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BELLIS
Pas de motions, d´émotions!
domingo, 17 de outubro de 2021
segunda-feira, 11 de outubro de 2021
E-books
Irei publicar todos os meus livros na versão e-book na Chiado e-books.
Já lancei dois
SAMUEL GACON, o tipografo de Faaron, de 2009
O CAMINHO DE DEUS, de 2017
O primeiro é a minha versão particular do autor do primeiro incunabulo produzido na Judiaria de FARO no século XV.
Samuel Gacon, o tipógrafo de Sevilha que foi resgatado das mãos do Inquisitor Torquemada por um pescador de Faaron...
O segundo livro é uma ficção baseada no terror provocado pela chamada primavera Árabe, iniciada em 2010. Uma visão particular dessa tragédia que passa também pela cidade de FARO onde residência um ex-combatente do Hezbollah.....
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
PARA ACABAR (outra vez) COM A CULTURA
H. P. BELLIS
PARA ACABAR (outra vez) COM A CULTURA
(Iniciado quinta-feira, 29 de Agosto de
2019)
1
Até há pouco tempo
alimentei a esperança ou mesmo a convicção de que era imortal e dessa forma
poderia ter uma ou várias eternidades para descobrir o caminho das verdades
absolutas. Acontece que um inesperado problema de saúde me veio retirar essa
certeza instalando a dúvida sistemática, uma espécie de subrotina, no meu
programa vital.
Assim sendo, arrebatado violentamente das
nuvens onde me sentia intocável, dei por mim a descer à terra, subitamente
igualado a todos os meus semelhantes que me habituei a olhar de um plano
elevado. Posso agora prever com grande segurança, diria mesmo sem qualquer
receio de falhar o prognóstico, que terei de abandonar as certezas absolutas,
prorrogativa divina, e apresentar-me como simples mortal perante aqueles que
tenho contactado do alto da minha sabedoria.
Estou então confrontado com um facto novo,
o de ter de me descrever como realmente sou e não como aquele que julgava que
era. E esta nova realidade poderá trazer-me um problema complicado, a menos
que, como penso, ninguém tivesse prestado verdadeira atenção às descricções que
de mim próprio fui fazendo ao longo deste tempo todo.
Será que alguém ouviu realmente o que eu
ia dizendo e defendia ser a verdade absoluta? Resta-me essa
esperança, que ninguém me tenha ouvido atentamente, muito menos retido alguma
coisa das minhas constantes intervenções e agora não se aperceba minimamente da
diferença estrutural da minha nova personalidade. Do que conheço das actuais
relacções interpessoais julgo ser altamente improvável que alguém relembre algo
daquilo que fui debitando profusamente, uma vez que a moderna capacidade de
concentração é ridiculamente pequena. Até apostaria que ninguém me ouviu ou viu
verdadeiramente. Ganhei crédito junto de algumas pessoas pelo facto de abordar
temas incómodos ou outros que ninguém tinha alguma vez imaginado, e agora
sinto-me algo consternado por ter de engolir o meu orgulho e ser obrigado a
reconhecer, confessar humildemente a minha condição de mortal.
A minha última esperança reside aí, na tal
alta probabilidade de ninguém já se lembrar daquilo que eu defendia até há
pouco tempo, dada a velocidade com que a mente muda de foco, nunca se detendo
muito tempo num determinado tema.
E isso abre-me uma boa janela de oportunidade
de ingressar no mundo da política que até hoje criticava profusamente.
É
a vida!
2
É por demais evidente que
existe uma certa dificuldade na escolha de um caminho que nos satisfaça
inteiramente ao longo desta aventura surpreendente e inesperada a que eufemisticamente chamamos vida. E não é
por falta de opções ou oportunidades, pois
os caminhos são infinitos e a cada dia se abrem novas possibilidades
nesta era da grande expansão.
Provavelmente impera no nosso
subconsciente, na memória do corpo, uma espécie de medo original que de certa
forma se explica pela antiga crença de que se escolhermos mal podemos ser
castigados pelo Criador, aquela figura paterna simultaneamente protectora e
castradora que nos impõe regras claras, nos acena com o pecado, mas está sempre
pronto a perdoar-nos as faltas caso ajoelhemos a seus pés, penitentes.
Alguém mais liberal e pragmático, talvez
um anarquista ou ateu, perguntará de pronto para que raio queremos nós um
caminho se podemos calcorrear o mundo sem sair do conforto da casa ou do local
habitual. Paramos para pensar nesta possibilidade e subitamente o nosso cérebro,
depois de fazer uma rápida incursão às memórias gravadas por milénios de
conhecimentos culturais, encoraja a boca a verbalizar a conclusão:
Virtualidade!
A actual maravilha tecnológica que nos permire recrear e integrar todos os
cenários e possibilidades sem sairmos do mesmo sítio. Será esse o papel do
Criador, num nível infinitamente mais elevado? Será Ele apenas um manipulador
de dados, um arquitecto de cenários que se entretém a desenhar mundos e
situações que se vão modificando à medida que as criaturas mais inteligentes
que criou para este planeta possam evoluir sem contudo conseguirem
desmascará-Lo?
Mas por vezes o Criador tem de ser salvo
pelas criaturas, e esse será porventura o paradoxo de Deus: Permitir que
a Criatura evolua mas só até determinado ponto.
Voltando à questão do caminho. Talvez seja
um exagro de linguagem afirmar que existem caminhos que forçosamente temos de
percorrer para justificarmos a nossa existência. Muito menos que temos de
desperdiçar este milagre a que chamamos vida com uma qualquer ocupação que nos
entretenha.
Milagre, sim! Basta dar uma olhadela ao
espaço exterior para decidirmos sem hesitações que a existência de seres
pensantes (ia dizer inteligentes mas contive-me e já lá iremos) neste poço
infinito e repleto de ameaças a que chamamos cosmos, é um autêntico absurdo, e
daí que mais nenhum Ser se digne aparecer no planeta de forma aberta e
incondicional.
O objectivo da vida!
Um conceito eventualmente inventado por um
sábio pensador, assim denominado pelo facto de levar a existência inteira a
tentar perceber para que é que a vida serve, sem contudo ousar vivê-la. E assim
se inventaram os filósofos e as religiões!
Mas se é verdade que somos autónomas para
pensar de forma inteligente e usar o nosso tempo da melhor maneira possível,
desenvolvendo tecnologias facilitadoras, por exemplo, também é verdade que de certa
forma o feitiço se virou contra o feiticeiro, pois o produto da nossa criação,
de forma subreptícia, está bloqueando a nossa capacidade de pensar.
O drama divino? Do Criador?
Vejo aí uma certa analogia, e imagina só
se subitamente o Criador, Deus, fosse inibido de pensar, só pelo facto de ter
desenvolvido ferramentas facilitadoras da sua Obra. Ficaríamos subitamente sem
protecção divina?
Mas fixemo-nos nos problemas terrestres,
que são por agora os únicos a que estamos condenados a dar atenção.
Contrariamente ao que sucedia com os humanos que nos antecederam, os chamados nossos
antepassados, hoje qualquer indivíduo da nossa espécie pode em tese aceder
a qualquer coisa, informação ou entretenimento, de uma forma instantânea.
Ninguém se transforma em perito em matéria científica ou outras ao aceder a
esse repositório informativo, mas ainda assim conseguirá emitir um ou dois
conceitos aparentemente correctos, retirados à pressa de uma qualquer
biblioteca virtual da especialidade. A ideia de cultura associada ao saber de
experiência feito, aquilo que retemos no subconsciente depois de termos
esquecido o geral, é um conceito morto e enterrado. Hoje qualquer um pode
decorar algumas frases ou dados estatísticos e fazer um brilharete em qualquer
reunião social. Com arte até poderá conseguir um emprego bem pago caso seja
suficientemente convincente perante as pessoas certas. Deixo aqui esta dica
para eventuais candidatos à vida
política, pelo menos até secretário de estado.
O problema surgirá se por azar alguém
quiser desenvolver o assunto, por ser perito na matéria ou ter obtido mais
informação na internet, mas aí há sempre forma de contornar a situação, mudando
de tema ou fingindo ter de atender uma chamada inesperada no telemóvel. Se a chamada
demorar mais que um minuto, o perigo passou, pois certamente já o assunto terá
sido substituído por outro tema qualquer, e a imagem vendida continuará
intacta.
Já o homem Anterior não tinha essa
prorrogativa e era obrigado a inventar os seus próprios jogos e ferramentas, a
estudar os clássicos e as ciências em livros que rareavam, a conhecer os seus
próprios limites intelectuais.
