segunda-feira, 12 de março de 2012

Acordo ortográfico

Nada  mudou na mentalidade dos Portugueses, quanto à sua (nossa) subserviência e complexo de inferioridade no que respeita à Língua Portuguesa (entre muitas outras coisas) .
O que aqui se mostra é uma foto da nossa Professora de Inglês, Drª Teresa Pedroso, ao lado da magnífica turma de 1964/1965.
Ensinava-nos a Professora Teresa que entre os europeus, o topónimo Samatra foi primeiramente registado pelos portugueses, possivelmente a partir do árabe samatrâ. Documentos do período de expansão portuguesa na Ásia atestam as formas "Camatarra","Samotra"e Çamatra" (corrente no século XVI), até fixar-se na grafia actual "Samatra".
Os ingleses olharam para o topónimo dos portugueses e passaram a escrevê-lo como "Sumatra", tentando reproduzir a pronúncia portuguesa de "Samatra".
É claro que nós, os Portugueses, passámos a dizer Sumatra.
Do mesmo modo qu epassámos a chamar de "Fila" às antigas "bichas nacionais", para não ferir susceptibilidades aos nossos irmãos braisleiros.
Há aqui duas curiosidades, a meu ver:
1. A professora de Inglês não se limitava a dominar a língua de sua Majestade, indo ao detalhe de explicar as origens das palavras e a sua história; enfim, era uma Professora a sério, não uma assalariada do Ministério da Educação (já não há disto hoje)
2. Já desde o Século XVI que nós, os Portugueses, temos muito pouca convicção na defesa da nossa língua.
De que se queixam então aqueles que acham que não devemos começar a falar brasileiro?
Por mim já me inscrevi na Universidade de Inverno na Baía de Todos os Santos para dominar o sotaque.
Assim como assim, junto o útil ao agradável.
Sempre posso rever os "Sabores da Dádá", e talvez tire um cursito rapidjinho de Pai de Santo.

A Espécie Humana

Há algum tempo vi não sei onde a fotografia de uma execução em tempo de guerra.
Três homens pálidos, de estatura mediana, sem nada de especial que lhes distinguisse as feições (a máquina apanhou-os de perfil) estavam alinhados à beira de uma vala acabada de abrir. Tinham ar de homens do campo.
Mesmo atrás de cada um deles estava um soldado, de pistola em punho (os executores). Entrevia-se ao longe mais um grupo de soldados: os espectadores.

Deve ter sido no princípio do Inverno ou no fim do Outono, porque os soldados envergavam os seus casacões. Os condenados estavam também todos três vestidos da mesma maneira.
Traziam bonés de pano e grossos casacos pretos por cima das camisolas interiores: o uniforme das vítimas. Como se tudo o mais não bastasse, tinham frio. Era em parte por causa disso que enterravam a cabeça nos ombros.
Vão morrer daqui a um segundo: o fotógrafo disparou a máquina no instante anterior àquele em que os soldados carregavam no gatilho.
Os três rapazes da aldeia enterravam a cabeça nos ombros e semicerravam os ombros como as crianças fazem na expectativa da dor. Contavam ser feridos, talvez gravemente; aguardavam (tão perto dos seus ouvidos), o estrondo ensurdecedor de um tiro. E semicerravam os olhos.

O que os esperava era a morte, e não a dor; porém nem os seus corpos nem as suas mentes conseguiam fazer a distinção…….

É tão limitado o reportório das reacções humanas!

