sexta-feira, 6 de setembro de 2019

PARA ACABAR (outra vez) COM A CULTURA


H. P. BELLIS
                                                                                                                                                                      






PARA ACABAR (outra vez) COM A CULTURA



(Iniciado quinta-feira, 29 de Agosto de 2019)








1
Até há pouco tempo alimentei a esperança ou mesmo a convicção de que era imortal e dessa forma poderia ter uma ou várias eternidades para descobrir o caminho das verdades absolutas. Acontece que um inesperado problema de saúde me veio retirar essa certeza instalando a dúvida sistemática, uma espécie de subrotina, no meu programa vital.
Assim sendo, arrebatado violentamente das nuvens onde me sentia intocável, dei por mim a descer à terra, subitamente igualado a todos os meus semelhantes que me habituei a olhar de um plano elevado. Posso agora prever com grande segurança, diria mesmo sem qualquer receio de falhar o prognóstico, que terei de abandonar as certezas absolutas, prorrogativa divina, e apresentar-me como simples mortal perante aqueles que tenho contactado do alto da minha sabedoria.
Estou então confrontado com um facto novo, o de ter de me descrever como realmente sou e não como aquele que julgava que era. E esta nova realidade poderá trazer-me um problema complicado, a menos que, como penso, ninguém tivesse prestado verdadeira atenção às descricções que de mim próprio fui fazendo ao longo deste tempo todo.
Será que alguém ouviu realmente o que eu ia dizendo e defendia ser a verdade absoluta? Resta-me essa esperança, que ninguém me tenha ouvido atentamente, muito menos retido alguma coisa das minhas constantes intervenções e agora não se aperceba minimamente da diferença estrutural da minha nova personalidade. Do que conheço das actuais relacções interpessoais julgo ser altamente improvável que alguém relembre algo daquilo que fui debitando profusamente, uma vez que a moderna capacidade de concentração é ridiculamente pequena.  Até apostaria que ninguém me ouviu ou viu verdadeiramente. Ganhei crédito junto de algumas pessoas pelo facto de abordar temas incómodos ou outros que ninguém tinha alguma vez imaginado, e agora sinto-me algo consternado por ter de engolir o meu orgulho e ser obrigado a reconhecer, confessar humildemente a minha condição de mortal.
A minha última esperança reside aí, na tal alta probabilidade de ninguém já se lembrar daquilo que eu defendia até há pouco tempo, dada a velocidade com que a mente muda de foco, nunca se detendo muito tempo num determinado tema.
E isso abre-me uma boa janela de oportunidade de ingressar no mundo da política que até hoje criticava profusamente.
É a vida!


