sábado, 17 de março de 2012

Optimismo presidencial

Estamos muito bem servidos de políticos conscientes, e ao menos que isso nos sirva de consolo.
Há semanas o presidente deslocou-se num trimotor da FAP para um país do Magreb, e a meio caminho o comandante disse:
"Um dos motores avariou de modo que vamos chegar meia-hora mais tarde".
Algum sobressalto na comitiva , enquanto o presidente, que lia alguns jornais franceses, nem pestanejou.
Passada mais uma hora de viagem, de novo o comandante, agora com a voz embargada:
"Infelizmente o segundo motor avariou, de modo que iremos chegar uma hora mais tarde que o previsto".
Começaram a ouvir-se uns gritinhos de ansiedade, o que levou o presidente a tirar os óculos, deixar momentaneamente a leitura, e a dizer, sorridente, com o seu ar habitual:
"Bem, se o terceiro motor avaria, vamos passar aqui em cima a noite inteira.
Claro que isto não passou nos media, mas ao ser conhecido desta forma, mais informal, ficamos com a certeza de que estamos no bom caminho.

Burros e ferraris

A propósito da investida legítima da Segurança social para identificar fraudes, e do perigo mais que eminente da vinda do FMI,perguntei a um amigo meu que é director numa empresa do Estado, e que muda cada 18 meses de carro (de valor sempre acima dos 100M euros, e que ao fim daquele periodo os adquire por preço simbólico e faz deles o que bem entende), se não se sentia mal por isso.
Respondeu-me serenamente:
"Enquanto houver burros tem que haver quem os pique".
Quanto não vale estar do lado intocável da sociedade!

FMI

Economistas temem a vinda do FMI.
Se estas pessoas fossem competentes e não apenas avençados, há muito que a tinham previsto .
Parece-se muito a situação do país com a daquele doente que não faz um despiste da doença com medo de que seja uma doença grave e venha a saber que está em perigo de vida.
Prefere viver na ignorância a tomar medidas que o salvem.
Se em engenharia se fizesse isto, nunca tínhamos chegado à lua.

Unhas

O toque das unhas, nas sociedades sumérias representava a união das almas, um pacto sagrado que manteria os envolvidos no estreito corredor da felicidade.

In O livro dos sentidos de Akraan Mitspur Rajik

Suméria

Na sociedade suméria o pensamento fluia de fora para dentro enquanto as percepções fluiam em sentido inverso , e no ponto de união surgia o conhecimento, sempre independente da vontade. A utopia.

In O livro dos sentidos de Akraan Mitspur Rajik

Espelho meu

O único conhecimento que a maioria das pessoas tem de si mesmo é aquele que lhes é descrito pelos outros. É uma espécie de espelho que lhes diz como são e quem são.

In O livro do ego de Akraan Mitspur Rajik

O Bar

É quase manhã quando viramos costas ao rio e caminhamos lentamente em direcção à cidade.Lá está o velho bar que tão bem conhecemos de noites mais felizes. O mesmo barman, as mesmas mesas dispostas em recantos íntimos, as mesmas paredes escuras com quadros indecifráveis em tons azuis, a mesma intimidade que convida ao pecado.
Sentas-te no teu lugar preferido, e esboças pela primeira vez um ténue sorriso, enquanto eu me intimido a olhar para ti e procuro as palavras certas.
Fico na sombra, por acaso, e é como se só tu existisses.
Olhas timidamente para o lado, evitando o olhar.
Quem terá coragem de começar, de contar as mentiras ou as verdades que ambos decorámos?

In O livro da Separação de Akraan Mitspur Rajik

Corredor do poder

“Sabes, o que verdadeiramente me entusiasma nesta função, para além do vencimento e das regalias, em que nem quero pensar muito para não ter problemas de consciência, é a sensação de poder”, diz Xavier a um encantado Matias Caldaços que não tirava os olhos da esbelta secretária do novo homem forte do grupo..

In "O corredor do poder", de Jamal de Suad

Futuro

Detesto o futuro, pois no futuro estarei morto!

Beatas e água benta

Observando com atenção as calçadas portuguesas vemos que também estão cheias de beatas. Não as que antigamente povoavam as igrejas, rondando os párocos bem parecidos, na esperança de com eles se despojarem, mas aquelas que saem de bocas de fumadores e fumadoras, de todos os tamanhos e feitios, com ou sem dentes, cheirando invariavelmente mal, e são usualmente acompanhadas de um valente escarro, que se pode distinguir da beata pelo seu tom amarelo-esverdeado, que adquire matizes castanhas com o tempo.
 E
ste facto induz uma certa meditação, e nela se podem vislumbrar dois elementos distintos:

A pia de água benta em que o país foi em determinada época transformado, e em que as beatas ensopavam os dedos antes de se persignarem, pedindo ao alto que lhes concedesse os favores do homem de negro, e o cinzeiro em que agora foi metamorfoseado o país, e onde debitamos as beatas acompanhadas pelo escarro nacional, onde se condensa a frivolidade da nossa vida miserável com o venenoso prazer que ela nos dá...


In "O livro da Idiossincrasia" de Jamal de Suad

José Régio

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.


JOSÉ RÉGIO Soneto escrito em 1969.
Tão actual em 1969, como hoje...
E depois ainda dizem que a tradição já não é o que era!!!

Chegada

Assim que chega,retira os sapatos e senta-se daquela forma que não posso ignorar, mesmo que queira.
Endireita o fino pescoço que percorre com a palma da mão esquerda, retira lentamente as luvas como se de uma encenação se tratasse, cruza as longas pernas lenta e pausadamente, como se com esse movimento elegante quisesse asfixiar-me, e finalmente sorri...

Egoismo

Defendia a Revolução Industrial que a procura do egoísmo individual conduziria à paz e à harmonia, ao alargamento do bem-estar de todos. Obviamente que esta premissa falhou rotundamente. O desenvolvimento deste sistema económico já não é determinado pela pergunta:" O que é bom para o Homem", mas por uma outra:" O que é bom para o crescimento do sistema".

Defendiam os mentores desta teoria que o que é bom para o sistema também o é para o homem, uma vez que as características que se exigiam do ser humano, a saber, egocentrismo, egoísmo e avidez eram inatas à natureza humana(?!).

Ser egoísta não se relaciona apenas com o meu comportamento, mas com o meu carácter.

Querer tudo para mim, possuir sem partilhar dá-me prazer.Devo tornar-me ávido, porque se o meu objectivo é TER, eu sou tanto mais quanto mais tiver.Devo sentir todos os outros como meus adversários, os meus clientes a quem quero iludir, os meus concorrentes a quem quero esmagar, os meus trabalhadores a quem quero explorar (até posso espremê-los e despedi-los por SMS, enquanto estou a banhos com umas sílfides teutónicas, numa qualquer estância no pacífico).

Há um senão: nunca poderei estar satisfeito, pois os meus desejos não têm limite.Devo invejar os que têm mais do que eu e recear os que têm menos.Mas tenho que reprimir todos estes sentimentos para poder revelar-me, aos outros e a mim mesmo, como o ser humano sorridente, racional, seincero e amável que toda a gente pretende ser.

Poderei até tentar a governação. É mais seguro, mas mais incerto...



Adaptado de Erich Fromm- To have or to be, baseado nas teorias de David Ricardo

Memórias do périplo

Finges ignorar-me, enquanto olho encantado para o teu rosto tocado pela maravilha da beleza mortal, e fico petrificado com a luminosidade dos teus longos cabelos louros .
Olhas lentamente na minha direcção, e pareces gozar infinitamente o prazer que te dá ver-me a teus pés, de olhos postos na ilusão dos sentidos em que me perco..

Palavras para q?

As palavras, articuladas de forma coerente e assim transformadas em sons perceptíveis, ou que fiquem por dizer e permaneçam sob a forma de pensamento, podem atraiçoar-nos, cobrindo-nos com uma espécie de nevoeiro .
Perdemo-nos facilmente nelas, nas palavras, hipnotizados pelo facto de acreditarmos que conhecemos o objecto do nosso vago discurso, e definimo-lo inconscientemente, descrevendo as suas virtudes e beleza.

