcadas. Nem sequer ouviu o insulto com que foi brindado por um dos motoqueiros.
- Mexe essas pernas, velhadas!
“Mudaram de cor, curiosamente” - observa com alguma perplexidade - “Até que não estão mal, mas tenho de falar com o responsável pelos transportes. Faltam ali as cores nacionais. Pelo menos o verde. Mais um tema para a conversa com o Presidente”.
A velha senhora continuou a observá-lo durante alguns momentos, mas acabou por se afastar, abanando a cabeça. Entrou na Rua Augusta a passo vagaroso. Olhou para ela com curiosidade, inclinando a cabeça para o seu lado esquerdo, como era seu hábito, até a ver desaparecer.
- Está livre? - pergunta, espreitando pela janela do pendura do primeiro táxi da fila.
- Sim. Para onde é a corrida? - pergunta o jovem taxista com uma estranha pronúncia, sem contudo tirar os olhos do pequeno aparelho colorido que estava montado sobre o tablier, enquanto o passageiro se acomodava no banco de trás, tentando perceber o que seria aquilo.
- Para Belém, por favor.
- É a primeira pessoa que me pede por favor - exclama, genuinamente surpreendido, o jovem taxista. Perante o silêncio expectante do passageiro, pergunta, olhando pelo retrovisor, exibindo um largo sorriso. Estranhava a forma como o passageiro se vestia, o chapéu, o guarda-chuva, a pasta debotada.
- Vai a algum museu?  
Abre o pisca para a esquerda e diz qualquer coisa numa língua estrangeira para o colega do táxi da frente, que se limitou a fazer um aceno de interpretação duvidosa.
- Não. Vou falar com o Presidente - diz finalmente o Professor, quando já passavam o largo da Câmara.
- É de algum sindicato? - pergunta o jovem condutor, olhando de novo pelo espelho retrovisor, tentando avaliar o estranho passageiro - Talvez pudesse defender a nossa classe - graceja, esboçando uma careta que poderia ser interpretada como um vago sorriso.
- O senhor é estrangeiro? - pergunta o Professor, pausadamente, como era seu timbre. Reparou na estranha pronúncia do taxista e ficou curioso.
- Sou Ucraniano. Já cá estou há dois anos.
O Professor aguça os sentidos e avança o tronco para a frente, sinal de que estava verdadeiramente interessado no assunto.
- Dissidente da União Soviética? - perguntou, passados alguns segundos.
O taxista olha pelo retrovisor com um ar surpreendido.
- A União Soviética já não existe desde mil novecentos e noventa e um, caro senhor. Há vinte e três anos - explica, condescendente - Tem estado afastado da política, com certeza - complementa, olhando agora o passageiro com alguma atenção, pelo espelho.
Mikhail sabia que a política não era o forte dos portugueses, mas aquela manifestação de ignorância histórica ultrapassava todas as marcas. E passou a olhá-lo pelo retrovisor com intensa curiosidade. Ia sentado a meio do banco traseiro, numa postura estática, e olhava com extrema atenção para um e outro lado das ruas que iam atravessando. Tinha colocado a pasta sobre o colo e tinha as mãos sobre ela. Devia conter algo importante. Agora que o observava com mais cuidado, parecia reconhecê-lo. Conhecia-o de algum lado, mas não podia precisar. Já tinha visto aquela cara nalgum sítio, mas não conseguia lembrar-se apesar da sua boa memória visual. Perante o silêncio do passageiro, que parecia ter-se remetido a uma certa introspecção, Mikhail atreveu-se:
- Conheço-o de algum sítio. A sua cara não me é estranha.
- Sou o Presidente do Conselho.
Mikhail franziu a testa, sem comentar. Fazia algum esforço de memória, mas com tanta informação que chegava diariamente às catadupas, pela televisão e pelos jornais, pela internet, depressa desistiu. Tinha que se concentrar na condução. O trânsito era muito naquele início da manhã. Resolveu desenvolver um pouco as angústias que lhe iam na alma.
- A Ucrânia está à beira de uma guerra civil. O Presidente não quer que o país integre a União Europeia.
- União Europeia? - interroga o passageiro.
- Sim, já nos candidatámos, mas a Rússia não vê isso com bons olhos.
- A lealdade é a verdade do sentimento, meu caro senhor. É impossível ser desleal sem mentir, sem ludibriar a consciência alheia - balbuciou o Professor, mecanicamente, olhando a cidade pela janela.
- Não entendi - disse Mikhail.
- Estou a falar sozinho. Não se preocupe. Acontece-me muito.
Estava cada vez mais perturbado e olhava pela janela tentando situar-se.
“Alguma coisa muito estranha se está a passar” .
