FANTASMAS
- Existem vários
portais de passagem para o mundo dos mortos mas não são fáceis de identificar
pelos seres humanos vivos ditos normais.
- Estás a dizer que
apenas os mortos os podem utilizar e que portanto esta será sempre uma
discussão que não poderá ser concluída em vida por humanos simples como eu.
O fantasma olhou
demoradamente para ele, talvez tivesse ficado surpreendido com aquela
conclusão, mas recompôs-se rapidamente, depois flutuou desde o parapeito da
janela, onde se encontrava sentado com os pés para o lado de fora e o tronco
voltado para dentro, e colocou-se de cócoras aos pés da cama.
Ele não se surpreendia
já com aquele exibicionismo do fantasma. No início surpreendeu-se pois o homem
estava todo torcido e parecia divertir-se com o seu espanto, mas depressa
percebeu que os fantasmas não são exactamente como os humanos vivos apesar de
terem o mesmo aspecto exterior. O mesmo é como quem diz. São um pouco
transparentes e azulados, vê-se através deles como se fossem vidro fosco,
parece que não têm nada no interior, são ocos,
um esboço de uma pessoa. Apenas se veem uns contornos acinzentados, uma espécie
de massa gelatinosa que vai mudando de forma conforme o movimento, ou mesmo um
líquido dentro de uma garrafa.
Ele sentou-se
também, encostando as costas à cabeceira da cama estilo Dom José, mas tendo o
cuidado de interpor uma almofada para não tirar o brilho da cera original, como
lhe dizia a esposa inúmeras vezes. Felizmente, ela tinha um sono pesado e não
acordava durante as visitações, o que a acontecer poderia ser motivo para
divórcio por justa causa.
“Será um
fantasma do sexo feminino?” - pensou, e tentou adivinhar-lhe as feições.
- Nós
também já fomos humanos e devemos ter tido as mesmas dúvidas - disse o fantasma,
mas de uma forma pouco exuberante, olhando para as mãos transparentes, como se
falasse sozinho ou tentasse convencer-se daquilo que dizia.
- Não
tens a certeza? - perguntou ele, vendo-lhe a indecisão que indiciava a dúvida.
- Agora
que falas nisso, não sei.
- Há
questões que nunca colocamos em vida, como por exemplo se saberemos encontrar o
caminho para um determinado planeta ou se devemos levar pasta de dentes na
bagagem. É natural que os fantasmas também não façam certas perguntas que acham
ridículas.
- É
provável. Deves ter razão. Estamos programados para não fazer determinadas
perguntas que são desajustadas à nossa condição.
- Deve
ser do ADN.
- Talvez
- diz o fantasma olhando para o seu interior - Mas não sei se temos ADN, e essa
é outra pergunta que nunca passaria pela mente dos fantasmas.
- Têm
mente?
- Acho
que sim, caso contrário não falava ou pensava. A menos que…
Ele
vislumbrou pela primeira vez uma certa tristeza no fantasma. Talvez alguma
memória de quando era vivo, ou um pequeno vislumbre de infelicidade. Ia dizer
algo sobre essa sua percepção mas o fantasma antecipou-se-lhe com novo assunto.
- Mas
estava a falar dos portais. Interessa-te o tema, ao que vejo.
- Já
tinha pensado nisso logo da primeira vez que te vi.
-
Geralmente é a segunda coisa que me perguntam quando eu apareço.
- A
segunda? Apareces a muita gente? - diz ele baixinho pois a esposa virou-se na
cama e apesar de estar escuro podia aperceber-se da conversa.
- Qual é
a primeira pergunta que queres ver respondida?
- Qual é
a primeira pergunta que te fazem? Depois podes responder à outra.
- Se
estão a sonhar.
- Estou?
- Não.
Mas em caso de emergência, sim.
- Como
assim?
- Imagina
que a tua esposa acorda e te vê a falar comigo.
- Pois é.
- Mas
isso é uma impossibilidade. Os fantasmas que tratam desses detalhes têm tudo
programado.
- Têm um
plano? Pensava que eram almas penadas, cada uma por si.
- Isso
são mitos urbanos fruto da imaginação limitada dos vossos realizadores e
escritores. Nós somos como vós, mas a um plano muito mais elevado.
- Não me
faças perder o raciocínio. Como explicaria à minha esposa a tua presença.
- É
simples. Não tinhas de explicar.
- Não
tinha? Tinha, tinha. Não a conheces.
- Não me
veria, tão simples como isso.
- Não te
veria?
- Não! Só
tu me podes ver, pois foste tu o selecionado para me veres. E mesmo tu ao seres
acordado pela tua esposa dirias que estavas a sonhar alto.
- A ter
pesadelos. Então isto é um pesadelo e estou a sonhar.
- Não.
Enquanto tivermos esta ligação, estás desperto no sonho. É uma viagem
consciente dentro de um sonho.
- E isso
é possível aos humanos?
- Se nós
quisermos, sim.
- Quer
dizer que se eu acender agora a luz tu desapareces.
- Sim,
pois não estaria cá. As condições teriam sido totalmente alteradas.
- Acendi
a luz portanto estou acordado, e tu nunca estás quando estamos despertos. É
isso?
- Não
exactamente, mas não quero perturbar-te.
- Não me
perturbas.
O
fantasma voou de novo para o parapeito e pôs-se a olhar as estrelas. Ele
conseguia ver o céu através do fantasma que se ia esfumando cada vez mais.
- Estás a
desaparecer.
- Eu sei.
Faz parte do processo. Somos vítimas do tempo.
- Também
sofrem disso? Pensei que fossemos apenas nós, os vivos mortais comuns.
- Não te
posso dizer tudo num só encontro. Não terias capacidade de absorção.
- Ao
menos diz-me de onde vens.
- Venho
de um sítio chamado Vida.
- Vida?
Curioso. Mas tu estás morto.
O
fantasma pareceu sorrir abertamente.
- Há um
caminho da Vida para aqui mas não há um caminho daqui para a Vida?
- Deve
ser mais complicado. De facto a gente tem consciência que aparece aqui mas nada
sabemos quando morremos.
- E se a
morte fosse um novo nascimento noutro mundo, noutro conceito.
Ele ficou
de braços cruzados durante algum tempo, a pensar no assunto e a ver a
dissolução do fantasma.
- Não é
fácil acreditar nisso. Mas se tu o dizes. Tenho medo é que não sejas real.
- Não
seja real! - repete o fantasma, como se tivesse ouvido aquilo pela primeira
vez.
- Achas
que podemos repetir a vida de outra pessoa?
-
Repetir, como?
- Fazer o
mesmo, sabes, a tese da reencarnação.
- Ah, a
teoria de alguns humanos que apenas sabem da missa a metade. O que eles não
sabem é que há um código.
- Um
código?
- Sim!
Depois de morrermos, ou renascermos, a vida como a conhecíamos deixa de fazer
qualquer sentido.
Ele
permaneceu calado, e agora mal conseguia vislumbrar a forma do fantasma, cada
vez mais dissipada.
- Sabes
que há uma máquina para conseguir ver os fantasmas?
- Já foi
inventada?
- Já
existe a nível experimental, sim. Mas depois falamos nisso.
Ele tenta
adivinhar o movimento do fantasma, agora totalmente invisível, mas não
consegue. Vai até à janela, com cuidado para não acordar a esposa, espreita
para todos os lados mas nada vê, e regressa à cama em bicos de pés.
- Nem
sequer lhe perguntei o nome!