H. P. BELLIS
PARA ACABAR (outra vez) COM A CULTURA
(Iniciado quinta-feira, 29 de Agosto de
2019)
1
Até há pouco tempo
alimentei a esperança ou mesmo a convicção de que era imortal e dessa forma
poderia ter uma ou várias eternidades para descobrir o caminho das verdades
absolutas. Acontece que um inesperado problema de saúde me veio retirar essa
certeza instalando a dúvida sistemática, uma espécie de subrotina, no meu
programa vital.
Assim sendo, arrebatado violentamente das
nuvens onde me sentia intocável, dei por mim a descer à terra, subitamente
igualado a todos os meus semelhantes que me habituei a olhar de um plano
elevado. Posso agora prever com grande segurança, diria mesmo sem qualquer
receio de falhar o prognóstico, que terei de abandonar as certezas absolutas,
prorrogativa divina, e apresentar-me como simples mortal perante aqueles que
tenho contactado do alto da minha sabedoria.
Estou então confrontado com um facto novo,
o de ter de me descrever como realmente sou e não como aquele que julgava que
era. E esta nova realidade poderá trazer-me um problema complicado, a menos
que, como penso, ninguém tivesse prestado verdadeira atenção às descricções que
de mim próprio fui fazendo ao longo deste tempo todo.
Será que alguém ouviu realmente o que eu
ia dizendo e defendia ser a verdade absoluta? Resta-me essa
esperança, que ninguém me tenha ouvido atentamente, muito menos retido alguma
coisa das minhas constantes intervenções e agora não se aperceba minimamente da
diferença estrutural da minha nova personalidade. Do que conheço das actuais
relacções interpessoais julgo ser altamente improvável que alguém relembre algo
daquilo que fui debitando profusamente, uma vez que a moderna capacidade de
concentração é ridiculamente pequena. Até apostaria que ninguém me ouviu ou viu
verdadeiramente. Ganhei crédito junto de algumas pessoas pelo facto de abordar
temas incómodos ou outros que ninguém tinha alguma vez imaginado, e agora
sinto-me algo consternado por ter de engolir o meu orgulho e ser obrigado a
reconhecer, confessar humildemente a minha condição de mortal.
A minha última esperança reside aí, na tal
alta probabilidade de ninguém já se lembrar daquilo que eu defendia até há
pouco tempo, dada a velocidade com que a mente muda de foco, nunca se detendo
muito tempo num determinado tema.
E isso abre-me uma boa janela de oportunidade
de ingressar no mundo da política que até hoje criticava profusamente.
É
a vida!
2
É por demais evidente que
existe uma certa dificuldade na escolha de um caminho que nos satisfaça
inteiramente ao longo desta aventura surpreendente e inesperada a que eufemisticamente chamamos vida. E não é
por falta de opções ou oportunidades, pois
os caminhos são infinitos e a cada dia se abrem novas possibilidades
nesta era da grande expansão.
Provavelmente impera no nosso
subconsciente, na memória do corpo, uma espécie de medo original que de certa
forma se explica pela antiga crença de que se escolhermos mal podemos ser
castigados pelo Criador, aquela figura paterna simultaneamente protectora e
castradora que nos impõe regras claras, nos acena com o pecado, mas está sempre
pronto a perdoar-nos as faltas caso ajoelhemos a seus pés, penitentes.
Alguém mais liberal e pragmático, talvez
um anarquista ou ateu, perguntará de pronto para que raio queremos nós um
caminho se podemos calcorrear o mundo sem sair do conforto da casa ou do local
habitual. Paramos para pensar nesta possibilidade e subitamente o nosso cérebro,
depois de fazer uma rápida incursão às memórias gravadas por milénios de
conhecimentos culturais, encoraja a boca a verbalizar a conclusão:
Virtualidade!
A actual maravilha tecnológica que nos permire recrear e integrar todos os
cenários e possibilidades sem sairmos do mesmo sítio. Será esse o papel do
Criador, num nível infinitamente mais elevado? Será Ele apenas um manipulador
de dados, um arquitecto de cenários que se entretém a desenhar mundos e
situações que se vão modificando à medida que as criaturas mais inteligentes
que criou para este planeta possam evoluir sem contudo conseguirem
desmascará-Lo?
