terça-feira, 13 de março de 2012

Catarse

Não foi tarefa fácil limpar em profundidade a lixeira que acumulei toda a vida, coisas que me impuseram ou que adquiri de uma forma voluntária: conhecimentos, comportamentos, egoísmos, rituais, egocentrismos, ganâncias, desejos de felicidade. Tudo o que me condicionava e impedia de ser eu próprio, e me reprimia, mantive até agora bem dentro de mim, imposto pela sociedade a que tive que me ajustar, ao politicamente correcto que tive que abraçar, ao aceitável.
Tudo o que eu era, e me permitiria estar em harmonia com o cosmos, comigo mesmo, estava esmagado sob aquele peso insuportável.
E todos me aplaudiam, satisfeitos pelo meu comportamento condicionado, me elogiavam, me impeliam a ir mais longe.
Até onde?
Mas como poderia eu manter por mais tempo esta pressão sem que ela rebentasse a dura parede da lixeira?
Como poderiam os alpinistas, para falar metaforicamente, atingir o último cume, pensado inacessível, se não se libertassem do peso excessivo que carregam?
É preciso de facto coragem para nos individualizarmos, tornarmo-nos indivíduos, numa sociedade que odeia o singular, que coloca desafios para os quais não está preparada.
A sociedade lida com regras gerais aplicadas a grupos, não a indivíduos, sempre perigosos por trazerem questões diferentes, não previstas.
Como poderá a sociedade controlar um milhar de indivíduos, quando se preparou até à exaustão para um único rebanho?

A recente proximidade da morte deu-me a resposta que eu procurava mas não queria de facto encontrar.
Tinha que optar entre a repressão condicionada e a liberdade a que tenho direito. Só uma delas poderia ocupar o lugar no meu âmago.
Abri então as portas da masmorra a todas as minhas repressões acumuladas desde o leite materno, e finalmente fui eu próprio.
Livre, em paz comigo mesmo, observo agora com deleite o espaço vazio até então ocupado pelos meus constrangimentos, que eu acompanho com um sorriso nos lábios, enquanto se esfumam no ar até se dissiparem.

Culpa

Há silêncios que emanam de sons puros, como o canto da cigarra, o sibilar do vento nas folhagens da cerca, o som das gotas de chuva que se esmagam na areia seca, o nascimento da criança quando ainda não sentiu a chama no peito provocada pela primeira inspiração.
Essa beleza advém de uma total liberdade, que nada nem ninguém pode condicionar. No ser humano, curiosamente, tal liberdade morre logo à nascença, instante em que estamos mais perto que nunca de Deus, quando ainda temos as qualidades e a liberdade dos elementos e dos animais livres.
Mas no momento a seguir passamos a ser condicionados, somos culpabilizados por algo. E essa culpa é-nos imposta por todos: pais, professores, sociedade, religiosos, políticos.
E começamos a deixar de emitir os sons silenciosos emanado pelas almas simples e livres, começamos a duvidar de nós próprios.
Somos culpados de algo, de um qualquer pecado original, sentimo-nos condenados, imperfeitos.
Surgem então aqueles, que a pretexto de nos guiarem, orientarem, indicarem o caminho da salvação, apenas pretendem explorar-nos, condicionar-nos, dominar-nos.

Julgamento

O bom julgamento vem da boa experiência, que por sua vez advém do mau julgamento, assim se concluindo que todo o bom julgamento tem o seu fundamento no seu oposto

Água e gelo

Poucas coisas me transmitem uma sensação de paz e levitação moral, como a água a fluir. Seja a que sai de uma simples torneira, ou a que corre, calma ou tumultuosamente, entre as margens de um rio.
Tenho o meu curso de água preferido, que permanece intocável, perto da casa da minha infância, esquecido que foi da fúria civilizadora dos homens como eu.
E sempre que regresso ao seio materno, quedo-me na contemplação serena daquele pequeno curso de água, que flui constantemente, sem nunca estagnar, protegido por acessos só de mim conhecidos.
A Natureza tenta dar-nos lições importantes através de imagens simples, mas a nossa imaginação e arrogância são tão grandes, que eliminamos à partida as coisas elementares. Apenas quando, num acto de humildade, nos esquecemos do nosso ego, podemos descodificar o que a Natureza insistentemente nos tenta transmitir.
Olho, de pé, na margem do ribeiro, o pequeno caudal informe, que se vai adaptando aos obstáculos que surgem no seu caminho, moldando-se às irregularidades do leito, sempre protegido e orientado, nunca limitado pelas margens, de um e outro lado. A minha consciência consegue descodificar a mensagem, e a mente faz o resto.
É isso! A água está sempre em movimento, flui e ultrapassa todos os obstáculos, adaptando-se aos escolhos, mudando constantemente, com o único objectivo de chegar à sua foz. Nenhum obstáculo a detém, e nem perde tempo com eles. E nós, que somos quase apenas água, porque razão não imitamos o pequeno curso de água que a meus pés, servilmente, humildemente, me mostra, qual livro aberto, o caminho certo?
Porque continuamos a deter-nos em escolhos da vida, e nos tornamos rígidos, como água tornada gelo, e não nos dedicamos a fluir, apenas, em direcção à nossa foz, à divindade?