Quando a observamos sem a rotular mentalmente, Ana torna-se numa espécie de portal de entrada para um mundo sem forma. Existe nela uma abertura que dá acesso directo ao mundo espiritual, que só aqueles que têm consciência da sua essência interior podem experimentar.

Têmpera e controlo do déficite

Depois de concluir a minha licenciatura em engenharia mecânica, tive que fazer um estágio regulamentar.
Fi-lo na Sorefame, na Amadora, e entre muitas tarefas que tinha que executar, estava o controlo dos chamados tratamentos térmicos, que servem de um modo muito geral, para tornar os metais mais resistentes ou com propriedades adequada ao seu desempenho futuro.
Entre eles está a têmpera,um arrefecimento controlado.

Em metalurgia, a têmpera é usada no endurecimento de aço ao introduzir martensita, submetendo o aço a um arrefecimento brusco e obrigando-o a passar pelo seu ponto eutetóide, a temperatura onde a austenita se encontra instável. Em ligas de aço com outros metais, tais como o niquel e o manganês, a temperatura eutectóide torna-se mais baixa, mas as barreiras cinéticas à transformação de fase são iguais. Isto permite que o processo de têmpera comece a uma temperatura mais baixa, tornando o processo mais fácil. O aço rápido também possui tungsténio, que tem como função o aumento das barreiras cinéticas e dar a ilusão que o material arrefeceu mais rapidamente do que realmente foi. Até o arrefecimento de tais ligas ao ar (processo de normalização) obtém muitos dos efeitos desejados do processo de têmpera e só depois disso tudo que o aço pode ser entao comercializado.
A tempera tem como objetivo a obtenção de uma microestrutura que proporcione propriedades de dureza e resistência mecânica elevadas. A peça a ser temperada é aquecida à temperatura de austenitização e em seguida é submetida a um resfriamento brusco, ocorrendo aumento de dureza. Durante o resfriamento, a queda de temperatura promove transformações estruturais que acarretam o surgimento de tensões residuais internas. Sempre após a têmpera, temos que realizar o revenimento, para a transformação da martensita em martensita revenida.

Mas não é para definir tecnicamente este tratamento que aqui venho hoje.

Acontece que me recordo de um funcionário responsável pelo respectivo forno que, conhecedor do gráfico de temperaturas que o tratamento deveria seguir, forçava a agulha, de modo que o "boneco" aparecesse perfeito, e assim poupava tempo no processo.
É claro que as peças falhavam todas na inspecção e o funcionário foi despedido.

O mesmo sucede com o défice: o governo apresentar a Bruxelas no final do ano um número perfeito, mas o país acabará por se estilhaçar, pois tal nada tem a ver com a realidade.

Amnésia

Pela janela entreaberta do quarto andar, ele conseguia ver claramente o movimento ondulado da copa das árvores. O ruido do vento nas frinchas da persiana era a unica perturbação à sua profunda contemplação. O quadro na parede à sua esquerda estava na obscuridade, e mais parecia uma mancha negra esborratada encaixilhada à pressa num quadro também ele de cor escura.
Havia pouca luz no quarto, mas a luminosidade do exterior dizia-lhe que ainda era dia, ou que estaria prestes a amanhecer. Não se recordava há quanto tempo ali permanecia, nem como ali tinha chegado.
Apenas sentia uma forte dor na cabeça, que fazia com que tivesse alguma dificuldade em esticar o pescoço ou mesmo dar alguns passos na direcção da janela, e tudo o que queria era chegar a esse foco de luz que ele entendia como a chave para a sua salvação.

O lider eleito

O que é que se faz quando a coisa que mais se deseja nos cai do céu? – Perguntou o novo primeiro – ministro ao seu acessor e amigo, enquanto acendia o charuto.
Agora, meu caro, o que tens a fazer é gozar o prazer da conquista e ser feliz. Bem o mereces, depois de toda esta luta – recomendou o acessor.
Lentamente, enquanto olhava para a ponta incandescente do havano, Pedro levantou-se da cómoda poltrona, passou pelo amigo dando-lhe uma pancada amigável nas costas, e olhando pela janela sobranceira aos jardins do palácio, afirmou:
- Meu caro, ninguém melhor do que eu sabe que o poder, bem como a Felicidade, são transitórios, pois nos escapam constantemente, ou simplesmente deixam de existir de um momento para o outro, deixando-nos num estado de desespero, e com um certo gosto a cinza na boca e no espírito.
- Mas esse é o fardo do homem público, daquele que se entrega à nobre luta política para melhorar a vida dos seus concidadãos, para que todos tenham o seu quinhão de Felicidade; infelizmente não podemos agradar a todos, e muitas vezes não nos fazem a devida justiça; Não te reconheço, Pedro, bem sabes que não há nada melhor que o sucesso – apressou-se a comentar Miguel.
- Já o experimentei várias vezes, como sabes, e só esse facto me faz pensar se haverá alguma coisa que fracasse tanto como o sucesso; há inúmeros exemplos de políticos que aparentemente foram bem sucedidos, mas não foram mais felizes por causa disso. Se assim não fosse, porque voltaríamos a tentar vezes sem conta?
- Estás demasiado cansado com toda esta luta que finalmente te deu a vitória, e por isso estás excessivamente contemplativo. Olha que há um país para governar, e os problemas são tantos que não vais ter muito tempo para considerações filosóficas.
- Miguel, sabes bem que eu não viro a cara à luta, que sou extremamente competitivo, que tenho o sentido das responsabilidades – respondeu Pedro, desta vez com a agressividade e frieza que lhe eram bem características – o que eu te tenho estado a tentar mostrar é que o poder, tal como o prazer, é uma faca de dois gumes. Quanto mais nós exigimos, mais desejamos, e sentimos que nos falta…diria que é como tentar esvaziar um oceano com um balde; e quanto mais conseguimos alcançar, maior é o medo de tudo perder. Não sei se me estás a seguir…
Miguel, como que apanhado de surpresa por esta inflexão no discurso do amigo, parou um momento para pensar na resposta, mas apenas conseguiu balbuciar: - Continua…
- Há algo que não podes contestar, seguramente. Também já cá andamos há um bom par de anos, e somos amigos desde os tempos da Faculdade; se conseguimos aqui chegar foi devido ao nosso grande espírito de competição, à nossa esperteza e destreza política.
- Pedro, isso não só é absolutamente verdade, como também é algo de que muito nos orgulhamos.
- Ora aí tens, Miguel. No entanto há algo que tem sido descurado por muitos e que eu, agora que aqui cheguei, não pretendo negligenciar.
- Referes-te exactamente a quê?
- Nós, políticos, já passámos por tanta infelicidade, já obtivemos tanto poder ou prazer à custa da infelicidade dos outros, que nos consideravam seus amigos, que ela passou a fazer parte de nós. Tornamo-nos por assim dizer vítimas do nosso êxito, dai eu ter dito há minutos que não há coisa que fracasse tanto como o sucesso.
- Confesso que ainda não vi onde queres chegar…
- Diria que estamos perante aquilo a que Freud chamaria o Sindroma do Politico moderno, – e Pedro solta uma estridente gargalhada, que teve o condão de aliviar um pouco a tensão que Miguel aparentava.
- Ah! Freud, esse génio que considerava que a Felicidade era contrária à natureza da existência. Parece que no teu caso acertou. Bem, e aparentemente também no meu. O homem não pode ser feliz, pois tem consciência, tem ego, e nós, meu caro, bem, nós os políticos, temos um super ego.
- Meu caro Miguel, tocaste exactamente no ponto que importa não negligenciar nesta legislatura, – disse Pedro, num tom absolutamente solene – A palavra-chave é controlo. Não se pode controlar uma pessoa feliz. Uma pessoa feliz é livre e não pode ser manipulada; só poderemos manipular as pessoas, as opiniões públicas, aqueles que nos elegem, se eles forem imensamente infelizes.
- Mas como pretendes fazer uma coisa dessas?
- É necessário dar aos eleitores a ilusão de que podem conquistar a Felicidade, de que podem ter coisas novas continuamente, de que se podem divertir quando e onde quiserem, de que vivem num país moderno, europeu, que os apoia incondicionalmente nessa demanda. Há que manter a mente das pessoas ocupadas sempre com o futuro, com o amanhã. Não há nada mais incentivador do que os desejos permanentemente adiados.
- Mas isso não é novo! Já foi usado no tempo da ditadura, e agora, em democracia, o que não falta são motivos de distracção, seja nos “media” ou em grandes acontecimentos desportivos ou musicais.
- Concordo, mas há algo inovador que pretendo fazer: pretendo incluir na Constituição o direito inalienável do povo a encontrar a Felicidade. Miguel, irei propor isso na próxima reunião de Conselho de Ministros. Conto contigo!