A cidade estava realmente muito diferente. E não eram necessárias muitas análises. Bastava ver a forma como as pessoas se vestiam, falavam, se movimentavam. Os jovens, então. Principalmente as raparigas, vestidas de forma imprópria. Táxis de cor creme, taxistas ucranianos a falar uma espécie de português e a discutir política internacional abertamente. Um caos.
Chegavam ao fim da Rua da Junqueira e aproximavam-se do palácio de Belém, no meio de um trânsito caótico.
- Em que sítio quer ficar? - perguntou Mikhail olhando de novo pelo espelho retrovisor.
- Quero ir ao palácio falar com o Presidente. Foi para isso que vim.
Mikhail parou o táxi mesmo em frente ao portão principal. O guarda que estava na guarita fez um discreto sinal para que se afastasse, mas o taxista insistiu que o seu passageiro tinha uma entrevista marcada com o Presidente. O ucraniano gesticulava e falava através da janela do lado do passageiro, de modo a fazer-se entender pelo guarda que não abandonava a sua posição estática.
Mikhail estava completamente deitado sobre o banco do pendura, de uma forma considerada suspeita. Rapidamente chegaram dois civis armados, que lhe solicitaram que encostasse um pouco mais à frente. Logo a seguir à guarita, sobre o passeio. No banco de trás o passageiro mantinha-se imperturbável numa posição digna e expectante. Parecia mais interessado em observar o interior do palácio do que na acesa discussão que se gerava entre o taxista e os dois homens.
- O senhor não pode parar em frente ao palácio. Arrisca-se a ter problemas sérios - diz um agente, ameaçador.
- Os seus documentos, por favor - diz o outro, enquanto olhava para o interior do táxi, tentando identificar o passageiro - Saia do veículo e não faça movimentos bruscos.
“E vim eu da Ucrânia por causa da insegurança” - lamenta-se Mikhail enquanto saía com as mãos no ar.
- Mas o meu passageiro é o Presidente do Conselho - protesta, algo nervoso, o que fazia com que falasse num português quase incompreensível.
- Não é preciso levantar os braços - diz o guarda mais novo.
- Presidente do Conselho? Mas qual conselho? - interroga-se o agente mais velho que parecia ser o chefe. Aproxima-se da janela traseira e fica espantado a olhar para o passageiro, que lhe pergunta com uma voz paternal:
- Mas há algum problema, senhor agente?
O coronel José Soares ficou durante alguns momentos sem conseguir articular palavra. Parecia ter visto um fantasma e levou alguns instantes para conseguir fechar a boca. Andava pela casa dos cinquenta anos e tinha conseguido aquela nomeação no início do primeiro mandato do Presidente. Teve que cobrar um favor político para que tal acontecesse, mas valera a pena. O trabalho como chefe da segurança do primeiro magistrado da Nação era um cargo bem remunerado e não dava grandes problemas. E podia viajar sempre que o Presidente fazia visitas de Estado ao estrangeiro e até já conseguira por algumas vezes integrar a esposa na comitiva, fazendo uso do seu direito de convite. As ajudas de custo eram tentadoras. Com a recente reeleição garantira praticamente aquele trabalho até à entrada na reforma, sem grandes preocupações.
Tinha que pensar rapidamente. Não se podia precipitar. Não podia cometer qualquer erro. Os media andavam em cima do Presidente e se havia coisa que ele não tinha era vocação para ser bode expiatório.
- Miguel, chega aqui - ordenou ao colega, um tenente do exército que o secundava no comando e que tentava em vão entender o taxista que já só falava em ucraniano, tal o seu estado de nervosismo.
- Algum problema, senhor coronel - pergunta o tenente, segurando os documentos de Mikhail que entretanto já cruzara os braços, arrependido de ter apanhado aquele cliente estranho. Encostou-se ao carro, olhando para o céu, como que pedindo inspiração divina.
O coronel mexia os dedos, nervosamente, e parecia ter empalidecido.
- Olha bem para o indivíduo que está no táxi.
Miguel aproxima-se da janela traseira do lado direito do veículo, olha para o passageiro que se mantinha imperturbável, recua, olha de novo para o interior do carro e finalmente volta-se para Soares:
- Parece o Ditador.
- Mas muito mais novo.
Os dois homens entreolham-se, depois observam o passageiro que permanecia calmo e sorridente, e finalmente dizem ao motorista, que se tinha colocado de cócoras, encostado ao pneu dianteiro direito:
- Entre no palácio por favor, encoste ali em cima perto da casa da guarda e espere instruções.
A um sinal imperceptível do coronel Soares, o guarda da guarita levanta a cancela.

O passageiro leva a mão direita à pala do chapéu e sorri beatificamente ao passar pelos agentes, evidenciando uma pose de Estado.

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