Não vá o sapateiro além do chinelo!
Era o que se dizia para delimitar
competências. Hoje, não! Qualquer um que tenha acesso às maravilhas
tecnológicas existentes tem na palma da mão as respostas mais variadas a
qualquer questão que lhe ocorra, e se nada houver para consultar, dada a
extravagância da questão, poderá ele mesmo criar a sua própria definição,
publicá-la no Youtube, e com sorte passará a integrar aquele grupo emergente de
criadores virtuais especialistas numa coisa qualquer.
O problema é que o cérebro humano se está
a adaptar a essa nova realidade. Não custa imaginar um futuro próximo, e abro
aqui um parênteses para constatar que o futuro surge ca da vez mais depressa,
em que já não serão os humanos a desenvolver programas de acesso a quase tudo,
mas sim os próprios programas a determinar as nossas vidas. E não apenas nas
questões tecnológicas, mas também nos aspectos fisiológicos, determinando o que
devemos consumir, pensar ou fazer, através de um processo subtil de formatação
cerebral.
Está assim aberto o caminho a novos
deuses, novos criadores. A questão que se coloca é saber se estaremos no
caminho certo, sendo esta a vontade primitiva do Criador, ou se o próprio Deus
foi ultrapassado pelos acontecimentos.
Será este um processo armadilhado ou
apenas o fim da Cultura como a conhecemos até então?
Estou algo indeciso
entre atribuir à virtualidade social a responsabilidade pela crescente
indiferença nos relacionamentos interpessoais ou ao seu contrário. A velha
questão do ovo e da galinha que tem apaixonado inúmeras gerações, pelo menos
desde que há galinhas e se começou a filosofar, mas com contornos diferentes.
Independentemente de se conseguir chegar a
uma conclusão definitiva, ou no mínimo rotular de interessante essa questão, a
verdade é que o mundo virtual aí está para gáudio dos evolucionistas e das
gerações mais novas e para desagrado daqueles que apontam o dedo a essa nova
forma de conviver, comunicar à distância sem olhar o outro nos olhos, sem lhe
sentir as emoções. Por muito conservadores que sejam os actuais Velhos do
Restelo, não conseguirão deixar de aplaudir
algumas funcionalidades dessa mesma virtualidade, claramente
facilitadoras da chamada vida moderna. Talvez esteja por fazer um estudo sério
sobre a influência da virtualidade nas relações interpessoais, mas
seguramente que ainda não se abordou a sério o impacto da mesma sobre a grande
cultura ocidental.
Facto é que as alterações comportamentais
que já se conseguem perceber indistintamente nas camadas jovens vêm dar razão e
fazer salivar aqueles ditos filósofos que defendem há muito, desde os gregos
antigos, imagine-se, que existe um rosto e as respectivas máscaras que se vão
sucedendo ao longo do dia conforme os papéis que vamos desempenhando. Eis a
chamada personalidade que se começa a formar a partir dos sete anos de idade,
imposta pelas sociedades enquanto substituto funcional da alma com que
aparentemente nascemos.
Que melhor maneira de honrar essa teoria
do que assumir várias identidades, os chamados perfis das redes sociais,
consoante as nossas disposições momentâneas? Conforme a nossa disposição ou
objectivo, podemos ser tranquilos ou agressivos, simpáticos ou desagradáveis,
apressados ou calmos, solidários ou indiferentes, novos ou velhos, homem ou
mulher. Em nós podemos observar todos os tipos de emoções ou estados de alma,
virtudes ou defeitos, sem corrermos o risco de sermos confrontados com o nosso
verdadeiro eu que cada vez será menos identificável dadas as camadas
inconscientes que o cobrem.
A determinada altura nem nós já sabemos
quem somos, uma vez que inevitavelmente todos aqueles impostores mascarados vão
reclamar o papel principal e tentar assumir o controlo da peça a que chamamos
vida. Esse seria um drama pessoal preocupante caso os nossos interlocutores
virtuais não enfermassem do mesmo mal e não reagissem de forma adaptada às suas
próprias múltiplas personalidades.
Ser e Parecer! A tal diferença entre o
carácter, aquilo que nos define num estado de Ser, pensar e sentir da mesma
forma, e a personalidade, aquilo que mostramos conforme as ocasiões.
A vida vai-se assim transformando num
gigantesco baile de máscaras em que ninguém conhece ninguém, e pior ainda, onde
ninguém tem a mínima vontade de conhecer alguém. Um paraíso para os maus
políticos e amantes que obviamente se sentem como peixe na água neste mundo pantanoso
e sombrio onde podem facilmente multiplicar e potenciar as suas promessas,
garantindo para o futuro, com maior veemência, aquilo que sabem não conseguir
fazer e que não têm a mínima intenção de fazer.
4
Porque não habitamos
dentro de nós mesmos? Qual a causa profunda do drama de termos de ir buscar ao
exterior aquilo que perdemos no interior? O panorama geral é desolador, com o
protagonismo do tal monstro autista que dá pelo nome de ego. Há contudo algumas
excepções que apenas vêm confirmar a regra, como seja o caso daquelas almas
notáveis que surgem a espaços temporais eventualmente determinados por leis do
mundo quântico que ainda não entendemos e que ficam gravadas indelevelmente
como referências universais.
E esses génios surgem nas mais variadas
áreas do conhecimento ou da cultura ou de qualquer outra actividade lúdica,
como o desporto. A título de exemplo poderíamos falar de Chopin, de Einstein ou
de Messi, apenas para frisar aquilo que pretendo tratar.
De tal forma essas figuras são
excepcionais, que quando alguém nos dias de hoje se evidencia numa determinada
área, ao invés de ser valorizado de per si, posicionando-se num friso
endeusado, é de pronto associado àqueles intocáveis. Perceberão melhor a ideia
com um caso concreto, o de um colega meu dos antigos liceus nacionais nos
longínquos anos sessenta do século passado, o saudoso Teixeira, que tinha um
virtuosismo excepcional para tocar e compor a nobel música iniciada pelos cinco
de Liverpool, o famoso twist. Pois de pronto o Teixeira foi apelidado de
Chopin do Twist, tendo passado à história devido a algo exterior a si e
não pelo seu genial talento.
Uma clara subserviência cultural, uma
menorização do seu génio único. Pergunto a mim mesmo se e quando teremos a
coragem necessária para inverter o padrão cultural, e passar a denominar o
génio polaco do piano de Teixeira dos Noturnos. Um pouco como fizemos
com o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.
Há inúmeros exemplos daquilo que aqui
trago à vossa consideração, e que indiciam a existência de um certo
corporativismo cultural que tende a ignorar tudo o que é genial e actual em
detrimento dos tais monstros consagrados que já deixaram há muito de respirar.
Dir-me-ão que talvez daqui a uns séculos se rotule um qualquer génio emergente
como o Teixeira do trombone, mas não estaremos cá para o comprovar e
como tal essa não passa de uma hipótese académica com poucas pernas para andar.
Há que esclarecer que aprecio imenso a
música de Chopin e até me dei ao trabalho de aprofundar um pouco a sua vida,
nomeadamente fazendo um estudo exaustivo do seu periodo em Maiorca, em Valldemosa,
durante o turbulento romance com George Sand. Mas isso não retira uma vírgula à
minha tese que pretende ser um subsídio para a inevitável revisão do conceito
actual de cultura.
Que se há-de fazer de qualquer forma, nem
que seja filosofando à vassourada de forma brilhante, como era
apanágio de uma vizinha da minha casa de infância, no esquecido Algharb, a
Senhora Albertina, que nada devia ao genial Nietzsche, que o terá feito à
martelada.
E começaria por deitar abaixo os antigos
deuses, não de uma forma crepuscular, mas sim a golpes seguros de vassoura, começando
por homenagear Albertina, apelidando o
autor da famosa frase Deus está morto, de Albertina de Lutzen.
Albertina de Lutzen!
Sensacional a forma como se inverte a
importância cultural de um sujeito, um pouco como os nomes árabes em que o que
surge em último lugar é mais importante do que o primeiro. E desde logo me
surgem uma quantidade de opções possíveis. Porque não apelidar o famoso Mike
Tyson de Espírito Santo do boxe, numa homenagem ao génio da Banca
nacional, ou Picasso de Messi da pintura, por razões óbvias, passando
por denominar Denis Rodmann de Carlos Costa do basketball?
É tudo uma questão de perspectiva!
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5
Há sempre um absurdo
particular dentro do absurdo geral que é a vida. A verdade é que estamos
previamente condenados ao desaparecimento e contudo insistimos em existir.