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2


É por demais evidente que existe uma certa dificuldade na escolha de um caminho que nos satisfaça inteiramente ao longo desta aventura surpreendente e inesperada  a que eufemisticamente chamamos vida. E não é por falta de opções ou oportunidades, pois  os caminhos são infinitos e a cada dia se abrem novas possibilidades nesta era da grande expansão.
Provavelmente impera no nosso subconsciente, na memória do corpo, uma espécie de medo original que de certa forma se explica pela antiga crença de que se escolhermos mal podemos ser castigados pelo Criador, aquela figura paterna simultaneamente protectora e castradora que nos impõe regras claras, nos acena com o pecado, mas está sempre pronto a perdoar-nos as faltas caso ajoelhemos a seus pés, penitentes.
Alguém mais liberal e pragmático, talvez um anarquista ou ateu, perguntará de pronto para que raio queremos nós um caminho se podemos calcorrear o mundo sem sair do conforto da casa ou do local habitual. Paramos para pensar nesta possibilidade e subitamente o nosso cérebro, depois de fazer uma rápida incursão às memórias gravadas por milénios de conhecimentos culturais, encoraja a boca a verbalizar a conclusão:
Virtualidade!
A actual maravilha tecnológica  que nos permire recrear e integrar todos os cenários e possibilidades sem sairmos do mesmo sítio. Será esse o papel do Criador, num nível infinitamente mais elevado? Será Ele apenas um manipulador de dados, um arquitecto de cenários que se entretém a desenhar mundos e situações que se vão modificando à medida que as criaturas mais inteligentes que criou para este planeta possam evoluir sem contudo conseguirem desmascará-Lo?
Mas por vezes o Criador tem de ser salvo pelas criaturas, e esse será porventura o paradoxo de Deus: Permitir que a Criatura evolua mas só até determinado ponto.
Voltando à questão do caminho. Talvez seja um exagro de linguagem afirmar que existem caminhos que forçosamente temos de percorrer para justificarmos a nossa existência. Muito menos que temos de desperdiçar este milagre a que chamamos vida com uma qualquer ocupação que nos entretenha.
Milagre, sim! Basta dar uma olhadela ao espaço exterior para decidirmos sem hesitações que a existência de seres pensantes (ia dizer inteligentes mas contive-me e já lá iremos) neste poço infinito e repleto de ameaças a que chamamos cosmos, é um autêntico absurdo, e daí que mais nenhum Ser se digne aparecer no planeta de forma aberta e incondicional.
O objectivo da vida!
Um conceito eventualmente inventado por um sábio pensador, assim denominado pelo facto de levar a existência inteira a tentar perceber para que é que a vida serve, sem contudo ousar vivê-la. E assim se inventaram os filósofos e as religiões!
Mas se é verdade que somos autónomas para pensar de forma inteligente e usar o nosso tempo da melhor maneira possível, desenvolvendo tecnologias facilitadoras, por exemplo, também é verdade que de certa forma o feitiço se virou contra o feiticeiro, pois o produto da nossa criação, de forma subreptícia, está bloqueando a nossa capacidade de pensar.
O drama divino? Do Criador?
