sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A CIMEIRA , de HP Bellis

IV – CIMEIRA


 A Professora F. Esposende, ilustre psiquiatra e especialista a nível mundial em desvios comportamentais estava desenvolvendo um trabalho considerado pioneiro, em Bruxelas, sobre as comunidades migratórias ilegais subsareanas, versando essencialmente a identificação de desvios emocionais dos imigrantes aquando das quarentenas impostas pelos países de acolhimento. Fora tal estudo que permitira à Comissão Europeia, que tutela esses casos infelizmente cada vez mais frequentes, chegar à conclusão que algo novo e anormalmente perigoso se estaria a iniciar na mente humana, e que poria em risco, a muito curto prazo, o modelo de sociedade europeu, com riscos elevadíssimos para todos, em especial para a classe política.
 As conclusões que esta cientista apresentou em sessão restrita do parlamento europeu, três meses antes, caíram nos meios políticos como uma bomba.
Era notória a gravidade da situação, especialmente pela total ignorância que os estados tinham quer do seu estado actual de desenvolvimento, quer da sua capacidade de expansão. Mas que se estava perante uma ameaça bem mais terrível que o emergente problema do terrorismo internacional, isso era uma realidade. Uma pandemia!
Imediatamente foram dadas instruções para que todos os chefes de governo europeus viessem a uma reunião a Bruxelas com carácter de urgência. Pela primeira vez era convocada uma reunião sem agenda conhecida, o que desde logo indiciava uma gravidade e urgência fora de comum. Nem o recente conflito Iraquiano tinha sido objecto de um tal procedimento.

