IV – CIMEIRA
A Professora F. Esposende, ilustre psiquiatra
e especialista a nível mundial em desvios comportamentais estava desenvolvendo
um trabalho considerado pioneiro, em Bruxelas, sobre as comunidades migratórias
ilegais subsareanas, versando essencialmente a identificação de desvios
emocionais dos imigrantes aquando das quarentenas impostas pelos países de
acolhimento. Fora tal estudo que permitira à Comissão Europeia, que tutela
esses casos infelizmente cada vez mais frequentes, chegar à conclusão que algo
novo e anormalmente perigoso se estaria a iniciar na mente humana, e que poria
em risco, a muito curto prazo, o modelo de sociedade europeu, com riscos
elevadíssimos para todos, em especial para a classe política.
As conclusões que esta cientista apresentou em
sessão restrita do parlamento europeu, três meses antes, caíram nos meios
políticos como uma bomba.
Era notória a
gravidade da situação, especialmente pela total ignorância que os estados
tinham quer do seu estado actual de desenvolvimento, quer da sua capacidade de
expansão. Mas que se estava perante uma ameaça bem mais terrível que o
emergente problema do terrorismo internacional, isso era uma realidade. Uma
pandemia!
Imediatamente
foram dadas instruções para que todos os chefes de governo europeus viessem a
uma reunião a Bruxelas com carácter de urgência. Pela primeira vez era
convocada uma reunião sem agenda conhecida, o que desde logo indiciava uma
gravidade e urgência fora de comum. Nem o recente conflito Iraquiano tinha sido
objecto de um tal procedimento.
O voo correra duma forma
excelente, no avião particular, da força aérea. Era para o primeiro-ministro
português uma experiência nova pois tratava-se da sua primeira reunião
internacional e logo com carácter de urgência.
Viajara de véspera pois
assim tinha mais tempo para se adaptar ao clima e aos ambientes da política
internacional. Trouxera consigo o assessor para a imprensa, entre outras
individualidades que sempre estão presentes nestes voos.
O hotel ficava um pouco
distante do parlamento, mas era aquele em que por norma o primeiro-ministro do
país utilizava aquando das suas visitas de estado a Bruxelas, por ser mais
recatado e onde dificilmente alguém o reconheceria.
Finalmente o dia da
reunião chegou. Na viatura oficial que faria o trajecto entre a unidade
hoteleira de luxo onde passara a noite e o parlamento, o primeiro-ministro
olhava para o relógio com inquietação e esfregou o cotovelo esquerdo, sinal de
que se sentia mesmo inquieto. Estavam atrasados dez minutos. Embora tivessem
saído cedo do hotel, àquela hora da manhã o trânsito em Bruxelas frustrava
qualquer boa intenção de cumprir horários.
Quando era
jovem, ainda simples iniciado na política, levado pelo entusiasmo que mais
tarde lhe causaria amargos de boca, pregara promessas por comícios e campanhas
eleitorais, que afastavam definitivamente as intermináveis filas, quais
tentáculos de polvo garrotando a cidade num torniquete de buzinas e fumos.
O
primeiro-ministro tornou a verificar as horas e desabafou:
- Estamos
atrasados.
- Apenas meia
hora, Senhor Ministro. Para ministro até estamos adiantados. Se fosse um
secretário de Estado, estávamos na hora.
- Como?
- É como lhe
digo, Excelência. O horário de ministro está uma hora atrasado em relação ao
TMG.
Por vezes odiava
profundamente o seu assessor de imprensa. Este arranjava sempre explicação para
tudo. Explicação e justificação. Mesmo quando tinha a certeza de que se
espalhara ao comprido, o assessor encontrava uma leitura recompensadora.
- Não digas disparates,
Jacinto. Perdi a cabeça no último debate televisivo, mandei à merda a oposição
e atribui as culpas dos incêndios à deficiente planificação de D. Dinis, e tu
dizes que fui bem? Estás a gozar? Estás?
- Por quem é,
Senhor Ministro. Fez muito bem em mandá-los à merda, pois claro.
- Na SIC, em
pleno horário nobre!?..
- É uma
linguagem que as audiências entendem. E é para as audiências que o Senhor
Ministro governa. Por acaso os programas culturais têm audiências? Sua
Excelência sabe bem que não!