Mas por vezes o Criador tem de ser salvo
pelas criaturas, e esse será porventura o paradoxo de Deus: Permitir que
a Criatura evolua mas só até determinado ponto.
Voltando à questão do caminho. Talvez seja
um exagro de linguagem afirmar que existem caminhos que forçosamente temos de
percorrer para justificarmos a nossa existência. Muito menos que temos de
desperdiçar este milagre a que chamamos vida com uma qualquer ocupação que nos
entretenha.
Milagre, sim! Basta dar uma olhadela ao
espaço exterior para decidirmos sem hesitações que a existência de seres
pensantes (ia dizer inteligentes mas contive-me e já lá iremos) neste poço
infinito e repleto de ameaças a que chamamos cosmos, é um autêntico absurdo, e
daí que mais nenhum Ser se digne aparecer no planeta de forma aberta e
incondicional.
O objectivo da vida!
Um conceito eventualmente inventado por um
sábio pensador, assim denominado pelo facto de levar a existência inteira a
tentar perceber para que é que a vida serve, sem contudo ousar vivê-la. E assim
se inventaram os filósofos e as religiões!
Mas se é verdade que somos autónomas para
pensar de forma inteligente e usar o nosso tempo da melhor maneira possível,
desenvolvendo tecnologias facilitadoras, por exemplo, também é verdade que de certa
forma o feitiço se virou contra o feiticeiro, pois o produto da nossa criação,
de forma subreptícia, está bloqueando a nossa capacidade de pensar.
O drama divino? Do Criador?
Vejo aí uma certa analogia, e imagina só
se subitamente o Criador, Deus, fosse inibido de pensar, só pelo facto de ter
desenvolvido ferramentas facilitadoras da sua Obra. Ficaríamos subitamente sem
protecção divina?
Mas fixemo-nos nos problemas terrestres,
que são por agora os únicos a que estamos condenados a dar atenção.
Contrariamente ao que sucedia com os humanos que nos antecederam, os chamados nossos
antepassados, hoje qualquer indivíduo da nossa espécie pode em tese aceder
a qualquer coisa, informação ou entretenimento, de uma forma instantânea.
Ninguém se transforma em perito em matéria científica ou outras ao aceder a
esse repositório informativo, mas ainda assim conseguirá emitir um ou dois
conceitos aparentemente correctos, retirados à pressa de uma qualquer
biblioteca virtual da especialidade. A ideia de cultura associada ao saber de
experiência feito, aquilo que retemos no subconsciente depois de termos
esquecido o geral, é um conceito morto e enterrado. Hoje qualquer um pode
decorar algumas frases ou dados estatísticos e fazer um brilharete em qualquer
reunião social. Com arte até poderá conseguir um emprego bem pago caso seja
suficientemente convincente perante as pessoas certas. Deixo aqui esta dica
para eventuais candidatos à vida
política, pelo menos até secretário de estado.
O problema surgirá se por azar alguém
quiser desenvolver o assunto, por ser perito na matéria ou ter obtido mais
informação na internet, mas aí há sempre forma de contornar a situação, mudando
de tema ou fingindo ter de atender uma chamada inesperada no telemóvel. Se a chamada
demorar mais que um minuto, o perigo passou, pois certamente já o assunto terá
sido substituído por outro tema qualquer, e a imagem vendida continuará
intacta.
Já o homem Anterior não tinha essa
prorrogativa e era obrigado a inventar os seus próprios jogos e ferramentas, a
estudar os clássicos e as ciências em livros que rareavam, a conhecer os seus
próprios limites intelectuais.
Não vá o sapateiro além do chinelo!
