Miguel
sabia
há muito que o mundo é um lugar perigoso, e que por isso seria uma presa fácil
dessa entidade sempre pronta a fabricar os seus mártires. Era indispensável
proteger-se, munir-se de uma arma invisível que permitisse passar incólume por
esse bairro perigoso a que metaforicamente se chama vida, e se possível que lhe
possibilitasse ripostar de forma eficaz, silenciosa, sem se comprometer ou ser
comprometido, muito menos denunciado ou apanhado.
Um atirador furtivo, talvez. Mas algo
diferente do estereotipo, sem ter de se esconder ou camuflar fisicamente.
A sua máscara seria outra. Teria que se
tornar um actor, mas dos bons, mesmo da classe dos excepcionais. E o seu palco
não estaria confinado a quatro paredes, o espectáculo não teria um público
limitado pelo espaço disponível. Não! O seu campo de actuação seria a vida, o
seu mundo particular, e a peça trataria o relacionamento com os outros. Era
portanto um trabalho de representação a tempo inteiro.
“És um fingidor!” - disse-lhe uma vez a
professora primária, talvez a única pessoa que lhe tinha entendido a alma, ao
observar-lhe as emoções contidas - “ Davas um bom poeta”.
Ele limitou-se a sorrir e depois acabou
por contar o episódio aos pais que acharam graça mas não atingiram o sentido
profundo daquela observação da professora Eduarda. Há sempre alguém que nos
consegue observar através da máscara, talvez por também usar uma equivalente
mas estar atento aos sinais, ter um rasgo consciente que lhe possibilite
ultrapassar o mundo ilusório onde vive clandestinamente. Sob a aparência de uma
calma e presença irrepreensível, Miguel nunca estava à vontade. Como se
ansiasse por chegar a casa e não encontrasse o caminho, ou se estivesse ali e
agora a perder tempo tão precioso para começar a fazer algo que não sabia bem o
que era. E quando o objectivo parecia estar ali ao fundo da rua, ao meio do
sonho, há algo que nos impede que lá cheguemos, como se na realidade fosse um
local inacessível.
E contudo, na grande cidade, aquele
enorme bairro a que decidiu chamar selva, todos pareciam felizes, tinham
objectivos, e partilhavam espaços comuns em aparente ordem e equilíbrio. Teriam
que estar necessariamente a fingir constantemente, pelo menos durante as horas
de convívio, pois o mundo não é um lugar perfeito, como sabia por experiência
própria. Teria de haver vencedores e perdedores, vítimas e carrascos, ódios
ocultos, guerras mudas e diferenças insanáveis. Miguel lembrava-se de alguém
lhe ter dito que um filósofo dissera que o inferno é sempre o outro, e portanto
era imperioso estarmos sempre na defensiva e prontos a antecipar o inevitável
ataque. O grande desafio é saber de onde virá o próximo golpe.
Alguma coisa fervilhava, isso era certo,
era quase palpável, e notara esse sintoma desde o primeiro dia que integrara
aquele bairro na capital. Um ambiente pesado sob a capa de uma alegre
convivência, fosse no emprego ou nas relações pessoais.
“Relações pessoais!” - pensava, e
tentava encontrar alguma coisa na sua vida que se pudesse integrar naquela
frase tão apelativa. Nada encontrou de relevante. depois de pensar um pouco no
assunto. Havia o convívio inevitável com os colegas naquele espaço fechado que
era o comboio, as trocas de turno, algumas noites no Porto na pensão do
costume, os convites para sair que acabaram por acabar porque nunca os aceitava
por uma razão qualquer.
“Relações pessoais!” - repetia. Talvez
consigo mesmo, e ainda assim era um convívio complicado, repleto de angústias e
recriminações. Ele e ele próprio! Aquelas duas entidades que habitavam aquele
corpo franzino e que aparentemente travavam uma luta encarniçada pela
supremacia.
