Como eu o entendo, Senhor Dr. Juiz.
Como eu bem o compreendo.
Como eu até admiro a sua coragem, a sua dedicação à Justiça e a este estigmatizado país.
Admiro-o antes do mais por ter abraçado uma profissão que poucos querem, obscenamente mal paga e agora até com poucas férias, quando podia, na esteira do papá , estar em qualquer bancada da nossa Assembleia de notáveis, defendendo os interesses de todos nós,com muito menos sacrifícios.
Mas não, Senhor Dr. Juíz.
O Senhor sacrificou-se e sacrificando-se, sujeitou-se à mais cruel de todas as vivências ,a de ser mal interpretado, mal amado.
Sei bem que não era esta a sua vocação, que mal entende de leis e muito menos de pessoas, mas que raio, por isso mesmo merece, ou devia merecer a admiração de todos nós.
E afinal a que assistimos?
Hoje ouvimos quem peça a sua cabeça , quem o crucifique, e coisa curiosa, não se ouve uma defesa pela boca daqueles seus pares que tão prontamente aparecem nos media quando se trata de degladiar os políticos, esses energúmenos que tiveram o desplante de por exemplo lhes questionar as merecidas férias?
Esses não apareceram hoje ? Então não lhes interessa vir a terreiro evidenciar uma vez mais a multisecular estupidez do povo português, essa amálgama indecifrável de bárbaros e vândalos, ligeiramente refinados pelas fogueiras da Inquisição e pela Pax Romana?
E tudo isto porquê?
Apenas porque V. Exa. ilibou aquela pobre mulher, que, sozinha, aguentava uma vintena de anormais postos a seu cargo durante 16 (?!) horas diárias, fazia o favor de lhes limpar as fraldas e assoar o nariz?
Será que o Senhor Dr. tem culpa de viver num país que existe há mais de oito séculos estigmatizado com o complexo de Édipo?
Que culpa tem o Senhor Dr. Juíz de exercer a sua nobre profissão num país que nasceu com o filho a bater na mãe?
Só quem desconhecer esta anormal iniciação, e Portugal infelizmente é um país que sempre se esqueceu da sua história, poderá ficar ou sentir-se ofendido, escandalizado, humilhado, revoltado, furioso, indignado, com a sua decisão, sábia como sempre.
Com certeza que quem bate nos filhos, e direi eu, quem mesmo os matar, SERÁ UM BOM PAI. Só assim se vingará essa afronta que foi ver o seu primeiro político a bater na própria mãe.
Vê-se que o Senhor, Sr. Dr. Juíz, conhece bem a história, e bem a mentalidade deste povo pequenino, que apenas se revolta num dia, para logo tudo esquecer no dia seguinte.
Pois que se faça jurisprudência! Que se leve este caso às Nações Unidas!
Vê-se de igual modo que o Senhor, Sr. Dr. Juíz, conhece bem uma que creio ter sido a frase mais famosa de Salazar, esse nobel que tive a infelicidade de conhecer, que dizia a propósito do bom povo português de onde ele emanou : OS PORTUGUESES TÊM DE TER ALGUÉM QUE OS EMPURRE DE QUANDO EM VEZ. E o Sr, Sr. Dr. Juíz, fê-lo com classe, com inteligência.
Voltando à sua histórica decisão, que culpa tem aquela pobre mulher, com o marido desempregado e o filho preso por posse de coca, que lhe tivessem dado para cuidar, um bando de garotos imbecilizados, anormais, que numa sociedade perfeita, como aquela que se tentou na Alemanha nos anos 30,nunca teriam o problema de existir?
Que culpa tem a pobre mulher de não ter uma formação adequada?
Afinal de que serviram os cursos financiados que se multiplicaram em Portugal?
Que culpa tem o Doutor que neste país ainda se permita que as mulheres, por ignorância, religiosidade ou outras crenças medievais, dêm à luz seres imperfeitos, que depois só dão trabalho e ajudam a delapidar o já reduzido erário público.
E depois veja o Doutor a hipocrisia. Então o Estado agora liderado pelos socialistas, não quer reduzir despesas? Que melhor maneira de aliviar alguma carga, senão a de manter funcionárias como aquela agora sabiamente ilbada,naqueles centros de concentração, apressando assim o desaparecimento de seres que ninguém quer, de quem nunca ninguém ouviria falar se não fossem estes julgamentos mediatizados.
Com fins políticos, digo eu.
Presto-lhe as minhas homenagens Doutor.
O Senhor está sozinho hoje.Mas amanhã,seguramente serão muitos os colegas que o seguirão.
E atrevo-me a adivinhar que a estas horas já muitos o felicitaram pela sua coragem.
Então agora as vítimas também têm direitos neste país?
Mas onde é que já chegámos?
Tiveram por acaso direitos aqueles que os seus colegas de quinhentos queimaram nas fogueiras em Lisboa? Esses bruxos e agnostas.
Tiveram aqueles agitadores que merecidamente foram julgados nos Tribunais do Estado Novo?
Não se aflija Doutor.
Eu compreendo-o.
Afinal o Doutor não é melhor nem pior que aqueles que criaram os centros de concentração para aqueles miseráveis que tiveram o desplante de nascer, alguns sem pais, e logo ainda por cima anormais.
Não se deixe abater pelas críticas.
As críticas vão e os Juízes ficam.
Vá lá Senhor Doutor, não se apoquente.
Hoje à tardinha, quando fôr buscar o sseu meninos ao Colégio da Lapa, ponha Wagner no leitor: olhe, ponha "O anel dos Nibelungos, aquela parte que fala do homem perfeito, de que Hitler tanto gostava, e pense num mundo melhor, de meninos, assim como nós, loiros de olhos azuis, com a vida à sua frente.
E que Deus o perdoe,já que eu não o posso fazer, nem mesmo à distância de um oceano.