Entrevistador

Chegou a hora! É imprevisível a forma como cada um encara o momento decisivo.
Alguns nunca estão nervosos, aparentam enorme frieza, mas outros têm alguma dificuldade em aguentar a pressão e recorrem a fármacos.
Tudo depende mais da personalidade individual do que do acto em si, e há quem não suporte a angústia da espera e comece a denotar alterações comportamentais uns dias antes.
Outros porém contam ansiosamente os minutos que os separam do acontecimento. Tudo é ilusão dos sentidos, e a certa altura eles pensam que falta ali qualquer coisa, que a equação está errada, no mínimo incompleta.
Parecem todos, fortes ou débeis, que estão perdidos nos labirínticos covões da sua mente.
Chegou a hora!
As suas características comuns poderiam ser escritas, sem medo de errar, num manual de procedimentos.
Levantam-se sempre antes de o sol nascer, para se sentirem parte da renovação diária, dizem.
Têm isso em comum, vai lá saber-se porquê. Pouco os distingue numa primeira entrevista, e as suas vulnerabilidades têm que ser descobertas, pois nem sempre são evidentes.
Nunca disseram à mãe quem verdadeiramente eram, ou não tiveram coragem de enfrentar a mulher que os deu para adopção, e denotam de uma forma impúdica, uma perturbação narcisista e absoluta falta de empatia.
Mantêm rituais únicos de sociabilização, que lhes assegura o poder sobre os seus actos.
Agarram-se a regras e não se desviam desse padrão.
Odeiam sempre alguém, para além de si próprios, mas nunca tiveram a coragem de confessar essa emoção.
Todos apontam a arma à cabeça, no mesmo sítio, nas têmporas,sendo que mesmo os canhotos preferem escolher a mão direita.
Não entendo porquê, nem alguma vez coloquei a questão aos novos candidatos.
E disparam, nos lugares mais díspares, ao primeiro raio de sol.
A hora já passou!

A Bela e o monstro

A minha primeira reacção face à beleza, é tentar descrevê-la, tentar perpetuá-la através da escrita ou na minha memória.
Perante a beleza imponente de uma montanha coberta de neve, a grandiosidade do mar ou a delicadeza de uma flor, a beleza feminina, a minha mente não se contem.
Procuro imediatamente em todos os recantos do meu passado os termos adequados à descrição da maravilha que presencio, que toco ou respiro, e escolho de entre os melhores, os mais poéticos, aqueles que melhor definem a beleza.
E nesses momentos de introspecção coloco-me no lugar do pintor que lança na tela a essência que os seus sentidos captam.
Mas depressa me apercebo do enorme erro que cometo, ao tentar rotular com memórias do passado, a exclusividade inigualável e irrepetível de um momento de contemplação.
Em vez de me deleitar na observação da beleza única, estou a criar rótulos, metáforas, a catalogar o infinito e encaixotá-lo numa definição necessariamente limitada e condicionada por percepções anteriores.
Não há dois dias iguais, dois luares idênticos, dois pôr-do-sol semelhantes, sequer. Assim, dou por mim a rasgar muito do que escrevo, a abandonar muito do que penso, e limito-me a observar em silêncio, a desenhar mentalmente um poema de amor contemplativo.