Era o que se dizia para delimitar
competências. Hoje, não! Qualquer um que tenha acesso às maravilhas
tecnológicas existentes tem na palma da mão as respostas mais variadas a
qualquer questão que lhe ocorra, e se nada houver para consultar, dada a
extravagância da questão, poderá ele mesmo criar a sua própria definição,
publicá-la no Youtube, e com sorte passará a integrar aquele grupo emergente de
criadores virtuais especialistas numa coisa qualquer.
O problema é que o cérebro humano se está
a adaptar a essa nova realidade. Não custa imaginar um futuro próximo, e abro
aqui um parênteses para constatar que o futuro surge ca da vez mais depressa,
em que já não serão os humanos a desenvolver programas de acesso a quase tudo,
mas sim os próprios programas a determinar as nossas vidas. E não apenas nas
questões tecnológicas, mas também nos aspectos fisiológicos, determinando o que
devemos consumir, pensar ou fazer, através de um processo subtil de formatação
cerebral.
Está assim aberto o caminho a novos
deuses, novos criadores. A questão que se coloca é saber se estaremos no
caminho certo, sendo esta a vontade primitiva do Criador, ou se o próprio Deus
foi ultrapassado pelos acontecimentos.
Será este um processo armadilhado ou
apenas o fim da Cultura como a conhecemos até então?
Estou algo indeciso
entre atribuir à virtualidade social a responsabilidade pela crescente
indiferença nos relacionamentos interpessoais ou ao seu contrário. A velha
questão do ovo e da galinha que tem apaixonado inúmeras gerações, pelo menos
desde que há galinhas e se começou a filosofar, mas com contornos diferentes.
Independentemente de se conseguir chegar a
uma conclusão definitiva, ou no mínimo rotular de interessante essa questão, a
verdade é que o mundo virtual aí está para gáudio dos evolucionistas e das
gerações mais novas e para desagrado daqueles que apontam o dedo a essa nova
forma de conviver, comunicar à distância sem olhar o outro nos olhos, sem lhe
sentir as emoções. Por muito conservadores que sejam os actuais Velhos do
Restelo, não conseguirão deixar de aplaudir
algumas funcionalidades dessa mesma virtualidade, claramente
facilitadoras da chamada vida moderna. Talvez esteja por fazer um estudo sério
sobre a influência da virtualidade nas relações interpessoais, mas
seguramente que ainda não se abordou a sério o impacto da mesma sobre a grande
cultura ocidental.
Facto é que as alterações comportamentais
que já se conseguem perceber indistintamente nas camadas jovens vêm dar razão e
fazer salivar aqueles ditos filósofos que defendem há muito, desde os gregos
antigos, imagine-se, que existe um rosto e as respectivas máscaras que se vão
sucedendo ao longo do dia conforme os papéis que vamos desempenhando. Eis a
chamada personalidade que se começa a formar a partir dos sete anos de idade,
imposta pelas sociedades enquanto substituto funcional da alma com que
aparentemente nascemos.
Que melhor maneira de honrar essa teoria
do que assumir várias identidades, os chamados perfis das redes sociais,
consoante as nossas disposições momentâneas? Conforme a nossa disposição ou
objectivo, podemos ser tranquilos ou agressivos, simpáticos ou desagradáveis,
apressados ou calmos, solidários ou indiferentes, novos ou velhos, homem ou
mulher. Em nós podemos observar todos os tipos de emoções ou estados de alma,
virtudes ou defeitos, sem corrermos o risco de sermos confrontados com o nosso
verdadeiro eu que cada vez será menos identificável dadas as camadas
inconscientes que o cobrem.
A determinada altura nem nós já sabemos
quem somos, uma vez que inevitavelmente todos aqueles impostores mascarados vão
reclamar o papel principal e tentar assumir o controlo da peça a que chamamos
vida. Esse seria um drama pessoal preocupante caso os nossos interlocutores
virtuais não enfermassem do mesmo mal e não reagissem de forma adaptada às suas
próprias múltiplas personalidades.
Ser e Parecer! A tal diferença entre o
carácter, aquilo que nos define num estado de Ser, pensar e sentir da mesma
forma, e a personalidade, aquilo que mostramos conforme as ocasiões.