Dir-se-á que nenhum de nós escolheu nascer, aparecer de forma abrupta sob a condição
humana depois de algumas semanas de gestação provocada voluntária ou
involuntariamente por um eventual prazer dos chamados progenitores.
Pode colocar-se na mesa das probabilidades
o facto de termos uma alma, uma energia vital que previamente definiu a
possibilidade, mas essa explicação parece-se muito com algumas desculpas
esfarrapadas de alguns advogados no púlpito das argumentações numa sessão de
tribunal.
A verdade é que aqui estamos e a cada
passo existem exemplos dessa espécie de loucura que nos acompanha ao longo da
existência.
Queres 5 cêntimos
para comprar brebas? – ouço
uma voz masculina que não identifico, em tom jocoso, vindo de um andar superior
do bloco de apartamentos onde resido.
Espero com alguma curiosidade pela
resposta, mas ela não chega de imediato. Talvez se trate de uma conversa
telefónica e apenas se possa imaginar o tipo de diálogo através das palavras do
emissor presente fisicamente. Como nada acontece nos momentos seguintes,
concentro novamente a minha atenção no livro que estava a ler, confortavelmente
estendido na espreguiçadeira do terraço. Quando me preparava para repousar os
olhos na linha certa daquele ensaio filosófico, ouço um enorme estrondo à minha
direita, e a primeira coisa que me veio à cabeça foi a de que estava a ser
bombardeado, resquícios do tempo de guerra colonial. De um salto atirei-me para
o chão, protegendo a cabeça, mas como mais nada acontecesse, acabei por me
levantar pouco tempo depois, algo envergonhado, mas aliviado pelo facto de
ninguém ter observado aquela minha reacção automática.
Ao reassumir a posição erecta vi
finalmente a causa de tamanho estrondo. Espalhados por uma área considerável do
meu terraço estavam os destroços daquilo que até há pouco tinha sido um vaso de
barro, residência de uma planta cuja espécie não consegui identificar, tal o
grau de destruição do vegetal. Olhei instintivamente para cima na tentativa de
identificar a origem do ataque, mas o eventual sniper já se tinha
esgueirado sem sequer se dar ao trabalho de confirmar se tinha feito vítimas.
Fiquei perturbado! Teria sido uma
tentativa de assassinato? Mas quem seria o autor? Que eu soubesse não tinha
inimigos no prédio nem havia motivos para me assassinarem. Tenho os pagamentos
de condomínio em dia e não devo favores a ninguém.
Só podia ser um acidente, mas conhecendo a
geometria do prédio, diria que a única hipótese teria sido alguém lançar o
objecto de forma intencional, pois ali não existem aqueles parapeitos com vasos
como se vêem nos bairros populares ou nas varandas de algumas habitações. Num
impulso saí do terraço, entrei em casa e corri porta fora subindo as escadas a
dois degraus de cada vez, na tentativa de apanhar o rufião, mas o silêncio era
total.
Teria eu inventado aquela situação? – perguntei-me,
depois de subir e descer as escadas três vezes, tocando às campainhas das
portas suspeitas, que eram todas as dos andares do lado do meu prédio, até ao
cimo. Ninguém respondeu, mas isso não significava que os apartamentos
estivessem vazios. Quase imaginava o eventual sniper sustendo a
respiração, algures no apartamento culpado, esperando que eu desistisse da
averiguação.
Teria o atacante confirmado que eu saíra
ileso?
Voltaria a atacar, ou foi um mero
acidente?
E os eventuais estragos, quem pagaria?
O meu estado alterado
levou-me a levar a coisa para o absurdo, e por momentos imaginei-me capaz de
fazer levitar objectos pesados e fazê-los cair com estrondo sobre mim próprio.
Comecei a controlar as minhas emoções e decidi veificar os estragos na
tijoleira especial contra infiltrações que me tinha custado os olhos da cara.
Enquanto retirava os cacos e os depositava sobre um enorme plástico que
encontrei na caixa verde onde guardo algumas ferramentas, ia lançando um olhar
para os pisos superiores, na esperança de ver alguma movimentação. Mas nada! Calados
como ratos. Mais calmo, à medida que limpava o terraço e verificava com
satisfação que os sinais do impacto eram ténues ou inexistentes, comecei a
pensar de forma diferente.
E foi o bastante para
regressar à frase jocosa.
Queres 5 cêntimos para
comprar brebas?
E se tivesse sido aquela
a resposta àquela pergunta insidiosa?
Comecei a respirar
compassadamente, de forma harmoniosa, o que em mim é sintoma infalível de
retorno a um estado de calma. É evidente que o facto de ter constatado que não
tinha havido estragos na tijoleira e que tinha sobrevivido aos estilhaços,
ajudou muito a chegar a essa espécie de estado iluminado. Enquanto descia no
elevador para colocar os cacos no caixote de lixo comunitário, ia decidindo que
só um ou uma amante desiludida seria capaz de um acto daqueles. Fiquei logo
aliviado ao optar por essa explicação, e quase esbocei um sorriso quando o
ascensor chegou ao rés-do-chão. Não tinha sido um atentado, e eu não passava de
uma vítima circunstancial. É claro que podia ter sido atingido, ferido
gravemente ou mesmo assassinado, mas a verdade é que nãda disso tinha
acontecido, e ainda por cima tinha a oportunidade de desvendar aquele mistério.
Mas quando abri a porta do prédio e me dirigi à zona dos caixotes de lixo, a
minha mente ia mergulhando noutra espécie de tema. A cultura nacional da
Justiça!
Tentativa de homicídio?
Acidente?
Danos colaterais?
Pensei logo em advogados,
queixas contra desconhecidos, análises periciais da judiciária, tribunais, e
achei por bem desistir de eventual queixa e dar graças a Deus por não ter sido
prejudicado fisicamente ou patrimonialmente,
E os danos morais?
Que se danem os danos morais!- decidi,
depois de reentrar em casa, e aí já tinha decidido que tinha sido uma vítima
acidental, oportunista, de um qualquer conflito motivado por questões amorosas.
E já estava a ver o filme todo, enquanto ia eliminando potencias suspeitos,
baseando essa minha permissa na moral convencional do país.
Já não me restavam quaisquer dúvidas.
Tinha sido um conflito amoroso, aquela reacção era tipicamente feminina
e tinha surgido na sequência da frase jocosa que tinha ouvido instantes antes.
Também poderia ter sido um homem a fazê-lo, mas isso significaria que estávamos
perante um relacionamento homossexual, e que eu soubesse não era provável que
tal acontecesse. Não consegui identificar ninguém com aquelas características
nos andares superiores, tudo casais aparentemente normais, seja isso o
que seja. Apenas no primeiro andar havia um condónimo divorciado e bom rapaz, o
Miguel, que se entretinha a coleccionar casos amorosos, mas a menos que
que a actual paixão, uma morenaça bem feitona mas com ar de poucos amigos,
tivesse lançado o vaso para o terraço do quarto andar após uma briga amorosa,
não via como apontar-lhe o dedo.
Mas a verdade surge sempre à tona, como o
azeite na água. Passados alguns dias o Miguel tocou à minha campainha e
explicou o sucedido, desfazendo-se em desculpas que aceitei desde logo sem
fazer qualquer reparo. Aprendi com algumas meditações que não devemos reviver o
passado, essas memórias venenosas que se infiltram na nossa mente. E limitei-me
a sorrir enquanto ouvia a explicação do Miguel, a quem convidei para se juntar
a mim num Scotch, como é próprio dos cavalheiros.
Luisa, assim se chamava a namorada, tinha-lhe
proposto que juntassem os trapinhos, e ele respondera com aquela frase jocosa,
mas nunca esperou aquela reacção da ortopedista. Agarrou no vaso que ela
própria lhe tinha oferecido dias antes, saiu porta fora e meteu-se no elevador.
Miguel ainda pensou que ela se fosse embora, e ficou a espreitar da janela na tentativa
de a ver entrar no carro, um magnífico Audi azul prateado, mas nada. Alarmado,
saíu para o corredor e subiu as escadas a correr, receando que a ex-namorada
cometesse alguma loucura. Quando passava pelo quarto andar, precisamente o meu,
ouviu um estrondo e receou o pior.
Suicidou-se!
Luisa jogou-se do alto do prédio para o
terraço do quarto direito!
Ficou siderado e não conseguiu mexer-se,
até que me viu sair de casa esbaforido e correr escada acima como um louco.
Estava um lanço de escadas abaixo de mim e como tal eu não o tinha podido ver.