O leite materno envenenado

O por demais evidente desejo de reconhecimento de algumas pessoas que conheço, é de fácil diagnóstico.
A sua necessidade de ter um público, de estar na moda, de ser admirado, reconhecido, é sintoma claro de um passado espartilhado, reprimido, de secundarização ou reprovação, que lhes foi infligido ao longo da vida.
E tal peso apenas pode ser compensado pelos aplausos constantes dos que hoje os rodeiam.
Nada é feito com serenidade, com interioridade, pois essas pessoas não se respeitam verdadeiramente, tal como são, e pensam que a sua existência depende da aprovação de terceiros, intoxicados que estão pelo veneno que beberam com o leite materno, provavelmente.
Apenas conseguem algum lenitivo para esse buraco espiritual através dos aplausos que lhes são dirigidos, se bem que continuem a procurar, ansiosamente, entre a multidão de aduladores, o rosto daquela cuja aprovação desejariam ter.

Condenação

Se ganhei algo ao condenar-me a mim próprio, foi o facto de deixar de ter medo da morte.
E como bónus confirmei, com precisão, que a vida é feita de descobertas.

Actor

O teatro sempre me fascinou, especialmente se nele intervêm grandes actores, que representam de uma forma magistral as mais variadas personagens.
E fazem-no com tanto realismo, identificam-se de tal modo com estas que nos transmitem a sensação, a nós, espectadores, que desaparecem, e quem ali está de facto é outra pessoa.
De tal sorte assim é a ilusão e a perfeição do artista, que só no final da peça nos apercebemos que afinal tudo não passava de uma representação, e que afinal o actor sempre ali estivera, consciente da dualidade que encerrava.
É esse paradoxo espiritual que tento emprestar à minha existência. Sei que muito do que faço não emana exactamente de mim, mas do meu ego, que tenta monopolizar os aplausos dos que assistem à representação neste palco universal.
E permaneço a uma certa distância de mim mesmo, atento, mas dando-me alguma corda, e olhando para mim mesmo de testa franzida face a algumas deixas egóicas, sabendo que preciso mostrar a minha arte, e até sou condescendente para comigo nessa minha ilusão.

Troika tintas

DISCURSO DE TOMADA DE POSSE DO NOVO 1º MINISTRO
Não se pode pedir muito àqueles que têm muito, porque então os ricos seriam menos ricos e os pobres mais pobres.
Os pobres vivem da fortuna dos ricos, e por isso essa fortuna é sagrada, não se lhe pode tocar, pois seria uma perversidade gratuita e inaceitável.
Sendo os ricos pouco numerosos, isso equivaleria a mergulhar o país na miséria.
Ao invés, se pedirmos um pouco a cada pobre, recolherá o fisco o suficiente para as necessidades públicas, e não será preciso vasculhar a vida de ninguém, para indagar quel o grau da sua fortuna.
Assim poupar-se-ão os pobres, visto que lhes deixamos a fortuna dos muito ricos.
Essa de tributar as pessoas pelo que consomem também não faz sentido, pois há ricos que comem muito pouco.

Como se sabe, os ricos constituem uma pequena minoria, mas os seus colaboradores, o povo todo,estão-lhes inteiramente afectos.
Haverá alguns descontentes, mas a disciplina imposta pelo regime será forte.
Os operários terão alguma decadência física e moral, definida pela antropologia do pobre, e os proletários serão débeis de espírito, mas continuarão a votar.
O enfraquecimento contínuo das suas caapcidades intelectuais não se deve apenas ao seu género de vida, mas resulta de uma selecção metódica operada pelos patrões.
Os multimilionários também sofrerão, pois ficam calvos aos dezoito anos, e por momentos poderão apresentar uma pequena fraqueza de espírito,o que fará aumentar em muito a fortuna de curandeiros e outros psicólogos.
As almas fracas, a quem o sofrimento humano ainda consegue perturbar, não terão outro remédio senão refugiar-se no feicebuke, numa hipocrisia que não se pode censurar, visto que contribui para manter a ordem e a solidez das instituições

Mestre Xico

Quando lhe perguntavam sobre as coisas do amor e do ódio, o Mestre Xico, patrão de costa de Alvor, habituado a muitas lutas, com os homens, mulheres e a natureza, dizia, sabiamente: Maré alta, maré baixa, maré baixa maré alta. A primeira dá muito peixe e a segunda principalmente.

Fantasma de mim

Há quem queira desaparecer para o mundo, e venha ter comigo para os aconselhar, especialmente mulheres jovens, desiludidas, perdidas, contando com o facto de eu ter a experiência de ter desaparecido há muito tempo.