António Gomes

Estamos na época dos Beatles e da guerra no Vietname.
Estamos em Faro, cidadezinha pacata de um Algarve que começa a ser descoberto pelos primeiros turistas franceses.
Estamos no LNF, onde em todas as salas de aula existe uma foto oficial do Estado Novo.
Estamos no LNF onde existe um gineceu bem no centro do “Quadrado”, e onde só se pode dirigir a palavra ao sexo oposto a partir de um raio de 500 metros, com Centro na “hall” de entrada do LNF.
Estamos no 4º ano do liceu na primeira aula de história e a todo o momento esperamos a entrada do Prof. Para nos levantarmos colectivamente, no mais profundo silêncio.
Ninguém entra depois de 2 ou 3 minutos de espera.
Começam as primeiras piadas ao fundo da sala, com João Monteiro e Henrique Botto a marcarem o ritmo.
De repente alguém entra, fraca figura, sorridente e comendo um resto de uma sandes, e o silêncio apenas é cortado pelo barulho de um levantar colectivo.
- Aqui é que é o 4º B? Pergunta o recém-chegado.
- Sim, reponde Isaú Guerreiro Gonçalves, o menos surpreendido.
- Então, estou no sítio certo. Sou o vosso Prof. de História. Quando quiserem fazer queixa de mim ao Xerife (Reitor José Ascenso), o meu nome é António Gomes.
Esta foi a apresentação de alguém que modificou totalmente o nosso ano lectivo.
Finalmente tínhamos um professor não alinhado, que entendia os alunos e dava as aulas de uma forma brilhante.
De facto a rigidez e a formalidade da maioria das aulas, levava-nos a vaguear entre os fantasmas da fé e os espectros da racionalidade, mas na realidade não nos abriam a porta da cela.
Com António Gomes sentimo-nos pela primeira vez parte do processo de ensino.
Com ele as aulas começavam sempre com uma espécie de meditação balbuciante de cerca de10 minutos, onde todos podiam dizer o que quisessem, despejar tudo o que sentiam, e isso era absolutamente fascinante (nunca mais tive a oportunidade de repetir tal experiência, e já lá vão mais de 40 anos).
Estou a vê-lo subir a Avenida a pé, com um grupo de alunos a discutir ou as vitórias do Benfica ou o problema do Vietname.
Estou a ver a sua colega e namorada e futura esposa, a filha de José Ascenso, a convidá-lo para entrar no seu magnífico carro, e António a recusar dizendo que estava numa aula ao ar livre.
Estou a vê-lo rodar sobre os calcanhares para, com um sorriso nos lábios, apanhar alguém a copiar durante um teste.
Estou a vê-lo pagar uns pequenos-almoços a alunos mais desfavorecidos nessa cidade de Faro de grandes desequilíbrios sociais, perfeitamente representados na sala de aula.
Teve grandes problemas com o seu liberalismo, o que era inevitável, mas como ele próprio dizia, citando Kafka, “ a partir de um certo ponto, deixa de haver retorno…é esse ponto que temos que atingir, custe o que custar…”

INÍCIO DO BLOGUE

Olá amigos

Tentei há tempos encontrar um espaço de informação sobre o Liceu Nacional de Faro, provavelmente num acesso de saudosismo, mas não encontrei o que procurava.

Tendo conquistado o direito a fazer apenas o que me dá prazer, resolvi iniciar este espaço, que está aberto a todos os que quiserem recordar algo da sua passagem pelo LNF.

Perdi o rasto à maioria dos meus colegas de liceu, por diversas razões, mas nunca é tarde para o reencontro.

Irei escrevendo aqui coisas de que me lembro, e tudo o que quiserem enviar relativo a essa época das nossas vidas, que nos possa fazer redescobrir-nos.

Afinal, não é por acaso que dizem que conhecemos melhor os outros que a nós próprios...

IVO

O que eu sofri para arranjar aquele célebre livrinho de capa preta, minúsculo no tamanho, mas com um título enorme: "Do Latim ao Português e a língua como expressão literária".
Na altura só havia uma ou duas livrarias em Faro dignas desse nome, a Silva e a Académica (salvo erro ou omissão), mas o professor Inocentes Afonso insistia na aquisição.

O Latim, que se aprendia na disciplina de Português era mesmo assim, sujeito a declinações e outras complicações
Os casos nominativo, genitivo, dativo, acusativo e ablativo eram categorias a que pertenciam formas com distintas funções na frase, e essa função sintáctica aflorava numa terminação (desinência de caso) específica:

Nominativo: caso da função sintáctica de sujeito
Genitivo: caso possessivo e de outras relações entre formas nominais
Dativo: caso do complemento indirecto
Acusativo: caso do complemento directo
Consigo escrever isto pois estou copiando da Wikipédia, pois nunca consegui muito bem distingui-los.

Creio que terá até sido por isso que o Império Romano caiu várias vezes.
Tudo isto a propósito do nosso colega IVO, de quem nada sei, em tanto tempo (pode ser que apareça), louro e de olhos azuis, facilmente confundido com um nórdico.
Pois numa aula de Português, caiu-lhe em sorte ter que identificar aqueles célebres casos.

