Prefácio da amiga Becca Sales
António Delicado, durante largos anos engenheiro numa empresa estrangeira
sediada em Portugal, cuja recente falência o lança abruptamente no
desemprego a escassos anos da reforma, enceta, no mais improvável lugar, um
profundo e profuso diálogo com um imigrante ucraniano que, tal como ele,
espera a sua vez de ser atendido no processo de inscrição para a candidatura
ao subsídio de desemprego.
Biólogo e autor de várias publicações na sua pátria, este interlocutor não foi
escolhido ao acaso. Um desenraizado, numa bicha do Centro de Emprego, está
indubitavelmente mais receptivo a um discurso de mágoas, queixumes e
ressentimentos. A sua formação académica, e a sua cultura geral, torna-o um
receptor ideal para o nosso protagonista que, não obstante, confessa
honestamente que no fundo é ele próprio o principal destinatário da sua
argumentação. Mas ainda assim, percebe-se que dar visibilidade aos imigrantes
de leste, aos seus anseios e frustrações, também estava na mira do nosso
herói.
Ao longo destas páginas, de uma fluidez harmoniosa, onde acabamos por
tomar o lugar do privilegiado interlocutor, assistimos um discurso brilhante
sobre o sentido da vida, as perplexidades que esta nos pode suscitar, e
sobretudo à peculiar demanda intelectual de um pensador na pele de um
exímio engenheiro que, no entanto, nos deixa antever o seu apego a um
raro perfeccionismo muito profissional. Mesmo que vivido de forma
desapaixonada.
Com recurso a figuras discursivas como a analepse e a prolepse, conduz-nos na
sua incursão ao passado, de onde volta trazendo-nos precisas correlações com
os acontecimentos posteriormente vivenciados. As suas apuradas análises são
auxiliadas pelas suas próprias reminiscências, sem nunca perder o fio condutor.
Como um rio habituado à auto disciplina, correndo pelo seu leito sem precisar
de margens que o condicionem... Antecipa-se quando nos sente perto de fazer
uma objecção, demonstrando que existe uma sólida maturidade na linha do seu
pensamento. Que desde sempre foi em simultâneo actor e espectador...Um
observador que se coloca também dentro de espaço de observação. "não se
pode ser egótico e consciente ao mesmo tempo". E para além disso é preciso
não perder o ponto de retorno. Mas o nosso protagonista revela conhecer
bem os limites desse perigoso exercício. Que só pode ser desenvolvido com a
grande perícia de um cientista prático, digamos assim. já que precisamente
nessa linha, demasiado ténue, se encontra a âmago da sabedoria, mas também
o abismo do não-retorno. Depressa constatamos a genial plasticidade do seu
raciocínio. O seu domínio completo sobre as complexas deambulações e
regressos que vai fazendo, perante a nossa curiosidade completamente rendida
e aguçada, graças a um árduo e prévio trabalho intelectual e espiritual.
Na senda da sua abordagem à absurdidade da sociedade e da própria
existência, cita autores como Kafka. Tal como esses grandes escritores do
absurdo, esta personagem detentora de uma sensibildade absurda, consegue
sempre vislumbrar uma saída. Nota-se que se vai reconciliando com a vida,
atingindo uma certa calma, à medida que vai contando a sua história
romanesca. Desde que perdeu muita da sua inocência, ao partir aos dezoito
anos da sua pacata cidade do sul, para a grande aventura da vida universitária
na capital, passando pela saga D. Juanesca, aquando as
deslocações temporárias ao estrangeiro, em trabalho para a sua empresa, não
falta até um amor proibido projectado na bela e sedutora Sally, recepcionista de
um hotel londrino, e duas tentativas de assassinato: "Talvez tenha alargado
exponencialmente a minha imaginação, a minha dialética, ou pura e
simplesmente tenha encontrado o rasto da verdade absoluta". Diz o nosso
engenheiro, confessando-nos assim o seu ponto de encontro com a verdade
perseguível e jamais alcançada... " Filosofar não para mostrar que somos
cultos, mas para nos salvarmos".
o "corpo de Dor" é algo que o nosso protagonista também muito perscruta nas
suas incursões ao passado. Recorrendo mais uma vez a reminiscências,
correlações, e dispondo-as mtas vezes através de metáforas.
Pergunto-me como leitora, e conhecendo já um pouco o autor desta genial e
brilhante obra para me permitir reconhecer alguma similitude entre a sua
biografia e esta narrativa, se terá assim encontrado, o engenheiro (também
durante largos anos exercendo a docência, como professor convidado no
Instituto Superior Técnico em Lisboa) Hélio Pereira, a sua "janela
respiratória"?... Uma forma criativa de falar do "corpo de dor" sem entrar em
pormenores, nomeadamente, sobre a sua involuntária participação na guerra.
Ele já não pode ser Sísifo apenas na fase incessantemente da elevação da
descomunal pedra (condição do Homem mto evocada pelo seu personagem
criado), pois já descobriu o sentido da sua existência, atrevo-me a conjecturar.
Na verdade sempre o suspeitou. Mas é justamente em plena crise
generalizada, que se encontra consigo próprio, e também por isso nos pode
dar uma retrospectiva do que se está a passar neste momento na europa em
geral, e no nosso país em particular...
Hélio Pereira é um nome a reter. Um autor completamente comprometido com
a vida e com a sociedade que o rodeia. Desmentindo a falácia de que o
indivíduo que se debruça sobre si mesmo, para que seja perante si revelado,
numa clara demanda a partir do sentido de si, não está ganho para se dar ao
meio que o rodeia.
A páginas tantas António diz: " Ninguém gosta de indivíduos, preferem pessoas
que se integram nas regras sociais, que vivam em harmonia com os costumes
da terra, se bem que para tal tenham que se afastar de si mesmos. Depois vêm
as doenças, as tristezas, as infelicidades, e a sociedade gosta de pessoas
infelizes a quem possam dar a sua solidariedade, bater nas costas, vender
remédios".
Tal como o protagonista do seu romance, o escritor Hélio Pereira prefere a
justiça à solidariedade. A ética às aparências. E é isto que o torna um escritor
universal e intemporal. Mas não nos dá conta apenas da condição humana e
social; compromete-se também lançando pistas, criando verdadeira
comunicabilidade não só com os que estão despertos, mas sacudindo também
os dos senso-comum, mergulhados no seu (para ele) estranho mundo de
apatia. Afinal estamos todos neste barco. Onde os nossos jovens são exortados
a emigrar. Os filhos de Abril. Os filhos da nossa esperança...
Esta personagem questiona-se e questiona-nos continuamente. E nem as
recentes mudanças do papel da mulher, na sociedade contemporânea, foram
esquecidas. Nada é omitido. Tudo é passível de ser enunciado, questionado,
esmiuçado, nesta obra singular