A
GAIVOTA DE CHAPÉU DE COCO
Com o fim do verão os dias de sossego
tinham voltado àquela pequena e feliz comunidade de gaivotas que florescia nas
arribas escarpadas e inacessíveis aos homens, localizada muito perto de uma
estância balnear que era literalmente invadida pelos humanos quando o tempo
começava a aquecer.
As aves levaram algum tempo a adaptar-se
àquela convivência forçada, especialmente à curiosidade agressiva dos filhos
dos homens, que corriam atrás delas pelo areal, apenas pelo prazer de as ver
levantar voo no derradeiro instante, com um protesto ruidoso que de nada
servia.
Para trás ficavam finalmente os dias
barulhentos e perturbadores do equilíbrio natural, e as finas areias brancas
eram-lhes temporariamente devolvidas por inteiro.
Gruac ainda hesitou em escolher aquele
local para instalar o seu pequeno clã, pois apercebeu-se que a proximidade das
estranhas construções que o homem edificara sobre a praia de areia dourada não
traria nada de bom. Seriam seguramente locais de habitação dos humanos que
demandavam regularmente aquelas paragens na época do calor, mas apesar de ser o
chefe do grupo que começava a aumentar descontroladamente, para o bem e para o
mal, que já era demasiado grande para que o pudesse controlar efetivamente,
teve que recuar face ao desejo da maioria. A sua sugestão de irem ocupar uma
ravina mais a norte, longe da praia, foi recusada. Arrependeu-se de ter
transformado a vida do clã numa democracia. Se tivesse mantido a anterior ordem
baseada na autoridade do chefe, o seu desejo seria lei. Mas os tempos eram
outros e apenas podia esgrimir com o poder das ideias. A experiência dos mais
velhos só vale quando os outros a aceitam, e acabou por ceder, bloqueado pelos
apelos e argumentações dos mais jovens membros que não entendiam o seu excesso
de preocupações. Afinal elas tinham asas, podiam erguer-se rapidamente no ar ao
mínimo sinal de perigo, e não viam como é que os humanos poderiam importuná-las
naquela casa maravilhosamente inacessível, cheia de recantos naturais, e com o
mar imenso a seus pés, repleto de iguarias ao alcance de um voo picado. E nem
tinham grande razão de queixa dos homens, que não as perseguiam directamente,
até lhes permitiam a aproximação quando pescavam nas suas pequenas embarcações
e lhes atiravam os restos dos peixes que se entretinham a preparar, mal os
capturavam, numa espécie de associação em que ambos os grupos tinham a ganhar e
nada a perder.
A vida era de facto uma coisa
maravilhosa, e talvez por começar a ficar velho, como alguns lhe diziam meio a
sério meio a brincar, se tivesse tornado excessivamente cauteloso, vendo
problemas e perigos onde os mais novos e temeratos apenas viam excitação e prazer
de viver.
Voavam ao ritmo frenético das marés,
embalados pelas correntes ascendentes de ar quente que os sustinham tempos sem
fim lá no ar, tudo observando de cima, quais deuses, e que os homens tentavam
em vão imitar, limitando-se a conseguir voar no interior de máquinas metálicas
pesadas e ruidosas que atroavam os ares à sua passagem, deixando atrás de si no
infinito azul um rasto branco de mau agoiro.
O frio chegou e os homens partiram. Era
sempre assim. As casas ficavam vazias, as luzes nocturnas fechavam-se durante a
noite.
Daquela vez, porém, algo aconteceu que
chamou a atenção a Gruac. Havia luz numa cabana. Alguém tinha ficado, e isso
perturbou-o. Escolheu cuidadosamente o seu posto de vigia e esperou para ver
quem era o misterioso humano que tinha decidido ficar, contra todas as
expectativas.
Algo mudara, e as mudanças, sabe-o bem,
são sempre perigosas.
O homem vivia na cidade cinzenta onde
todos pareciam iguais. Tinham todos os mesmos problemas, os mesmos desejos e
sonhos. Unia-os a esperança de serem felizes algures no futuro que nunca
chegava. Eram todos infelizes a cada momento e não sabiam.
Os últimos tempos não tinham sido fáceis
para o homem. Sem motivo lógico aparente começara a questionar-se sobre a sua
própria existência. Sentia-se separado da vida, do mundo, dos outros. Por
qualquer razão que desconhecia, debruçara-se finalmente sobre a grande questão
filosófica que sempre repudiara por lhe parecer inútil e desprovida de sentido:
“Qual a finalidade e sentido do mundo,
do sofrimento?”
