Um
dia, uma senhora talvez na casa dos trinta, sentou-se no
lugar à sua frente e isso perturbou-o claramente. Ainda antes do eléctrico se
voltar a pôr em movimento, Miguel olhou duas vezes para trás, para a paragem,
tentando adivinhar de que forma teria aquela mulher entrado, pois em
consciência não a vira. Esteve quase a perguntar-lhe o que fazia ela ali,
naquele lugar que estava invariavelmente desocupado, mas acabou por retrair-se
ao se aperceber que o condutor o observava pelo espelho. Limitou-se então a
passar o indicador pelo colarinho, como se estivesse a confirmar a folga entre
o tecido da camisa e o pescoço, e depois concentrou-se num ponto do varão à sua
direita enquanto a mente fervilhava de interrogações.
Lá estava o Diabo a tentá-lo. Sentia
claramente a presença daquele velho companheiro dos tempos difíceis. Sempre que
algo o perturbava, bastava olhar para um qualquer objecto que estivesse à mão,
que logo o via. Naquele caso era o magnificamente polido varão destinado aos
passageiros apeados, e que parecia um espelho curvo de raio demasiado pequeno
para lhe mostrar a sua própria imagem. Ainda assim conseguia vislumbrar os
traços característicos da sua personalidade, como dissera uma vez o doutor
Afonso de Albuquerque: a tal expressão ausente, tensa, estampada no rosto, a
testa franzida, o olhar vago, perdido entre dois mundos monstruosamente
grandes, talvez mesmo infinitos, o Antes e o Depois.
Nunca
teve ocasião de falar com ele, pois parecia apenas existir na sua mente, ou
pelo menos era refletido através dela, mas estava certo de que entre os vivos
era ele quem mais atraía aquela fascinante e temida personagem. E já não o
receava. A princípio, sim, ficou arrepiado e quase gritou, pois o Diabo, pelo
menos como lhe tem aparecido até agora, é uma figura fora do comum. É alto e
muito pálido, ainda bastante jovem, mas com aquela juventude que viveu
demasiado e que é mais triste do que a velhice.
Chegou a ter pena dele, e quase deitou
tudo a perder quando foi tentado a confessar a sua experiência ao psiquiatra. Tinha
era pavor de confessar aos mais próximos aquela sua experiência que tendia a
repetir-se em condições particulares, como aquela. Mesmo aos mais chegados, ao
tio Manuel, por exemplo.
O Diabo tratava-o com uma benévola
condescendência que chegava às vezes a comovê-lo. Ele limitava-se a ouvi-lo.
Assim não se enganava. Escutava-o e admirava-o. O seu rosto branquíssimo e
comprido, nada tem de particular, a não ser a sua boca subtil, fina e apertada;
tem uma única ruga e profundíssima, que se alça perpendicularmente entre as
sobrancelhas e se perde quase na raiz dos cabelos.
Nunca lhe pôde ver bem a cor dos olhos,
pois não conseguia olhá-los mais do que alguns momentos. Não sabe também a cor
dos seus cabelos, porque usa um barrete de seda, que nunca tira na sua presença
e os esconde por completo. Traja correctamente de negro e as suas mãos estão
sempre irrepreensivelmente enluvadas.
Agora aparecia-lhe outra vez e logo
quando a presença daquela mulher o intrigava. E pela primeira vez isso acontecia
quando estava acompanhado. Ou seria uma ilusão? A esta dúvida sobressaltou-se e
olhou para o banco da frente, na expectativa de estar vazio. Talvez fosse um
sonho, se calhar adormeceu pontualmente e sonhou aquilo tudo. A mulher, o
Diabo! Tudo fruto da sua imaginação prodigiosa!
O coração disparou. Lá estava ela, bela,
solta, elegante, olhando distraidamente para a sua direita, evitando assim o
seu olhar seguramente alucinado. Só então o eléctrico se colocou em movimento,
o que comprovava que tudo aquilo tinha sido praticamente instantâneo. Lá estava
no lugar habitual o empregado de escritório ou da casa funerária, como sempre
dormitando ou fingindo sonolência. A única alteração ao quadro habitual era
mesmo aquela mulher que conseguira entrar mesmo na altura em que as portas do
eléctrico se começavam a fechar. Se fosse outro passageiro qualquer o condutor
não tinha sido tão permissivo e tinha arrancado de imediato deixando-o em
terra. Mas como era uma mulher e ainda por cima interessante abrira a excepção
que por norma nunca se deve praticar.
“Se fosse no comboio não tinha a mínima
hipótese” - pensou, depois de desviar o olhar e se concentrar de novo no varão,
e depois no passageiro que dormitava, como sempre, e praticamente não contava
como passageiro. Era isso mesmo que o indignava, o facto de fazer geralmente as
primeiras três ou quatro paragens sozinho, e pela primeira vez ver alterada
aquela sua rotina pela entrada em cena de uma passageira atrasada que quebrara
de algum modo aquela fascinante rotina.
“ São absolutamente diferentes os dois
meios de transporte” - deu por si a pensar, e nem sabia a que propósito tinha
começado a dissertar mentalmente sobre aquela estranha tese. Olhou em frente e
reparou que a rapariga o olhava com um ar divertido, como se alguma coisa no
seu rosto denunciasse a sua indignação. Desviou de pronto o olhar pois não
suportava aquele tipo de confrontações que tomava por um desafio indigno da sua
personalidade. Decidiu observar as próprias mãos, que seguravam a pequena pasta
que entretanto colocara estrategicamente sobre as coxas, enquanto ia observando
a rapariga pelo canto do olho. Sempre assim fora, tímido e reservado, quando
ainda não dominava o cenário.
Na terceira paragem ninguém subiu ou
saiu. Para seu espanto a jovem continuava sentada mas agora lia uma revista
qualquer que ele não conseguiu identificar. A sua atenção intensificou-se. Iria
jurar que já tinha vivido aquele momento, que estava a presenciar uma cena que
já acontecera. A mesma rapariga, o mesmo cenário, a repetição das mesmas
interrogações. Começou a suar abundantemente e o coração disparou. Agarrou o
varão com a mão direita enquanto segurava a pasta com a esquerda e fazia um
esforço brutal para identificar o momento do Antes em que aquilo tinha acontecido.
O sinal característico de paragem iminente
salvou-o de um eventual colapso. A travagem devolveu-lhe a compostura. Levantou
os olhos quando ela se levantou e lhe lançou um sorriso condescendente. Miguel ficou a observar o seu gracioso movimento naquele estreito corredor e queria gritar
o seu nome, pelo menos aquele que lhe viera à memória de um momento gémeo do passado.
“Lurdes!” - disse finalmente, baixinho, e
depois ficou a olhar para trás, pela janela, observando-lhe os passos firmes no
passeio.
O dia acabara de nascer!

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