Professor Inocentes, com o seu ar pesado mas inocente:- Em que caso está a palavra "nomini" na frase exposta?
Responde o IVO - Ivo, Senhor Doutor.
Prof. Inocentes - Disseste ablativo, meu filho?
IVO- Sim, Senhor Doutor.
Prof. Inocentes -Muito bem.
Prof. Inocentes - E a palavra "homini", no segundo parágrafo do 4º capítulo, em que caso está?
IVO - Ivo, Senhor Doutor.
Prof. Inocentes - Disseste dativo, meu filho?
IVO- Sim, Senhor Doutor
Prof. Inocentes -Muito bem (esboçando um largo sorriso) Pois meu filho, vais ter um sinal menos (-) na caderneta, pois eu posso ver mal, mas não sou surdo.
IVO cora e toda a turma ri.

Intocáveis

Como dizia Aristóteles o fogo arde da mesma maneira em dois locais diferentes.
Pelo contrário, há palavras iguais que têm significados opostos consoante a latitude em que são empregues.

Na sociedade Hindu os intocáveis são aqueles que trabalham com trabalhos indignos, sujos, com os mortos, empilhando cadáveres, e outros empregos que os mantêm em constante contacto com aquilo que o resto da sociedade indiana considera nojento e desagradável.
Os intocáveis são considerados individualmente sujos, e assim não podem contactar fisicamente com os "não-sujos", as partes mais puras da sociedade. Vivem separados do resto das pessoas. Ninguém pode interferir na sua vida social, pois os intocáveis são os últimos no “ranking” social, são considerados sub-humanos e não fazem parte do sistema de castas.
Aos intocáveis, só é permitido usar as roupas que retiram do corpo dos mortos. Nas suas casas, comem em louças quebradas. Eles sofrem de restrições sociais extremas. Não podem rezar no mesmo templo, não podem beber da mesma corrente de água, pois poderiam polui-la e indirectamente poluir as outras castas que dali bebessem.
Nenhum intocável pode entrar no templo se lá estiver alguém de uma casta superior – como os padres do templo, a casta suprema, nunca estão fora, na prática os intocáveis não podem frequentar qualquer templo.
As vítimas de Tamil Nadu, o Estado indiano mais devastado pelos tsunamis, esperaram ansiosos a ajuda do governo e de agências humanitárias para poderem reconstruir as suas vidas, mas os intocáveis - excluídos do sistema de castas hindu, não a receberam. Neste distrito com importante população dalit (intocáveis), vivia a maioria dos 10 mil mortos do tsunami de 2004.
Em Junho de 2006, uma revista popular brasileira, publicou uma entrevista com um intocável que disse que a sua família tinha que beber água barrenta de um poço e, por ter invadido o quintal do vizinho, um seu irmão foi amarrado a uma árvore e devorado por formigas, tendo ele e o seu pai sido obrigados a assistir.

Na sociedade Portuguesa os intocáveis, ao invés da Índia, são aqueles que todos querem tocar, que todos se esforçam por entrevistar, aqueles de que todos querem seguir os exemplos.
Ser intocável, em Portugal, é sinónimo não de impureza mas de impunidade, e assim sendo, é sinónimo também de se pertencer ao mais elevado nível da Sociedade.
O que tem em comum o intocável em Portugal, seja ele num caso mais ou menos mediático de pedofilia, ou de uma burla qualquer, grande ou pequena, num qualquer sector? A sua permanente boa disposição, o seu ar jovial e sorridente, a sua ironia e o seu inatingível sentido de humor. Humor fino, de salão, política e socialmente correcto, culto. Assim se define o intocável, seja ele ou não seguidor dos exemplos paradigmáticos de Gondomar, Oeiras ou Felgueiras, Casa Pia, Eduardo VII ou FPF.

A Língua Portuguesa é excessivamente traiçoeira, diria mesmo excessivamente irónica, pois define INTOCÁVEL consoante a latitude.
Afinal, dá razão a Aristóteles.

Ma não era o filósofo que dizia que a mulher era um erro ou um equívoco da Natureza?

