terça-feira, 10 de outubro de 2017

PARANOIA de Hp Bellis, capítulo 4

Um dia, uma senhora talvez na casa dos trinta, sentou-se no lugar à sua frente e isso perturbou-o claramente. Ainda antes do eléctrico se voltar a pôr em movimento, Miguel olhou duas vezes para trás, para a paragem, tentando adivinhar de que forma teria aquela mulher entrado, pois em consciência não a vira. Esteve quase a perguntar-lhe o que fazia ela ali, naquele lugar que estava invariavelmente desocupado, mas acabou por retrair-se ao se aperceber que o condutor o observava pelo espelho. Limitou-se então a passar o indicador pelo colarinho, como se estivesse a confirmar a folga entre o tecido da camisa e o pescoço, e depois concentrou-se num ponto do varão à sua direita enquanto a mente fervilhava de interrogações.
Lá estava o Diabo a tentá-lo. Sentia claramente a presença daquele velho companheiro dos tempos difíceis. Sempre que algo o perturbava, bastava olhar para um qualquer objecto que estivesse à mão, que logo o via. Naquele caso era o magnificamente polido varão destinado aos passageiros apeados, e que parecia um espelho curvo de raio demasiado pequeno para lhe mostrar a sua própria imagem. Ainda assim conseguia vislumbrar os traços característicos da sua personalidade, como dissera uma vez o doutor Afonso de Albuquerque: a tal expressão ausente, tensa, estampada no rosto, a testa franzida, o olhar vago, perdido entre dois mundos monstruosamente grandes, talvez mesmo infinitos, o Antes e o Depois.
Nunca teve ocasião de falar com ele, pois parecia apenas existir na sua mente, ou pelo menos era refletido através dela, mas estava certo de que entre os vivos era ele quem mais atraía aquela fascinante e temida personagem. E já não o receava. A princípio, sim, ficou arrepiado e quase gritou, pois o Diabo, pelo menos como lhe tem aparecido até agora, é uma figura fora do comum. É alto e muito pálido, ainda bastante jovem, mas com aquela juventude que viveu demasiado e que é mais triste do que a velhice.
Chegou a ter pena dele, e quase deitou tudo a perder quando foi tentado a confessar a sua experiência ao psiquiatra. Tinha era pavor de confessar aos mais próximos aquela sua experiência que tendia a repetir-se em condições particulares, como aquela. Mesmo aos mais chegados, ao tio Manuel, por exemplo.
O Diabo tratava-o com uma benévola condescendência que chegava às vezes a comovê-lo. Ele limitava-se a ouvi-lo. Assim não se enganava. Escutava-o e admirava-o. O seu rosto branquíssimo e comprido, nada tem de particular, a não ser a sua boca subtil, fina e apertada; tem uma única ruga e profundíssima, que se alça perpendicularmente entre as sobrancelhas e se perde quase na raiz dos cabelos.
Nunca lhe pôde ver bem a cor dos olhos, pois não conseguia olhá-los mais do que alguns momentos. Não sabe também a cor dos seus cabelos, porque usa um barrete de seda, que nunca tira na sua presença e os esconde por completo. Traja correctamente de negro e as suas mãos estão sempre irrepreensivelmente enluvadas.
Agora aparecia-lhe outra vez e logo quando a presença daquela mulher o intrigava. E pela primeira vez isso acontecia quando estava acompanhado. Ou seria uma ilusão? A esta dúvida sobressaltou-se e olhou para o banco da frente, na expectativa de estar vazio. Talvez fosse um sonho, se calhar adormeceu pontualmente e sonhou aquilo tudo. A mulher, o Diabo! Tudo fruto da sua imaginação prodigiosa!
O coração disparou. Lá estava ela, bela, solta, elegante, olhando distraidamente para a sua direita, evitando assim o seu olhar seguramente alucinado. Só então o eléctrico se colocou em movimento, o que comprovava que tudo aquilo tinha sido praticamente instantâneo. Lá estava no lugar habitual o empregado de escritório ou da casa funerária, como sempre dormitando ou fingindo sonolência. A única alteração ao quadro habitual era mesmo aquela mulher que conseguira entrar mesmo na altura em que as portas do eléctrico se começavam a fechar. Se fosse outro passageiro qualquer o condutor não tinha sido tão permissivo e tinha arrancado de imediato deixando-o em terra. Mas como era uma mulher e ainda por cima interessante abrira a excepção que por norma nunca se deve praticar.
“Se fosse no comboio não tinha a mínima hipótese” - pensou, depois de desviar o olhar e se concentrar de novo no varão, e depois no passageiro que dormitava, como sempre, e praticamente não contava como passageiro. Era isso mesmo que o indignava, o facto de fazer geralmente as primeiras três ou quatro paragens sozinho, e pela primeira vez ver alterada aquela sua rotina pela entrada em cena de uma passageira atrasada que quebrara de algum modo aquela fascinante rotina.
“ São absolutamente diferentes os dois meios de transporte” - deu por si a pensar, e nem sabia a que propósito tinha começado a dissertar mentalmente sobre aquela estranha tese. Olhou em frente e reparou que a rapariga o olhava com um ar divertido, como se alguma coisa no seu rosto denunciasse a sua indignação. Desviou de pronto o olhar pois não suportava aquele tipo de confrontações que tomava por um desafio indigno da sua personalidade. Decidiu observar as próprias mãos, que seguravam a pequena pasta que entretanto colocara estrategicamente sobre as coxas, enquanto ia observando a rapariga pelo canto do olho. Sempre assim fora, tímido e reservado, quando ainda não dominava o cenário.
Na terceira paragem ninguém subiu ou saiu. Para seu espanto a jovem continuava sentada mas agora lia uma revista qualquer que ele não conseguiu identificar. A sua atenção intensificou-se. Iria jurar que já tinha vivido aquele momento, que estava a presenciar uma cena que já acontecera. A mesma rapariga, o mesmo cenário, a repetição das mesmas interrogações. Começou a suar abundantemente e o coração disparou. Agarrou o varão com a mão direita enquanto segurava a pasta com a esquerda e fazia um esforço brutal para identificar o momento do Antes em que aquilo tinha acontecido.
O sinal característico de paragem iminente salvou-o de um eventual colapso. A travagem devolveu-lhe a compostura. Levantou os olhos quando ela se levantou e lhe lançou um sorriso condescendente. Miguel ficou a observar o seu gracioso movimento naquele estreito corredor e queria gritar o seu nome, pelo menos aquele que lhe viera à memória de um momento gémeo do passado.
“Lurdes!” - disse finalmente, baixinho, e depois ficou a olhar para trás, pela janela, observando-lhe os passos firmes no passeio.

O dia acabara de nascer!


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