Carta aberta

Como eu o entendo, Senhor Dr. Juiz.Como eu bem o compreendo.
Como eu até admiro a sua coragem, a sua dedicação
à Justiça e a este estigmatizado país.
Admiro-o antes do mais por ter abraçado uma profissão que poucos querem, obscenamente mal paga e agora até com poucas férias, quando podia, na esteira do papá , estar em qualquer bancada da nossa Assembleia de notáveis, defendendo os interesses de todos nós,com muito menos sacrifícios.
Mas não, Senhor Dr. Juíz.
O Senhor sacrificou-se e sacrificando-se, sujeitou-se à mais cruel de todas as vivências ,a de ser mal interpretado, mal amado.
Sei bem que não era esta a sua vocação, que mal entende de leis e muito menos de pessoas, mas que raio, por isso mesmo merece, ou devia merecer a admiração de todos nós.
E afinal a que assistimos?
Hoje ouvimos quem peça a sua cabeça , quem o crucifique, e coisa curiosa, não se ouve uma defesa pela boca daqueles seus pares que tão prontamente aparecem nos media quando se trata de degladiar os políticos, esses energúmenos que tiveram o desplante de por exemplo lhes questionar as merecidas férias?
Esses não apareceram hoje ?
Então não lhes interessa vir a terreiro evidenciar uma vez mais a multisecular estupidez do povo português, essa amálgama indecifrável de bárbaros e vândalos, ligeiramente refinados pelas fogueiras da Inquisição e pela Pax Romana?
E tudo isto porquê?Apenas porque V. Exa. deu a filha àquelapobre mulher, que, sozinha, aguentava uma vida miserável, bebendo e trabalhando numa casa de alterne?
Será que o Senhor Dr. tem culpa de viver num país que existe há mais de oito séculos estigmatizado com o complexo de Édipo?
Que culpa tem o Senhor Dr. Juíz de exercer a sua nobre profissão num país que nasceu com o filho a bater na mãe?
Só quem desconhecer esta anormal iniciação, e Portugal infelizmente é um país que sempre se esqueceu da sua história, poderá ficar ou sentir-se ofendido, escandalizado, humilhado, revoltado, furioso, indignado, com a sua decisão, sábia como sempre.
Com certeza que quem bate nos filhos, e direi eu, quem mesmo os matar, SERÁ UMA BOA MÃE. Só assim se vingará essa afronta que foi ver o seu primeiro político a bater na própria mãe.
Vê-se que o Senhor, Sr. Dr. Juíz, conhece bem a história, e bem a mentalidade deste povo pequenino, que apenas se revolta num dia, para logo tudo esquecer no dia seguinte.
Pois que se faça jurisprudência!
Que se leve este caso às Nações Unidas!
Vê-se de igual modo que o Senhor, Sr. Dr. Juíz, conhece bem uma que creio ter sido a frase mais famosa de Salazar, esse nobel que tive a infelicidade de conhecer, que dizia a propósito do bom povo português de onde ele emanou : OS PORTUGUESES TÊM DE TER ALGUÉM QUE OS EMPURRE DE QUANDO EM VEZ.
E o Sr, Sr. Dr. Juíz, fê-lo com classe, com inteligência.
Voltando à sua histórica decisão, que culpa tem aquela pobre mulher que lhe tivessem dado asilo em Portugal?
Que culpa tem a pobre mulher de não ter uma formação adequada?
Afinal de que serviram os cursos financiados que se multiplicaram em Portugal?
Que culpa tem o Doutor que neste país ainda se permita que as mulheres, por ignorância, religiosidade ou outras crenças medievais, dêm à luz seres imperfeitos, que depois só dão trabalho e ajudam a delapidar o já reduzido erário público.
E depois veja o Doutor a hipocrisia.
Então o Estado agora liderado pelos socialistas, não quer reduzir despesas?
Que melhor maneira de aliviar alguma carga, senão a de expulsar mais duas bocas apressando assim o desaparecimento de seres que ninguém quer, de quem nunca ninguém ouviria falar se não fossem estes julgamentos mediatizados.
Com fins políticos, digo eu.
Presto-lhe as minhas homenagens Doutor.
O Senhor está sozinho hoje.
Mas amanhã,seguramente serão muitos os colegas que o seguirão.
E atrevo-me a adivinhar que a estas horas já muitos o felicitaram pela sua coragem.
Então agora as vítimas também têm direitos neste país?Mas onde é que já chegámos?Tiveram por acaso direitos aqueles que os seus colegas de quinhentos queimaram nas fogueiras em Lisboa? Esses bruxos e agnostas.
Tiveram aqueles agitadores que merecidamente foram julgados nos Tribunais do Estado Novo?Não se aflija Doutor.Eu compreendo-o.
Afinal o Doutor não é melhor nem pior que aqueles que criaram os centros de concentração para aqueles miseráveis que tiveram o desplante de nascer sem pai nem mãe.
Não se deixe abater pelas críticas.
As críticas vão e os Juízes ficam.
Vá lá Senhor Doutor, não se apoquente.Hoje à tardinha, quando fôr buscar os seu meninos ao Colégio , ponha Wagner no leitor: olhe, ponha "O anel dos Nibelungos, aquela parte que fala do homem perfeito, de que Hitler tanto gostava, e pense num mundo melhor, de meninos, assim como nós, loiros de olhos azuis, com a vida à sua frente.
E que Deus o perdoe,já que eu não o posso fazer, nem mesmo à distância de um oceano

Como eu vi o governo de José

Depois das eleições para o chamado parlamento europeu, José Sócrates mudou radicalmente, pior ainda, transformou-se completamente.
Tal não surpreende uma vez que o metamorfismo (tal como o patriotismo) é o último recurso dos poíticos (e dos miseráveis).
Ele (o governo) existe agora apenas pelo poder da sua inércia e da sua própria vontade.
Tornou-se numa espécie de furúnculo supurante cravado na psique dos portugueses, que, apesar da sua ignorância das coisas políticas ( e não só, infelizmente ), se apercebe desse tumor.
Tal acrescento purulento precisa urgentemente de ser removido, nem que seja de forma violenta.
Não que a doença não continue com o próximo governo, mas ainda assim aliviará por uns instantes a coçadeira.
Enquanto o pau vai e vem....

Apologia de José Sócrates

Não penso que ele pretenda fazer mal aos portugueses.
Teceu apenas um feitiço à nossa volta que acabou por nos fazer mal, distraindo-nos das grandes questões que deviam ser a nossa preocupação.
Apenas e tão só isso.
Sócrates é um homem sem lar à procura de um lugar no mundo.
Criou uma espécie de domesticidade em algumas casas adquiridas com dinheiro lavado e fez delas o seu refúgio.
A solidão é o destino deste vagabundo da política; ele é um estranho onde quer que vá, existindo apenas pelo poder da sua própria vontade.
Quando foi a última vez que alguma mulher o elogiou e o chamou seu?
Quando foi a última vez que se sentiu verdadeiramente estimado, ou digno, ou valioso?
Quando um homem não é desejado, há uma coisa nele que começa a morrer.
Algo indefinido, mas que lentamente começa a adquirir contornos nítidos e perturbadores.
Um homem precisa de outros homens que se virem para ele de dia e de uma mulher que se aninhe nos seus braços de noite.
Pensamos que ele não tem esse alimento há muito tempo, o nosso primeiro ministro.
Há nele uma luz que se vai apagando lentamente, mas que já brilhou com grande intensidade noutra vida.
É verdade que não se sabe bem como foi essa outra vida.
O nome dele é porém ilustre na sua cidade natal, mas se assim for, ele deverá ter sido excluído da sua protecção.
Quem sabe por que razão ele foi banido?
Verificamos que passámos a divertir-nos com a sua mensagem, mas não cuidamos para já de desvendar os seus mistérios.
Talvez tenha sido um criminoso, talvez até um assassino, não o sabemos dizer.
O que se sabe é que atravessou o mundo para deixar uma história para trás e contar outra, que a história que ele nos trouxe é a sua única bagagem, e que o seu desejo mais profundo é o de seguir os passos de Durão, isto é, quer penetrar na narrativa que nos conta constantemente e iniciar uma nova vida dentro dela.
Em suma, é uma criatura de fábulas, e uma boa ilusão nunca fez mal a ninguém.
Até agora...