Ficou confuso, mas subitamente aliviado ao ver através da janela da escadaria
que Luisa entrava no seu carro a correr.
Acabaram por sorrir, imaginando a cena
digna d eum filme cómico. Ter-se-ão cruzado os três na zona das escadas e
elevadores, mas não deram por nada.
Nunca mais a vi! – confessou
– Mas não significa que ela não me veja. Sabe como são as mulheres!
Respondi com um movimento corporal, e
depois despedimo-nos. Miguel tinha um encontro combinado em Lisboa, nas
Amoreiras.
Sim, estava de novo apaixonado, agora por
uma esbelta cabeleireira, a Marta, uma esbelta carioca que conhecera pouco
depois do incidente num concerto em Cascais. Mas eu podia ficar descansado pois
não gostava particularmente de flores.
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6
Dizem as
más-línguas que o Doutor Herculano de Vries
se crismou e começou a frequentar a Igreja exactamente no dia em que foi
constituído arguido da Operação Chocolate Helvético, nome de código
atribuído pelo Departamento Criativo da Polícia Judiciária à investigação no
âmbito do escândalo da compra dos submarinos à Suíça.
Poucos o conheciam antes de se ter
transformado numa figura pública aquando da greve dos profissionais do lixo
urbano que praticamente parou o país no verão quente do décimo segundo ano
deste século.
Até custa relembrar aquele pesadelo que
começou como algo insignificante vindo de gente insignificante, e subitamente
se tornou num caos, qual tsunami que só revela a sua verdadeira dimensão
e perigosidade nos derradeiros momentos, com efeitos trágicos.
Começou literalmente a cheirar mal, a
cheirar demasiado mal como todos nos recordamos, e as ondas de choque da
excessiva exposição mediática e fragilização do país à crítica internacional,
não tardaram a abrir rachas na ainda debilitada economia portuguesa que tentava
inverter um ciclo terrível iniciado anos antes com a crise financeira
internacional.
Apesar dos esforços governamentais para
impedir que a anunciada greve fosse uma realidade, tendo ficado na retina uma
acção de rua, altas horas da noite, iniciativa da Presidência da República a
que de pronto se associou o governo, todos empenhados numa luta pessoal pela
liderança da popularidade.
Tinha tudo para ser uma cena cómica, caso
não fosse trágico ver o PR lado a lado com o PM e vários ministros e
secretários de estado empoleirados atrás de alguns carros do lixo que furaram a
greve, entretidos a tentar despejar alguns contentores em horário nobre. Ficou
na retina e também no anedotário nacional o fato de macaco que calhou em sorte
ao PR, excessivamente largo e pouco prático, indiciando que tudo aquilo era
pura propaganda. Mesmo que quisesse, ser-lhe-ia impossível segurar nos caixotes
com aquele equipamemto. Mas enfim!
Felizmente imperou o bom senso e aquela
cena caricata não se voltou a repetir. Diz-se que a sugestão partiu da Igreja,
mas não há como provar tal tese, porque o Cardeal Patriarca não comenta o caso.
O que é certo é que no dia seguinte perto da hora do almoço, todas as
televisões estavam presentes na conferência de imprensa dada por uma personagem
que ninguém conhecia e que se anunciou como porta-voz e consultor jurídico do
sindicato dos trabalhadores dos resíduos
urbanos, o recém-criado STRU.
Era impossível não ficar impressionado com
aquela figura atlética, de cerca de dois metros de altura, impecavelmente
vestido, cabelo preto impecavelmente penteado para trás, óculos redondos à
Trotski, como sugeriu um jornalista da CMTV, e lia-se já neste comentário
uma certa declaração de intenções. Eram várias as especulações que se iam
fazendo entre os habituais comentaristas televisivos, e tal como nas discussões
sobre futebol, eram incontáveis as opiniões que se debitavam sobre tão
misteriosa personagem, tentando adivinhar-lhe os intentos e a linha de raciocínio.
Quando começou a falar com um subtil e
indecifrável sotaque num português fluente e perfeito, o grande desafio passou
a ser adivinhar-lhe a nacionalidade ou pelo menos a naturalidade. Tratava-se do
Doutor Herculano de Vries, como se lia em rodapé nas televisões, licenciado em
Direito pela Universidade de Istambul, naturalizado português e devidamente
credenciado pela Ordem dos Advogados. Foi claro ao dizer que não responderia a
quaisquer perguntas naquela ocasião, limitando-se a confirmar ser o
representante de uma classe marginalizada cujo trabalho era fundamental para o
País. Perante os inúmeros pedidos de esclarecimento dos jornalistas presentes,
limitou-se a olhá-los de frente com um ar calmo e duro, e quando o silêncio
naturalmente voltou, concluiu:
Esta paralização está a ser feita em
conformidade com a Lei e as reivindicações dos meus representados serão
apresentadas por escrito durante a tarde!
Não iremos explorar o periodo de greve,
que não acrescenta muito ao propósito do texto, e como sabemos tudo acabou
rapidamente com um acordo ganhador para todas as partes,
STRU, Governo e população, mas antes tentaremos concentrar-nos
na personagem central daquele episódio, o Doutor Herculano, que a partir daí
iniciou uma carreira meteórica na vida pública. Foi convidado por um partido
marginal a integrar as suas listas, mas no último momento, quase no fecho do
mercado, digamos assim, antes das legislativas desse ano, surpreendeu tudo e
todos ao envergar a camisola de um partido candidato ao título. E não é que
esse partido venceu com maioria absoluta e o Doutor Herculano foi convidado a
liderar a pasta da Defesa Nacional?
De pronto começaram as críticas e as
suspeitas quanto às suas origens. Diziam uns que seria um imigrante originário
dos Balcãs, especialista em circuitos financeiros paralelos, que teria sido especializado
em circuitos financeiros por gente com muito poder, aquando dos anos da
grande depressão, com o objectivo firme de blindar a partir de dentro, todos
aqueles que se aproveitaram da confusão para colocarem no exterior aquilo que
tinham obtido ilegalmente no interior.
As famosas offshores!
Não tem havido notícia dele desde que o
governo perdeu as eleições, diz-se que anda por aí, mas a verdade é que
não escapou às malhas da justiça que acabou por concentrar esforços no célebre
episódio do negócio dos submarinos com a Suiça. Como a tarefa de encontrar a
pista dos milhões desviados para os paraísos fiscais é uma derrota anunciada,
não custa a crer que a Novela Suiça seja apenas uma salsicha que foi atirada
aos especialistas em corrupção para não ficarem totalmente desacreditados.
Não vai dar em nada, mas pelo sim, pelo não, o Doutor Herculano lá se vai
penetenciando e pedindo perdão aos deuses nas missas das sete, na Estrela, zona
para onde foi residir recentemente, e onde se entretém, entre viagens
enigmáticas à China e aos USA, a ponderar uma eventual candidatura a Belém,
onde aliás vai muitas vezes a convite do actual PR.
sexta-feira, 16 de março de 2018
O CAMINHO DE DEUS de Hp Bellis, a editar este ano
SINOPSE
O jovem doutor Bashar
al-Assad tinha tudo para ser feliz. Era oftalmologista na cosmopolita
cidade de Londres e estava profundamente apaixonado pela bela Asma, que
brilhava no mundo da alta finança e na sociedade londrina.
A morte prematura de
Bassel, herdeiro político do regime, modificou-lhe o destino, tendo sido forçado a regressar à Síria para substituir o malogrado
irmão no papel de herdeiro aparente de Hafez al-Assad.
Com Asma
a seu lado, tudo corria bem e a Síria parecia abrir-se ao
mundo depois de séculos de isolamento, mas subitamente chegou
a Primavera Árabe.
Dokhan, um jovem cristão sírio finalista de filosofia da
universidade de Allepo, é protagonista privilegiado desse conflito no mundo
árabe. Para salvar a mãe e a irmã, reféns do estado islâmico, Dokhan é coagido
a cometer um atentado em Portugal, mas com a ajuda de Aghir, um ex-combatente
do Hezbollah radicado há duas décadas na cidade de Faro onde exerce a actividade
de alfarrabista, vai conseguir resgatar a família numa operação arriscada.