Exílio

Hoje chove copiosamente.
Com o tempo habituamo-nos a tudo; até a este clima que nos entra pelos ossos e neles deixa uma sensação permanente e pegajosa.
Deito café numa chávena, meia colher de açúcar,mexo e espero que amorne. Já nem me aborreço com o facto de a manteiga estar congelada, como sempre, como se fosse um tijolo amarelo embrulhado em celofane.
Afinal apenas repito a cerimónia de todas as manhãs, desde que para aqui vim para salvar o corpo (e aparentemente condenar a alma).
Acendo um cigarro para acompanhar o café quase frio, e abro o jornal (sempre é útil aprender algumas línguas estrangeiras).
Acabo de beber o café, deixo a chávena no tabuleiro e calço os sapatos.
Aproximo-me da janela, olho para a rua, como que a ganhar coragem para sair, olho com uma espécie de carinho para o meu casaco novo, e decido que são horas do passeio matinal.
Em cima da mesa de apoio estão as chaves do apartamento, as cartas de encorajamento dos amigos de sempre, a carta semanal para a minha mãe.
Decido que ainda tenho tempo para uma outra chávena de café. e para outro cigarro (comecei a fumar).
Volto a olhar para o "e-mail" recebido ontem com o insistente convite ao regresso às latitudes
de que tenho saudades. As palavras meigas e desinteressadas ficam a bailar-me na cabeça.
Descalço os sapatos e olho de novo pela janela para a rua.Pareceu-me que havia menos gente que de costume, apenas as crianças da escola ali perto , que brincavam (como todas as crianças).
Continua a chover copiosamente.
Continuo na luta interior entre a necessidade de sair (porque me esperam), e a vontade de ficar.
Decido esperar um pouco mais.
Sento-me.
Abro o meu portátil e escrevo numa espécie de diário:
19 de Outubro de 2003, 65º dia de exílio , Järvenpää

Como sempre, chove copiosamente.....

Serra algarvia II

Encontrei esta fotografia por acaso.
Foi tirada salvo erro em 1967 no Serro de S.Miguel, no barrocal.
Havia uma grande festa, não me lembro exactamente a que propósito, mas sei que foi pretexto para fazermos um grande piquenique.
Lembro-me que havia imensos bolos e houve alguém que se lembrou de retirar alguns por uma janela.
Lembro-me de todos os colegas que aqui estão, mas infelizmente apenas recordo o nome de três:
ISAÚ Guerreiro Gonçalves, Maria da PURIFICAÇÃO, e AIÓ (só me lembro do primeiro nome), com o seu inseparável boné de tecido escocês.
Eu e Isaú (a quem Henrique Botto, outro colega, chamava paternalmente "O Pai da Física, numa clara alusão a Isaac Newton) estamos fumando um charuto, e o nosso outro colega, em primeira fila, ajoelhado, de quem não recordo o nome, está trocando impressões com uma colega.
Repare-se que apenas quatro de nós estão atentos à foto, os outros cinco estão atentos à conversa "ajoelhada".
Não consigo comentar mais.
Espero as vossas memórias.

Serra algarvia- I

Afinal ainda tenho outra fotografia daquele dia na Serra algarvia.
Agora sou eu e Isaú que estamos desatentos.
Provavelmente Isaú está-me dizendo como devo acender o charuto.
Não o deve ter feito muito bem, pois foi o primeiro e último que fumei.
Aió continua com o seu boné, sem esboçar qualquer sorriso.
As colegas e o colega estão claramente felizes.

Maria Beatriz Franco

Foi minha professora de Francês no antigo 2º ano do liceu, ano lectivo 1962/63.
Jovem, bem disposta, sempre amiga dos alunos.
Excelente professora.
Espero que esteja bem.
Dela guardo um livro que me ofereceu, com dedicatória, em 8 de Junho de 1963, no final do ano lectivo - "Mémoires d´un âne" da Comtesse de Ségur.
Guardo ainda na memória a sua imagem, que tento aqui traduzir em palavras, a modos de homenagem:

...A suavidade que emana da sua presença é como uma ária de Bach ou uma mensagem divina: clara mas inexplicável...