Para os eleitores indecisos como eu

Estou de novo perante a situação que desesperadamente pretendi evitar a tanto custo.
Escolher.
Mas escolher implica rejeitar e quando se rejeita perde-se algo.
Que nunca saberemos como teria funcionado, como nos teria influenciado, guiado...
Só, entre escolhos e luminosidades que por vezes nos ofuscam, tento decidir.
Hesito, entre avanços e recuos, tento arranjar algo que conforte a mente a a ajude a decidir.
Mas quem quero eu afinal satisfazer?
Eu, ou a minha mente, essa amante que existe para nos bajular, enganar, desviar.
Ou será que...
Será a escolha apenas um acto académico, desnecessário, face à nossa escolha universal a que chamamos destino?
Como poderei eu escolher o perdão, quando tudo me foi tirado?
Tudo me foi sonegado, menos a esperança, a capacidade de seguir em frente.
Então, suavemente , pouso a mão calejada sobre o boletim de voto.
Rebobino a minha vida e pela primeira vez sinto-me com coragem para escolher.
Fecho o solhos , lentamente, e assino de cruz.
Saio da câmara, gelada e lúgrube, aspiro o ar frio da noite invernosa.
Olho vagamente para o céu, onde curiosamente nenhuma estrela quer ser minha testemunha,
esboço um ténue sorriso de felicidade e percorro pela primeira vez o caminho da escolha definitiva.

Samuel Gacon, o ilustre desconhecido

Apenas quero lembrar uma efeméride seguramente por muitos ignorada, a da primeira impressão de um livro (incunábulo), o Pentateuco, terminado em Faro, minha terra natal, em 30 de Junho de 1487, por Samuel Gacon, um judeu sefardita nascido em Sevilha, e que foi resgatado em 1483 por um antepassado meu, Joseph de Bellis.
Fugindo por milagre às fogueiras da Inquisição dos chamados reis católicos, chegou a Faro, então Santa Maria de Farão em 10 de Outubro de 1480, no barco de Joseph que o foi buscar a Cádiz, e viveu com a sua mulher Sara e pai Levi Gacon na judiaria em Faro (hoje um museu perto da estatua de Afonso III, Vila -Adentro).
Humanista, colaborou na construção da Igreja de S. Pedro, apesar de ser de uma cultura diferente, pois dizia que a casa de deus tinha muitas salas.
Concluiu o Pentateuco, roubado de Faro aquando da invasão por Robert Devereux e Walter Raleigh em 24 de Julho de 1596.
Este livro, uma autêntica preciosidade está hoje na British Library em Londres, e a ausência de uma tentativa de resgate por parte das nossas autoridades , é bem o simbolo do desprezo a que os politicos votam as coisas da cultura.
Para Samuel, Joseph, Sara e Levi as minhas homenagens.

Autoeuropa e Sísifo

A situação a que chegou a indústria automóvel faria prever que o virus entrasse em Palmela, mais cedo ou mais tarde.
Com 5 milhões de desempregados, é natural que a Alemanha exija retornos produtivos disseminados pelo mundo.
Isso não é interessante como base de reflexão.
É apenas inevitável.
O que fascina é que, pelas piores razões, se encontra aqui a confirmação de que as filosofias do desenvolvimento social se alicerçam em princípios falaciosos.
O desenvolvimento do sistema económico já não é determinado pela pergunta: "O que é bompara o Homem? " mas sim por uma outra: "O que é bom para o desenvolvimento do sistema?".
Tentou-se, com a Revolução Industrial, ocultar a desonestidade deste conflito assumindo que o que era bom para o sistema, também era bom para o povo.
E esta interpretação alicerçou-se no facto, inquestionável, que as características que o sistema exige: ganância, avidez e egocentrismo,eram inatas ao Homem, e portanto não é o sistema que é odioso, mas a própria natureza humana.
Nada mais certo.
O funcionário da autoeuropa de repente cai em si e vê que a segurança prometida por patrões e governantes tem pés de barro.
O governo vê neste potencial foco de desemprego apenas um revés negocial, provavelmente incontornável.
A Autoeuropa vê uma oportunidade de dar o próximo passo para a conversão, eventualmente noutras longitudes,para a fábrica automóvel do futuro próximo (carro verde).
Os sindicalistas, fiéis à cartilha, vêem aqui terreno fértil para aconfrontação política, estando como sempre nas tintas para a verdadeira vítima, o trabalhador, que perde muitas vezes a saúde e a vida nesse caminho íngreme que Sísifo já trilhou, na demanda da Felicidade prometida e nunca alcançada.

Justiça ao almoço

Fui almoçar há dias com uns antigos colegas meus do Liceu Nacional de Faro, envoltos naquele desejo de fazer desaparecer o tempo e retornar às alegrias e sonhos da juventude há muito perdida.
Dois desses meus colegas são hoje advogados, não do Diabo, que este não precisa que o defendam ou ataquem, por ser indefensável e inatacável, mas sim das causas nacionais e internacionais que, se não têm a virtude de ser nobres, são pelo menos financeiramente atrativas.
Moços do meu tempo, que na vida pública aparecem revestidos daquela rigidez inerente aos que usam toga e têm o poder de julgar nas mãos, deixam subitamente cair as várias máscaras com que foram revestindo a sua inocência há muito perdida, e voltam a ser meninos entre o Private Selection e o conhaque da Herdade do Esporão.
Estava um pouco em desvantagem pois tendo seguido uma carreira técnica, levei algum tempo a reentender a linguagem dos patifórios, demasiado intrincada e envolvente nos primeiros instantes.
A pouco e pouco a linguagem que sempre cobre a máscara última foi sendo retirada, não sem alguma dificuldade, pois de tanto ser usada a máscara confunde-se com a pele, e percebi que pelo menos um dos meus ex-colegas estava com um problema de consciência.
Dizia ele, com alguma sinceridade, tanto quanto pude perceber, que tinha sobre si a dúvida que muitas vezes o assolava sobre a maneira de estar a contribuir ou não para a justiça.
Teria ele prejudicado alguém gravemente pelo facto de ser um demagogo?
Teria ele ilibado malandros, que os há para aí aos montes, e sacrificado inocentes a troco do vil metal, duma forma insensivel?
(Para mim não há a amenor dúvida)
Consolei-o, enquanto saboreava o magnífico Torre com que fomos brindados pela administração do Bolotas & Vinagre:
Meu caro M., dá sossego à tua alma. Se alguém foi condenado sem ser culpado, é seguramente culpado por ter sido condenado. E mais, dada a natureza humana dos advogados e mesmo dos juizes, eles são falíveis.
Infalível só o nosso actual Presidente.
Mas este não é humano.
De qualquer modo, justiça faz-se sempre.
Se não for nesta vida, será certamente na outra.
Descansa e aproveita os sonhos.
Não sei se ele acreditou ou se quis ser simpático.
Mas voltou a sorrir.
Assim vai a Justiça em Portugal.