Vejo aí uma certa analogia, e imagina só se subitamente o Criador, Deus, fosse inibido de pensar, só pelo facto de ter desenvolvido ferramentas facilitadoras da sua Obra. Ficaríamos subitamente sem protecção divina?
Mas fixemo-nos nos problemas terrestres, que são por agora os únicos a que estamos condenados a dar atenção. Contrariamente ao que sucedia com os humanos que nos antecederam, os chamados nossos antepassados, hoje qualquer indivíduo da nossa espécie pode em tese aceder a qualquer coisa, informação ou entretenimento, de uma forma instantânea. Ninguém se transforma em perito em matéria científica ou outras ao aceder a esse repositório informativo, mas ainda assim conseguirá emitir um ou dois conceitos aparentemente correctos, retirados à pressa de uma qualquer biblioteca virtual da especialidade. A ideia de cultura associada ao saber de experiência feito, aquilo que retemos no subconsciente depois de termos esquecido o geral, é um conceito morto e enterrado. Hoje qualquer um pode decorar algumas frases ou dados estatísticos e fazer um brilharete em qualquer reunião social. Com arte até poderá conseguir um emprego bem pago caso seja suficientemente convincente perante as pessoas certas. Deixo aqui esta dica para eventuais candidatos à vida  política, pelo menos até secretário de estado.
O problema surgirá se por azar alguém quiser desenvolver o assunto, por ser perito na matéria ou ter obtido mais informação na internet, mas aí há sempre forma de contornar a situação, mudando de tema ou fingindo ter de atender uma chamada inesperada no telemóvel. Se a chamada demorar mais que um minuto, o perigo passou, pois certamente já o assunto terá sido substituído por outro tema qualquer, e a imagem vendida continuará intacta.
Já o homem Anterior não tinha essa prorrogativa e era obrigado a inventar os seus próprios jogos e ferramentas, a estudar os clássicos e as ciências em livros que rareavam, a conhecer os seus próprios limites intelectuais.
Não vá o sapateiro além do chinelo!
Era o que se dizia para delimitar competências. Hoje, não! Qualquer um que tenha acesso às maravilhas tecnológicas existentes tem na palma da mão as respostas mais variadas a qualquer questão que lhe ocorra, e se nada houver para consultar, dada a extravagância da questão, poderá ele mesmo criar a sua própria definição, publicá-la no Youtube, e com sorte passará a integrar aquele grupo emergente de criadores virtuais especialistas numa coisa qualquer.
O problema é que o cérebro humano se está a adaptar a essa nova realidade. Não custa imaginar um futuro próximo, e abro aqui um parênteses para constatar que o futuro surge ca da vez mais depressa, em que já não serão os humanos a desenvolver programas de acesso a quase tudo, mas sim os próprios programas a determinar as nossas vidas. E não apenas nas questões tecnológicas, mas também nos aspectos fisiológicos, determinando o que devemos consumir, pensar ou fazer, através de um processo subtil de formatação cerebral.
Está assim aberto o caminho a novos deuses, novos criadores. A questão que se coloca é saber se estaremos no caminho certo, sendo esta a vontade primitiva do Criador, ou se o próprio Deus foi ultrapassado pelos acontecimentos.
Será este um processo armadilhado ou apenas o fim da Cultura como a conhecemos até então?