- Seja como for1
Exasperava-o
nunca cometer disparates aos olhos do assessor. Às vezes sentia-se gozado.
Porém, era tão grande a vassalagem de Jacinto, a evidência da admiração tão
absoluta, que só podia ser estúpido ou génio. Maldita a hora em que o tinha
admitido para o cargo, até parece que o antigo colega na Empresa que lhe metera
a cunha o tinha feito só para o irritar. Mas amigos são para as ocasiões, e,
bem vistas as coisas o idiota até não era tão parvo como se pensava.
Já por algumas
vezes lhe vieram à cabeça as tais tretas da teoria da conspiração: será que
este gajo era um espião ao serviço da oposição? Será que o favor que o colega
lhe fizera há anos teria água no bico e já suspeitassem que o seu brilhantismo
o levaria mais cedo ou mais tarde a uma posição no governo?
Tenho que vigiar
bem este sacana, só me faltava mais esta - vai pensando com os seus botões
enquanto dá uma olhadela para a sua caixa de correio electrónico, com uma mal
disfarçada ansiedade.
Na lista dos jornalistas destacados para
cobrir o acontecimento não estava o nome que ele procurava, o que lhe produziu
um imenso mal-estar. Haverá mais alguma coisa que possa correr mal? Onde
estaria Gabriela a esta hora, a brilhante e sofisticada jornalista da televisão
pública que lhe tirava o sono há já um bom par de meses? Por que carga de água
não tinha ela vindo a Bruxelas? Será que os seus desejos mais simples já não
são respeitados? Não se está a impor o direito feudal de pernada, por amor de
Deus.
Não pode um
primeiro-ministro ter vida privada?
Ser responsável político dum país da EU, e
logo com o cargo de chefe do governo, acarreta uma grande, uma enorme
responsabilidade. Mas esse sempre fora o seu sonho, desde criança, quando,
ainda nos bancos da escola se entretinha a inventar leis escritas que obrigava
o seu irmão mais novo a seguir religiosamente.
Bons tempos!
Um excelente
exercício prático, que o auxiliou bastante quando mais tarde, nos bancos na
universidade, vestiu a pele de líder associativo. Os que melhor o conheciam
sabiam que a defesa dos estudantes não era a sua primeira preocupação, nem
mesmo o sucesso académico, à partida assegurado por via familiar (o tio era
catedrático e presidente do conselho pedagógico) e por via da fé, uma vez que
se associara à Opus Dei, como lhe fora recomendado por um amigo de família bem
colocado na zona do poder. Enfim, tudo se conjugava para que o seu futuro
político estivesse assegurado, e o tirocínio associativo foi de facto a pedra
de toque. Não fora nos primórdios da nacionalidade essa a receita certa para
assegurar o poder? Razão fé e poder, um pouco de carisma, os contactos certos,
e tudo se consegue.
Houve algumas
coisas menos boas, de facto, a começar pelo afastamento do seu irmão mais novo,
que nunca conseguiu acompanhar o seu brilhantismo político, nem nunca lhe
perdoou o facto de deliberadamente ter mentido à população estudantil sobre a
verdadeira razão de um assalto à academia num certo verão quente. Danos
colaterais sempre houve e haverá, e afinal de contas sempre é bom ter na família
alguém que acha que faz do trabalho honesto, um modo de vida.
É bom para a imagem.
O trânsito
descongestionava-se e o carro acelerou. Estavam atrasados e Pedro acomodou-se
no banco traseiro. Ao lado repousava o enorme dossier sobre os incêndios florestais do pequeno jardim europeu,
mas não lhe apetecia estudá-lo. Ninguém se poderia admirar. Pedro ainda não
fizera cinco meses que tinha sido investido, e aqui estava a sua grande
primeira confrontação.
-Merda, que
grande merda! Mas que merda de país! Sempre a mesma treta dos incêndios e
sempre, sempre no período de férias. Lá vamos nós ter de resolver este problema
pelo menos até que chova. E com uma agenda tão preenchida…as autárquicas, as
presidenciais….o terrorismo.
- Senhor
Ministro, estamos a chegar…penso que já vislumbro os seus colegas, grego e alemão….
…. Afinal não somos os únicos atrasados.
- Obrigado, Jacinto,
dá-me só uns segundos para compor o meu cabelo.