sexta-feira, 1 de setembro de 2017

CENTRO DE SAÚDE - Short story

Eram 10 horas da manhã.
A fila de utentes estendia-se até ao parque de estacionamento.
A maioria, pessoas de terceira idade, mas também muitas mulheres grávidas e algumas crianças, e também algumas pessoas aparentemente saudáveis que começam o dia com uma ida ao centro de saúde. Um hábito de que não prescindem, antes da caminhada matinal, da bica e do cigarrinho numa esplanada da zona.
O velho chegou, e devia estar muito doente.
Tinha uns olhos típicos de um indivíduo que foi baleado no estômago por uma arma de calibre quarenta e cinco.
O velho ficou sentado à sombra, gemendo, enquanto o acompanhante se dirigiu para o interior do CS, pedindo desculpa pelo acto aos muitos utentes na fila.
- Bom dia, minha senhora - dirigiu-se à recepcionista, que estava ao telefone, aparentemente indiferente - há aqui algum médico que possa ver o meu pai rapidamente?
- Agora não temos cá nenhum médico, - disse a telefonista, visivelmente incomodada por ter que interromper o telefonema - o Doutor G. só vai chegar por volta do meio-dia.
- Meio-dia? Assim o meu pai ainda morre ali fora.
- Lamento, mas o Doutor saiu ontem daqui à pressa para abrir o seu novo consultório na baixa, e ainda lá deve estar a tratar da burocracia. Sabe como são estas coisas. O Estado paga tão mal aos médicos, que eles coitados têm que se virar. Veja que o Senhor Doutor JL apenas ganha 8000 Euros por mês para trabalhar 6 horas diárias.
- Só? Mais do que isso ganho eu num ano! Coitado.
- Pois! O que vale é que ele praticamente só cá vem metade desse tempo, por causa das eleições.
- Eleições para a Ordem dos Médicos?
- Não! Para a Câmara.
- Mas então não há aqui nenhum profissional de saúde que me possa ajudar?
- Vou ver se encontro alguém - Já volto a ligar-te,! - diz entretanto para o outro lado da linha, tenho aqui um problema.
Desliga o telefone, desaparece no interior do CS, e regressa pouco depois com um ar desalentado.
- Só me faltava mais esta. A Enfermeira Chefe só vai cá estar às duas da tarde.Coitada, provavelmente está a dar apoio ao Dr. G, de quem é muito chegada. Mas também de pouco serviria, pois ela está desligada da profissão há muito tempo. Agora só faz a gestão possível.
- Gestão? - Diz o acompanhante do velho moribundo?
- Sim, que pensa? O Estado finge que pega e a Senhora Enfermeira finge que trabalha. É o país que temos. Se lhe dissesse qual o meu ordenado. Aqui ninguém sabe muito bem o que faz, mas fá-lo com toda a intensidade.
- Que devo fazer, então - diz o acompanhante com lágrimas nos olhos.
- Espere, vou mandar vir a Enfermeira Subchefe. -Vá lá atende - diz para si mesma a recepcionista, impaciente, falando paar o bocal do telefone.
- A Enfermeira Subchefe que venha aqui rapidamente, R, por favor.
- O quê? Foi tomar o pequeno-almoço há já meia hora e anda não voltou? Aqui ninguém faz o que deve, cada um faz o que pode, mas todos participam.
Desliga o telefone rapidamente e vai a correr para o exterior do CS.
- Vou chamar o nosso motorista para levar o seu pai ao hospital. Deve estar ali fora a fumar um cigarro. Estas novas leis são boas para todos menos para os políticos.
Volta pouco depois, já em pânico.
- Tenho que pedir uma ambulância. O motorista foi fazer um biscate ao doutor G. no consultório e está incontactável. Valha-me Deus.
O acompanhante quase desmaia.
-Já consegui a ambulância. A Junta de Freguesia vai ajudar.
A ambulância chega, o doente com olhos de baleado é introduzido, já sem sentidos, no seu interior, e parte, perante os olhares incrédulos dos utentes numa fila que entretanto aumentara consideravelmente, e tentavam proteger-se do sol abrasador.
-Próximo! - Diz a recepcionista.
E a vida continua...