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Estou algo indeciso entre atribuir à virtualidade social a responsabilidade pela crescente indiferença nos relacionamentos interpessoais ou ao seu contrário. A velha questão do ovo e da galinha que tem apaixonado inúmeras gerações, pelo menos desde que há galinhas e se começou a filosofar, mas com contornos diferentes.
Independentemente de se conseguir chegar a uma conclusão definitiva, ou no mínimo rotular de interessante essa questão, a verdade é que o mundo virtual aí está para gáudio dos evolucionistas e das gerações mais novas e para desagrado daqueles que apontam o dedo a essa nova forma de conviver, comunicar à distância sem olhar o outro nos olhos, sem lhe sentir as emoções. Por muito conservadores que sejam os actuais Velhos do Restelo, não conseguirão deixar de aplaudir  algumas funcionalidades dessa mesma virtualidade, claramente facilitadoras da chamada vida moderna. Talvez esteja por fazer um estudo sério sobre a influência da virtualidade nas relações interpessoais, mas seguramente que ainda não se abordou a sério o impacto da mesma sobre a grande cultura ocidental.
Facto é que as alterações comportamentais que já se conseguem perceber indistintamente nas camadas jovens vêm dar razão e fazer salivar aqueles ditos filósofos que defendem há muito, desde os gregos antigos, imagine-se, que existe um rosto e as respectivas máscaras que se vão sucedendo ao longo do dia conforme os papéis que vamos desempenhando. Eis a chamada personalidade que se começa a formar a partir dos sete anos de idade, imposta pelas sociedades enquanto substituto funcional da alma com que aparentemente nascemos.
Que melhor maneira de honrar essa teoria do que assumir várias identidades, os chamados perfis das redes sociais, consoante as nossas disposições momentâneas? Conforme a nossa disposição ou objectivo, podemos ser tranquilos ou agressivos, simpáticos ou desagradáveis, apressados ou calmos, solidários ou indiferentes, novos ou velhos, homem ou mulher. Em nós podemos observar todos os tipos de emoções ou estados de alma, virtudes ou defeitos, sem corrermos o risco de sermos confrontados com o nosso verdadeiro eu que cada vez será menos identificável dadas as camadas inconscientes que o cobrem.
A determinada altura nem nós já sabemos quem somos, uma vez que inevitavelmente todos aqueles impostores mascarados vão reclamar o papel principal e tentar assumir o controlo da peça a que chamamos vida. Esse seria um drama pessoal preocupante caso os nossos interlocutores virtuais não enfermassem do mesmo mal e não reagissem de forma adaptada às suas próprias múltiplas personalidades.
Ser e Parecer! A tal diferença entre o carácter, aquilo que nos define num estado de Ser, pensar e sentir da mesma forma, e a personalidade, aquilo que mostramos conforme as ocasiões.
A vida vai-se assim transformando num gigantesco baile de máscaras em que ninguém conhece ninguém, e pior ainda, onde ninguém tem a mínima vontade de conhecer alguém. Um paraíso para os maus políticos e amantes que obviamente se sentem como peixe na água neste mundo pantanoso e sombrio onde podem facilmente multiplicar e potenciar as suas promessas, garantindo para o futuro, com maior veemência, aquilo que sabem não conseguir fazer e que não têm a mínima intenção de fazer.