A vida vai-se assim transformando num
gigantesco baile de máscaras em que ninguém conhece ninguém, e pior ainda, onde
ninguém tem a mínima vontade de conhecer alguém. Um paraíso para os maus
políticos e amantes que obviamente se sentem como peixe na água neste mundo pantanoso
e sombrio onde podem facilmente multiplicar e potenciar as suas promessas,
garantindo para o futuro, com maior veemência, aquilo que sabem não conseguir
fazer e que não têm a mínima intenção de fazer.
4
Porque não habitamos
dentro de nós mesmos? Qual a causa profunda do drama de termos de ir buscar ao
exterior aquilo que perdemos no interior? O panorama geral é desolador, com o
protagonismo do tal monstro autista que dá pelo nome de ego. Há contudo algumas
excepções que apenas vêm confirmar a regra, como seja o caso daquelas almas
notáveis que surgem a espaços temporais eventualmente determinados por leis do
mundo quântico que ainda não entendemos e que ficam gravadas indelevelmente
como referências universais.
E esses génios surgem nas mais variadas
áreas do conhecimento ou da cultura ou de qualquer outra actividade lúdica,
como o desporto. A título de exemplo poderíamos falar de Chopin, de Einstein ou
de Messi, apenas para frisar aquilo que pretendo tratar.
De tal forma essas figuras são
excepcionais, que quando alguém nos dias de hoje se evidencia numa determinada
área, ao invés de ser valorizado de per si, posicionando-se num friso
endeusado, é de pronto associado àqueles intocáveis. Perceberão melhor a ideia
com um caso concreto, o de um colega meu dos antigos liceus nacionais nos
longínquos anos sessenta do século passado, o saudoso Teixeira, que tinha um
virtuosismo excepcional para tocar e compor a nobel música iniciada pelos cinco
de Liverpool, o famoso twist. Pois de pronto o Teixeira foi apelidado de
Chopin do Twist, tendo passado à história devido a algo exterior a si e
não pelo seu genial talento.
Uma clara subserviência cultural, uma
menorização do seu génio único. Pergunto a mim mesmo se e quando teremos a
coragem necessária para inverter o padrão cultural, e passar a denominar o
génio polaco do piano de Teixeira dos Noturnos. Um pouco como fizemos
com o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.
Há inúmeros exemplos daquilo que aqui
trago à vossa consideração, e que indiciam a existência de um certo
corporativismo cultural que tende a ignorar tudo o que é genial e actual em
detrimento dos tais monstros consagrados que já deixaram há muito de respirar.
Dir-me-ão que talvez daqui a uns séculos se rotule um qualquer génio emergente
como o Teixeira do trombone, mas não estaremos cá para o comprovar e
como tal essa não passa de uma hipótese académica com poucas pernas para andar.
Há que esclarecer que aprecio imenso a
música de Chopin e até me dei ao trabalho de aprofundar um pouco a sua vida,
nomeadamente fazendo um estudo exaustivo do seu periodo em Maiorca, em Valldemosa,
durante o turbulento romance com George Sand. Mas isso não retira uma vírgula à
minha tese que pretende ser um subsídio para a inevitável revisão do conceito
actual de cultura.
Que se há-de fazer de qualquer forma, nem
que seja filosofando à vassourada de forma brilhante, como era
apanágio de uma vizinha da minha casa de infância, no esquecido Algharb, a
Senhora Albertina, que nada devia ao genial Nietzsche, que o terá feito à
martelada.
E começaria por deitar abaixo os antigos
deuses, não de uma forma crepuscular, mas sim a golpes seguros de vassoura, começando
por homenagear Albertina, apelidando o
autor da famosa frase Deus está morto, de Albertina de Lutzen.
Albertina de Lutzen!
Sensacional a forma como se inverte a
importância cultural de um sujeito, um pouco como os nomes árabes em que o que
surge em último lugar é mais importante do que o primeiro. E desde logo me
surgem uma quantidade de opções possíveis. Porque não apelidar o famoso Mike
Tyson de Espírito Santo do boxe, numa homenagem ao génio da Banca
nacional, ou Picasso de Messi da pintura, por razões óbvias, passando
por denominar Denis Rodmann de Carlos Costa do basketball?
