O MURO
“ Passamos a vida a pensar que somos uma espécie de pessoa e de repente
damos por nós a fazer tudo aquilo que sempre evitámos ”.
Grazina
não consegue evitar este pensamento enquanto ajusta com evidente dificuldade o
encosto da cadeira articulada que colocou na varanda, virada a leste, para ver
o nascer do sol, como explicou, quando os dias começaram a aquecer.
“
Terei estado enganado a vida inteira?”
Não é seu hábito estender a ociosidade na varanda da casa, mas aquela
tranquilidade e frescura eram demasiado tentadoras para serem ignoradas.
Não se podia estar lá dentro!
Por uma vez o manda-chuva tinha acertado nas previsões e o verão estava a
ser extremamente quente, rico em fogos florestais e outras calamidades, um
pouco por todo o país.
- Deixa arder! - disse baixinho - Quem vier atrás que feche a porta.
Estava farto daquela hipocrisia universal que caracterizava os donos do
planeta, os donos disto tudo, como lhes chamava, aos presidentes e chefes dos
estados mais ricos do mundo e seus apaniguados do mundo financeiro e
empresarial, por analogia com o banqueiro que estava na berra.
“Cambada de hipócritas! Assinam tratados um pouco por todo o mundo com
pompa e circunstância, batem no peito e juram defender o planeta, debitam em
horário nobre a sua intenção de limitar a emissão dos gases de estufa, financiam
filmes reveladores do perigo que a Natureza corre, mas na prática nada muda. O
mundo está mesmo a morrer, ou pelo menos a tornar-se inabitável para o homem”.
“A mim pouco me importa” - reconhece, depois de ter encontrado a melhor
posição na espreguiçadeira - “ Já vivi pelo menos três quartos da minha vida,
não tenho descendência…” - faz uma pausa no raciocínio para ajustar os braços
da cadeira ou para mergulhar no seu deve e haver - “ Espero é que nada aconteça
até fazer a minha saída do palco”.
Vai já na casa dos setenta e evidencia as mazelas físicas de uma vida
devotada ao trabalho no campo. Seco de carnes, mãos ásperas, pele curtida pelo
sol, costas ligeiramente encurvadas, pernas inchadas por problemas antigos de
circulação sanguínea. Ainda assim, mantém o serviço central, como lhe chama, em
perfeitas condições. Coração e cabeça funcionam na perfeição. O primeiro não
foi sujeito a grandes testes, pois não enfrentou desgostos de amor nem se
desgastou a correr atrás de ilusões. Teve o seu quê de preocupações, pois
claro, quem as não tem, mas nunca se entregou a desilusões ou a quimeras.
“Nunca me deixei levar. Apaixonei-me, como toda a gente, mas soube sempre
reconhecer os sinais da ilusão e do erro, e saí por cima de algumas situações
de vida, os chamados problemas”.
Terminaria a caminhada sozinho, mas feliz e sem amarguras. Nunca encontrou
o tal amor verdadeiro que vem do fundo da alma, mas também não se viu enredado naqueles
dramas que fazem parangonas diárias na comunicação social. Enche o peito de ar
e expira fundo antes de concluir o raciocínio com a sua metáfora preferida:
“O bom general sabe reconhecer o momento da retirada, e melhor que isso,
sabe escolher o campo de batalha. Melhor ainda, sabe evitar os conflitos”.
Começou por ser empregado de balcão, antes da tropa e depois dos estudos.
Fez o quinto ano do antigo liceu mas por falta de recursos empregou-se na
mercearia do senhor Júlio, amigo de infância do pai, lá em Lisboa. A tropa
retirou-lhe compulsivamente desse purgatório mas em troca ofereceu-lhe o
inferno da guerra na África a que chamavam nossa. Três anos e meio depois
devolveu a sua parte ao Estado e regressou a casa. Mais velho, mais sábio e
consciente. Esteve seis meses em Lisboa no antigo emprego, mas a morte dos pais,
um a seguir ao outro, como se não suportassem estar afastados por muito tempo, mudou-lhe
o destino. Filho único, tomou posse daquele pequeno monte lá na terra, voltando
definitivamente costas aos apelos da grande cidade.