Praia da Rocha

As suas pernas nuas, longas e esbeltas, eram tão delicadas como as de uma garça, e eram puras, excepto no local onde uma alga cor de esmeralda tinha aderido à sua carne, como um sinal.
As suas coxas, cheias e de um tom suave como o do marfim, estavam nuas quase até às ancas, onde as franjas brancas dos calções lembravam uma penungem branca e macia.
As saias de um azul de ardósia estavam ousadamente enroladas em volta da cintura, descaindo atrás como a cauda de uma pomba.
O seu peito fazia lembrar o de uma ave, macio e leve como o peito de uma rola de plumagem escura.
Mas os seus longos cabelos louros eram juvenis, como juvenil era o seu rosto, tocado pela maravilha da beleza mortal.
Estava só e quieta, olhando para o mar; e quando sentiu a presença dele e a adoração nos seus olhos, voltou os seus para ele, sustentando tranquilamente o seu olhar, sem vergonha nem malícia.
Sustentou o olhar dele durante muito tempo, longo tempo, e depois, calmamente, baixou os olhos e fitou a corrente, agitando levemente a água com os pés, para um lado e para o outro.
O primeiro ruído suave da água que se agitava quebrou o silêncio, baixo e leve e sussurrante, débil como os chocalhos das ovelhas; para cá e para lá, para cá e para lá; e um leve rubor tremulou no rosto dela....

"Memórias da Praia da Rocha"

Quem fala assim não é gago

Entrei para o Instituto Superior Técnico a 14 de Outubro de 1968.
Nesse Outono eclodiu um conflito entre as Associações de Estudantes (AE’s) e o Governo, no que diz respeito ao funcionamento das cantinas das AE’s e o Serviço Social em geral, e esse conflito foi-se agudizando.
Em meados de Novembro, na cantina,houve uma reunião geral que decidiu que todos deveriam ir ao funeral de um estudante morto pela PIDE, funeral esse que saia da Igreja da Praça de Londres.
Fomos e esse foi o meu baptismo de fogo com a polícia de choque.
Felizmente para mim, nessa época estava bem preparado fisicamente e pude fugir a tempo até à Praça do Chile, aquando da carga policial subsequente.

Passados quinze dias, depois de um processo muito complicado, a AEIST decidiu através de um plenário dos estudantes fazer um dia de greve na escola. Tratou-se de um processo muito participado na altura. A Direcção da escola e o Governo reagiram muito mal a esse processo, encerrando a escola.
Isso que fez com que os estudantes que estavam dentro do Pavilhão Central tivessem obviamente aberto o pavilhão e em poucas horas ocuparam o IST (lembro-me que o Director ficou no 1º andar como que enjaulado e cá em baixo, decidiu-se que ele não deveria participar no almoço volante).

O ministro da Educação era o Prof. Hermano Saraiva, elevado agora à condição de moralista (a moralidade e mesmo a santidade são apenas uma questão de tempo).
Seguiu-se a ocupação do Pavilhão Central e a tomada do gineceu, ou sala das alunas (na altura havia as miudas feias, as muito feias e as do Técnico).
Seguiram-se 5 anos de confrontos que qualquer dia vou relembrar.
Mas não foi para isso que aqui vim hoje.
Venho desenterrar uma frase célebre de Mariano Gago, Presidente da AEIST (Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico), salvo erro no ano lectivo de 1969/70 (o ano do terramoto em 28 de Fevereiro de1969), e actual ministro .
Estávamos em mais uma RGA (Reunião Geral de Alunos) e Mariano Gago fala no estrado com microfone na mão, tentando fazer aprovar uma qualquer moção da Direcção, dizendo, no seu distanciamento de ser superior, que era impossível fazer funcionar " uma assembleia com este tipo de gente"
Foi derrotada essa moção e Mariano liberta a frase que serve de pretexto a este monólogo:
Meus caros, as minorias não têm de seguir as maiorias, se estas forem estúpidas...a moção vai em frente!"
Obviamente a "gentalha" não aceitou e Mariano pediu a demissão pouco tempo depois.
Creio que foi para França....