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Porque não habitamos dentro de nós mesmos? Qual a causa profunda do drama de termos de ir buscar ao exterior aquilo que perdemos no interior? O panorama geral é desolador, com o protagonismo do tal monstro autista que dá pelo nome de ego. Há contudo algumas excepções que apenas vêm confirmar a regra, como seja o caso daquelas almas notáveis que surgem a espaços temporais eventualmente determinados por leis do mundo quântico que ainda não entendemos e que ficam gravadas indelevelmente como referências universais.
E esses génios surgem nas mais variadas áreas do conhecimento ou da cultura ou de qualquer outra actividade lúdica, como o desporto. A título de exemplo poderíamos falar de Chopin, de Einstein ou de Messi, apenas para frisar aquilo que pretendo tratar.
De tal forma essas figuras são excepcionais, que quando alguém nos dias de hoje se evidencia numa determinada área, ao invés de ser valorizado de per si, posicionando-se num friso endeusado, é de pronto associado àqueles intocáveis. Perceberão melhor a ideia com um caso concreto, o de um colega meu dos antigos liceus nacionais nos longínquos anos sessenta do século passado, o saudoso Teixeira, que tinha um virtuosismo excepcional para tocar e compor a nobel música iniciada pelos cinco de Liverpool, o famoso twist. Pois de pronto o Teixeira foi apelidado de Chopin do Twist, tendo passado à história devido a algo exterior a si e não pelo seu genial talento.
Uma clara subserviência cultural, uma menorização do seu génio único. Pergunto a mim mesmo se e quando teremos a coragem necessária para inverter o padrão cultural, e passar a denominar o génio polaco do piano de Teixeira dos Noturnos. Um pouco como fizemos com o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.
Há inúmeros exemplos daquilo que aqui trago à vossa consideração, e que indiciam a existência de um certo corporativismo cultural que tende a ignorar tudo o que é genial e actual em detrimento dos tais monstros consagrados que já deixaram há muito de respirar. Dir-me-ão que talvez daqui a uns séculos se rotule um qualquer génio emergente como o Teixeira do trombone, mas não estaremos cá para o comprovar e como tal essa não passa de uma hipótese académica com poucas pernas para andar.
Há que esclarecer que aprecio imenso a música de Chopin e até me dei ao trabalho de aprofundar um pouco a sua vida, nomeadamente fazendo um estudo exaustivo do seu periodo em Maiorca, em Valldemosa, durante o turbulento romance com George Sand. Mas isso não retira uma vírgula à minha tese que pretende ser um subsídio para a inevitável revisão do conceito actual de cultura.
Que se há-de fazer de qualquer forma, nem que seja filosofando à vassourada de forma brilhante, como era apanágio de uma vizinha da minha casa de infância, no esquecido Algharb, a Senhora Albertina, que nada devia ao genial Nietzsche, que o terá feito à martelada.
E começaria por deitar abaixo os antigos deuses, não de uma forma crepuscular, mas sim a golpes seguros de vassoura, começando por homenagear  Albertina, apelidando o autor da famosa frase Deus está morto, de Albertina de Lutzen.
Albertina de Lutzen!
Sensacional a forma como se inverte a importância cultural de um sujeito, um pouco como os nomes árabes em que o que surge em último lugar é mais importante do que o primeiro. E desde logo me surgem uma quantidade de opções possíveis. Porque não apelidar o famoso Mike Tyson de Espírito Santo do boxe, numa homenagem ao génio da Banca nacional, ou Picasso de Messi da pintura, por razões óbvias, passando por denominar Denis Rodmann de Carlos Costa do basketball?
É tudo uma questão de perspectiva!