É tudo uma questão de perspectiva!
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5
Há sempre um absurdo
particular dentro do absurdo geral que é a vida. A verdade é que estamos
previamente condenados ao desaparecimento e contudo insistimos em existir.
Dir-se-á que nenhum de nós escolheu nascer, aparecer de forma abrupta sob a condição
humana depois de algumas semanas de gestação provocada voluntária ou
involuntariamente por um eventual prazer dos chamados progenitores.
Pode colocar-se na mesa das probabilidades
o facto de termos uma alma, uma energia vital que previamente definiu a
possibilidade, mas essa explicação parece-se muito com algumas desculpas
esfarrapadas de alguns advogados no púlpito das argumentações numa sessão de
tribunal.
A verdade é que aqui estamos e a cada
passo existem exemplos dessa espécie de loucura que nos acompanha ao longo da
existência.
Queres 5 cêntimos
para comprar brebas? – ouço
uma voz masculina que não identifico, em tom jocoso, vindo de um andar superior
do bloco de apartamentos onde resido.
Espero com alguma curiosidade pela
resposta, mas ela não chega de imediato. Talvez se trate de uma conversa
telefónica e apenas se possa imaginar o tipo de diálogo através das palavras do
emissor presente fisicamente. Como nada acontece nos momentos seguintes,
concentro novamente a minha atenção no livro que estava a ler, confortavelmente
estendido na espreguiçadeira do terraço. Quando me preparava para repousar os
olhos na linha certa daquele ensaio filosófico, ouço um enorme estrondo à minha
direita, e a primeira coisa que me veio à cabeça foi a de que estava a ser
bombardeado, resquícios do tempo de guerra colonial. De um salto atirei-me para
o chão, protegendo a cabeça, mas como mais nada acontecesse, acabei por me
levantar pouco tempo depois, algo envergonhado, mas aliviado pelo facto de
ninguém ter observado aquela minha reacção automática.
Ao reassumir a posição erecta vi
finalmente a causa de tamanho estrondo. Espalhados por uma área considerável do
meu terraço estavam os destroços daquilo que até há pouco tinha sido um vaso de
barro, residência de uma planta cuja espécie não consegui identificar, tal o
grau de destruição do vegetal. Olhei instintivamente para cima na tentativa de
identificar a origem do ataque, mas o eventual sniper já se tinha
esgueirado sem sequer se dar ao trabalho de confirmar se tinha feito vítimas.
Fiquei perturbado! Teria sido uma
tentativa de assassinato? Mas quem seria o autor? Que eu soubesse não tinha
inimigos no prédio nem havia motivos para me assassinarem. Tenho os pagamentos
de condomínio em dia e não devo favores a ninguém.
Só podia ser um acidente, mas conhecendo a
geometria do prédio, diria que a única hipótese teria sido alguém lançar o
objecto de forma intencional, pois ali não existem aqueles parapeitos com vasos
como se vêem nos bairros populares ou nas varandas de algumas habitações. Num
impulso saí do terraço, entrei em casa e corri porta fora subindo as escadas a
dois degraus de cada vez, na tentativa de apanhar o rufião, mas o silêncio era
total.
Teria eu inventado aquela situação? – perguntei-me,
depois de subir e descer as escadas três vezes, tocando às campainhas das
portas suspeitas, que eram todas as dos andares do lado do meu prédio, até ao
cimo. Ninguém respondeu, mas isso não significava que os apartamentos
estivessem vazios. Quase imaginava o eventual sniper sustendo a
respiração, algures no apartamento culpado, esperando que eu desistisse da
averiguação.
Teria o atacante confirmado que eu saíra
ileso?
Voltaria a atacar, ou foi um mero
acidente?
E os eventuais estragos, quem pagaria?