O Diabo

Enquanto humano, somente cinco vezes tive ocasião de falar com o Diabo, mas estou certo de que entre os vivos, fui eu quem mais intimamente o conheceu e com quem ele se mostrou mais manso.
Trata-me agora - afirmo-o com certo orgulho que não tento dissimular - com uma benévola condescendência que chega às vezes a comover-me.
Quando estou agora na sua companhia, limito-me a ouvi-lo. Assim não me engano; escuto-o e admiro-o.
O Diabo, pelo menos como me tem aparecido até agora, é uma figura fora do comum.
É alto e muito pálido, ainda bastante jovem, mas com essa juventude que viveu demasiado e que é mais triste do que a velhice.
O seu rosto branquíssimo e comprido nada tem de particular, a não ser a sua boca subtil, fina e apertada; tem uma única ruga e profundíssima, que se alça perpendicularmente entre as sobrancelhas e se perde quase na raiz dos cabelos.
Nunca lhe pude ver bem a cor dos olhos, pois não consegui olhá-los mais do que alguns momentos; não sei também a cor dos seus cabelos, porque um barrete de seda, que nunca tira na minha presença, os esconde por completo.
Traja correctamente de negro e as suas mãos estão sempre irrepreensivelmente enluvadas.
Ontem apareceu-me outra vez e disse-me que os homens agora já não lhe interessam.
Compram-se por pouco, mas valem cada vez menos. Não têm nem medula, nem alma, nem coragem.
Talvez nem sequer tenham sangue suficientemente vermelho , diz ele, para firmar um contrato.
Diz ter saudades de Fausto…..

Homo homini lupus

Houve em toda a minha vida escolar no LNF algumas situações que me marcaram, pela positiva a maioria delas, felizmente, outras que me deram algum desassossego.
Particularmente uma, que na altura me apanhou impreparado, mas que me fez descobrir que o homem é na verdade o lobo do homem.
O docente era uma figura sobejamente conhecida, pela sua rigidez e qualidade de ensino.
Não marginalizava nem protegia ninguém na turma, era justo.
A matéria que ele ensinava é sempre complicada para a maioria, e as notas não eram muito harmoniosas na generalidade.
A sociedade farense estava bastante bem representada na turma.
Estatisticamente faria inveja a Johann Carl Friedrich Gauss .
Felizmente que o aproveitamento escolar não era na altura proporcional à situação económica dos alunos.
E alguém da zona extrema da curva iria reprovar.
Foram vários os pedidos, a cunha, mas ali havia um muro intransponivel.
Mas todo o homem (e mulher) tem a sua fraqueza.
A deste docente era a fragilidade da sua vida extra liceal, que o levava a contrair dívidas e a viver de crédito.
Crédito que lhe começou a ser negado em Faro, através da manipulação de finíssimos fios de seda estrategicamente colocados.
A menos que....
Vimo-lo com os olhos vermelhos despedir-se da turma e rumar a outras paragens.
Foi rapidamente substituido, e não me lembro que alguem tivesse reprovado.

Adriano

É noite.
A praia, o mar, estão mergulhados na noite.
Um cão passa, na direcção do dique.
Ninguém caminha pelo estrado de madeira.Mas nos bancos, ao longo do caminho, há pessoas sentadas, os habitantes locais.
A descansar.
Silenciosos.
Isolados uns dos outros.
Calados.
Adriano passa.
Caminha lentamente na direcção levada pelo seu magnífico cão.
Detém-se.
Regressa, com o seu sorriso contagioso.
Dir-se-ia que passeia.
Mas torna a partir.
Já não se lhe vê o rosto.
O mar está chão.
Está quente o ar.
Não corre vento.
Adriano desamarra a embarcação.
O cão ladra de contentamento.
O mar parece estar a subir.
Ouço-o aproximar-se.
Um baque seco vem da embocadura.
O céu sombrio.
Adriano veleja, à hora do costume.
Feliz e inacessível.
Até amanhã.