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5

sempre um absurdo particular dentro do absurdo geral que é a vida. A verdade é que estamos previamente condenados ao desaparecimento e contudo insistimos em existir. Dir-se-á que nenhum de nós escolheu nascer, aparecer de forma abrupta sob a condição humana depois de algumas semanas de gestação provocada voluntária ou involuntariamente por um eventual prazer dos chamados progenitores.
Pode colocar-se na mesa das probabilidades o facto de termos uma alma, uma energia vital que previamente definiu a possibilidade, mas essa explicação parece-se muito com algumas desculpas esfarrapadas de alguns advogados no púlpito das argumentações numa sessão de tribunal.
A verdade é que aqui estamos e a cada passo existem exemplos dessa espécie de loucura que nos acompanha ao longo da existência.
Queres 5 cêntimos para comprar brebas? ouço uma voz masculina que não identifico, em tom jocoso, vindo de um andar superior do bloco de apartamentos onde resido.
Espero com alguma curiosidade pela resposta, mas ela não chega de imediato. Talvez se trate de uma conversa telefónica e apenas se possa imaginar o tipo de diálogo através das palavras do emissor presente fisicamente. Como nada acontece nos momentos seguintes, concentro novamente a minha atenção no livro que estava a ler, confortavelmente estendido na espreguiçadeira do terraço. Quando me preparava para repousar os olhos na linha certa daquele ensaio filosófico, ouço um enorme estrondo à minha direita, e a primeira coisa que me veio à cabeça foi a de que estava a ser bombardeado, resquícios do tempo de guerra colonial. De um salto atirei-me para o chão, protegendo a cabeça, mas como mais nada acontecesse, acabei por me levantar pouco tempo depois, algo envergonhado, mas aliviado pelo facto de ninguém ter observado aquela minha reacção automática.
Ao reassumir a posição erecta vi finalmente a causa de tamanho estrondo. Espalhados por uma área considerável do meu terraço estavam os destroços daquilo que até há pouco tinha sido um vaso de barro, residência de uma planta cuja espécie não consegui identificar, tal o grau de destruição do vegetal. Olhei instintivamente para cima na tentativa de identificar a origem do ataque, mas o eventual sniper já se tinha esgueirado sem sequer se dar ao trabalho de confirmar se tinha feito vítimas.
Fiquei perturbado! Teria sido uma tentativa de assassinato? Mas quem seria o autor? Que eu soubesse não tinha inimigos no prédio nem havia motivos para me assassinarem. Tenho os pagamentos de condomínio em dia e não devo favores a ninguém.
Só podia ser um acidente, mas conhecendo a geometria do prédio, diria que a única hipótese teria sido alguém lançar o objecto de forma intencional, pois ali não existem aqueles parapeitos com vasos como se vêem nos bairros populares ou nas varandas de algumas habitações. Num impulso saí do terraço, entrei em casa e corri porta fora subindo as escadas a dois degraus de cada vez, na tentativa de apanhar o rufião, mas o silêncio era total.
Teria eu inventado aquela situação? – perguntei-me, depois de subir e descer as escadas três vezes, tocando às campainhas das portas suspeitas, que eram todas as dos andares do lado do meu prédio, até ao cimo. Ninguém respondeu, mas isso não significava que os apartamentos estivessem vazios. Quase imaginava o eventual sniper sustendo a respiração, algures no apartamento culpado, esperando que eu desistisse da averiguação.
Teria o atacante confirmado que eu saíra ileso?
Voltaria a atacar, ou foi um mero acidente?
E os eventuais estragos, quem pagaria?
O meu estado alterado levou-me a levar a coisa para o absurdo, e por momentos imaginei-me capaz de fazer levitar objectos pesados e fazê-los cair com estrondo sobre mim próprio. Comecei a controlar as minhas emoções e decidi veificar os estragos na tijoleira especial contra infiltrações que me tinha custado os olhos da cara. Enquanto retirava os cacos e os depositava sobre um enorme plástico que encontrei na caixa verde onde guardo algumas ferramentas, ia lançando um olhar para os pisos superiores, na esperança de ver alguma movimentação. Mas nada! Calados como ratos. Mais calmo, à medida que limpava o terraço e verificava com satisfação que os sinais do impacto eram ténues ou inexistentes, comecei a pensar de forma diferente.
E foi o bastante para regressar à frase jocosa.
Queres 5 cêntimos para comprar brebas?
E se tivesse sido aquela a resposta àquela pergunta insidiosa?