O meu estado alterado
levou-me a levar a coisa para o absurdo, e por momentos imaginei-me capaz de
fazer levitar objectos pesados e fazê-los cair com estrondo sobre mim próprio.
Comecei a controlar as minhas emoções e decidi veificar os estragos na
tijoleira especial contra infiltrações que me tinha custado os olhos da cara.
Enquanto retirava os cacos e os depositava sobre um enorme plástico que
encontrei na caixa verde onde guardo algumas ferramentas, ia lançando um olhar
para os pisos superiores, na esperança de ver alguma movimentação. Mas nada! Calados
como ratos. Mais calmo, à medida que limpava o terraço e verificava com
satisfação que os sinais do impacto eram ténues ou inexistentes, comecei a
pensar de forma diferente.
E foi o bastante para
regressar à frase jocosa.
Queres 5 cêntimos para
comprar brebas?
E se tivesse sido aquela
a resposta àquela pergunta insidiosa?
Comecei a respirar
compassadamente, de forma harmoniosa, o que em mim é sintoma infalível de
retorno a um estado de calma. É evidente que o facto de ter constatado que não
tinha havido estragos na tijoleira e que tinha sobrevivido aos estilhaços,
ajudou muito a chegar a essa espécie de estado iluminado. Enquanto descia no
elevador para colocar os cacos no caixote de lixo comunitário, ia decidindo que
só um ou uma amante desiludida seria capaz de um acto daqueles. Fiquei logo
aliviado ao optar por essa explicação, e quase esbocei um sorriso quando o
ascensor chegou ao rés-do-chão. Não tinha sido um atentado, e eu não passava de
uma vítima circunstancial. É claro que podia ter sido atingido, ferido
gravemente ou mesmo assassinado, mas a verdade é que nãda disso tinha
acontecido, e ainda por cima tinha a oportunidade de desvendar aquele mistério.
Mas quando abri a porta do prédio e me dirigi à zona dos caixotes de lixo, a
minha mente ia mergulhando noutra espécie de tema. A cultura nacional da
Justiça!
Tentativa de homicídio?
Acidente?
Danos colaterais?
Pensei logo em advogados,
queixas contra desconhecidos, análises periciais da judiciária, tribunais, e
achei por bem desistir de eventual queixa e dar graças a Deus por não ter sido
prejudicado fisicamente ou patrimonialmente,
E os danos morais?
Que se danem os danos morais!- decidi,
depois de reentrar em casa, e aí já tinha decidido que tinha sido uma vítima
acidental, oportunista, de um qualquer conflito motivado por questões amorosas.
E já estava a ver o filme todo, enquanto ia eliminando potencias suspeitos,
baseando essa minha permissa na moral convencional do país.
Já não me restavam quaisquer dúvidas.
Tinha sido um conflito amoroso, aquela reacção era tipicamente feminina
e tinha surgido na sequência da frase jocosa que tinha ouvido instantes antes.
Também poderia ter sido um homem a fazê-lo, mas isso significaria que estávamos
perante um relacionamento homossexual, e que eu soubesse não era provável que
tal acontecesse. Não consegui identificar ninguém com aquelas características
nos andares superiores, tudo casais aparentemente normais, seja isso o
que seja. Apenas no primeiro andar havia um condónimo divorciado e bom rapaz, o
Miguel, que se entretinha a coleccionar casos amorosos, mas a menos que
que a actual paixão, uma morenaça bem feitona mas com ar de poucos amigos,
tivesse lançado o vaso para o terraço do quarto andar após uma briga amorosa,
não via como apontar-lhe o dedo.
Mas a verdade surge sempre à tona, como o
azeite na água. Passados alguns dias o Miguel tocou à minha campainha e
explicou o sucedido, desfazendo-se em desculpas que aceitei desde logo sem
fazer qualquer reparo. Aprendi com algumas meditações que não devemos reviver o
passado, essas memórias venenosas que se infiltram na nossa mente. E limitei-me
a sorrir enquanto ouvia a explicação do Miguel, a quem convidei para se juntar
a mim num Scotch, como é próprio dos cavalheiros.