Política e religião

O problema das religiões é que transformaram a eventual verdade divina em dogmas.
E, tal como os políticos, os chamados "religiosos" vivem de promessas.
Há três mil anos.
Promessas que sabem não poder cumprir e que não têm qualquer vontade de cumprir.
E, como se pode constatar,vivem também na dependência do vil metal.
O dinheiro, que aguça a fé.
Em suma, a política e a religião têm um pacto alicerçado na ideia de pecado, e competem no mesmo mercado.
O da inconsciência colectiva

Dia do Pai

Há quem defenda que ser Pai é um direito.
Há quem diga que ser Pai é um dever.
Há ainda quem sustente que ser Pai, afinal, é uma dádiva...
Eu acho que ser Pai é um renascimento.
Começamos por ser filhos, nós, os futuros pais, e nunca estivemos tão perto da Verdade, ou de Deus, como na altura do nascimento.
Habituamo-nos depois aos conhecimentos impostos , sempre por amor, pelos pais, pelos familiares, pelas escolas, pelas amantes, e perdemos o contacto com a pureza.
Então, no auge do nosso conhecimento, começamos a afastarmo-nos daquele que em tempos fora o nosso herói, o nosso protector, mesmo na invisibilidade.
Começámos a saber.Ou a pensar que sabemos.
Deixamos de ouvir, ou pelo menos fazemo-lo por delicadeza, quando ela existe, o nosso Pai.
Está velho, ultrapassado. Não tem a posição social do pai da nossa namorada, ou do nosso melhor amigo.
No entanto ele continua a amar-nos.
Continua a proteger-nos da nossa ignorância, da nossa vaidade, da nossa inconsciência.
Tudo absorve como um amortecedor, muitas vezes em silêncio, desgastando-se e perdoando sistematicamente.
Há quem diga que os filhos geralmente saem de casa para não assistirem à degradação física dos pais, à sua morte.
Eu hoje creio que o fazemos para esquecer o que o Pai representa.
Temos que perder essa sensibilidade.
Só se recupera depois de se perder.
Hoje somos pais e entendemos. Entendemos o permanente cuidado que tínhamos por controlo, entendemos o não, que tínhamos por prepotência.
Entendemos que estar do outro lado é muito difícil.
E só se consegue suportar essa tarefa com amor.
É essa a dívida que nunca poderei pagar ao meu Pai.

Paradoxo

As qualidades que são precisas para governar não são as que se devem ter para subir ao poder.
Se o eleitor soubesse isto, estaria confrontado, no acto eleitoral, com uma impossibilidade e não votaria.
Para gerir bem os negócios públicos, é necessário esquecer-se de si mesmo, não se interessar senão pelos outros, sobretudo pelos mais desafortunados;
Para chegar ao poder, é indispensável ser-se o mais ávido dos homens, só pensar em si mesmo, estar pronto a esmagar os amigos mais queridos, os companheiros de estrada.
Deverámos assim votar em políticos com uma bipolaridade controlável pelo eleitor.
Ele deveria ser até à eleição um perfeito facínora, e quando no poder o mais consciente dos homens.
A escolha é sua.

Comissões de inquérito parlamentares

As comissões parlamentares de inquérito às falcatruas e roubos no sistema financeiro são no mínimo risíveis.
Penso até, em consciência, que estas comissões servem essencialmente para três coisas :
1 . Justificar a existência de parlamentares.
2 . Dar tempo de antena aos partidos políticos.
3 . Fazer uma lavagem dos crimes e dos criminosos.

Do mesmo modo que a consciência não se pode controlar a si própria, também os nossos políticos nunca poderão julgar ou condenar os seus pares, aqueles que roubaram depois de terem sido políticos, julgando-se intocáveis,ou os que ingressaram na política depois de roubarem, para se imunizarem.
A verdade é indivisível e não se pode conhecer a si própria.
Quem disser o contrário só pode estar a mentir.
De qualquer modo, ainda que subitamente, a consciência colectiva das comissões emergisse, o mais difícil não seria encontrar os culpados.
O difícil, o verdadeiramente impossível, seria encontrar inocentes.
O Polvo.....

Josef Fritzl

Se Josef Fritzl tivesse sido julgado em Portugal, pela chamada Justiça Portuguesa, não seria de admirar que o quadro penal adequado não fosse além de 3 a 5 anos de prisão, e no fim, por falta de provas de homicídio, o Senhor Doutor Juiz condená-lo-ia a três anos de pena suspensa, com obrigação de apresentações periódicas na esquadra da área da sua residência.
Seria obviamente proibido de contactar com a filha, que o terá seduzido anos atrás, para evitar problemas futuros.
Com os filhos-netos, e uma vez que não ficou provado o crime de pedofilia poderia continuar a haver contacto, desde que a mãe não estivesse presente.
Haveria seguramente lugar a recurso por parte do advogado de Fritzl, pois achava-se injustiçado, nomeadamente pelo facto de em 24 anos nunca a filha ou os filhos desta terem pago qualquer renda d ecasa que habitaram naquele lapso de tempo.
Como nunca alguem testemunhou o caso, podia eventualmente argumentar-se que tal não passou de uma mistificação, o qu epoderá, à sombra da lei portuguesa vigente, dar origem a um pedido de indemnização ao Estado Português.
Josef Fritzl iria ainda solicitar ao Tribunal autorização para se ausentar durante três anos para o Funchal, em cuja esquadra se apresentaria,isto por indicação do seu médico psiquiatra, pois a ausência forçada dos filhos poderia ser prejudicial à sua já tão abalada saúde. Apanharia sol com fartura, e , numa acção promovida pelo Governo Regional, iria encontrar-se com crianças orfãs da Camacha para que se pudesse , duma forma lenta mas eficaz, integrar o mundo das crianças, de onde nunca deveria ter saido.

Crematorium

Para mim, o renascer diario é mais um castigo para a imperfeição humana.
Fôssemos nós capazes de ter um dia perfeito, e não seríamos obrigados a repeti-lo.
Completar a tarefa num único dia.
Mas tal parece que apenas é permitido a uma espécie rara de borboletas na Mata Atlântica.
Estarei eu completamente enganado?
Será que a vida é apenas para viver?
Não serei eu igual a estes que morrem lentamente em Faro?
Porque sou poupado quando tudo aponta para a última viagem?

Democracia e o resto

Esta coisa tão mesquinha do denegrir o sucesso dos outros é muita nossa.
Esta coisa de ostentar e comparar títulos, diplomas, insíginas, galões e outros sinais de distinção (social) é muito nossa.
É muita própria dos primatas sociais e territoriais que nós somos.
Não sei se é própria dos hominídeos em geral, enquanto género, ou se é exclusiva da espécie Homo Sapiens Sapiens Lusitanus.

Dizem para aí as más línguas que o "Eng" José Sócrates foi salvo por Lucílio.
Na medida em que o pontapé dos 11 metros se tornou no tema nacional.
Não sei.
O que constato como lógico é o facto de um servo de Deus, de aldeia, e por isso mais perto do silêncio, mais perto da Verdade,mais perto do Senhor, ter banido Lucílio da pia batismal.
Este é um sintoma claro de maturidade, de omnisciência.
O padre sabe, por contacto divino osmótico, que Lucílio é a distração, a escapatória do "Eng".
Quanto menos Lucúlos houver, maior será seguramente a concentração nacional.

A nova mulher

A mulher literata, insatisfeita, excitada, vazia de coração e de entranhas, que a todo o momento escuta, com uma dolorosa curiosidade, o imperativo que desde as profundezas do seu organismo lhe sussurra : aut liberi aut libri.

A mulher literata, bastante culta para entender a voz da natureza, mesmo quando esta lhe fala em latim, e, por outro lado, bastante vaidosa e estúpida para, em segredo, dizer tambem para si própria em francês: je me verrai, je me lirais, je méxteasierai ...

Escola mental

Não é necessário saires de tua casa.
Continua sentada à secretária, ouve.
Não ouças sequer, espera simplesmente.
Não esperes, sequer, sê absolutamente solitária, absolutamente silenciosa.
Então o mundo irá oferecer-se a ti para se fazer desmascarar, não pode agir de outro modo.
Sob o teu encanto, desenrolará anéis a teus pés

Gran Torino

Fico com a sensação de Walt ter falhado esta sua viagem, apesar de tudo.
O facto de sermos solidários, de tomarmos como nossas as lutas dos outros,não chega.
É preciso vencer essas lutas,e por vezes cometemos o erro básico de entrar em guerras que não podemos vencer.
Walt ainda não consegui seguir os conselhos do velho Sun Tzu.
É demasiado inexperiente para tal.
Demasiado humano.

