terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Liberdade das areias movediças, FANTASMAS

FANTASMAS

- Existem vários portais de passagem para o mundo dos mortos mas não são fáceis de identificar pelos seres humanos vivos ditos normais.
- Estás a dizer que apenas os mortos os podem utilizar e que portanto esta será sempre uma discussão que não poderá ser concluída em vida por humanos simples como eu.
O fantasma olhou demoradamente para ele, talvez tivesse ficado surpreendido com aquela conclusão, mas recompôs-se rapidamente, depois flutuou desde o parapeito da janela, onde se encontrava sentado com os pés para o lado de fora e o tronco voltado para dentro, e colocou-se de cócoras aos pés da cama.
Ele não se surpreendia já com aquele exibicionismo do fantasma. No início surpreendeu-se pois o homem estava todo torcido e parecia divertir-se com o seu espanto, mas depressa percebeu que os fantasmas não são exactamente como os humanos vivos apesar de terem o mesmo aspecto exterior. O mesmo é como quem diz. São um pouco transparentes e azulados, vê-se através deles como se fossem vidro fosco, parece que não têm nada no interior, são ocos, um esboço de uma pessoa. Apenas se veem uns contornos acinzentados, uma espécie de massa gelatinosa que vai mudando de forma conforme o movimento, ou mesmo um líquido dentro de uma garrafa.
Ele sentou-se também, encostando as costas à cabeceira da cama estilo Dom José, mas tendo o cuidado de interpor uma almofada para não tirar o brilho da cera original, como lhe dizia a esposa inúmeras vezes. Felizmente, ela tinha um sono pesado e não acordava durante as visitações, o que a acontecer poderia ser motivo para divórcio por justa causa.
“Será um fantasma do sexo feminino?” - pensou, e tentou adivinhar-lhe as feições.
- Nós também já fomos humanos e devemos ter tido as mesmas dúvidas - disse o fantasma, mas de uma forma pouco exuberante, olhando para as mãos transparentes, como se falasse sozinho ou tentasse convencer-se daquilo que dizia.
- Não tens a certeza? - perguntou ele, vendo-lhe a indecisão que indiciava a dúvida.
- Agora que falas nisso, não sei.
- Há questões que nunca colocamos em vida, como por exemplo se saberemos encontrar o caminho para um determinado planeta ou se devemos levar pasta de dentes na bagagem. É natural que os fantasmas também não façam certas perguntas que acham ridículas.
- É provável. Deves ter razão. Estamos programados para não fazer determinadas perguntas que são desajustadas à nossa condição.
- Deve ser do ADN.
- Talvez - diz o fantasma olhando para o seu interior - Mas não sei se temos ADN, e essa é outra pergunta que nunca passaria pela mente dos fantasmas.
- Têm mente?
- Acho que sim, caso contrário não falava ou pensava. A menos que…
Ele vislumbrou pela primeira vez uma certa tristeza no fantasma. Talvez alguma memória de quando era vivo, ou um pequeno vislumbre de infelicidade. Ia dizer algo sobre essa sua percepção mas o fantasma antecipou-se-lhe com novo assunto.
- Mas estava a falar dos portais. Interessa-te o tema, ao que vejo.
- Já tinha pensado nisso logo da primeira vez que te vi.
- Geralmente é a segunda coisa que me perguntam quando eu apareço.
- A segunda? Apareces a muita gente? - diz ele baixinho pois a esposa virou-se na cama e apesar de estar escuro podia aperceber-se da conversa.
- Qual é a primeira pergunta que queres ver respondida?
- Qual é a primeira pergunta que te fazem? Depois podes responder à outra.
- Se estão a sonhar.
- Estou?
- Não. Mas em caso de emergência, sim.
- Como assim?
- Imagina que a tua esposa acorda e te vê a falar comigo.
- Pois é.
- Mas isso é uma impossibilidade. Os fantasmas que tratam desses detalhes têm tudo programado.
- Têm um plano? Pensava que eram almas penadas, cada uma por si.
- Isso são mitos urbanos fruto da imaginação limitada dos vossos realizadores e escritores. Nós somos como vós, mas a um plano muito mais elevado.
- Não me faças perder o raciocínio. Como explicaria à minha esposa a tua presença.
- É simples. Não tinhas de explicar.
- Não tinha? Tinha, tinha. Não a conheces.
- Não me veria, tão simples como isso.
- Não te veria?
- Não! Só tu me podes ver, pois foste tu o selecionado para me veres. E mesmo tu ao seres acordado pela tua esposa dirias que estavas a sonhar alto.
- A ter pesadelos. Então isto é um pesadelo e estou a sonhar.
- Não. Enquanto tivermos esta ligação, estás desperto no sonho. É uma viagem consciente dentro de um sonho.
- E isso é possível aos humanos?
- Se nós quisermos, sim.
- Quer dizer que se eu acender agora a luz tu desapareces.
- Sim, pois não estaria cá. As condições teriam sido totalmente alteradas.
- Acendi a luz portanto estou acordado, e tu nunca estás quando estamos despertos. É isso?
- Não exactamente, mas não quero perturbar-te.
- Não me perturbas.
O fantasma voou de novo para o parapeito e pôs-se a olhar as estrelas. Ele conseguia ver o céu através do fantasma que se ia esfumando cada vez mais.
- Estás a desaparecer.
- Eu sei. Faz parte do processo. Somos vítimas do tempo.
- Também sofrem disso? Pensei que fossemos apenas nós, os vivos mortais comuns.
- Não te posso dizer tudo num só encontro. Não terias capacidade de absorção.
- Ao menos diz-me de onde vens.
- Venho de um sítio chamado Vida.
- Vida? Curioso. Mas tu estás morto.
O fantasma pareceu sorrir abertamente.
- Há um caminho da Vida para aqui mas não há um caminho daqui para a Vida?
- Deve ser mais complicado. De facto a gente tem consciência que aparece aqui mas nada sabemos quando morremos.
- E se a morte fosse um novo nascimento noutro mundo, noutro conceito.
Ele ficou de braços cruzados durante algum tempo, a pensar no assunto e a ver a dissolução do fantasma.
- Não é fácil acreditar nisso. Mas se tu o dizes. Tenho medo é que não sejas real.
- Não seja real! - repete o fantasma, como se tivesse ouvido aquilo pela primeira vez.
- Achas que podemos repetir a vida de outra pessoa?
- Repetir, como?
- Fazer o mesmo, sabes, a tese da reencarnação.
- Ah, a teoria de alguns humanos que apenas sabem da missa a metade. O que eles não sabem é que há um código.
- Um código?
- Sim! Depois de morrermos, ou renascermos, a vida como a conhecíamos deixa de fazer qualquer sentido.
Ele permaneceu calado, e agora mal conseguia vislumbrar a forma do fantasma, cada vez mais dissipada.
- Sabes que há uma máquina para conseguir ver os fantasmas?
- Já foi inventada?
- Já existe a nível experimental, sim. Mas depois falamos nisso.
Ele tenta adivinhar o movimento do fantasma, agora totalmente invisível, mas não consegue. Vai até à janela, com cuidado para não acordar a esposa, espreita para todos os lados mas nada vê, e regressa à cama em bicos de pés.

- Nem sequer lhe perguntei o nome!