A ORIGEM DO MAL - Hugo de Cluny e Hildebrando

UMA EXPLICAÇÃO PARA O PROBLEMA PORTUGUÊS

I – Roma, Setembro 1074


A sala estava mergulhada na penumbra e o ambiente era de grande austeridade, contrastando claramente com a afabilidade dos dois homens, o papa Gregório VII e Santo Hugo, Abade de Cluny.
- O tempo é o mundo e a Eternidade é Deus, Hugo. Se quisermos assegurar a nossa passagem à Eternidade temos de controlar o mundo.
- Quer dizer, o homem, Hildebrando.
- Certamente meu amigo! Devemos garantir os interesses divinos, que são os nossos, através de uma mão de ferro no mundo cristão.
- Tens de te acautelar, pois as forças seculares são muitas e muito fortes. Podes contar com a minha colaboração incondicional.
- Agradeço-te meu amigo, e tenho de facto algo a pedir-te nesse sentido, de extrema importância para o futuro da cristandade.
- Tudo o que estiver ao meu alcance.
- Entreguei-me de todo o coração a esta missão, Hugo, e nada nem ninguém me fará recuar. Tenho esperança que a Igreja reencontre os caminhos da fé há muito perdidos.
- Tens então esperança de ser bem sucedido…
- Se não tivesse esperanças em melhores tempos e em ser útil à Igreja, não me tinha conservado em Roma, Deus o sabe, como preso, durante vinte anos, entre uma dor que se renovava quotidianamente e uma esperança muito longínqua! Acometido por mil tempestades, a minha vida foi uma agonia continuada. 
Hugo, Abade de Cluny, viera visitar o amigo, um ano depois da sua investidura como Papa com o nome de Gregório VII. Era grande a amizade entre estes dois homens, que decidiram dedicar a sua vida à fé cristã.
Hildebrando nascera em Itália, filho de um pequeno proprietário de terras, e tornou-se monge na célebre abadia de Cluny, em França, na época em que Hugo dirigia como abade esse extraordinário mosteiro, onde o espírito feudal iria encontrar o seu pleno equilíbrio católico.
Em 1049, ali foi procurá-lo Monsenhor Brunon, Bispo de Toul, que havia sido nomeado Papa pelo seu parente, o Imperador Henrique III. Tal  método de designação de um Papa, válido na altura, tinha-se tornado abusivo. Brunon, como Sumo Pontífice, adoptou o nome de Leão IX. Levou o monge Hildebrando consigo para Roma e nomeou-o arquidiácono, primeira dignidade do Sacro Colégio de Cardeais e administrador da Santa Igreja.
 O estado de decadência em que se encontrava a Igreja fazia-o sofrer, ao mesmo tempo que aumentava a sua disposição e ânimo para uma autêntica luta.
- Mas agora és o sumo pontífice, és o Papa, e como tal estás em excelente posição para lutar pela Fé.
- Sem dúvida, meu amigo e é por isso que pedi que viesses a Roma. Tenho um grande sonho que pretendo realizar em vida. Muita coisa está mal na Igreja, no mundo cristão.
- O espírito das trevas é muito poderoso e está a afastar as pessoas da Fé católica. Sabes que tenho lutado contra isso toda a minha vida.
- Bem sei, meu amigo, tu és a excepção. A minha observação do mundo católico diz-me que é muito difícil encontrar alguém como tu, pois raros são os sacerdotes que chegam ao episcopado por vias canónicas, e que levem uma vida conveniente, conduzindo os seus rebanhos no espírito de caridade.
- E se falarmos dos príncipes seculares…
- Não conheço nenhum que prefira a glória de Deus à sua própria glória, a justiça ao interesse…são piores que os judeus ou mesmo os pagãos!
- Como sabes, estou activamente empenhado e até aqui com sucesso, pela graça de Deus, na luta das investiduras, no que concerne a dádivas de terras à Igreja.
- Bispos e abades de toda a Europa comportam-se como grandes senhores feudais, e sendo pessoas de pouca fé, veneram mais a propriedade que a Deus.
- Esse é o maior problema que se nos depara, pois a fidelidade, que devia ser dada a Deus e à Santa Igreja, é canalizada para os senhores que os empossaram.
O problema colocava-se nas grandes propriedades de terras que a Igreja possuía. Com efeito, durante séculos Ela havia recebido numerosas doações de terras, e os bispos e abades de toda a Europa administravam tais propriedades como grandes senhores feudais.