Luisa, assim se chamava a namorada, tinha-lhe
proposto que juntassem os trapinhos, e ele respondera com aquela frase jocosa,
mas nunca esperou aquela reacção da ortopedista. Agarrou no vaso que ela
própria lhe tinha oferecido dias antes, saiu porta fora e meteu-se no elevador.
Miguel ainda pensou que ela se fosse embora, e ficou a espreitar da janela na tentativa
de a ver entrar no carro, um magnífico Audi azul prateado, mas nada. Alarmado,
saíu para o corredor e subiu as escadas a correr, receando que a ex-namorada
cometesse alguma loucura. Quando passava pelo quarto andar, precisamente o meu,
ouviu um estrondo e receou o pior.
Suicidou-se!
Luisa jogou-se do alto do prédio para o
terraço do quarto direito!
Ficou siderado e não conseguiu mexer-se,
até que me viu sair de casa esbaforido e correr escada acima como um louco.
Estava um lanço de escadas abaixo de mim e como tal eu não o tinha podido ver.
Ficou confuso, mas subitamente aliviado ao ver através da janela da escadaria
que Luisa entrava no seu carro a correr.
Acabaram por sorrir, imaginando a cena
digna d eum filme cómico. Ter-se-ão cruzado os três na zona das escadas e
elevadores, mas não deram por nada.
Nunca mais a vi! – confessou
– Mas não significa que ela não me veja. Sabe como são as mulheres!
Respondi com um movimento corporal, e
depois despedimo-nos. Miguel tinha um encontro combinado em Lisboa, nas
Amoreiras.
Sim, estava de novo apaixonado, agora por
uma esbelta cabeleireira, a Marta, uma esbelta carioca que conhecera pouco
depois do incidente num concerto em Cascais. Mas eu podia ficar descansado pois
não gostava particularmente de flores.
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6
Dizem as
más-línguas que o Doutor Herculano de Vries
se crismou e começou a frequentar a Igreja exactamente no dia em que foi
constituído arguido da Operação Chocolate Helvético, nome de código
atribuído pelo Departamento Criativo da Polícia Judiciária à investigação no
âmbito do escândalo da compra dos submarinos à Suíça.
Poucos o conheciam antes de se ter
transformado numa figura pública aquando da greve dos profissionais do lixo
urbano que praticamente parou o país no verão quente do décimo segundo ano
deste século.
Até custa relembrar aquele pesadelo que
começou como algo insignificante vindo de gente insignificante, e subitamente
se tornou num caos, qual tsunami que só revela a sua verdadeira dimensão
e perigosidade nos derradeiros momentos, com efeitos trágicos.
Começou literalmente a cheirar mal, a
cheirar demasiado mal como todos nos recordamos, e as ondas de choque da
excessiva exposição mediática e fragilização do país à crítica internacional,
não tardaram a abrir rachas na ainda debilitada economia portuguesa que tentava
inverter um ciclo terrível iniciado anos antes com a crise financeira
internacional.
Apesar dos esforços governamentais para
impedir que a anunciada greve fosse uma realidade, tendo ficado na retina uma
acção de rua, altas horas da noite, iniciativa da Presidência da República a
que de pronto se associou o governo, todos empenhados numa luta pessoal pela
liderança da popularidade.
Tinha tudo para ser uma cena cómica, caso
não fosse trágico ver o PR lado a lado com o PM e vários ministros e
secretários de estado empoleirados atrás de alguns carros do lixo que furaram a
greve, entretidos a tentar despejar alguns contentores em horário nobre. Ficou
na retina e também no anedotário nacional o fato de macaco que calhou em sorte
ao PR, excessivamente largo e pouco prático, indiciando que tudo aquilo era
pura propaganda. Mesmo que quisesse, ser-lhe-ia impossível segurar nos caixotes
com aquele equipamemto. Mas enfim!
Felizmente imperou o bom senso e aquela
cena caricata não se voltou a repetir. Diz-se que a sugestão partiu da Igreja,
mas não há como provar tal tese, porque o Cardeal Patriarca não comenta o caso.