Sem conseguir encontrar uma resposta
satisfatória, sentia que o próprio acto de existir se tinha tornado
insuportável. E decidiu romper com a normalidade. Começou a viver cada momento
como se fosse o último. Finalmente começou a sorrir, ao mesmo tempo que se
libertava daquela luta diária com cada instante que até então considerara
apenas um meio, muitas vezes um obstáculo, para chegar ao momento seguinte.
Reconheceu a loucura mas pagou um preço alto por essa sua libertação. Todos os
outros, amigos, conhecidos, colegas, até mesmo alguns familiares, começaram a
vê-lo de forma diferente.
Era olhado de lado e tomado por louco
quando sorria perante as coisas simples da vida, fosse o nascer ou por de sol,
o voo de uma ave ou o barulho da chuva ao tocar o solo. Alguém lhe recomendou
que consultasse um psiquiatra e o dono da empresa onde trabalhava como
consultor recomendou-lhe que fizesse uma pausa no seu trabalho e tirasse umas
férias.
Aceitou de bom grado. Sentia-se
observado e marginalizado. Parecia-lhe que todos se ofendiam com a sua alegria
e felicidade. Ninguém lhe perdoava o facto de dizer que não tinha problemas.
Olhavam-no de lado e teciam comentários depreciativos. Ser feliz não era
natural, e todos julgavam que tinha enlouquecido. Uma sociedade doente não
tolera indivíduos saudáveis. Isso poderia ser um indicador perigoso e o
equilíbrio social estaria posto em causa eventualmente. A dúvida instalava-se.
“Quem se julga ele para estar feliz
quando todos nós andamos preocupados e infelizes?” - ouviu alguém dizer.
“É isso” - concluiu - “Sou diferente e
consideram-me estranho porque sou feliz”.
Decidiu afastar-se. Juntaria o útil ao
agradável. Tinha uma casa numa zona balnear afastada da cidade, perto do mar.
Costumava alugá-la facilmente na época alta, e raramente lá ia. Delegara numa
empresa a sua gestão e limitava-se a receber a quantia acordada com os
alugueres de verão. Não era casado nem tinha filhos e isso dava-lhe a liberdade
suficiente para fazer o que queria. Esse era o lado positivo da vida solitária
que escolhera.
Era um inventor, um criativo. Até então
toda a sua criatividade e imaginação foram colocadas ao serviço de terceiros.
Aproveitaria a oportunidade para se divertir com a sua própria genialidade. A
ideia surgiu-lhe naturalmente. Inventara em tempos um mecanismo propulsor
individual cuja produção tinha sido rejeitada pela empresa. Aquela era a sua
oportunidade. Já tinha testado o aparelho várias vezes em voos experimentais
muito badalados pela imprensa, mas continuava a ser o único utilizador. O medo
da liberdade era extensível ao desejo de voar como uma ave.
Quando o verão terminou e a casa ficou
livre, mudou-se de armas e bagagens para lá. Respirar o ar do mar, longe da
azáfama e das luzes da cidade, ouvir o ruído das ondas, observar as gaivotas
nas enseadas, acompanhar o seu voo, era tudo o que precisava para ser feliz.
A gaivota, que usava um chapéu de coco e
dançava o twist com um albatroz, era observada pelo homem que se escondia por
trás das dunas da praia.
A forma graciosa como as aves se movimentavam,
ao som de uma música inaudível, era um espectáculo de u ma beleza irreal, que
não era deste mundo.
“Talvez pertença ao mundo dos sonhos” -
pensou o homem, e por momentos libertou-se de todos os seus problemas.
Estava totalmente absorvido naquele
espectáculo irreal. As duas aves rodopiavam com uma leveza extraordinária,
capturando o vento que as sustinha por longos momentos a pequenos centímetros
do solo, como se flutuassem, de patas esticadas, enquanto as asas marcavam o
compasso enquanto estabeleciam aquele equilíbrio precário e belo. Capturavam a
brisa do mar com as asas em concha, como se fossem as vestes de bailarinas.
Confundido por aquela visão, o homem esfregou por um momento e quando os
reabriu as duas aves estavam paradas e observavam-no com curiosidade.