Candidato

Nestes dias difíceis para mim, em que me envolvo, talvez excessivamente , na campanha eleitoral,os pensamentos são demasiado confusos, mas muitos dirigem-se para ti.
Abandonar lentamente a nossa consciência é um processo extremamente calmo, sedutor.
Há um total abandono, desprendimento, como no amor consciente.
Deixarmo-nos ir, devagar, ouvindo apenas em ruído de fundo vozes de anjos.
Emociona-me saber que há pessoas, algumas totalmente desconhecidas, que me puxaram desesperadamente para cima...alguma coisa devo significar para elas.
Quase que me apetece continuar a lutar por eles, por pessoas como tu....

De Farão a Faro, a mesma sina

Curiosamente, amigo, em 25 de Julho de 1596, quando os ingleses, comandados pelos "playboys" de Elisabeth, Robert Devereaux e Walter Raleigh, incendiaram e pilharam Faro (na altura Farão), apenas encontraram farenses nas camas do hospital ao lado da Misericórdia.
Seria essa a visão que Gacon teve 110 anos antes e que tu agora nos revelas?

Reis Magos

A propósito dos Reis Magos,e devido a uma anedota sobre a mulher ,que ouvi sob os céus Bolivianos ,decidi escrever estas linhas e repor a verdade histórica... Direito por linhas tortas escreve por vezes o blogador: de facto, os visitadores eram mulheres, a saber:
(i) Crucha de Mael, bela, inteligente, superioridade no porte, mas que não sabia resistir às paixões;
(ii) Semiramis de Babilónia e
(iii) Pentesileia, rainha das Amazonas.
A primeira tinha dois chifres na testa, que dissimulava com abundantes caracóis da sua cabeleira dourada;
A segunda tem um olho azul e outro preto, o pescoço ligeiramente inclinado para a esquerda como o de Alexandre da Macedónia ;
A ultima tem seis dedos na mão esquerda e uma cabecinha de macaco por baixo do umbigo.As três têm em comum o porte majestoso e o trato afável.
São magníficas nos dispêndios, mas nem sempre sabem submeter a razão ao desejo.
Foram elas convidadas pela filha rebelde de Herodes, Salomé, a estar presentes na gruta, não devido aos atributos citados, mas sim devido à sua voluntariedade de carácter transitório, tão bem descrita por Nietzsche.
Com efeito, naquele tempo já a mulher era uma armadilha habilmente montada, sendo o seu delicioso atractivo exercido mais poderosamente à distância: representava assim a primeira tentação.---quem poderá esquecer as autoflagelações dos monges medievais depois de visualizarem os maravilhosos flancos femininos...Não esqueçamos porém que a filosofia predominante na altura era a Aristotélica (ou Aristoteliana, segundo alguns exegetas), pelo que não se podia contar a história no feminino...
De facto o feminino era considerado um erro ou mesmo um equívoco da Natureza... Daí a versão barbuda dos visitadores [os Reis Magos] que chegou até aos nossos dias.
Espero ter contribuído para a reposição da verdade, seja ela qual for.

Felgueirização

Fátima......
E se a Justiça tivesse querido funcionar, por uma vez…?

Levou-me tempo a encontrá-la, mas já está. Como foi que a reconheci? Não sei. E o que é que terá podido mudá-la tanto? Talvez a vida, as tentativas de amar, de comer, de escapar aos justiceiros. Enfio-me nela, sem dúvida na esperança de vir a saber alguma coisa. Mas são terrenos sem destroços nem rastos, à primeira vista. Mas acabarei por lhe dar com a pista.

Foi em plena cidade que a localizei, sentada num banco. Está hoje quase uma velha. Como foi que a reconhecei? Pelos olhos, talvez. Não, não sei como a reconheci, não vou retratar nada. Talvez nem seja ela. Pouco importa. Agora é minha. É um ser ainda vivo e inútil dizê-lo do sexo feminino, vivendo dessa vida prestes a terminar, que é como que uma convalescença, se as minhas recordações são minhas, e que se pode saborear saltitando atrás do sol, ou debaixo da terra, nos labirintos do metropolitano. A toda a volta, a vaga dos ocupados permanentes, tirando bilhetes, carregados de bagagem, eternamente no lugar onde não deveriam estar, à hora que não deveria ser. De que mais preciso? Sim, os dias foram então curtos, e muito cheios, em busca do calor e de uma coisita ou outra não demasiado má para comer. E imaginamos que vai ser igual até ao seu fim. Mas de repente tudo começa a enfurecer-se e a rugir, estamos perdidos no meio das ervas que estalam ou lançamo-nos através das estepes batidas pela tempestade, a perguntar se não morremos sem dar por isso ou se não nascemos outra vez algures. Custa então acreditar nesses anos breves, em que os padeiros eram com frequência tão indulgentes, ao fim do dia, e as maçãs, sempre gostei de maçãs, por isso dizer gratuitas quando se sabia como as coisas se faziam, e em que havia sol e abrigo para quem deles realmente precisasse. Mas é de mim que se trata! E lá está ela muito sossegadinha no seu banco, de costas para o rio, e vestida como vamos ver, embora as roupas não contem, eu sei, eu sei, mas nunca terá outras, sinto-o bem. E se já as tem há muito tempo, a avaliar pelo seu ar vetusto, não importa, serão as ultimas. Mas é o casaco, sobretudo, que é notável, que a tapa e subtrai aos olhares. Porque está bem abotoado, de cima a baixo, por meio de quinze botões no mínimo, afastados no máximo de três a quatro centímetros uns dos outros, que nada deixa transparecer do que se passa lá dentro.
O problema é que ela não se mexe. Desde manhã que continua no mesmo sítio e já começa a anoitecer. Será noite dentro de uma hora. Estão a ser rebocadas as últimas embarcações de carga, com as suas chaminés pretas e vermelhas, cheias de tonéis vazios. A água começa já a embalar, a apagar com o seu murmúrio e depois em grandes charcos tremulantes a desdobrar de novo as chamas longínquas do poente, laranja, verde e rosa. Ela vira-lhes as costas, mas talvez o rio lhe apareça no gritar medonho dos urubus que a noite aglomera, em paroxismos de fome, à volta das bocas de esgoto, diante do hotel Othon. Sim, também eles, antes de alcançarem os altos rochedos nocturnos, se transtornam uma última vez por cima dos detritos. Mas aquilo que ela enfrenta são as pessoas, numerosas a esta hora na rua, terminado o dia activo, com todo o longo serão diante delas. As portas, as dos escritórios, as dos armazéns, e as outras portas, vomitam cada uma delas o seu contingente. Os grupos assim devolvidos à liberdade mantêm-se por um instante compactos, no passeio, na berma, como que aturdidos, depois desagregam-se, tomando cada ser o caminho que lhe foi marcado.

Mas enganar-se-ia quem pensasse que ela não voltará a mexer-se, que não mudará mais de lugar nem de atitude, pois que tem ainda a velhice toda à sua frente, e depois, a seguir, essa espécie de epílogo onde não se percebe lá muito bem o que acontece e que não parece acrescentar grande coisa ao já adquirido, nem retirar-lhe nada da sua confusão, mas tendo com certeza a sua utilidade, um pouco à maneira como também deixamos secar o feno antes de o armazenarmos.

Portanto ela levantar-se-à, queira ou não queira, pois para se morrer tem de se andar de um lado para o outro, para trás e para diante, a menos que se tenha alguém que nos reabasteça sempre no mesmo sítio. E podemos estar dois, três e até quatro dias sem nos mexermos, mas o que é isso, quatro dias, quando temos a velhice à nossa frente, e depois os vagares da evaporação, uma palha. É verdade que ainda não o sabemos, julgamos estar presos apenas por um fio, como qualquer um, mas não é aí que se esconde o gato com o rabo de fora….