O que é certo é que no dia seguinte perto da hora do almoço, todas as
televisões estavam presentes na conferência de imprensa dada por uma personagem
que ninguém conhecia e que se anunciou como porta-voz e consultor jurídico do
sindicato dos trabalhadores dos resíduos
urbanos, o recém-criado STRU.
Era impossível não ficar impressionado com
aquela figura atlética, de cerca de dois metros de altura, impecavelmente
vestido, cabelo preto impecavelmente penteado para trás, óculos redondos à
Trotski, como sugeriu um jornalista da CMTV, e lia-se já neste comentário
uma certa declaração de intenções. Eram várias as especulações que se iam
fazendo entre os habituais comentaristas televisivos, e tal como nas discussões
sobre futebol, eram incontáveis as opiniões que se debitavam sobre tão
misteriosa personagem, tentando adivinhar-lhe os intentos e a linha de raciocínio.
Quando começou a falar com um subtil e
indecifrável sotaque num português fluente e perfeito, o grande desafio passou
a ser adivinhar-lhe a nacionalidade ou pelo menos a naturalidade. Tratava-se do
Doutor Herculano de Vries, como se lia em rodapé nas televisões, licenciado em
Direito pela Universidade de Istambul, naturalizado português e devidamente
credenciado pela Ordem dos Advogados. Foi claro ao dizer que não responderia a
quaisquer perguntas naquela ocasião, limitando-se a confirmar ser o
representante de uma classe marginalizada cujo trabalho era fundamental para o
País. Perante os inúmeros pedidos de esclarecimento dos jornalistas presentes,
limitou-se a olhá-los de frente com um ar calmo e duro, e quando o silêncio
naturalmente voltou, concluiu:
Esta paralização está a ser feita em
conformidade com a Lei e as reivindicações dos meus representados serão
apresentadas por escrito durante a tarde!
Não iremos explorar o periodo de greve,
que não acrescenta muito ao propósito do texto, e como sabemos tudo acabou
rapidamente com um acordo ganhador para todas as partes,
STRU, Governo e população, mas antes tentaremos concentrar-nos
na personagem central daquele episódio, o Doutor Herculano, que a partir daí
iniciou uma carreira meteórica na vida pública. Foi convidado por um partido
marginal a integrar as suas listas, mas no último momento, quase no fecho do
mercado, digamos assim, antes das legislativas desse ano, surpreendeu tudo e
todos ao envergar a camisola de um partido candidato ao título. E não é que
esse partido venceu com maioria absoluta e o Doutor Herculano foi convidado a
liderar a pasta da Defesa Nacional?
De pronto começaram as críticas e as
suspeitas quanto às suas origens. Diziam uns que seria um imigrante originário
dos Balcãs, especialista em circuitos financeiros paralelos, que teria sido especializado
em circuitos financeiros por gente com muito poder, aquando dos anos da
grande depressão, com o objectivo firme de blindar a partir de dentro, todos
aqueles que se aproveitaram da confusão para colocarem no exterior aquilo que
tinham obtido ilegalmente no interior.
As famosas offshores!
Não tem havido notícia dele desde que o
governo perdeu as eleições, diz-se que anda por aí, mas a verdade é que
não escapou às malhas da justiça que acabou por concentrar esforços no célebre
episódio do negócio dos submarinos com a Suiça. Como a tarefa de encontrar a
pista dos milhões desviados para os paraísos fiscais é uma derrota anunciada,
não custa a crer que a Novela Suiça seja apenas uma salsicha que foi atirada
aos especialistas em corrupção para não ficarem totalmente desacreditados.
Não vai dar em nada, mas pelo sim, pelo não, o Doutor Herculano lá se vai
penetenciando e pedindo perdão aos deuses nas missas das sete, na Estrela, zona
para onde foi residir recentemente, e onde se entretém, entre viagens
enigmáticas à China e aos USA, a ponderar uma eventual candidatura a Belém,
onde aliás vai muitas vezes a convite do actual PR.
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