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
VELÓRIO - 1º Capítulo
CORPO
PRESENTE
O
corpo de Joaquim Pereira repousava numa urna de madeira
exótica, colocada exactamente no centro da pequena capela de Castanheira
Grande, num plano invulgarmente elevado. Aguardava-o o descanso eterno, agora
que os funcionários da Agência Funerária das Beiras tinham dado o trabalho por
concluído, e se despediam reverentes, com um ar pesaroso, como é timbre da sua
piedosa profissão. Os três homens tinham articulado uma armação metálica
especial, a pedido da viúva, de modo que a urna ficasse a um nível mais elevado
que o normal. O estranho pedido não lhes retirou a habitual eficiência
profissional, e em pouco tempo a agência AFB resolveu a situação.
A morte fora confirmada às vinte e uma
horas do dia anterior pelo chefe de equipa do hospital distrital, e treze horas
depois já o corpo chegava à capela, entretanto preparado para receber tão
ilustre defunto, transportado na carrinha da agência. O sacristão, o senhor Faustino,
já tinha sido incumbido de dispor os bancos segundo as instruções da viúva,
transmitidas por telefone pouco tempo depois de Joaquim ter sido declarado
morto. A mulher de Faustino, a Dona Antónia, fora quem tinha atendido a
chamada, e depois de ter percebido do que se tratava, pediu um momento à Dona
Constança, tapou o bocal, e gritou para o marido ir chamar o padre Mariano, que
já estava deitado àquela hora. Faustino ainda reclamou mas depois de ouvir
falar em Constança Pereira, levantou-se de imediato da cadeira onde estava
sentado a assistir a um jogo de futebol transmitido pela televisão, e subiu ao
quarto do padre.
Mariano começou por estranhar o
telefonema às dez da noite, depois ficou intrigado com a calma e precisão com
que Dona Constança Pereira o informou do passamento do marido, e ia perdendo a
compostura quando a viúva começou a enumerar uma lista enorme de disposições
para o velório e funeral. Parecia até que já tinha planeado tudo com bastante
antecedência. Mariano ainda esboçou uma frase de condolências, mas foi de
imediato interrompido pela voz forte e decidida da viúva, que declarou não ter
tempo para argumentações.
Limito-me
a seguir as instruções do meu esposo, que me disse poder contar consigo, senhor
padre Mariano - disse a viúva, com voz firme, e Mariano
não tinha como dizer não.
Era imperioso que tudo estivesse pronto
de acordo com as disposições do marido e o velho padre não fora capaz de
contra-argumentar, apesar de ter muitas dúvidas quanto à origem daquelas
diretivas, e estar deveras surpreendido com a atitude de Dona Constança.
Estarei
aí quando o corpo chegar! - declarou no fim do
telefonema, e depois do som habitual de desligar, Mariano ficou ainda algum
tempo com o auscultador na mão, enfiado naquele roupão branco que lhe dava um
ar fantasmagórico. Olhou depois para o casal que a uma certa distância o
observavam com um ar preocupado, e finalmente desligou.
- Há algum problema, senhor padre
Mariano? - atreveu-se a perguntar Antónia.
- Morreu o Joaquim Pereira!
- Ah! Valha-me Deus - disse Faustino -
Mas estava doente?
- E morreu onde? - perguntou Antónia,
ansiosa.
- Morreu aqui no hospital de Castelo
Branco - confirmou Mariano - Foi a esposa que me disse.
- Não cuidei que estivesse doente -
disse Faustino, e Antónia torcia as mãos, algo nervosa, e a espaço puxava o
lenço para cima da cabeça.
- É a vida, meus amigos - disse Mariano,
reconhecendo que nem sequer perguntara as causas da morte, e depois suspirou -
É a vida. Ainda ontem falei com ele.
- E agora, que fazemos, senhor padre? -
perguntou Faustino, com aquele seu jeito algo perdido.
- Agora há muito que fazer. E também
vamos precisar da ajuda da tua mulher. O corpo chega aqui pela manhã e tenho um
monte de pedidos da viúva - depois olhou para o tecto, como que procurando
alguma coisa - Espero não me ter esquecido de nada!
Era a primeira vez que Mariano via uma
viúva tão pouco chorosa e tão decidida em aceitar a morte do homem com quem
vivera nos últimos dez anos. Era verdade que não conhecia muito bem a mulher
elegante e algo distante que estava agora perto dele, e isso constrangia-o um
pouco, limitava-lhe o discernimento. Também não podia contrariar aquilo que sempre
dizia nos funerais, que era preciso aceitar os desígnios divinos. Constança
tinha chegado minutos depois do carro funerário, como se quisesse confirmar que
o corpo do marido tinha sido entregue no local certo. Passados uns momentos de
estupefacção, Mariano dirigiu-se à viúva, que estava parada à entrada da porta
da capela e olhava para o pequeno templo, mas era impossível interpretar o que
lhe ia na alma. Dona Constança deu alguns passos em direcção da urna mas depois
deteve-se. Estava elegantemente vestida de negro, uma roupa que lhe evidenciava
as formas, usava chapéu, tinha o rosto oculto por uma renda também preta e
manteve-se algo afastada do caixão enquanto o padre Mariano acompanhava os três
profissionais, quais anjos negros, até à saída da pequena capela.
- Um excelente trabalho - disse o
sacerdote, mas logo se arrependeu ao pensar no amigo desaparecido. Era a frase
habitual, tantas vezes dita sem a mínima convicção.
A urna ficava praticamente ao nível dos
olhos de uma pessoa com estatura média, e claramente acima do nível do altar. Aquela
posição de relevo tinha sido uma imposição da viúva, apesar da resistência
inicial do velho padre Mariano, diácono da diocese e velho amigo e também
professor de catequese do falecido.
Não
sei se será boa ideia elevar o Joaquim acima do altar - disse
com voz hesitante, olhando fixamente para o rosto da Senhora Dona Constança de
Castro Pereira que tinha finalmente retirado o véu. Ainda era uma mulher
bonita, apesar da idade, e os anos tinham-lhe oferecido uma aura de mistério
que intrigava qualquer um.
Foi
um último pedido de Joaquim, que só ele poderá justificar - argumentou
ela e isso teve o efeito de um decreto na mente do velho pároco, que finalmente
recuperou o controlo das emoções - E
agora será muito difícil pedir explicações ao meu defunto.
Era pois uma última vontade de Joaquim
Pereira, e contra isso nada podia ser feito.
Aquela argumentação era inatacável, e
Mariano acabou por ceder. Duvidava muito que tivesse sido ideia de Joaquim, conhecia-o
suficientemente bem para não acreditar que quisesse ficar acima de toda a gente
depois de morto, mas já não tinha forças nem vontade para rebater aquelas
palavras. Limitou-se a anuir com um movimento subtil de cabeça e a abrir os
braços de forma teatral enquanto emitia um som praticamente indecifrável.
Voltou-se para o falecido e de seguida colocou a mão de uma forma suave, quase
a medo, sobre a urna do amigo agora desaparecido.
Sim,
desaparecido! - pensou, enquanto fechava os olhos sem
largar a mão da urna, postura que a viúva tomou por uma oração de despedida e
por isso se manteve imóvel e silenciosa, um pouco atrás. Mariano não acreditava
muito naquela tese antiga a que muitos chamavam alma primitiva, que defende que a pessoa e o cadáver não são duas
entidades distintas, são um e o mesmo ente, cuja dualidade e presença em dois
lugares distintos não prejudica a individualidade.
Será
mesmo isto que a tese diz?- interrogou-se, mas logo abandonou
esses pensamentos para se concentrar na fragilidade da vida. Já celebrara a
morte imensas vezes e continuava sem perceber o mistério apesar das palavras
seguras com que transmitia a certeza da vida eterna.
Talvez
quando me tocar a mim, as dúvidas se dissipem - pensou,
enquanto tentava adivinhar o estado do rosto do amigo que tinha sido coberto
por um lenço opaco de cambraia, a pedido da viúva - Ou talvez não, mas nunca serei capaz de revelar a verdade.
-
Que
Deus o tenha em sua guarda - acabou
por dizer, em voz sumida, e depois afastou-se do corpo de Joaquim, a criança e
o jovem simples que se tornara um vencedor da vida e transformara por completo
a face daquele lugar esquecido dos homens, a aldeia de Castanheira Grande,
entalada entre duas serras, esquecida pelos governantes.
- Bem merece esta distinção - reconheceu,
para agradar à viúva, depois de passar os olhos pela disposição dos bancos
corridos, em forma de U, abraçando a urna onde Joaquim repousava com os pés virados
para o altar.
Mariano já perdera o conto aos funerais
que celebrara naquela capela, e também já memorizara os passos necessários para
chegar ao cemitério, subida a Rua de Santo António lá em cima no montado, bem
perto do famoso cerejal da Dona Eduarda Taveira, proprietária rural viúva de
longa data, a quem era imputado um terrível mau feitio.