Comecei a respirar compassadamente, de forma harmoniosa, o que em mim é sintoma infalível de retorno a um estado de calma. É evidente que o facto de ter constatado que não tinha havido estragos na tijoleira e que tinha sobrevivido aos estilhaços, ajudou muito a chegar a essa espécie de estado iluminado. Enquanto descia no elevador para colocar os cacos no caixote de lixo comunitário, ia decidindo que só um ou uma amante desiludida seria capaz de um acto daqueles. Fiquei logo aliviado ao optar por essa explicação, e quase esbocei um sorriso quando o ascensor chegou ao rés-do-chão. Não tinha sido um atentado, e eu não passava de uma vítima circunstancial. É claro que podia ter sido atingido, ferido gravemente ou mesmo assassinado, mas a verdade é que nãda disso tinha acontecido, e ainda por cima tinha a oportunidade de desvendar aquele mistério. Mas quando abri a porta do prédio e me dirigi à zona dos caixotes de lixo, a minha mente ia mergulhando noutra espécie de tema. A cultura nacional da Justiça!
Tentativa de homicídio?
Acidente?
Danos colaterais?
Pensei logo em advogados, queixas contra desconhecidos, análises periciais da judiciária, tribunais, e achei por bem desistir de eventual queixa e dar graças a Deus por não ter sido prejudicado fisicamente ou patrimonialmente,
E os danos morais?
Que se danem os danos morais!- decidi, depois de reentrar em casa, e aí já tinha decidido que tinha sido uma vítima acidental, oportunista, de um qualquer conflito motivado por questões amorosas. E já estava a ver o filme todo, enquanto ia eliminando potencias suspeitos, baseando essa minha permissa na moral convencional do país.
Já não me restavam quaisquer dúvidas. Tinha sido um conflito amoroso, aquela reacção era tipicamente feminina e tinha surgido na sequência da frase jocosa que tinha ouvido instantes antes. Também poderia ter sido um homem a fazê-lo, mas isso significaria que estávamos perante um relacionamento homossexual, e que eu soubesse não era provável que tal acontecesse. Não consegui identificar ninguém com aquelas características nos andares superiores, tudo casais aparentemente normais, seja isso o que seja. Apenas no primeiro andar havia um condónimo divorciado e bom rapaz, o Miguel, que se entretinha a coleccionar casos amorosos, mas a menos que que a actual paixão, uma morenaça bem feitona mas com ar de poucos amigos, tivesse lançado o vaso para o terraço do quarto andar após uma briga amorosa, não via como apontar-lhe o dedo.
Mas a verdade surge sempre à tona, como o azeite na água. Passados alguns dias o Miguel tocou à minha campainha e explicou o sucedido, desfazendo-se em desculpas que aceitei desde logo sem fazer qualquer reparo. Aprendi com algumas meditações que não devemos reviver o passado, essas memórias venenosas que se infiltram na nossa mente. E limitei-me a sorrir enquanto ouvia a explicação do Miguel, a quem convidei para se juntar a mim num Scotch, como é próprio dos cavalheiros.
Luisa, assim se chamava a namorada, tinha-lhe proposto que juntassem os trapinhos, e ele respondera com aquela frase jocosa, mas nunca esperou aquela reacção da ortopedista. Agarrou no vaso que ela própria lhe tinha oferecido dias antes, saiu porta fora e meteu-se no elevador. Miguel ainda pensou que ela se fosse embora, e ficou a espreitar da janela na tentativa de a ver entrar no carro, um magnífico Audi azul prateado, mas nada. Alarmado, saíu para o corredor e subiu as escadas a correr, receando que a ex-namorada cometesse alguma loucura. Quando passava pelo quarto andar, precisamente o meu, ouviu um estrondo e receou o pior.
Suicidou-se!
Luisa jogou-se do alto do prédio para o terraço do quarto direito!
Ficou siderado e não conseguiu mexer-se, até que me viu sair de casa esbaforido e correr escada acima como um louco. Estava um lanço de escadas abaixo de mim e como tal eu não o tinha podido ver. Ficou confuso, mas subitamente aliviado ao ver através da janela da escadaria que Luisa entrava no seu carro a correr.
Acabaram por sorrir, imaginando a cena digna d eum filme cómico. Ter-se-ão cruzado os três na zona das escadas e elevadores, mas não deram por nada.
Nunca mais a vi! – confessou – Mas não significa que ela não me veja. Sabe como são as mulheres!
Respondi com um movimento corporal, e depois despedimo-nos. Miguel tinha um encontro combinado em Lisboa, nas Amoreiras.
Sim, estava de novo apaixonado, agora por uma esbelta cabeleireira, a Marta, uma esbelta carioca que conhecera pouco depois do incidente num concerto em Cascais. Mas eu podia ficar descansado pois não gostava particularmente de flores.