O voo correra duma forma excelente, no avião particular, da força aérea. Era para o primeiro-ministro português uma experiência nova pois tratava-se da sua primeira reunião internacional e logo com carácter de urgência.
Viajara de véspera pois assim tinha mais tempo para se adaptar ao clima e aos ambientes da política internacional. Trouxera consigo o assessor para a imprensa, entre outras individualidades que sempre estão presentes nestes voos.
O hotel ficava um pouco distante do parlamento, mas era aquele em que por norma o primeiro-ministro do país utilizava aquando das suas visitas de estado a Bruxelas, por ser mais recatado e onde dificilmente alguém o reconheceria.
Finalmente o dia da reunião chegou. Na viatura oficial que faria o trajecto entre a unidade hoteleira de luxo onde passara a noite e o parlamento, o primeiro-ministro olhava para o relógio com inquietação e esfregou o cotovelo esquerdo, sinal de que se sentia mesmo inquieto. Estavam atrasados dez minutos. Embora tivessem saído cedo do hotel, àquela hora da manhã o trânsito em Bruxelas frustrava qualquer boa intenção de cumprir horários.
Quando era jovem, ainda simples iniciado na política, levado pelo entusiasmo que mais tarde lhe causaria amargos de boca, pregara promessas por comícios e campanhas eleitorais, que afastavam definitivamente as intermináveis filas, quais tentáculos de polvo garrotando a cidade num torniquete de buzinas e fumos.
O primeiro-ministro tornou a verificar as horas e desabafou:
- Estamos atrasados.
- Apenas meia hora, Senhor Ministro. Para ministro até estamos adiantados. Se fosse um secretário de Estado, estávamos na hora.
- Como?
- É como lhe digo, Excelência. O horário de ministro está uma hora atrasado em relação ao TMG.
Por vezes odiava profundamente o seu assessor de imprensa. Este arranjava sempre explicação para tudo. Explicação e justificação. Mesmo quando tinha a certeza de que se espalhara ao comprido, o assessor encontrava uma leitura recompensadora.
- Não digas disparates, Jacinto. Perdi a cabeça no último debate televisivo, mandei à merda a oposição e atribui as culpas dos incêndios à deficiente planificação de D. Dinis, e tu dizes que fui bem? Estás a gozar? Estás?
- Por quem é, Senhor Ministro. Fez muito bem em mandá-los à merda, pois claro.
- Na SIC, em pleno horário nobre!?..
- É uma linguagem que as audiências entendem. E é para as audiências que o Senhor Ministro governa. Por acaso os programas culturais têm audiências? Sua Excelência sabe bem que não!
- Seja como for1
Exasperava-o nunca cometer disparates aos olhos do assessor. Às vezes sentia-se gozado. Porém, era tão grande a vassalagem de Jacinto, a evidência da admiração tão absoluta, que só podia ser estúpido ou génio. Maldita a hora em que o tinha admitido para o cargo, até parece que o antigo colega na Empresa que lhe metera a cunha o tinha feito só para o irritar. Mas amigos são para as ocasiões, e, bem vistas as coisas o idiota até não era tão parvo como se pensava.
Já por algumas vezes lhe vieram à cabeça as tais tretas da teoria da conspiração: será que este gajo era um espião ao serviço da oposição? Será que o favor que o colega lhe fizera há anos teria água no bico e já suspeitassem que o seu brilhantismo o levaria mais cedo ou mais tarde a uma posição no governo?
Tenho que vigiar bem este sacana, só me faltava mais esta - vai pensando com os seus botões enquanto dá uma olhadela para a sua caixa de correio electrónico, com uma mal disfarçada ansiedade.
 Na lista dos jornalistas destacados para cobrir o acontecimento não estava o nome que ele procurava, o que lhe produziu um imenso mal-estar. Haverá mais alguma coisa que possa correr mal? Onde estaria Gabriela a esta hora, a brilhante e sofisticada jornalista da televisão pública que lhe tirava o sono há já um bom par de meses? Por que carga de água não tinha ela vindo a Bruxelas? Será que os seus desejos mais simples já não são respeitados? Não se está a impor o direito feudal de pernada, por amor de Deus.
Não pode um primeiro-ministro ter vida privada?
 Ser responsável político dum país da EU, e logo com o cargo de chefe do governo, acarreta uma grande, uma enorme responsabilidade. Mas esse sempre fora o seu sonho, desde criança, quando, ainda nos bancos da escola se entretinha a inventar leis escritas que obrigava o seu irmão mais novo a seguir religiosamente.
Bons tempos!
Um excelente exercício prático, que o auxiliou bastante quando mais tarde, nos bancos na universidade, vestiu a pele de líder associativo. Os que melhor o conheciam sabiam que a defesa dos estudantes não era a sua primeira preocupação, nem mesmo o sucesso académico, à partida assegurado por via familiar (o tio era catedrático e presidente do conselho pedagógico) e por via da fé, uma vez que se associara à Opus Dei, como lhe fora recomendado por um amigo de família bem colocado na zona do poder. Enfim, tudo se conjugava para que o seu futuro político estivesse assegurado, e o tirocínio associativo foi de facto a pedra de toque. Não fora nos primórdios da nacionalidade essa a receita certa para assegurar o poder? Razão fé e poder, um pouco de carisma, os contactos certos, e tudo se consegue.
Houve algumas coisas menos boas, de facto, a começar pelo afastamento do seu irmão mais novo, que nunca conseguiu acompanhar o seu brilhantismo político, nem nunca lhe perdoou o facto de deliberadamente ter mentido à população estudantil sobre a verdadeira razão de um assalto à academia num certo verão quente. Danos colaterais sempre houve e haverá, e afinal de contas sempre é bom ter na família alguém que acha que faz do trabalho honesto, um modo de vida.
É bom para a imagem.
O trânsito descongestionava-se e o carro acelerou. Estavam atrasados e Pedro acomodou-se no banco traseiro. Ao lado repousava o enorme dossier sobre os incêndios florestais do pequeno jardim europeu, mas não lhe apetecia estudá-lo. Ninguém se poderia admirar. Pedro ainda não fizera cinco meses que tinha sido investido, e aqui estava a sua grande primeira confrontação.
-Merda, que grande merda! Mas que merda de país! Sempre a mesma treta dos incêndios e sempre, sempre no período de férias. Lá vamos nós ter de resolver este problema pelo menos até que chova. E com uma agenda tão preenchida…as autárquicas, as presidenciais….o terrorismo.
- Senhor Ministro, estamos a chegar…penso que já vislumbro os seus colegas, grego e alemão…. …. Afinal não somos os únicos atrasados.

- Obrigado, Jacinto, dá-me só uns segundos para compor o meu cabelo.