Talvez
seja por morar perto do cemitério que ela tem aquele feitiozinho - disse-lhe
uma vez o Conde José de Albuquerque, um amigo de infância, rico proprietário e
grande benemérito da terra, cujo único filho e herdeiro acabaria por cair em
desgraça depois da morte prematura dos progenitores.
Cabra
amarela! - lembrou-se Mariano da alcunha pouco
abonatória de Eduarda, e não conseguiu evitar um ténue sorriso a esta
recordação, facto que não passou despercebido à viúva.
- Lembrou-se de algum facto feliz,
senhor padre? - perguntou Constança de Castro com um ar irónico, mas o velho
padre não se perturbou e emitiu uma frase enigmática:
- A morte pode ser uma libertação, minha
filha!
Constança estava impecavelmente vestida
com um fato preto que lhe ficava particularmente bem. Era uma mulher alta,
ainda com um corpo elegante, apesar de estar prestes a deixar a casa dos sessenta,
e a seu lado o padre Mariano parecia algo deslocado, enfiado naquela sotaina
que já tinha visto dias melhores, o cabelo ralo mal aparado, a barba de dois dias,
a pele um pouco escamada por evidente falta de tratamento ao longo da vida.
- Foi um casamento curto! - disse
Mariano em voz baixa, sem saber porquê, como se pensasse alto, mas logo se
arrependeu. Disfarçou o embaraço ao voltar-se para trás para dar autorização ao
sacristão, entretanto surgido vindo da sacristia, para ligar os círios
eléctricos.
Felizmente a viúva teve uma reacção
positiva, e isso aliviou-lhe a mente:
- Mas muito feliz, senhor padre Mariano
- limpou uma lágrima furtiva num momento de aparente fragilidade - Mas muito
feliz!
O velho pároco agarrou-lhe as mãos que
afagou com carinho, e depois olhou para cima tentando adivinhar as emoções da
mulher. Dona Constança era mais alta que ele, e aqueles sapatos de salto alto
ainda acentuavam mais a diferença de estatura. Acompanhou-a ao exterior,
caminhando devagar pelo corredor central, de mãos entrelaçadas num raro momento
de aparente comunhão de sentimentos.
- Precisa de alguma coisa, Dona
Constança? - perguntou Mariano já perto da porta da Igreja.
- Reze por mim, senhor padre - disse,
num tom indefinido, depois de ter baixado de novo a renda preta daquele magnífico
chapéu preto que encomendara a um fabricante parisiense meses antes. Não queria
que lhe vissem o rosto choroso, segundo disse ao padre, num momento de aparente
fraqueza.
- Por nós, minha filha - disse,
respeitosamente - Então até às oito, no velório.
Mariano ficou ainda a vê-la entrar para
a traseira do carro, e aquela era uma imagem que o havia de acompanhar ao
túmulo, como pensou. O elegante motorista, um jovem desconhecido talvez na casa
dos trinta, impecavelmente vestido, apressou-se a abrir-lhe a porta traseira do
lado direito, que depois fechou com toda a delicadeza após confirmar que a viúva
estava bem sentada. Mariano ainda arregalou os olhos ao ter um vislumbre da
coxa direita de Constança, mas lembrando-se da sua condição, acabou por se
fixar no motorista que lhe fez uma respeitosa e subtil vénia antes de contornar
o magnífico Mercedes e se sentar ao volante. Quase podia jurar que Constança
estava feliz no momento que o carro arrancou com estilo, conduzido pelas mãos
hábeis do jovem, e pareceu-lhe ver na curta troca de olhares entre os dois, uma
certa dose de cumplicidade. Fechou depois lentamente a porta da capela atrás de
si, com a testa franzida pelos pensamentos impuros que lhe povoavam a mente, mas
ainda teve tempo de verificar que já eram muitos os populares curiosos que se
acercavam do templo, ansiosos por prestar as derradeiras homenagens a um homem
notável. A notícia correra célere, como seria de esperar num meio pequeno. Afinal
não tinha sido a única testemunha daquela cena extraordinária. Ainda teve a
lucidez para confirmar o horário do velório, afixado naquele pequeno quadro
onde sobressaía uma fotografia antiga de Joaquim Pereira, fornecida pela AFB. Aproximou-se
de novo da urna, de cabeça baixa, imerso nas suas cogitações. Aquele velório
iria ser um verdadeiro desafio à sua fé.
- Já reparou, senhor padre Mariano? -
perguntou o sacristão, olhando para o corpo de Joaquim.
- Reparei em quê, Faustino?
- Na cara do senhor Joaquim Pereira!
- Que tem, Faustino? - pergunta Mariano,
e apressou-se a destapar o lenço e a observar o rosto do amigo com alguma
atenção, sem lhe notar qualquer particularidade. Era a primeira vez que olhava
para o amigo agora sem vida. Joaquim Pereira estava, como todos os mortos,
estendido de uma maneira particularmente pesada, cadavérica, os membros rígidos
profundamente enterrados no acolchoado do caixão, a cabeça pousada para a
eternidade na almofada. Contudo, ao invés da generalidade dos mortos, não apresentava
uma tez amarelada, de icterícia ou cera, nem tinha as têmporas cavadas e nuas como
Mariano se habituara a ver nos que abandonavam o corpo. Os olhos estavam
abertos e pareciam fixá-lo com interesse, como se o tentasse avisar de alguma
coisa, se bem que o padre pressentisse que a mensagem não lhe era destinada.
O seu coração acelerou, ainda tentou fechar os olhos
ao velho amigo, mas para sua surpresa as pálpebras voltavam sempre a abrir-se, e
assustado com o estranho facto, apressou-se a colocar o lenço sobre aquele
rosto que parecia desafiar a morte.
- Parece vivo, não é verdade? - perguntou Faustino,
abrindo-se num sorriso que mais parecia um esgar, mas Mariano não respondeu,
limitando-se a limpar com a ajuda da palma da mão direita o suor frio que lhe
inundava o rosto.
terça-feira, 24 de outubro de 2017
A Segunda vida do Ditador - 2º Capítulo
O doutor Octávio
Mesquita era o chefe da Casa Civil da Presidência da República. Estava nessa
função desde o início do segundo mandato presidencial. Era ainda um jovem
político, na casa dos trinta anos, mas já com uma assinalável folha de serviços
prestados ao partido enquanto líder dos jovens sociais-democratas. Conhecia bem
o aparelho e também a forma de o contornar. A política estava-lhe no sangue
pelos genes paternos e foi sem qualquer dificuldade ou hesitação que decidiu
integrar a maçonaria quando ainda era estudante universitário. O seu nome
surgira durante um encontro semanal do Presidente do partido de governo com o
mais alto magistrado da nação.
O convite surpreendeu-o num pequeno período de
férias que gozava no Algarve. A princípio ficou aborrecido pois contava ser
considerado ministeriável aquando da futura remodelação governamental. Esboçou
a birra institucional em sede própria, mas os barões e o primeiro-ministro
acabaram por convencê-lo de que aquela seria a jogada política mais acertada na
conjuntura que atravessavam.
“De facto sempre fui bom a espiar e a condicionar” -
reconheceu na altura, e o seu ego ficou apaziguado. Desconfiou da argumentação,
é certo, mas reconsiderou.
- Há muitos cães para cada vez menos ossos - lembrou-lhe a
esposa, sempre boa conselheira.
Reconheceu mérito na observação da cara-metade, e como era
um otimista, rapidamente vislumbrou uma oportunidade única naquela nomeação
inesperada.
- Problema, oportunidade - decidiu, enquanto emborcava de um
trago o scotch de vinte cinco anos que um conhecido empresário lhe tinha
oferecido no Natal.
Estava atrás de uma janela no interior da estufa de inverno
que a primeira-dama mandara construir em lugar estratégico no imenso jardim do
palácio. Observava através de uma enorme parede envidraçada o que se passava
alguns metros adiante.
O Presidente, envergando um avental com as cores nacionais,
ia explicando a uma dúzia de alunos do colégio alemão e respectiva Professora,
a técnica mais correta para plantar um arbusto exótica naquele ambiente,
enquanto enunciava os nomes em latim de todas as árvores que ali cresciam de
uma forma exuberante.
Como sempre sucedia em situações semelhantes, o Presidente
estava solto e desinibido. Até parecia que tinha nascido para aquilo. Sorria,
esbracejava e até conseguia gracejar, contando as histórias do costume. Nada
que se comparasse à postura rígida que assumia quando tinha que se pronunciar sobre
um tema delicado ou dirigir-se à nação em momento de solenidade.