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6

Dizem as más-línguas que o Doutor Herculano de Vries  se crismou e começou a frequentar a Igreja exactamente no dia em que foi constituído arguido da Operação Chocolate Helvético, nome de código atribuído pelo Departamento Criativo da Polícia Judiciária à investigação no âmbito do escândalo da compra dos submarinos à Suíça.
Poucos o conheciam antes de se ter transformado numa figura pública aquando da greve dos profissionais do lixo urbano que praticamente parou o país no verão quente do décimo segundo ano deste século.
Até custa relembrar aquele pesadelo que começou como algo insignificante vindo de gente insignificante, e subitamente se tornou num caos, qual tsunami que só revela a sua verdadeira dimensão e perigosidade nos derradeiros momentos, com efeitos trágicos.
Começou literalmente a cheirar mal, a cheirar demasiado mal como todos nos recordamos, e as ondas de choque da excessiva exposição mediática e fragilização do país à crítica internacional, não tardaram a abrir rachas na ainda debilitada economia portuguesa que tentava inverter um ciclo terrível iniciado anos antes com a crise financeira internacional.
Apesar dos esforços governamentais para impedir que a anunciada greve fosse uma realidade, tendo ficado na retina uma acção de rua, altas horas da noite, iniciativa da Presidência da República a que de pronto se associou o governo, todos empenhados numa luta pessoal pela liderança da popularidade.
Tinha tudo para ser uma cena cómica, caso não fosse trágico ver o PR lado a lado com o PM e vários ministros e secretários de estado empoleirados atrás de alguns carros do lixo que furaram a greve, entretidos a tentar despejar alguns contentores em horário nobre. Ficou na retina e também no anedotário nacional o fato de macaco que calhou em sorte ao PR, excessivamente largo e pouco prático, indiciando que tudo aquilo era pura propaganda. Mesmo que quisesse, ser-lhe-ia impossível segurar nos caixotes com aquele equipamemto. Mas enfim!
Felizmente imperou o bom senso e aquela cena caricata não se voltou a repetir. Diz-se que a sugestão partiu da Igreja, mas não há como provar tal tese, porque o Cardeal Patriarca não comenta o caso. O que é certo é que no dia seguinte perto da hora do almoço, todas as televisões estavam presentes na conferência de imprensa dada por uma personagem que ninguém conhecia e que se anunciou como porta-voz e consultor jurídico do sindicato dos trabalhadores dos  resíduos urbanos, o recém-criado STRU.
Era impossível não ficar impressionado com aquela figura atlética, de cerca de dois metros de altura, impecavelmente vestido, cabelo preto impecavelmente penteado para trás, óculos redondos à Trotski, como sugeriu um jornalista da CMTV, e lia-se já neste comentário uma certa declaração de intenções. Eram várias as especulações que se iam fazendo entre os habituais comentaristas televisivos, e tal como nas discussões sobre futebol, eram incontáveis as opiniões que se debitavam sobre tão misteriosa personagem, tentando adivinhar-lhe os intentos e a linha de raciocínio.
Quando começou a falar com um subtil e indecifrável sotaque num português fluente e perfeito, o grande desafio passou a ser adivinhar-lhe a nacionalidade ou pelo menos a naturalidade. Tratava-se do Doutor Herculano de Vries, como se lia em rodapé nas televisões, licenciado em Direito pela Universidade de Istambul, naturalizado português e devidamente credenciado pela Ordem dos Advogados. Foi claro ao dizer que não responderia a quaisquer perguntas naquela ocasião, limitando-se a confirmar ser o representante de uma classe marginalizada cujo trabalho era fundamental para o País. Perante os inúmeros pedidos de esclarecimento dos jornalistas presentes, limitou-se a olhá-los de frente com um ar calmo e duro, e quando o silêncio naturalmente voltou, concluiu:
Esta paralização está a ser feita em conformidade com a Lei e as reivindicações dos meus representados serão apresentadas por escrito durante a tarde!
Não iremos explorar o periodo de greve, que não acrescenta muito ao propósito do texto, e como sabemos tudo acabou rapidamente com um acordo ganhador para todas as partes,
STRU, Governo e população, mas antes tentaremos concentrar-nos na personagem central daquele episódio, o Doutor Herculano, que a partir daí iniciou uma carreira meteórica na vida pública. Foi convidado por um partido marginal a integrar as suas listas, mas no último momento, quase no fecho do mercado, digamos assim, antes das legislativas desse ano, surpreendeu tudo e todos ao envergar a camisola de um partido candidato ao título. E não é que esse partido venceu com maioria absoluta e o Doutor Herculano foi convidado a liderar a pasta da Defesa Nacional?
De pronto começaram as críticas e as suspeitas quanto às suas origens. Diziam uns que seria um imigrante originário dos Balcãs, especialista em circuitos financeiros paralelos, que teria sido especializado em circuitos financeiros por gente com muito poder, aquando dos anos da grande depressão, com o objectivo firme de blindar a partir de dentro, todos aqueles que se aproveitaram da confusão para colocarem no exterior aquilo que tinham obtido ilegalmente no interior.
As famosas offshores!

Não tem havido notícia dele desde que o governo perdeu as eleições, diz-se que anda por aí, mas a verdade é que não escapou às malhas da justiça que acabou por concentrar esforços no célebre episódio do negócio dos submarinos com a Suiça. Como a tarefa de encontrar a pista dos milhões desviados para os paraísos fiscais é uma derrota anunciada, não custa a crer que a Novela Suiça seja apenas uma salsicha que foi atirada aos especialistas em corrupção para não ficarem totalmente desacreditados. Não vai dar em nada, mas pelo sim, pelo não, o Doutor Herculano lá se vai penetenciando e pedindo perdão aos deuses nas missas das sete, na Estrela, zona para onde foi residir recentemente, e onde se entretém, entre viagens enigmáticas à China e aos USA, a ponderar uma eventual candidatura a Belém, onde aliás vai muitas vezes a convite do actual PR.


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