ALCAÇARIAS 3º Capítulo - Inquisição

Inquisição

No dia dezassete de Setembro de mil quatrocentos e oitenta, frei Alfonso de Ojeda apresentou aos reis católicos Fernando e Isabel o relatório elaborado pela comissão instituída dois anos antes, e o mundo conhecido nunca mais seria o mesmo.
Nesse mesmo dia, com o beneplácito real, Tomás de Torquemada nomearia dois frades dominicanos como primeiros inquisidores do renovado santo ofício.
Os novos inquisidores receberiam ordens para partir imediatamente para Sevilha e de assumirem os seus deveres na cidade que os purificadores da fé consideravam o alfobre da heresia em Espanha.
Dois anos antes, no dia um de Novembro de 1478, o papa Sixto IV assinara a bula Exigit sincerae devotionis affectus através da qual se fundava uma nova Inquisição na Espanha.
Redigida como resposta às petições dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, essa bula reproduzia os argumentos régios sobre a difusão das crenças e dos ritos mosaicos entre os judeus convertidos ao cristianismo em Castela e Aragão, atribuía o desenvolvimento dessa heresia à tolerância dos bispos e autorizava os reis a nomear três inquisidores entre os prelados, religiosos ou clérigos seculares com mais de quarenta anos, bacharéis ou mestres em teologia, licenciados ou doutores em direito canónico, para cada uma das cidades ou dioceses dos reinos.
Esse poder concedido aos príncipes era um acontecimento inédito: até então, a nomeação dos inquisidores, cuja jurisdição se sobrepunha à jurisdição tradicional dos bispos em matéria de perseguição das heresias, estava reservada ao papa.
Fernando e Isabel tinham conseguido os seus objectivos, pois ameaçaram o Papa de retirarem o apoio militar à Santa Sé, se o pedido lhes fosse recusado.
A bula, com efeito, permitia aos Reis Católicos não apenas a nomeação mas também a revogação e a substituição dos inquisidores.
Munidos desse documento fundador, os Reis Católicos demoraram algum tempo para colocá-lo em prática: esperaram até Setembro de 1480 para nomear dois inquisidores, os dominicanos frei Juan de San Martín e frei Miguel de Morillo, respectivamente bacharel e mestre em teologia, para perseguir os crimes de heresia nos seus reinos.
Havia duas subtilezas nessa carta: a designação abstracta dos crimes de infidelidade, heresia e apostasia, estendendo a acção dos inquisidores a todos os domínios do comportamento e das crenças desviadas, e a ausência de delimitação geográfica da jurisdição dos novos inquisidores.
Por outras palavras, havia luz verde para os inquisidores fazerem o que lhes apetecesse, onde lhes aprouvesse, com o mínimo de resistência, deixando um enorme campo de manobra às relações informais, como se a prática devesse ficar livre de regras bem precisas.
  