Octávio tremia cada vez que o Presidente tinha que se
dirigir ao país pelas televisões. Não tinha muita vocação para rever os textos
que os consultores produziam, mas era o processo criativo que o preocupava
particularmente. Havia uma reunião preparatória, na sala azul, em que o Presidente
apresentava o tópico do comunicado aos seis consultores literários, quatro
rapazes e duas raparigas que ele mesmo entrevistara e contratara. Teria
preferido que todos eles fossem profissionais da escrita de reconhecida
capacidade, mas havia que dar prioridade a certos pedidos que era impossível
ignorar. Em suma, não confiava muito na capacidade daqueles jovens licenciados
que fora obrigado a admitir, e por isso conseguiu convencer o mais alto
magistrado da nação a contratar uma empresa de revisão literária para dar a
pedra de toque aos comunicados oficiais. Ficava mais descansado.
O Presidente tinha sido bem explícito aquando do seu
primeiro encontro:
- Meu caro Octávio, neste segundo mandado não quero cansar-me
muito. A idade vai pesando e quero apenas levar até ao fim esta minha missão
patriótica de representar este povo. Por vezes pergunto-me se ele merece o meu
sacrifício e o da minha mulher.
Os seis consultores tinham setenta e duas horas para
produzir um texto que o chefe da Casa Civil deveria ler em voz alta para que se
constatassem alguns erros de forma ou conteúdo. Era a fase crítica pois no
fundo seria ele a decidir aquilo que o povo iria ouvir pela voz presidencial.
Isso comovia-o, levando-o por vezes às lágrimas no silêncio do seu gabinete, na
ala norte do palácio. O processo terminava com um ensaio televisivo efetivado
por uma empresa publicitária especialmente contratada para o efeito.
- É caro mas vale a pena - disse-lhe o Presidente uma vez -
pelo menos ficamos com a garantia de que tudo corre bem, com a dignidade que o
momento requere.
Octávio coçou o nariz com o indicador direito, sinal de que
tinha terminado a visita ao passado, e focou-se no momento. Voltou a
concentrar-se naquilo que conseguia observar lá ao fundo, no jardim, no sector
das árvores tropicais. A cena era idêntica a tantas outras que já testemunhara,
mas tinha o sortilégio de sempre o surpreender. Como aquele filme de culto que
visualizamos vezes sem fim sempre com o mesmo entusiasmo.
O Presidente estava acompanhado por um engenheiro florestal
italiano recentemente contratado como consultor paisagista, e por dois
jardineiros que lhe indicavam a melhor maneira de utilizar a pá. Eram estes
dois funcionários do palácio os únicos que trabalhavam, na verdadeira aceção do
termo. Também eram os únicos que envergavam fato de trabalho. O Presidente e o
engenheiro envergavam fato de gala, preparados para o almoço que a presidência
ofereceria aos alunos e à Professora do Colégio Alemão.
“Talvez caia bem junto da Senhora Merkel” -
confidenciara-lhe o Presidente quando ele lhe transmitiu o pedido daquele
prestigiado estabelecimento de ensino.
- Há certas pessoas que precisavam de uma boa pazada -
gracejou, e a pequenada riu muito. Educadamente, a um tom, sem exageros. Tudo
muito protocolar, perante o ar de autoridade sem autoritarismo da jovem Professora.
A criançada parecia gostar e escutava ordeiramente e com
toda a atenção as explicações do primeiro magistrado da nação.
- Se as nossas crianças fossem assim - disse o Presidente olhando
distraidamente para o vazio - talvez um dia pudéssemos ter o sucesso do povo
alemão.
A Professora anuiu e o engenheiro sorriu luminosamente,
fazendo um gesto intraduzível com os dois braços, num movimento largo. Parecia
mais interessado na Professora, jovem e atraente, do que no processo de
plantação.
Entretanto José Soares subia a rampa de acesso à Casa Civil.
Com um ar preocupado. Tinha que pensar bem naquilo que iria dizer ao doutor
Octávio. Detestava aquele seu ar de superioridade, aquele sorriso permanente de
quem se julga mais esperto que todos. Mas tinha que ignorar isso. Abandonar o
ego. E quem sabe? Talvez aquela estranha visita viesse agitar as águas, fosse
uma espécie de pedrada no charco, um sinal do além. Não podia era cair no
ridículo ou passar por lunático. A aproximação ao assunto tinha que ser feita
com diplomacia e nisso ele era bom. Para sobreviver naquele mundo tinha que ser
especialista na arte de falar sem se comprometer.
- O Senhor Doutor está na estufa de inverno a dar
assistência ao senhor Presidente - diz o secretário do Chefe da Casa Civil, em
surdina, mas denotando alguma irritação - Não pode ser incomodado.
- Mas olhe Dr. Godinho, que o assunto é extremamente
importante - insiste o coronel José Soares, o que leva o secretário a esboçar
um trejeito de irritação, que logo substitui por um rasgado sorriso, enquanto diz:
- Espere só um momento, por favor. E qual é a urgência?
- Uma visita de Estado inesperada - diz o coronel, algo
atrapalhado, mas logo se arrependeu da frase.
O secretário franze a testa surpreendido com o facto. Ia
dizer qualquer coisa mas hesitou e depois encaminhou-se na direcção da enorme
porta em madeira dourada, com um passo ritmado. A porta fechou-se e o coronel
respirou fundo. Aquela sala era uma autêntica antecâmara da morte. Paredes
lisas e vazias, sem qualquer quadro ou cadeira. Desconfortável ao máximo. Feita
de propósito para ser evitada.
Godinho regressou passados alguns minutos. Tinha de novo
aquele semblante neutro que tanto poderia significar tristeza ou alegria, violência
ou calma, interesse ou afastamento. Voltara ao normal e foi com aquele tom monocórdico
habitual, que lhe disse:
- O senhor doutor Octávio Mesquita vai recebê-lo agora.
José Soares agradeceu e encaminhou-se para a porta dourada.
Parecia aliviado por poder abandonar a antecâmara. Inverteram-se os papéis.
Agora era o coronel que saia enquanto o secretário o observava com aparente
indiferença.
- Bom dia coronel Soares - diz Octávio Mesquita, sem se
voltar. Ouviu seguramente os passos do militar no soalho e talvez tivesse visto
o seu reflexo na vidraça.
- Bom dia senhor doutor. Surgiu um assunto inesperado que
urge resolver.
- Coronel - dia Mesquita com um ar ironicamente sério - não
há nada mais importante neste momento do que aquela lição de natureza que o
senhor Presidente está a dar aos alunos do colégio alemão.
- Acho que era do seu interesse acompanhar-me à rampa do
portão sul.
- Mas de que visita de Estado se trata? Não há nada na minha
agenda.
José Soares ia responder, mas Octávio Mesquita volta-se
subitamente, algo preocupado:
- Seria uma falha imperdoável se eu me tivesse esquecido de
alguma receção importante, não acha?
Os dois homens eram praticamente da mesma altura e estavam
agora a pouca distância um do outro. Não nutriam grande amizade um pelo outro.
O militar via no político um oportunista e o político via no militar uma ameaça.
- Acho que está ali o Ditador - disse por fim.
- Quem?
- O Ditador.
- Qual deles? - ironiza.
- O Presidente do Conselho. O Professor.
Octávio Mesquita ficou alguns segundos a olhar para o outro
com uma cara aparvalhada. Depois colocou a mão direita na testa, olhou para o
relógio de pulso, de seguida afastou-se na direcção da vidraça. Talvez
estivesse a sonhar, andava cansado ultimamente. Desenvolvera a técnica de
voltar atrás no tempo pelo simples facto de regressar à posição inicial. Aprendeu
a técnica num daqueles livros da moda que ensinavam a encontrar o espaço
interior. Geralmente resultava. Fazia isso quando uma conversa não lhe agradava,
ou não tinha uma resposta adequada. Voltando ao início ganhava tempo e tinha a
esperança que nada daquilo tivesse existido. Olhou para o exterior durante
alguns segundos. Lá estava o Presidente a escavar um buraco com as estudantes à
volta.
“Parece feliz” - pensou.
Voltou-se de seguida, com um movimento brusco. Afinal o
chefe da segurança ainda ali estava. Que chatice. Afinal aquele diálogo tinha mesmo
acontecido.
“Se calhar não me esforcei o suficiente para encontrar o meu
Ser” - decidiu.