“Quem perdes és tu” - dizia o primo
Manuel, quando o conseguia convencer a ir lá a casa, na outra margem, almoçar
em família uma refeição decente, e quem sabe, cair em amores pela filha da
vizinha Gracinda, a doce Gisela que ficara fascinada com a cor suave dos seus
olhos, um tom indefinível entre o esverdeado e o azul pálido, apesar de não lhe
ter conseguido arrancar meia dúzia de palavras que lhe revelassem a alma.
- Uma boa rapariga - disse a prima
Fátima, esposa de Manuel - Muito inteligente e prendada. E acho que gosta de
ti.
Miguel suspendeu o gesto que iniciara e
ficou com os talheres na mão, perto da fatia de carne que se preparava para
cortara. Aqueles almoços em família, ele e os primos, na enorme sala de jantar,
devolviam-lhe alguma serenidade, apesar da relutância inicial em dar aquela
maçada à família, como justificara para declinar os primeiros convites. Olhou
para Fátima, depois para Manuel, como se não tivesse entendido muito bem a
alusão à rapariga que já tinha encontrado um par de vezes pois era vizinha dos
primos naquele pátio onde todos se conheciam.
- Não ligues à tua prima - disse-lhe
Manuel, piscando-lhe o olho - As mulheres não descansam enquanto não virem os
rapazes metidos nos sarilhos da vida conjugal.
- Vê lá se te cai um dente - atalhou
Fátima - Tens muita razão de queixa!
- Estou a brincar, mulher. Deixa lá o
rapaz em paz. O que tiver que ser, será, não achas, Miguel?
- Claro, primo. Mas tudo tem o seu
tempo, e o tempo se encarregará de fazer o que tem de ser feito.
O casal entreolhou-se e depois Manuel
apressou-se a dizer:
- Isso mesmo, Miguel. O que tiver de ser
tem muita força.
“Alguma coisa fervilhava” - pensava Miguel,
já no autocarro que o levaria a Cacilhas para apanhar o barco para o Terreiro
do Paço - “Mas não é fácil a identificação”.
E se tentasse modificar a sua vida, ao
modificar alguns aspectos da sua existência? - pensava nisto olhando de forma
distraída para as águas algo revoltas do Tejo que entretanto fora coberto pela
negrura da noite. Do outro lado as luzes da cidade que iam ganhando intensidade
à medida que o barco avançava, algo temeroso, e atrás de si ficava cada vez
mais longe o local onde eventualmente ficara aquela que lhe poderia modificar a
existência.
“Gisela!” - repetia, com um vago sorriso,
lembrando-se das primeiras palavras trocadas com a jovem. Tinha mais estudos do
que ele, era inteligente, carinhosa e sensível, mas tinha uma relação umbilical
com a mãe, que de certa forma o preocupara. Gostava dela, sem dúvida, sentia-se
até empolgado pela perspectiva da próxima visita, e quase se esquecia daquele outro
ser que o atormentava constantemente.
“ Libertei-me dos fantasmas e dos pensamentos
compulsivos” - constatou, para seu grande espanto.
Mas
estaria à altura dela, sendo apenas um modesto revisor do caminho-de-ferro, enquanto
ela seguia uma carreira promissora na função pública? E de que forma uma eventual
vida em comum lhe retiraria o controlo da sua vida, subitamente transformada naquilo
a que se chama uma vida em comum?
As preocupações com o Depois chegaram exactamente
no momento em que o barco encostava ao cais com alguma violência, o que levou a
que alguém se magoasse. Coisa sem importância, e logo depois caminhavam todos em
segurança pelo passadiço, bastante inclinado pela maré baixa, em direcção à sala
de visitas de Lisboa.
Resolveu caminhar um pouco e sentir o pulso
à cidade àquela hora tardia. O relógio do arco batia as onze horas. Demorara-se
mais que o habitual, e a isso, Gisela não era indiferente.
“De certo modo já está a afectar a minha
vida!” - pensou, e logo o sorriso franco deu lugar a uma súbita dúvida que se revelava
naquele franzir de testa que lhe devolvia a preocupação.