Patagónis do Luis

Que fazer quando finalmente obtemos aquilo com que sempre sonhámos, que sempre desejámos?
Quem é capaz de escapar ao que diz a palavra desejo?
Nem as roupas, nem o silêncio, nem a noite, nem as máscaras, nem sequer os pensamentos voluntários conseguem dissimular completamente a vergonha dos fantasmas que nos enlouquecem.
Aquele que decidisse implorar piedade pelo seu desejo, imploraria em vão.
O tipo que tenho à minha frente, que me oferece a cabaça do chá-mate e que a seguir mexe as brasas do fogão, chama-se Nicanor e é ao mesmo tempo, o melhor e o mais conhecedor dos batedores.
Também tem um apelido, mas exige que eu nunca o referencie a ninguém.
É ele que me vai levar e a mais doze almas, à Patagónia.
A avioneta começou a correr pela lama, e olhando para o painel de comandos do aparelho, dá-me vontade de saltar.
O ponteiro do horizonte não funcionava e o indicador de combustível há muito desapareceu.
Mas confiamos na sorte.
Descolámos, sem saber como nem porquê.
Quanto não vale esta viagem ao interior de nós próprios, dos nossos mais inconscientes receios?
Voamos agora sob um tecto de nuvens espessas e cinzentas.
O ar quente das tempestades apropriou-se da cabina.
Com algum alívio vi que a bússola funcionava: íamos para sudoeste.
Vinte minutos depois vimos a linha verde serpenteante de um rio, o Huapuno, um afluente do Amazonas.
Vamos voar sobre a selva sobre um tapede verde inconfundível.
Já há quem consiga sorrir.

Estilos linguísticos

Que bem dilatada que está a nossa capacidade de resignação
Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar "afro-americanos" aos pretos, com vista a acabar com as raças por via gramatical - isto tem sido um fartote pegado!
As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas" e preparam-se agora para receber menção de "auxiliares de apoio doméstico."
De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos " ; passaram todos a "auxiliares da acção educativa".
Os vendedores de medicamentos, inchados de prosápia, tratam-se de "delegados de informação médica". E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em "técnicos de vendas".
O aborto eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez".
Os gangues étnicos são "grupos de jovens"; os operários fizeram-se de repente "colaboradores"; e as fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas da estranja são "centros de decisão nacionais".
O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à "iliteracia" galopante.
Desapareceram outrossim dos comboios as classes 1ª e 2ª, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".
A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...» ; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental...» - eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante.
Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um "comportamento disfuncional hiperactivo".
Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação" , os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, "crianças de desenvolvimento instável".
Ainda há cegos, infelizmente, como nota na sua crónica o Eurico.
Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual". (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o "politicamente correcto" marimba-se para as regras gramaticais...)
Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em "implementações", "posturas pró-activas", "políticas fracturantes" e outros barbarismos da linguagem.
E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.
Já agora, as putas passaram a ser "senhoras de alterne".
ESTAMOS LIXADOS COM ESTE "NOVO PORTUGUÊS", não admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamentos e stress, já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma "POLITICAMENTE CORRECTO".

Telemarketing, a defesa

É cada vez mais frequente receberes em casa chamadas de operadoras de telemarketing tentando impingir-te tudo e mais alguma coisa: planos de saúde, fundos de pensões, cartões de crédito, abertura de conta em novos bancos, edições especiais de livros raros, as sagradas escrituras em papel bíblico, férias de sonho, pinturas do Miguel Ângelo (!), peças únicas da arte dos sumérios (!), time sharing, conjuntos de porcelana da Vista Alegre, música clássica ao quilo como o bacalhau da Noruega, mobílias em pinho sueco, telemóveis, electrodomésticos, aparelhos de fitness, cursos de inglês à distância, etc.
Eu fico sempre à beira de um ataque de nervos quando do outro lado do fio ouço uma voz assexuada e autoritária a perguntar por que razão é que ainda não fui levantar o prémio... Diz-me lá, ó blogador, como é que tu podes defender-te destas técnicas invasivas, desta intolerável intromissão na tua vida privada, deste descarado abuso do teu número de telefone ?...
Como, diz-me lá tu?
Há quem veja nisto um sinal de maturidade do capitalismo selvagem que se instalou, com armas e bagagens, nas nossas ruas e praças, substituindo as feiras e mercados da nossa infância.
Outros dizem-me que este é o preço a pagar por viveres, rico, feliz e livre, numa economia de mercado e num mundo globalizado.
Eu sei que do outro lado está uma rapariguinha desesperada por te vender qualquer merda e, com isso, ganhar os primeiros euros da semana ou até do mês.
Mas este não é o paraíso, é o mundo cão onde tu vives.
Hoje a condição feminina passa também pela desumana experiência de trabalhar em empresas (?) de telemarketing, em call centres e outros locais de tripaliu(m).
Resposta: Bem, não sou propriamente especialista em técnicas de sobrevivência.
Limito-me, por isso, a deixar aqui algumas dicas que me mandou um amigo:
1) Quando a fulana te perguntar "Como está?", responde-lhe: “Enchanté!... Estou muito feliz por alguém como você se preocupar comigo”...
2) A seguir acrescentas: “Como você é uma garota simpática, vou apontar tudo direitinho... Dê-me só cinco minutos, vou comprar uma esferográfica e uma folha de papel na tabacaria em frente”.
3) Quando a operador te disser: "Bom dia, fala da empresa Alegria do Lar – Arte & Design Lda”, obriga-a a soletrar todas as palavras... É a tua vez de massacrá-la. Pede-lhe o número de contribuinte, a morada, o fax, o telefone, o montante do capital social, o código da actividade económica (CAE-Rev 2, a quatro digitos), o nome do sócio-gerente, o endereço de e-mail, o endereço da página da firma na Internet, e por aí fora.
Pergunta-lhe se a empresa tem os impostos e os salários em dia, se é socialmente responsável, se protege o ambiente, se pratica a cidadania empresarial, se tem médico do trabalho...
4) Quando a pessoa se apresentar (por exemplo, "fala a Diamantina"), dá um gritinho, histérico: "Diamantina? Olá, querida ! Não pode ser ! Mas és tu mesma ? Há quanto tempo não tinha notícias tuas!... Mas será que ainda te lembras de mim ? ... Não ?!... Sim, da última vez que fomos à Feira Popular comer sardinhas assadas!"...
5) Se a voz assexuada e autoritária te ligar para te dizer que tens um prémio, a levantar no sítio tal, das tantas às tantas, responde com a voz dos que precisam e que pedem esmola à porta das igrejas : "Sou tetraplégico, vivo numa cadeira de rodas, não posso deslocar-me aí a não ser através da ambulância dos bombeiros ou do mini-autocarro da Carris... A menina faz isso por mim, por amor de Deus, por piedade cristã ? Trata da minha deslocação?”.
6) Se alguém te quiser impingir cartões de crédito, planos de pensões ou seguros de vida ou outros produtos financeiros, responde-lhe que essa oferta caiu do céu... De facto, (i) acabaste de ser despedido do emprego, (ii) soubeste há um mês que estavas com sida, (iii) que vais morrer em menos de um ano e (iv) que a família te vai pôr num sidatório em Cuba...
7) Ou então mostra o teu lado sinistro de mau cidadão, conta a tua verdadeira história de delinquente: de momento, estás em liberdade condicional, depois de dois anos a cumprir uma pena de prisão por tráfico de droga.... Estando integrado num programa de reinserção social para reclusos, não podes tomar nenhum decisão financeira sem a competente autorização da senhora doutora assistente social...
8) Se te pedirem pelo cartão de crédito, pede a pessoa em casamento... O argumento é respeitável e de peso: “O número de cartão de crédito, entre outras coisas, só o dou à minha legítima esposa”.
9) Brinca com a família da pessoa que te telefona: “Então como vai a nossa tia Zulmira? E os primos Pipi & Bibi ?”...
10) E, por fim, diz à pessoa que estás muito ocupado de momento mas que, se ela te der o número de telefone de casa ou de telemóvel, terás muito gosto em falar com ela mais tarde, com todo o tempo e vagar. Quem sabe, poderão um dia destes encontrar-se, conhecer-se pessoalmente, ir ao cinema, jantar fora, passar pela discoteca ou até mesmo dar umas quecas... É claro que a menina do telemarketing recusará a tua proposta indecorosa e é capaz de começar a insultar-te: “Seu malcriado, seu indecente, sua besta!!!”.... É altura então de lhe dares a estocada final: "Eu imagino que você não queira ser importunada e, muito meno, ver a sua vida privada devassada. Eu também não. Não me volte a chatear!" (...e desligas o telefone).
O meu amigo diz que a técnica resulta, põem logo o teu número de telefone na lista negra.
Nunca experimentei, falo de cátedra.
Nunca passei do 1º passo, o qual desarma qualquer operadora de telemarketing, por mais batida que seja: “Ó querida, deixei de ir levantar os prémios, tenho uma assoalhada cheia deles até ao tecto, não tenho mais espaço para os guardar”... Ou noutra variante: "Ah!, o Prémio... Pensei que fosse o Prémio Nobel da Literatura... Sabe, sou o maior escritor do meu bairro...".