Afastou-se da vidraça e com um discreto aceno de cabeça, convidou
José Soares a acompanhá-lo até uma zona interior da estufa, de onde não podiam
ver nem serem vistos. Estava verdadeiramente incomodado com aquela interrupção.
- Você só pode estar a brincar, coronel. Anda a ver
fantasmas e isso não é compatível com as funções que desempenha.
- Acredito que isto lhe pareça uma loucura. Eu próprio
fiquei surpreendido e é por isso que vim falar consigo. Imagine que se trata de
alguma manobra política por parte da oposição.
- Parece que está mesmo a falar a sério. Onde é que está
esse indivíduo?
- Ainda está no táxi, mas já no interior do palácio.
- Pode ver-se do lado de dentro?
- Sim, doutor. Tive o cuidado de mandar o carro estacionar
bem perto da janela norte da ala da portaria.
Octávio Mesquita segue a passo apressado na direcção da
porta que dava acesso ao corredor da portaria. José Soares tem alguma
dificuldade em segui-lo de perto e quase corre.
- Mais alguém está a par disto?
- Só o tenente Miguel Maia, o taxista e talvez o guarda de
serviço no portão exterior.
- O taxista é de confiança?
- Parece que é ucraniano mas é inofensivo.
- Nunca fiando, coronel, nunca fiando. E há que ter muito
cuidado com os ucranianos. Não se esqueça do conflito latente com os russos.
- Onde é que está o táxi? - pergunta Octávio, espreitando
pela janela.
- Mudaram-no para o lado da sombra. Está ali mais à direita
- diz Soares depois de olhar através da janela - O tenente Maia está com eles.
O Chefe da casa Civil espreita pela janela, depois olha com
alguma preocupação para o coronel e volta a concentrar-se no banco traseiro da
viatura. Volta a olhar para José Soares segurando com a mão esquerda no
cortinado, mantendo a boca aberta. Estava lívido.
- Macacos me mordam. Parece mesmo o Ditador.
Octávio caminha de um para o outro lado da sala, afagando o
queixo com o indicador e polegar direitos. O coronel estava perfilado esperando
instruções, e no seu íntimo sentia uma inexplicável satisfação. Talvez algo
estivesse para acontecer. Não sentia grande simpatia por aqueles rapazinhos,
como lhes chamava, aqueles boys que olhavam para os militares como se fossem
cães amestrados a quem atiravam uns ossos de vez em quando para que os
defendessem quando fosse necessário. Tomaram de assalto o poder, que
distribuíam entre si sem pudor algum, com absoluto desprezo pelo sofrimento das
pessoas.
- Vou ter de avisar o Presidente - diz finalmente Octávio
Mesquita - Fazemos assim, coronel. Encaminhe o visitante para o gabinete das
visitas sociais inesperadas, e diga ao meu secretário o que se passa. Ele que
não o perca de vista.
- Com certeza, doutor.
- Não. Ele que fique sozinho. É melhor assim - reconsiderou
Mesquita, com o indicador no ar e os olhos cravados no soalho. Era a sua
posição preferida quando raciocinava sob pressão - E nem uma palavra a ninguém.
Já há muita gente a par da ocorrência. Imagine se as televisões sabem deste
furo.
- E que faço com o taxista?
- Mande-o embora mas dê-lhe a entender que os seus
comentários poderão ter consequências. Entende? Entretanto mande o SEF
investigá-lo. Pode ser que esteja ilegal.
- Entendido, doutor.
Os dois homens separaram-se. José Soares dirigiu-se para o
exterior. O sol brilhava intensamente e começava a aquecer depois de um inverno
extraordinariamente rigoroso. Octávio Mesquita caminhava devagar em direcção à
estufa. Tinha que pensar bem na estratégia a seguir. Essencialmente deveria
concentrar-se na sua posição. Não podia de forma alguma cometer qualquer
deslize que o descredibilizasse perante o Presidente. O segredo residia na
maneira como daria a notícia. Olhou para o relógio. Onze e meia. A visita das
alunas da escola alemã estava quase a terminar, mas era conhecido que o Professor
se entusiasmava com aquela cena da agricultura e perdia a noção do tempo.
Talvez se tivesse perdido um excelente agricultor. E em vez disso surgiu um
político de qualidade duvidosa. Tentou afastar esses pensamentos perigosos. Os
livros que andava a ler sobre autoconhecimento traiam-no em alturas críticas.
Mas a verdade é que todos aqueles que se tornam naquilo que não são ficam
sempre a perder. Esperou um pouco mais. Talvez não fosse bom interromper aquela
autêntica aula sobre a melhor forma de plantar uma árvore contra o vento.
Olhou de novo para o relógio. O Presidente tinha uma agenda
apertada naquela quinta-feira. O almoço seria servido perto da uma, depois
havia o repouso de meia hora na sala azul, ouvindo Bach. A primeira-dama não
estava, felizmente. Tudo se complicava quando ela se intrometia na agenda
oficial. Fora ao Algarve passar dois dias na casa de praia que acabara de ser
entregue.
“Mesmo a tempo da visita da princesa do Mónaco, no início do
verão” - dissera, quando recebeu a confirmação do construtor.
Às quinze horas chegava o novo embaixador do Burundi para
apresentar cumprimentos e credenciais e pelas dezassete chegava o
primeiro-ministro para a reunião semanal. Não se podia esquecer de lhe dar uma
palavrinha. Recordar-lhe a promessa feita de o guindar a uma posição de relevo
na hierarquia partidária. Era evidente que o primeiro-ministro apostara tudo na
Europa durante a sua legislatura, não se importando de ficar queimado no país.
A mensagem era simples: quem vier atrás que feche a porta. Passaria uns anos
como dirigente algures na Europa, em Bruxelas onde poderia seguir as pisadas do
Presidente da Comissão. Passaria então a defender os ideais de progresso, seria
uma voz portuguesa no mundo civilizado, e com sorte, passado o tempo necessário
para atingir a moralidade, surgiria como candidato natural a Belém.
“A memória de facto é muito curta e tudo pode ser
desmentido” - pensou, imaginando-se já na pele de futuro primeiro-ministro.
O movimento no exterior libertou-o dessas cogitações e
devolveu-o à realidade. Saiu da estufa e com o seu melhor sorriso dirigiu-se
para o exterior. Cumprimentou efusivamente a elegante Professora alemã, a quem
depositou dois beijos pouco protocolares, cumprimentou o engenheiro italiano
com movimentos amplos de mãos tão ao gosto transalpino e por fim deu os
parabéns reverenciais ao Presidente, que não cabia em si de contente. Limpava
as mãos a um pano perfumado que um dos jardineiros lhe entregou e foi com um
largo sorriso nos lábios que expressou o que lhe ia na alma. Via-se que gostava
daqueles encontros na natureza. Já o seu semblante se fechava nas reuniões
políticas e nas receções protocolares.
- Sabe como é, Mesquita. Quando se tem o bichinho da terra
no corpo…
- Muito mais agradável que estar fechado num gabinete -
atreveu-se Octávio.
- Nem me fale nisso meu rapaz. Se quer um conselho, nunca se
meta nisto.
As despedidas foram feitas já no interior da estufa, onde
uma secretária presidencial oferecia aos jovens visitantes e à sua Professora
uma lembrança presidencial.
Um último adeus, ainda com o sorriso protocolar, e por fim
ficaram sós.
- Que temos agora, Octávio? - pergunta o Presidente, ainda
com um vago sorriso estampado no rosto.
- Uma visita inesperada, senhor Professor.
- Sabe bem que detesto surpresas, Mesquita. O programa tem
que ser previamente aprovado, como sabe.
- Permito-me aconselhá-lo a abrir uma exceção, senhor Presidente.
Com o devido respeito.
- E quem é essa visita surpresa? Algum familiar, presumo, a
pedir algum favor.
- Não, senhor Presidente. Pedia-lhe que verificasse por si
mesmo. Está na sala das visitas sociais inesperadas, com o doutor Godinho.
O Presidente olha para o relógio de pulso e decide que ainda
tem alguns minutos. Precisava de se refrescar, passar a água pelo rosto, voltar
a pentear-se.
- Que falta que a minha mulher faz aqui. Mandava-a receber
essa visita em meu lugar. É para isso que serve a primeira-dama - graceja.
Depois recompõe-se e coloca a máscara de primeiro
magistrado. O Presidente abandonara definitivamente o papel do camponês e
assumira a postura do homem de estado que nunca se engana e raramente tem
dúvidas.
- Acha mesmo que devo perder tempo? Olhe que fica à sua
responsabilidade, doutor Mesquita.
- Sinto que devo correr esse risco, senhor Presidente.
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