Rainha de beleza

Quem não sabe fazer, ensina.
Quem não sabe amar, quem não tem essa capacidade, escreve sobre o amor.
Como aquele alpinista falhado que descreve uma escalada perigosa ao pormenor, sentado numa poltrona no conforto da sua casa de campo, ouvindo música clássica.
O mesmo se passa com a solidariedade.
Não é por acaso que nos concursos de beleza as candidatas dizem sempre o mesmo, expressam o seu desejo de salvar o mundo, querem paz e progresso e felicidade para todos.
Não conseguem encarar o mendigo andrajoso que na rua, ao lado da passadeira vermelha, lhe estende a mão suja e calosa, afastando-se com repulsa e refugiando-se na limusina que as esperam, mas estão aptas a salvar a humanidade, e dizem-no com toda a sinceridade do mundo.
Não é difícil entender este mecanismo egóico.
De facto é um processo equivalente ao daquelas pessoas que seriam incapazes de matar uma galinha com as próprias mãos ou com a ajuda de uma faca, mas não se importam de adquirir partes do animal, devidamente embaladas, em celofane.
As abstracções e as intenções generalistas nunca me enganaram.
O que me comove é a acção concreta, o esforço palpável, não as declarações.
De boas intenções está o inferno cheio, dizem-me os meus demónios.

Aborrecimento

Estarei eu a ser sincero comigo mesmo?
Será que a vida que escolhi viver e à qual me agarrei como lapa na rocha, é a que a minha alma desenhou nas pranchetas celestiais, para mim, primordialmente?
Estarei eu no lugar certo, com a vida certa, ou totalmente perdido no lugar errado, com uma personalidade alheia, enquanto a Vida procura desesperadamente por mim nos lugares lógicos?
Será por isso que por vezes sinto em mim uma náusea de viver, insuportável, a mesma que vislumbro em quase toda a gente com quem me cruzo, com quem trabalho, com quem convivo?
Poderei alguma vez comprovar esta minha teoria?
Haverá algum modo de me reencontrar com a Vida no lugar certo?
Terei coragem para correr os riscos dessa procura, dessa mudança?

Alfaiate da alma

Sempre que me dói o peito vem-me à memória a história parabólica daquele cliente que vai experimentar um fato a um alfaiate.
Começa por enfiar as calças, mas ficam-lhe um pouco apertadas, e faz uma série de movimentos com as pernas e as ancas para tentar perceber até que ponto elas estão justas.
O alfaiate, homem experimentado, a tudo assiste a uma distância de cerca de metro e meio do cliente, e vai rodando à sua volta, com a tesoura na mão direita, o giz na outra, e a fita métrica ao pescoço.
Inclina o pescoço para um e outro lado, para ver aqueles detalhes de que apenas ele se apercebe, e passados alguns momentos, diz: - Espere só até provar o casaco, e logo se esquece das calças!
Até há pouco estava demasiado preocupado com o meu aspecto, com a queda do cabelo, a brancura dos dentes, as manchas na pele, o tónus muscular. Mas bastou um acidente vascular para deixar de me preocupar com essas coisas, e já nem reparo nos cabelos que vêm agarrados ao pente cada vez que me penteio.

Cólera divina

Uma canção triste não substitui o verdadeiro sofrimento.
Porque é que Deus permite que haja tanto mal no mundo?
Tento, insistentemente obter uma resposta a esta pergunta que me queima os lábios e o coração, mas não encontro resposta.
Nem resposta nem justificação, por mais que pense na autoflagelação dos sentidos. Então, conformo-me.
A questão do significado que não se entende, é vaga, filosófica, inaceitável.
Será a religião dos homens apenas uma ilusão?
Terão os homens, subvertido a Verdade de Deus pelo lado que mais lhes agradava, transformando-a em dogmas.
Nem todos aguentam saber a verdade sobre Deus, e a sua arrogância precede a sua queda, dizem os teólogos.
Hoje porém, as religiões não podem continuar a permitir aos homens apenas a contemplação do mundo, pois eles já chegaram ao ponto em que também o querem entender.
A cólera, divina ou humana, apenas revela a incapacidade de lidar com os problemas. Não se pode entender a perda de um filho apenas com o intelecto, temos que usar a fé, e é aí que tudo se esbate.

