segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O ÚLTIMO CÓNIO - Romance histórico, a publicar (Ossónoba, primeiro século da nossa era)

- Acreditas na metempsicose, Leonor? - pergunta Paulo, subtraindo-se subitamente àquela modorra que parecia tê-lo atingido desde que iniciara a viagem de comboio que os levaria de Lisboa até à capital do Algarve.
Olhava distraidamente pela janela, observando a paisagem que ia ficando para trás, e que finalmente se podia contemplar graças aos primeiros raio solares que timidamente começavam a surgir e afugentavam a escuridão.
Leonor leva algum tempo a perceber a pergunta, pois ela própria estava meio adormecida, embalada pelo movimento contínuo da carruagem, que parecia um mantra, ou uma canção suave, e lhe retirara positivamente toda a energia negativa da mente, libertando-a de preocupações e outras intrincadas invenções da mente.
Tinham trabalhado até tarde, fazendo mais uma direta, como chamavam ao tempo despendido com aquele trabalho urgente e inesperado que começara logo após uma frugal refeição, a que só com muita imaginação se poderia chamar jantar, e se prolongara pela noite fora, terminando quase em cima da hora da partida.

-O quê? - reage finalmente a rapariga, retirando subitamente os pés descalços do banco da frente, local onde os colocara assim que passarem a ponte, depois de confirmar que eram os únicos passageiros naquela manhã de primavera, e enfiando-os nos sapatos rasos que encontrou, não sem dificuldade, algures debaixo do seu assento.  


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