Fátima......
E se a Justiça tivesse querido funcionar, por uma vez…?
Levou-me tempo a encontrá-la, mas já está. Como foi que a reconheci? Não sei. E o que é que terá podido mudá-la tanto? Talvez a vida, as tentativas de amar, de comer, de escapar aos justiceiros. Enfio-me nela, sem dúvida na esperança de vir a saber alguma coisa. Mas são terrenos sem destroços nem rastos, à primeira vista. Mas acabarei por lhe dar com a pista.
Foi em plena cidade que a localizei, sentada num banco. Está hoje quase uma velha. Como foi que a reconhecei? Pelos olhos, talvez. Não, não sei como a reconheci, não vou retratar nada. Talvez nem seja ela. Pouco importa. Agora é minha. É um ser ainda vivo e inútil dizê-lo do sexo feminino, vivendo dessa vida prestes a terminar, que é como que uma convalescença, se as minhas recordações são minhas, e que se pode saborear saltitando atrás do sol, ou debaixo da terra, nos labirintos do metropolitano. A toda a volta, a vaga dos ocupados permanentes, tirando bilhetes, carregados de bagagem, eternamente no lugar onde não deveriam estar, à hora que não deveria ser. De que mais preciso? Sim, os dias foram então curtos, e muito cheios, em busca do calor e de uma coisita ou outra não demasiado má para comer. E imaginamos que vai ser igual até ao seu fim. Mas de repente tudo começa a enfurecer-se e a rugir, estamos perdidos no meio das ervas que estalam ou lançamo-nos através das estepes batidas pela tempestade, a perguntar se não morremos sem dar por isso ou se não nascemos outra vez algures. Custa então acreditar nesses anos breves, em que os padeiros eram com frequência tão indulgentes, ao fim do dia, e as maçãs, sempre gostei de maçãs, por isso dizer gratuitas quando se sabia como as coisas se faziam, e em que havia sol e abrigo para quem deles realmente precisasse. Mas é de mim que se trata! E lá está ela muito sossegadinha no seu banco, de costas para o rio, e vestida como vamos ver, embora as roupas não contem, eu sei, eu sei, mas nunca terá outras, sinto-o bem. E se já as tem há muito tempo, a avaliar pelo seu ar vetusto, não importa, serão as ultimas. Mas é o casaco, sobretudo, que é notável, que a tapa e subtrai aos olhares. Porque está bem abotoado, de cima a baixo, por meio de quinze botões no mínimo, afastados no máximo de três a quatro centímetros uns dos outros, que nada deixa transparecer do que se passa lá dentro.
O problema é que ela não se mexe. Desde manhã que continua no mesmo sítio e já começa a anoitecer. Será noite dentro de uma hora. Estão a ser rebocadas as últimas embarcações de carga, com as suas chaminés pretas e vermelhas, cheias de tonéis vazios. A água começa já a embalar, a apagar com o seu murmúrio e depois em grandes charcos tremulantes a desdobrar de novo as chamas longínquas do poente, laranja, verde e rosa. Ela vira-lhes as costas, mas talvez o rio lhe apareça no gritar medonho dos urubus que a noite aglomera, em paroxismos de fome, à volta das bocas de esgoto, diante do hotel Othon. Sim, também eles, antes de alcançarem os altos rochedos nocturnos, se transtornam uma última vez por cima dos detritos. Mas aquilo que ela enfrenta são as pessoas, numerosas a esta hora na rua, terminado o dia activo, com todo o longo serão diante delas. As portas, as dos escritórios, as dos armazéns, e as outras portas, vomitam cada uma delas o seu contingente. Os grupos assim devolvidos à liberdade mantêm-se por um instante compactos, no passeio, na berma, como que aturdidos, depois desagregam-se, tomando cada ser o caminho que lhe foi marcado.
Mas enganar-se-ia quem pensasse que ela não voltará a mexer-se, que não mudará mais de lugar nem de atitude, pois que tem ainda a velhice toda à sua frente, e depois, a seguir, essa espécie de epílogo onde não se percebe lá muito bem o que acontece e que não parece acrescentar grande coisa ao já adquirido, nem retirar-lhe nada da sua confusão, mas tendo com certeza a sua utilidade, um pouco à maneira como também deixamos secar o feno antes de o armazenarmos.
Portanto ela levantar-se-à, queira ou não queira, pois para se morrer tem de se andar de um lado para o outro, para trás e para diante, a menos que se tenha alguém que nos reabasteça sempre no mesmo sítio. E podemos estar dois, três e até quatro dias sem nos mexermos, mas o que é isso, quatro dias, quando temos a velhice à nossa frente, e depois os vagares da evaporação, uma palha. É verdade que ainda não o sabemos, julgamos estar presos apenas por um fio, como qualquer um, mas não é aí que se esconde o gato com o rabo de fora….