Imaginara aquela cena, ou teriam as aves
aproveitado a sua distracção para o assombrarem, criando um espaço de dúvida na
sua mente?
Caminhavam agora em sua direcção, em
passo firme e decidido, lado a lado, sem medo ou sombra de hesitação.
Tentou esconder-se, agachando-se atrás
da duna, mas as aves pararam mesmo à sua frente e fizeram uma longa vénia,
dobrando o pescoço até ao chão.
Sem deixar cair o chapéu de coco, a
gaivota disse então, para sua grande surpresa, num português perfeito:
- Namasté!
- Namasté! - respondeu a medo, enquanto
se levantava beliscando-se para confirmar que não sonhava.
- Queres voar connosco? - perguntou a
gaivota.
Aquela pergunta surpreendeu-o. Talvez o
tivessem visto usar o seu equipamento na noite anterior. Hesitou um pouco e a
gaivota insistiu.
- Temos-te observado e achamos
interessante a tua tentativa de seres como nós.
O homem sorriu. Não dormia nem estava
louco. A gaivota falava e parecia divertir-se com a sua atrapalhação.
- Desculpem a minha surpresa, mas não
sabia que as gaivotas falavam a linguagem dos humanos.
As aves entreolham-se e trocam um olhar
condescendente.
- Há tantas coisas que vocês, humanos,
perdem por não estarem atentos.
O homem confirma abanando a cabeça e abrindo
os braços.
- Podemos dar-te alguns conselhos úteis
sobre o voo, e assim melhorarás o teu desempenho.
- Seria extraordinário - entusiasma-se o
homem - Mas…porque razão me querem ajudar?
- Fazemos todos parte integrante da
Vida, não é? - observa a gaivota, enquanto o albatroz se mantinha calado - E
quem sabe, talvez um dia nos possas ajudar.
Estava decidido. Iria acompanhar as
gaivotas e observaria a sua reacção face à sua presença.
- Posso voar mesmo com vocês? -
perguntou finalmente, a medo, receando estar louco.
As duas aves entreolharam-se por
momentos, e depois a gaivota falou. Para sua grande surpresa, não houve
qualquer tipo de ironia na sua resposta.
- O albatroz não pode acompanhar-nos -
dia a gaivota com chapéu de coco - está sempre muito ocupado e em viagem
permanente. Tem que partir de madrugada.
O homem faz um sinal claro de que
entendia bem o problema.
- Sei bem o que isso é. Cada um faz da
sua vida o que quer.
- Ou que pode - atalha o albatroz,
rompendo o silêncio pela primeira vez.
- Também fala - surpreende-se o homem.
A gaivota olha para o albatroz e depois
para um ponto imaginário. O seu olhar era frio,
distante, centrado no infinito, e tinha um brilho de mágoa, como se algo
estivesse profundamente enraizado na sua alma torturada. Levou algum tempo
nessa contemplação, como se estivesse ausente, mas finalmente voltou a falar.
- Todos os seres falam - diz, fixando o
albatroz e depois o homem - Apenas precisam que alguém os escute.
- E quando posso voar contigo? -
perguntou finalmente o homem.
- Amanhã cedo, quando o sol raiar, está
preparado. Partimos do local que costumas usar, ali em cima - diz a gaivota,
olhando para o pequeno promontório de onde o homem costumava saltar - Há algo
que me queiras perguntar antes de partirmos?
- Esse chapéu de coco, é estranho - diz
o homem - Onde o arranjaste?
- Estava a ver que não perguntavas - diz
a gaivota depois de trocar um ar irónico com o albatroz e ambas as aves terem
emitido uns sons indecifráveis naquela linguagem normal das aves, interdita aos
humanos.
- Afinal nem sempre falam a nossa língua
- comenta o homem, perante esse facto.
- Não é bem assim que funciona - diz o
albatroz.
- Não é? - estranha o homem.
As aves preparam-se para levantar voo, abrindo
as longas asas para quebrarem a imobilidade. Aqueciam os motores, como pensou o
homem, fazendo uma analogia simples.
- Falamos sempre da mesma forma - diz a
gaivota - Mas só nos entendes quando verdadeiramente nos escutas.
- É então essa a lição? - quase grita o
homem - E quanto ao chapéu?
As aves já se erguiam no ar, mas o homem
ainda conseguiu ouvir a resposta da gaivota:
- Imito o teu capacete!
