- Acreditas na metempsicose, Leonor? - pergunta
Paulo, subtraindo-se subitamente àquela modorra que parecia tê-lo atingido
desde que iniciara a viagem de comboio que os levaria de Lisboa até à capital
do Algarve.
Olhava distraidamente pela janela,
observando a paisagem que ia ficando para trás, e que finalmente se podia
contemplar graças aos primeiros raio solares que timidamente começavam a surgir
e afugentavam a escuridão.
Leonor leva algum tempo a perceber a
pergunta, pois ela própria estava meio adormecida, embalada pelo movimento
contínuo da carruagem, que parecia um mantra, ou uma canção suave, e lhe
retirara positivamente toda a energia negativa da mente, libertando-a de
preocupações e outras intrincadas invenções da mente.
Tinham trabalhado até tarde, fazendo
mais uma direta, como chamavam ao tempo despendido com aquele trabalho urgente
e inesperado que começara logo após uma frugal refeição, a que só com muita
imaginação se poderia chamar jantar, e se prolongara pela noite fora, terminando
quase em cima da hora da partida.
-O quê? - reage finalmente a rapariga,
retirando subitamente os pés descalços do banco da frente, local onde os
colocara assim que passarem a ponte, depois de confirmar que eram os únicos
passageiros naquela manhã de primavera, e enfiando-os nos sapatos rasos que
encontrou, não sem dificuldade, algures debaixo do seu assento.

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