Surgia, assim, o problema político da relação temporal entre o rei e o bispo ou o abade, como proprietário de terras. Era natural que o rei exigisse uma certa sujeição temporal do bispo, enquanto senhor de grandes domínios dentro do reino. Mas, pouco a pouco, para  assegurar essa fidelidade, os imperadores passaram a nomear leigos de sua confiança para os grandes feudos eclesiásticos. O imperador então investia-os com o anel e o báculo. Não apenas lhes outorgava a terra como feudo, mas também decidia quem seria sagrado bispo. Em vista disso, geralmente os candidatos às abadias e aos bispados não eram eclesiásticos, mas simples leigos, que pagavam ao imperador enormes somas pela investidura. A autoridade jurídica da Igreja sobre os clérigos assim nomeados perdia-se, porque eles ficavam sujeitos à autoridade civil. A investidura laica tornou-se, pouco a pouco, um facto consumado que era necessário erradicar, sob pena de a Igreja perder a sua independência.
E ainda, para piorar as coisas, os bispos assim nomeados pelo imperador pretendiam que o seu cargo se transmitisse por herança à sua família. Para isso, procuravam ter descendência, e não respeitavam o celibato, que havia séculos fora estabelecido na Igreja do Ocidente.
- Essa é a minha luta de mais de vinte anos, Hugo.
- E tem sido travada com a máxima sabedoria, meu amigo. As notícias das tuas sábias reformas têm chegado a Cluny. Rezo pelo teu sucesso, que é o nosso, incessantemente.
- Conseguimos algo de muito valioso, sim, Hugo, pois a hierarquia eclesiástica foi reformada dum modo por todos aceite.
- Não sem alguma resistência, Hildebrando, pois não é fácil, mesmo para os clérigos, abandonarem o poder temporal, a riqueza que lhes advém da venda das propriedades.
- Se falarmos então do celibato…gracejou Sua Santidade.
- Com a graça de Deus conseguirás demover também os mais renitentes.
- Os alemães são muito mais renitentes, demasiado ricos para se preocuparem com Deus. Henrique mantém-nos bem presos pela bolsa.
- Mas sei que te surgem novos apoios, colaboradores que lutam heroicamente pela verdade.
- Sim Hugo, e são atitudes como essas que me enchem a alma de coragem e alegria para prosseguir a minha cruzada.
- Foi preciso muita coragem para teres decretado este ano, pela Quaresma, que os simoníacos e nicolitas seriam excomungados se não renunciassem aos cargos ilegitimamente adquiridos, ou à mulher com quem viviam maritalmente, contrariamente à lei canónica.
- Ganhaste com isso um inimigo perigoso, ardiloso.
- Henrique é um déspota, mas com a ajuda de Deus, conseguirei vencer, e comigo toda a cristandade.
Hildebrando levanta-se do enorme cadeirão onde se sentara durante a conversa, e passando a mão pelos ombros do amigo, dirigiu-se silenciosamente para uma das janelas sobranceiras a um frondoso jardim. Após alguns momentos de silêncio, dirige-se ao amigo, sem contudo se virar:
- Meu amigo Hugo, ninguém melhor que nós sabe que o poder, bem como a Felicidade, são transitórios, pois nos escapam constantemente, ou simplesmente deixam de existir de um momento para o outro, deixando-nos num estado de desespero, um gosto a cinza na boca e no espírito.
- Sim, esse é o nosso fardo, que transportamos por amor de Deus.
- E quando se trata do Poder da Santa Igreja, estamos a falar da vontade de Deus.
- Absolutamente, Hildebrando.
- Estou preocupado com o que se passa na Península Ibérica, Hugo. Segundo sei o afastamento das leis da Igreja faz-se aí de forma despudorada. Temos de travar isso imediatamente.
- Estou consciente desse perigo, melhor que ninguém. Afonso de Leão, contudo tem sido um defensor da nossa política.
- Sim, mas o que verdadeiramente me preocupa é o futuro, a sua sucessão. Seria desastroso que o que se conseguiu até aqui tão arduamente fosse por água abaixo.
- A nossa influência na Ibéria é grande, a minha sobrinha Constança é casada com Afonso, que apoia a nossa política, e a sua capacidade de persuadir o marido tem sido eficaz.
- Sei, Hugo, tens feito um trabalho extraordinário, mas peço-te por Deus que penses numa solução a longo prazo.
Hugo esboça um sorriso, e após uns momentos de hesitação, de uma mal disfarçada
ansiedade, responde:

- Tenho uma solução perfeita, Hildebrando. Penso que com ela estará garantida a Felicidade dos reinos cristãos da Península Ibérica, e a autoridade da Igreja. Apenas necessito de algum tempo, esse bem precioso e incorpóreo que tantas vezes nos escapa.