Significado do belo

Para mim, nada que verdadeiramente possua algum significado é fácil.
As coisas difíceis são realmente as únicas que me importam, como se tivesse uma natural aversão à facilidade.
O belo, o verdadeiramente belo, se o consigo obter de uma forma natural, sem esforço, perde para mim todo o significado, seja a obra de arte, a fórmula decifrada, a mulher conquistada.

Ser ou não ser feliz

Tenho a vaga impressão de que não sou totalmente feliz nem inteiramente infeliz. Estou algures a meio caminho entre os dois estados, que não sei se são extremos, e daí o facto de ter hesitado um pouco.
Ou melhor, não é bem a meio caminho, mas num estado oscilante entre os dois pontos, se podemos definir felicidade e infelicidade como dois pontos.
Talvez dois domínios, duas esferas, não se sabe bem.
Mas não quero divagar, que este tema sempre me tirou da via original que pretendo seja uma recta, e vejo-me sempre a atalhar por caminhos escusos que me dificultam e de que maneira o regresso à via principal, à auto-estrada que me levará a uma conclusão inteligente.
Onde é que eu ia? Ah! O movimento oscilante que me imponho entre a felicidade e a infelicidade.
Pois é.
O problema é que esse movimento não é de todo harmónico linear.
É certo que ninguém pode ser ao mesmo tempo uma coisa e o seu oposto, com eventual excepção dos nossos políticos, que não se regem pelas leis da física como os outros mortais.
E mesmo que pontualmente isso sucedesse, numa daquelas excepções em que o mundo físico é pródigo, não o poderia ser o tempo todo, pois assim desconheceria a outra possibilidade. E lá estamos nós na velha rábula do Bem e do Mal.
É tudo uma questão de intensidade e afinação. O meu pêndulo dos estados de humor está claramente desafinado pois passo mais tempo num lado que no outro, e o tempo intermédio entre esses pólos é tão diminuto, que nem dá para me aperceber se se trata de um terceiro estado, em que não sou feliz nem infeliz. Então como me poderei definir?
Feliz ou infeliz?
Haverá apenas um grau de felicidade e infelicidade, o instantâneo, ou ambos terão uma certa duração? Estaremos conscientes da nossa felicidade quando passamos pelos pontos da curva positivos? Que sucede quando dormimos? Poderá um sonho feliz fazer-nos acordar felizes quando nos deitámos infelizes?
E que coisas nos fazem felizes? Será tudo o que não temos, ou devemos escolher de entre o que temos o que nos dá prazer?
Devemos procurar ou desistir de o fazer?
Só de pensar nisto, por uns minutos, imagino a infelicidade que terão os pensadores que se debruçam há milénios sobre estes temas que têm tanto de aliciante como de cansativo.

A Loucura de ser feliz

Já fiz a experiência de presumir ser feliz, de me apresentar em várias ocasiões perante amigos ou simples conhecidos com um ar sorridente, transbordante de alegria, mas todos me olhavam com um ar interrogativo, como se desconfiassem que algo não estava bem.
A princípio achei normal que não me reconhecessem naquele estado de euforia contida, mas a pouco e pouco comecei a desconfiar que algo estranho se passava, pois as reacções que se iam revelando aqui e ali eram as mais diversas e iam desde um esclarecedor franzir de testa, como se duvidando da minha sanidade mental, até à pergunta menos provável sobre as causas do meu problema, que se adivinhava, diziam, pela clara alteração da minha personalidade, geralmente tão enfadonha, e agora excepcionalmente suavizada.
Parece afinal que neste manicómio em que se tornou a nossa sociedade, o normal é andarmos de cara fechada, olhar sombrio, apresentarmos um cenho fechado, indiciador de algum problema interior. Nessas circunstâncias ninguém em nós reparará, não somos excepções, fazemos parte de um grupo.
Fingir ser infeliz, pelo contrário, é uma actividade impossível, pois já o sou naturalmente, e deste modo, ocupar o meu lugar, que por definição me pertence, no grupo imenso dos sofredores, é tarefa fácil.
E ao transportar comigo esse peso monstruoso da infelicidade, liberto-me automaticamente da pressão igualmente insuportável de ter que explicar o que se passa, de ser o alvo preferencial dos que me invejam e talvez até passassem a odiar-me pelo simples facto de eu ter tido a ousadia de mostrar algum contentamento.
E até desisti da ideia inicial, de explicar que tudo não passou de uma experiência, de uma tentativa de avaliar reacções. Aí então contaria no mínimo com a animosidade ou a troça da maioria, o que convenhamos, não me aquecia nem arrefecia.