Caroline Caillaut

Caroline tinha tudo o que uma pessoa podia ter e por isso tornou-se infeliz.
Um dia fugiu do seu palácio, deixando para trás todas as riquezas , o seu amante perfeito, o seu cão de guarda, o seu passado e o seu futuro - fugiu.
Tornou-se um peregrino.
Partiu em busca da felicidade.
Primeiro aconselhou-se com alguns pensadores livres.
E havia tantos a quererem ajudá-la!
Curiosamente seguiu o conselho de todos eles.
Quanto mais seguia esses conselhos, mais confusa se sentia Caroline.
Alguns conselheiros eram honestos, outros não.
Viajou.
Praticou Yoga.
Praticou o amor livre e desinteressado.
Foi viver para África.
Viveu no Brasil.
O Yoga deu-lhe um corpo esbelto, que ainda conserva,mais saudável, mais enérgico.
Mas isso apenas lhe dava mais energia para fazer mais do mesmo.
Continuou a amar nos sítios errados.
Continuou infeliz.
Consultou novos e melhores consultores espirituais.
Decorou alguns mantras, cânticos e orações.
Dedicou-se à religião dos negros baianos, o candomblé.
Ela estava verdadeiramente em busca da Felicidade.
E como estava em busca, estava ansiosa.
Não estava descontraída.
Até que um dia, salvou uma lagartixa dos caninos de um mamífero seu amigo.
E entendeu.
Libertou-se dos desejos.
Nesse momento foi abençoada.
Iluminou-se.
Regressou a casa, telefonou a Dedalus , e fez amor como nunca com o amante de sempre.
Aquilo que ela buscava estivera sempre com ela, mas ela limitava-se a olhar para o lado.
Agora Caroline está em paz.
Deixou de dar primazia ao carácter - tornou-se consciente.
Uma mulher adorável.

Teresa

"Se tudo correr mal amanhã..."


...A alegria é como uma borboleta
qu esvoaça baixinho sobre os campos
mas a dor é como um pássaro
de grandes asas negras e robustas
que nos transporta acima da vida
que existe lá em baixo ao sol por entre a verdura.
E esse pássaro voa alto,
até onde os anjos da dor estão de vigília
sobre o leito da morte
...
Se eu morrer amanhã e o fio de prata se estragar, as pérolas hão-de saltar e deslizar até ao fundo do mar em busca da madre pérola.
Se eu desaparecer amanhã, irá lá alguém à procura das minhas pérolas?
Quem saberá que me pertenceram?
Quem saberá que, um dia, o mundo esteve pendurado à volta do meu pescoço?
Os anjos jamais se magoam.
E isso deve-se ao facto de não terem um corpo de carne e osso de que a sua alma se possa separar. Com a Natureza é diferente: tudo se estraga com facilidade.
Mesmo uma montanha sofre a erosão lenta das forças da Natureza, acabando por transformar-se em terra e areia.
Tudo o que existe na Natureza é como uma combustão lenta.
Toda a obra da criação parece de alguma forma borbulhar musgo.
Mas tudo isto é natural.
Como conceber a Vida sem a Morte?
Como poderia alguém reconhecer o Bem, se o Mal não existisse?
Entenderei isto como apenas mais uma viagem.
Contudo, nem sempre entendemos o que criamos.
Poderia desenhar ou pintar algo no papel.
Mas isso não significa que percebo como é ser o que lá está.
O que eu desenho ou escrevo é inanimado.
E esta é que é a parte mais estranha: eu sinto-me um ser inanimado!

Carta a um juíz

Como eu o entendo, Senhor Dr. Juiz.
Como eu bem o compreendo.
Como eu até admiro a sua coragem, a sua dedicação à Justiça e a este estigmatizado país.
Admiro-o antes do mais por ter abraçado uma profissão que poucos querem, obscenamente mal paga e agora até com poucas férias, quando podia, na esteira do papá , estar em qualquer bancada da nossa Assembleia de notáveis, defendendo os interesses de todos nós,com muito menos sacrifícios.
Mas não, Senhor Dr. Juíz.
O Senhor sacrificou-se e sacrificando-se, sujeitou-se à mais cruel de todas as vivências ,a de ser mal interpretado, mal amado.
Sei bem que não era esta a sua vocação, que mal entende de leis e muito menos de pessoas, mas que raio, por isso mesmo merece, ou devia merecer a admiração de todos nós.
E afinal a que assistimos?
Hoje ouvimos quem peça a sua cabeça , quem o crucifique, e coisa curiosa, não se ouve uma defesa pela boca daqueles seus pares que tão prontamente aparecem nos media quando se trata de degladiar os políticos, esses energúmenos que tiveram o desplante de por exemplo lhes questionar as merecidas férias?
Esses não apareceram hoje ? Então não lhes interessa vir a terreiro evidenciar uma vez mais a multisecular estupidez do povo português, essa amálgama indecifrável de bárbaros e vândalos, ligeiramente refinados pelas fogueiras da Inquisição e pela Pax Romana?

E tudo isto porquê?