PORTUGAL - A Origem do Mal

A sala estava mergulhada na penumbra e o ambiente era de grande austeridade, contrastando claramente com a afabilidade dos dois homens, Durão Barroso e José Sócrates.
- O tempo é o mundo e a Eternidade é Deus, José. Se quisermos assegurar a nossa passagem à Eternidade temos de controlar o mundo.
- Quer dizer, o homem, Durão.
- Certamente meu amigo! Devemos garantir os interesses europeus, que são os nossos, através de uma mão de ferro no mundo civilizado.
- Tens de te acautelar, pois as forças contrárias são muitas e muito fortes. Podes contar com a minha colaboração incondicional.
- Agradeço-te meu amigo, e tenho de facto algo a pedir-te nesse sentido, de extrema importância para o futuro da Europa.
- Tudo o que estiver ao meu alcance.
- Entreguei-me de todo o coração a esta missão, José, e nada nem ninguém me fará recuar. Tenho esperança que a velha Europa reencontre os caminhos da esperança há muito perdidos.
- Tens então esperança de ser bem sucedido…
- Se não tivesse esperanças em melhores tempos e em ser útil à Europa, não me tinha conservado em Bruxelas, Deus o sabe, como preso, durante três anos, entre uma dor que se renovava quotidianamente e uma esperança muito longínqua! Acometido por mil tempestades, a minha vida tem sido uma agonia continuada.

A Origem do Mal - parte 2

José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal e dos Portugueses e Portuguesas, viera visitar o amigo, um ano depois da sua investidura como Presidente da Comissão Europeia (CE), com o nome de José ou Joseph.
Era grande a amizade entre estes dois homens, que decidiram dedicar a sua vida à fé política.
Durão Barroso nascera na diocese de Lisboa, filho de um pequeno proprietário de terras, e tornou-se primeiro-ministro de Portugal, na época em que José Sócrates dirigia o partido socialista, então como oposição, onde o espírito feudal iria encontrar o seu pleno equilíbrio católico.
O actual Presidente da CE, europeu convicto, impressiona os portugueses e o mundo, não só pela sua capacidade de trabalho e inteligência mas essencialmente por dominar fluentemente várias línguas.
Em Novembro de 2004, ali foram procurá-lo as altas esferas da CE ,com o intuito de o convidar a suceder ao italiano Prodi num cargo que mais ninguém queria, alegadamente por ser mal remunerado, e ser vazio de poder.
Tal método de designação de um Presidente da CE, válido na altura, revelar-se-ia abusivo. Durão Barroso, como Presidente da CE, adoptou o nome de Cherne Joseph.
Levou o amigo Vale de Almeida consigo para Bruxelas e nomeou-o arquidiácono, primeira dignidade do Sacro Colégio de Comissários Europeus e administrador das Relações externas...

A Origem do Mal - parte 3

O estado de decadência em que se encontrava a CE fazia-o sofrer, ao mesmo tempo que aumentava a sua disposição e ânimo para uma autêntica luta.
- Mas agora és o Presidente, és o mais importante, e como tal estás em excelente posição para lutar pela Europa, por nós.
- Sem dúvida, meu amigo e é por isso que pedi que viesses a Bruxelas. Tenho um grande sonho que pretendo realizar em vida. Muita coisa está mal na Europa, no mundo civilizado.
- O espírito das trevas é muito poderoso e está a afastar as pessoas da Fé política. Sabes que tenho lutado contra isso toda a minha vida.
- Bem sei, meu amigo, tu és a excepção. A minha observação do mundo político diz-me que é muito difícil encontrar alguém como tu, pois raros são aqueles que chegam ao topo por vias legais, e que levem uma vida conveniente, conduzindo os seus eleitores(e contribuintes) no espírito de caridade, e em direcção ao redil.
- E se falarmos dos príncipes por aí espalhados…
- Não conheço nenhum que prefira a glória do seu país à sua própria glória, a justiça ao interesse…são piores que os judeus ou mesmo os pagãos!
- Como sabes, estou activamente empenhado e até aqui com sucesso, pela graça de Deus, na luta das investiduras, no que concerne a dádivas de regalias aos países da UE.
- Presidentes e Chefes de Governo de toda a Europa comportam-se como grandes senhores feudais, e sendo pessoas de pouca fé, veneram mais a propriedade que a Deus.
- Esse é o maior problema que se nos depara, pois a fidelidade, que devia ser dada à Europa e à Democracia, é canalizada para os "boys" que os empossaram.

A Origem do Mal - parte 4

O problema colocava-se nas grandes Empresas multinacionais que a Comissão europeia possuía.
Com efeito, nos últimos dez anos ela havia recebido numerosas doações de negócios falidos, e os barões e outros poltrões de toda a Europa administravam tais monopólios virtuais como grandes senhores feudais.
Surgia, assim, o problema político da relação temporal entre o Presidente da Comissão e os diferentes poderes políticos da CE.
Era natural que o PCE (Presidente da Comissão Europeia) exigisse uma certa sujeição temporal dos governos, enquanto senhor de grandes Empresas falidas na CE.
Mas, pouco a pouco, para assegurar essa fidelidade, os governos europeus passaram a nomear Comissários de sua confiança para as grandes áreas de actividade.
Durão Barroso então investia-os com uma espécie de anel e báculo.
Não apenas lhes outorgava a área de intervenção como feudo, mas também decidia quem seria sagrado director.
Em vista disso, geralmente os candidatos às diversas comissões, tinham uma espécie de cheque em branco para conseguirem de qualquer forma a eleição.
A autoridade jurídica da CE sobre os Comissários assim nomeados perdia-se, porque eles ficavam sujeitos à autoridadepolítica do país ae origem.
Este tipo de investidura tornou-se, pouco a pouco, um facto consumado que era necessário erradicar, sob pena de a CE perder a sua independência.
E ainda, para piorar as coisas, os Comissáriosassim nomeados peloPCE pretendiam que o seu cargo se transmitisse por herança à sua família.
Para isso, procuravam ter descendência, e não olhavam a meios par ao conseguir.
- Essa é a minha luta de mais de três anos, José Sócrates.
- E tem sido travada com a máxima sabedoria, meu amigo. As notícias das tuas sábias reformas têm chegado a Lisboa.
Rezo pelo teu sucesso, que é o nosso, incessantemente.
Os nossos contribuintes em Portugal também...

A Origem do Mal - parte 5

- Conseguimos algo de muito valioso, sim, Sócrates, pois a hierarquia política europeia foi reformada dum modo por todos aceite.
- Não sem alguma resistência, Durão, pois não é fácil, mesmo para os europeistas convictos como nós, abandonarmos o poder pessoal, a riqueza que nos advém dos cargos que ocupamos.
- Se falarmos então dos "off shores"…gracejou José Manuel.
- Com a graça de Deus conseguirás demover também os mais renitentes.
- Os alemães são muito mais renitentes, demasiado ricos para se preocuparem com Deus.
Angela Merkel mantém-nos bem presos pela bolsa.
- Mas sei que te surgem novos apoios, colaboradores que lutam heroicamente pela verdade.
- Sim José, e são atitudes como essas que me enchem a alma de coragem e alegria para prosseguir a minha cruzada.
- Foi preciso muita coragem para teres decretado este ano, pela Quaresma, que os barões e nicolitas seriam excomungados se não renunciassem aos cargos ilegitimamente adquiridos, ou à presidência da sempresas fictícias, contrariamente à lei europeia.
- Ganhaste com isso um inimigo perigoso, ardiloso.
- Sarkozy é um déspota, mas com a ajuda de Deus, conseguirei vencer, e comigo toda a Europa civilizada...