Dosear as emoções

O Bem e o Mal devem ser tomados em pequenas doses, equivalentes na textura mas díspares na densidade

Derrotado

É sempre o primeiro a sair de casa, quando todos ainda dormem.
Levanta-se sem qualquer ruído, sem qualquer emoção que denuncie o seu estado de alma, mecanicamente, o que consegue fazer na perfeição depois de anos de prática.
A esposa nem se apercebe da sua ausência, do lugar vazio a seu lado, perdida nos sonhos de felicidade que há muito persegue inutilmente.
Há muito que não procuram os corpos, evitam tocar-se como se tal fosse uma profanação das suas vontades.
Os filhos adolescentes dormem nos quartos do fundo da habitação, tendo sossegado apenas há um par de horas, como sempre, que para eles a vida é para ser vivida ao segundo, e cabe toda nos seus computadores, nos seus telemóveis, nos ipads e ipods, e anima-se quando a noite vai alta.
Há muito que desistiu de se levantar para recomendar silêncio, que naquela casa ainda há quem trabalhe, pois o efeito era perverso, acordando a esposa que fica bastante perturbada.
Encerra-se no quarto de banho e sem ruído faz a higiene pessoal naquela rotina levada à perfeição, sendo que a barba é a fase mais demorada, mas de tal forma aperfeiçoou a técnica que todos os movimentos são precisos e sincronizados.
O banho é rápido pois detesta gastar água inutilmente, muito menos acordar a esposa, perturbar-lhe os últimos instantes de libertação.
Veste-se no escuro, às apalpadelas, e só no elevador ajusta a gravata e compõe o cabelo e a gola do casaco.
Pontualmente, mas sem gosto ou emoção entra no carro. Ainda é noite, e outros como ele fazem o mesmo, esboça um vago cumprimento a alguém que reconhece, e arranca, percorrendo o mesmo caminho de todos os dias que o levará à grande cidade.
Vale a pena o sacrifício de se levantar mais cedo, pois assim não encontrará muito trânsito, a menos que haja algum acidente, e em menos de trinta minutos chegará à zona do escritório, tendo ainda a vantagem de encontrar estacionamento não pago, autêntico luxo de que não pode abrir mão.
Entra no café do costume, onde já estão os clientes habituais, nos sítios habituais, tomando o pequeno-almoço habitual. Felizmente não são muitos os colegas de escritório que ali vão, pois detesta essa familiaridade forçada no exterior, já lhe chegando o convívio inevitável no interior.
A hora certa chega, e é com alguma relutância que se encaminha para o outro lado da rua, saúda o porteiro que lhe retribui cordialmente o cumprimento, e sobe os dois lanços de escada que dão acesso ao escritório.
Cumprimenta os dois ou três colegas que já lá se encontram, atarefados nas suas rotinas, ou contando alguma peripécia, e encaminha-se para o seu gabinete, cuja secretária fica estrategicamente virada para o exterior, onde se vislumbra uma enorme parede branca, como se fosse a pantalha de projecção de um filme mudo.
Despe o casaco que pendura num bengaleiro, e começa a ver os papéis amontoados num cesto metálico onde está um pequeno letreiro que diz “in”, suspira profundamente, coloca os óculos de ver ao perto, arregaça as mangas, e pensa nos seus sonhos perdidos de juventude, nas férias que tem que garantir nesse mês, sem falta, no sítio do costume, no futuro dos filhos num país em crise, e na vida que se afunila e lhe escapa por entre os dedos.
Vida sonhada em esplendor, agora limitada pela realidade, monótona, não vivida, que o atraiçoou a meias com o destino, e o aprisionou na falta de coragem para se redescobrir.

Reencarnação

Sempre me pareceu, e agora posso comprová-lo, que a teoria da reencarnação surgiu para dar esperanças àqueles que em vida nunca foram capazes de realizar o seu próprio destino: serem eles próprios.
Assim, com a certeza de reencarnarmos, digamos, na pior das hipóteses, indefinidamente, há sempre mais uma possibilidade de cumprirmos o nosso destino; já podemos desperdiçar algumas vidas com as coisas que apenas nos dão prazer físico, não espiritual.