A sala estava mergulhada na penumbra e o ambiente era de grande austeridade, em linha com a postura dos três homens, Tomás de Torquemada, Miguel de Morillo e Juan de San Martín.
Tomás de Torquemada era um homem corpulento, de cara fechada, nariz grande e sobrancelhas espessas e desalinhadas, lábios finos, bem delineados, que nunca esboçavam qualquer sorriso.
A sua presença era altamente intimidatória, e tal faceta só se comparava ao seu poder, que era enorme, quase absoluto, e representava a face mais sinistra da Igreja Católica. Era o inquisidor-geral dos reinos de Castela e Aragão por nomeação do papa Sixto IV e confessor da rainha Isabel a Católica.
Ainda jovem, tornou-se frade dominicano no Convento de São Paulo na sua cidade natal, Valladolid. Em 1452 foi eleito prior do Convento de Santa Cruz, em Segóvia.
A estratégia de Torquemada, acordada com os Reis Católicos, passava pela exploração da desconfiança popular em relação aos judeus convertidos e difundia a suposta necessidade de que o país contasse apenas com sangre limpia, ou seja, sangue puramente cristão.
 Na prática era uma ficção, pois como a Espanha tinha a maior comunidade judaica da Europa e como eram comuns os casamentos inter-étnicos e as conversões religiosas, pouquíssima gente na Espanha tinha sangue realmente puro.
O próprio Torquemada era neto de judeus convertidos, facto que ele escondia cuidadosamente. Mas Torquemada não se deixou abater por este detalhe. Decidido a purificar o país, estava obcecado em realizar um trabalho metódico, frio e impiedoso de perseguição aos marranos, nome depreciativo dado aos judeus convertidos.
Os dois homens que respeitosamente se perfilavam diante dele eram em tudo semelhantes: lábios finos, descoloridos, tez clara, esbranquiçada, barba rala e olhos cavados, altura mediana e exageradamente magros.
Em pouco se distinguiam, sendo que Miguel era ligeiramente mais alto que Juan, em tudo o resto semelhantes, na frieza do olhar e no rosto alucinado e encovado, que denotava grande sofrimento interior. Eram profundos conhecedores de Teologia e seguramente detinham a verdade.
 - O tempo é o mundo e a Eternidade é Deus, Miguel. Se quisermos assegurar a nossa passagem à Eternidade temos de controlar o mundo - diz Torquemada.
 -Quer dizer, o homem, Tomás - comenta Juan de San Martín, dominicano e bacharel em Teologia.
- Certamente meu irmão! Devemos garantir os interesses divinos e dos nossos soberanos Fernando e Isabel, que são os nossos, através de uma mão de ferro, no mundo cristão.
- Temos de nos acautelar, pois as forças contrárias são muitas e muito fortes. Podeis contar com a minha colaboração incondicional - atalha Miguel de Morillo, mestre em Teologia.
- Agradeço-vos meus irmãos, e tenho de facto algo a pedir-vos nesse sentido, de extrema importância para o futuro da cristandade.
- Tudo o que estiver ao nosso alcance - responde Miguel de Morillo, com o assentimento de Juan de San Martín.
- Entreguei-me de todo o coração a esta missão, e nada nem ninguém me fará recuar. Tenho esperança que a Igreja reencontre os caminhos da fé há muito perdidos e se livre dos hereges, mouros e judeus.
- Tendes então esperança de ser bem-sucedido, de lavar o sangue de Espanha”.
- Se não tivesse esperanças em melhores tempos e em ser útil à Igreja e aos nossos soberanos, não tinha aceitado o cargo. Deus o sabe, como tenho vivido, entre uma dor que se renova quotidianamente e uma esperança muito longínqua! Acometido por mil tempestades, a minha vida tem sido uma agonia continuada - diz Torquemada numa voz grave e arrastada, enquanto dava uns passos em direcção a uma janela que abria sobre um jardim interior.
O estado de decadência em que se encontrava a fé fazia-o sofrer, ao mesmo tempo que aumentava a sua disposição e ânimo para uma autêntica luta contra aqueles a quem atribuía todas as desgraças do mundo.
- Mas agora sois o Inquisidor-mor, e como tal estais em excelente posição para lutar pela Fé, para resolver o problema, com a graça de Deus e a bênção papal - apressou-se a dizer Miguel de Morillo, o mais expansivo dos dois empossados.
- Sem dúvida meus irmãos, e é por isso que vos irei nomear como primeiros inquisidores. Tenho um grande sonho que pretendo realizar em vida. Muita coisa está mal na Igreja, no mundo cristão. E conto convosco para resolver este problema. Começareis de imediato.
- O espírito das trevas é muito poderoso e está a afastar as pessoas da Fé católica. Sabeis que temos lutado contra isso a vida inteira. Penso que não faltarei à verdade se disser que falo em nome de ambos” -diz Juan, voltando-se para Miguel, que parecia petrificado de emoção.
- Bem sei, meus irmãos, vós sois a excepção. A minha observação do mundo católico diz-me que é muito difícil encontrar alguém como vós, pois raros são os monges que levam uma vida conveniente, conduzindo os seus rebanhos no espírito de caridade.
- Temos que ser inflexíveis e rigorosos, mas não nos esqueçamos que a Igreja não suja as mãos de sangue. Nós apenas recomendamos a purificação dos hereges, dos judeus. O século que o faça.
- Conhecemos bem a situação e tiraremos dela o maior partido - diz Miguel, empolgado.
- Sabeis bem o que os nossos soberanos esperam de nós: ao mesmo tempo que limpamos o sangue nas Espanhas, deveremos arrecadar o maior proveito material possível para honrar a Santa Igreja e ajudar o reino na luta contra os mouros, que ainda não terminou.
Tomás de Torquemada levanta-se do enorme cadeirão onde se sentara durante a última parte da conversa, e passando a mão pelos ombros de Miguel, dirigiu-se silenciosamente para uma das janelas sobranceiras a um frondoso jardim. Após alguns momentos de silêncio, em que aparentemente procurava as palavras certas para encerrar a reunião, volta a falar:
- Meus irmãos, ninguém melhor que nós sabe que o poder, bem como a Felicidade, são transitórios, pois nos escapam constantemente, ou simplesmente deixam de existir de um momento para o outro, deixando-nos num estado de desespero, um gosto a cinza na boca e no espírito.
- Sim, esse é o nosso fardo, que transportamos por amor de Deus - diz Juan.
- E quando se trata do Poder da Santa Igreja, do poder dos nossos soberanos Fernando e Isabel, estamos a falar da vontade de Deus - conclui.
- Absolutamente, Excelência - dizem ao mesmo temo Miguel e Juan, empolgados.
- Estou preocupado com o que se passa em Sevilha. Segundo sei, o afastamento das leis da Igreja faz-se aí de forma despudorada. Temos de travar isso imediatamente.
- Estou consciente desse perigo, melhor que ninguém. Os nossos informadores confirmam que mesmo os marranos não se furtam de celebrar as suas superstições - vocifera Miguel.
Tomás de Torquemada esboça um sorriso, imperceptível para os outros dois, e após uns momentos de hesitação, de uma mal disfarçada ansiedade, proclama:

- Temos a solução final, meus queridos monges. Penso que com ela estará garantida a felicidade dos nossos soberanos e a autoridade da Igreja. Temos já pouco tempo, esse bem precioso e incorpóreo que tantas vezes nos escapa. Partireis hoje mesmo para Sevilha e que Deus vos acompanhe.