O trabalho de sol a sol que a partir de então decidiu abraçar, salvou-o
desses inimigos mortais que estão ligados às memórias do passado incompleto ou
cruel. A cabeça também não o atraiçoou, soube recompensá-lo, pois chegou à
recta final da vida em excelentes condições físicas e económicas, permitindo-lhe
a autonomia que muitos dos seus amigos e conhecidos não tinham.
“A máquina foi bem estimada, reconheço. Não a sobrecarreguei com
pensamentos, desejos ou memórias nefastas, antes a alimentei com emoções e desafios
saudáveis que ainda gosto de explorar” - pensa, com algum orgulho mal
dissimulado.
Lê muito, escreve bastante, notas soltas, pensamentos, pequenas histórias
mais ou menos sérias, mais ou menos ingénuas. O que gosta mesmo é de observar o
mundo exterior e compará-lo com a sua experiência através de metáforas simples
e alegorias apelativas.
“Tenho jeito para isso e apenas lamento não ter conseguido publicar”.
Talvez pudesse ter tido sucesso como escritor. Ou não. Mas o importante é
desabafar, passar a papel as emoções, tenha isso o valor que tenha.
“ Que importa à flor escondida na floresta que nunca alguém a observe?” -
pensou uma vez, já a noite caíra sobre o seu mundo.
E nesse momento, ao observar as estrelas na noite escura, veio-lhe à
cabeça um estranho pensamento.
- Metamorfoses espirituais! - balbuciou devagar, como se quisesse
saborear as duas palavras estranhas que acabava de juntar - Será que Deus se
deu a conhecer através da mente humana, ou foi apenas uma invenção do homem,
numa tentativa de colmatar a sua frustração em entender as estrelas?
Grazina descontrai completamente. Sabe reconhecer esse estado de leveza
pela forma como o corpo se ajusta à almofada. Começa um exercício respiratório
relaxante, inspirando o ar profundamente pelo nariz, forçando-o a inchar o
abdómen, e depois expira pela boca com violência, imaginando que está a
expulsar uma massa cinzenta que contem todos os seus problemas, dúvidas e
medos. Repete esse exercício algumas vezes, imaginando que com o ar puro
inspirado absorve um feixe de luz purificadora que lhe preenche o cérebro e
depois vai descendo pela espinal medula, espalhando-se por todas as células do
corpo. À quarta repetição está completamente descontraído e quase adormecido.
Todos os seus sentidos se aguçam quando fecha os olhos e lhe acontece o
derradeiro pensamento consciente:
“Haverá mesmo um cordão de prata? Poderemos sair do corpo que nos limita
e protege?”
Sabe que por detrás do pequeno muro de pedra que delimita a varanda onde
está recolhido nesse final de dia quente de verão, existe uma estrada
movimentada.
Começa a pensar nestas coisas assim que se encosta numa inclinação
estudada, e apenas depois de se certificar que ninguém o pode observar dos
prédios contíguos. Talvez apenas do ar possa vir o perigo, algum drone, algum
satélite espião que veja nele um motivo de interesse. Não acredita que seja
assim tão importante para que as potências invistam no controlo da sua pessoa.
Mas nunca se sabe, e queda-se por momentos na contemplação do céu que começa a
escurecer. É da distracção e do facilitismo que advêm muitos problemas
inesperados.
“Estou a ficar paranoico com a idade”.
Sorri a este pensamento, e finalmente decide que está só. Só e livre para
pensar.
O ruido contínuo dos veículos que se deslocam num e noutro sentido é
absolutamente fascinante, e comprova que aquilo que existe provém sempre
daquilo que não tem existência. Já consegue identificar, sem ver, apenas guiado
pelas matizes sonoras, se um veiculo se afasta ou aproxima, e em que sentido
vai. Se vem da direita ou da esquerda, a grande ou pequena velocidade, e até já
se atreve a interpretar o estado de espírito dos condutores, e a calcular o
número de passageiros.
Por breves momentos, faz-se silêncio.
“Parece que nada existe!”
Ouve então as vozes de alguns pássaros que por ali passam, invisíveis,
talvez regressando tardiamente aos seus ninhos depois de um dia inteiro de voos
nervosos.
“Será que os pássaros sabem o que é o dia?”
Nesse intervalo ouve o grasnar de um pato. Depois, o silêncio total.
Breve.
Dizem que o espaço infinito é silencioso. Nada se pode ouvir, apenas ver.