Apenas porque V. Exa. ilibou aquela pobre mulher, que, sozinha, aguentava uma vintena de anormais postos a seu cargo durante 16 (?!) horas diárias, fazia o favor de lhes limpar as fraldas e assoar o nariz?
Será que o Senhor Dr. tem culpa de viver num país que existe há mais de oito séculos estigmatizado com o complexo de Édipo?
Que culpa tem o Senhor Dr. Juíz de exercer a sua nobre profissão num país que nasceu com o filho a bater na mãe?
Só quem desconhecer esta anormal iniciação, e Portugal infelizmente é um país que sempre se esqueceu da sua história, poderá ficar ou sentir-se ofendido, escandalizado, humilhado, revoltado, furioso, indignado, com a sua decisão, sábia como sempre.
Com certeza que quem bate nos filhos, e direi eu, quem mesmo os matar, SERÁ UM BOM PAI. Só assim se vingará essa afronta que foi ver o seu primeiro político a bater na própria mãe.
Vê-se que o Senhor, Sr. Dr. Juíz, conhece bem a história, e bem a mentalidade deste povo pequenino, que apenas se revolta num dia, para logo tudo esquecer no dia seguinte.
Pois que se faça jurisprudência! Que se leve este caso às Nações Unidas!
Vê-se de igual modo que o Senhor, Sr. Dr. Juíz, conhece bem uma que creio ter sido a frase mais famosa de Salazar, esse nobel que tive a infelicidade de conhecer, que dizia a propósito do bom povo português de onde ele emanou : OS PORTUGUESES TÊM DE TER ALGUÉM QUE OS EMPURRE DE QUANDO EM VEZ. E o Sr, Sr. Dr. Juíz, fê-lo com classe, com inteligência.
Voltando à sua histórica decisão, que culpa tem aquela pobre mulher, com o marido desempregado e o filho preso por posse de coca, que lhe tivessem dado para cuidar, um bando de garotos imbecilizados, anormais, que numa sociedade perfeita, como aquela que se tentou na Alemanha nos anos 30,nunca teriam o problema de existir?
Que culpa tem a pobre mulher de não ter uma formação adequada?
Afinal de que serviram os cursos financiados que se multiplicaram em Portugal?
Que culpa tem o Doutor que neste país ainda se permita que as mulheres, por ignorância, religiosidade ou outras crenças medievais, dêm à luz seres imperfeitos, que depois só dão trabalho e ajudam a delapidar o já reduzido erário público.
E depois veja o Doutor a hipocrisia. Então o Estado agora liderado pelos socialistas, não quer reduzir despesas? Que melhor maneira de aliviar alguma carga, senão a de manter funcionárias como aquela agora sabiamente ilbada,naqueles centros de concentração, apressando assim o desaparecimento de seres que ninguém quer, de quem nunca ninguém ouviria falar se não fossem estes julgamentos mediatizados.
Com fins políticos, digo eu.
Presto-lhe as minhas homenagens Doutor.
O Senhor está sozinho hoje.Mas amanhã,seguramente serão muitos os colegas que o seguirão.
E atrevo-me a adivinhar que a estas horas já muitos o felicitaram pela sua coragem.
Então agora as vítimas também têm direitos neste país?
Mas onde é que já chegámos?
Tiveram por acaso direitos aqueles que os seus colegas de quinhentos queimaram nas fogueiras em Lisboa? Esses bruxos e agnostas.
Tiveram aqueles agitadores que merecidamente foram julgados nos Tribunais do Estado Novo?
Não se aflija Doutor.
Eu compreendo-o.
Afinal o Doutor não é melhor nem pior que aqueles que criaram os centros de concentração para aqueles miseráveis que tiveram o desplante de nascer, alguns sem pais, e logo ainda por cima anormais.
Não se deixe abater pelas críticas.
As críticas vão e os Juízes ficam.
Vá lá Senhor Doutor, não se apoquente.
Hoje à tardinha, quando fôr buscar o sseu meninos ao Colégio da Lapa, ponha Wagner no leitor: olhe, ponha "O anel dos Nibelungos, aquela parte que fala do homem perfeito, de que Hitler tanto gostava, e pense num mundo melhor, de meninos, assim como nós, loiros de olhos azuis, com a vida à sua frente.
E que Deus o perdoe,já que eu não o posso fazer, nem mesmo à distância de um oceano.