Um mundo de surdos. As explosões estelares, as mortes e os nascimentos
silenciosos de mundos infinitos e desconhecidos. Desse momento faz a eternidade
e imagina que tem alma e que ela consegue flutuar numa espécie de poço sem
limites onde nada há para ver nem ninguém com quem falar, gesticular. Assusta-se
com esse vazio, dizem que a mente não o suporta mas na realidade é ele quem tem
esse arrepio, e volta rapidamente para a espreguiçadeira, recolhendo o cordão
de prata, ou lá o que é que prende a alma ao corpo enquanto este está vivo por
dentro. O seu porto de abrigo de onde pode testemunhar o silêncio sem se
assustar. Pode sempre agarrar os braços de madeira algo gasta, ou sentir a
textura da pequena almofada.
“A morte tem de ser sentida sem este corpo” - imagina, para se
reconfortar.
Logo voltam os ruídos familiares, vagos indícios de vozes humanas, algo
distorcidas pela distância ou por qualquer fenómeno físico ligado à propagação
do som através de camadas de ar de diferentes densidades, como explicaram num
daqueles programas de televisão de carácter científico da grelha de
programação. Chegam aos soluços ora mais nítidos ora mais ténues e não consegue
perceber de onde vêm. Talvez sejam ondas longínquas que por qualquer motivo
vieram morrer perto da sua varanda só para o confundir. De qualquer maneira têm
o condão de o fazer refletir na importância do silêncio, aquela coisa a que se
dá um nome mas não sabemos exactamente o que seja, e por isso explicamos pela
negativa.
“Silêncio é a ausência de som, e não se fala mais nisso, senhor Grazina”
- disse-lhe um cientista em resposta à sua pergunta, algo aborrecido com a sua
insistência numa definição positiva.
“É como a escuridão, então” - comparou, e o professor limitou-se a olhar
para ele com cara de poucos amigos, pensando que ele estava ali para lhe criar
dificuldades.
Desistiu aí de frequentar aquela universidade da terceira idade que lhe
tinham recomendado, pois achou que já chegara a uma idade em que não se
contentava com meias respostas. Veio-lhe logo à cabeça as longínquas aulas da
instrução primária em que os professores não admitiam perguntas estranhas fora
do padrão estabelecido e as coisas eram assim porque vinham escritas nos livros
e vinham escritas nos livros porque eram assim.
“Que silêncio!”
Mais vozes humanas agora mais perto e mais nítidas libertam-no dos
pensamentos negativos, mas são de imediato abafadas pelo ruido estridente e
inconfundível da sirene de uma ambulância. Vai com pressa, pela forma como o
som se propaga, e Grazina apenas pode imaginar se vai salvar ou se já salvou
alguém, se vai acudir a um acidentado ou a um doente.
É claro que o silêncio total não existe. Pelo menos ali no local onde está.
Não vê mas ouve e isso coloca-o na posição do invisual que se guia pelo som.
Toca agora o relógio de pêndulo da sala enquanto lá em cima, algures no ar,
passa um avião a pouca altitude, talvez vá aterrar no aeródromo militar ali
perto. Agora que escreve isto torna-se claro para ele que o silêncio total é
coisa rara. Há sempre um carro a passar, a estacionar ou a arrancar lá em baixo
em frente ao prédio ou na estrada ali em frente, ou um avião que se faz à
pista, seja a comercial na grande cidade, ou a militar na vila mais próxima.
Ouve agora um ruido diferente, em fundo. Parece o som de um pequeno
agrupamento de pessoas que pretende falar baixinho mas que acaba por fazer um
ruido de intensidade média, irritante. Deve ser mais um velório, e para
confirmar o facto ouve a voz da vizinha de cima que terá assomado à sua
varanda.
“ Mais um funeral!” - desabafa ela, e Grazina não sabe se a senhora fala
com alguém ou consigo mesma, e lá vai lamentando, alto e bom som, a hora em que
a casa mortuária abriu ali em frente, no outro lado do passeio, num anexo da
igreja nova e redonda que a diocese finalmente mandou construir depois de anos
de promessas.
Esta sua vizinha detesta a morte e terá que a reviver diariamente até que
o seu próprio passamento a liberte dessa angústia.
Fecha os olhos por uns segundos aproveitando um raro momento de silêncio.
Parece que o mundo parou.
