terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Liberdade das areias movediças, FANTASMAS

FANTASMAS

- Existem vários portais de passagem para o mundo dos mortos mas não são fáceis de identificar pelos seres humanos vivos ditos normais.
- Estás a dizer que apenas os mortos os podem utilizar e que portanto esta será sempre uma discussão que não poderá ser concluída em vida por humanos simples como eu.
O fantasma olhou demoradamente para ele, talvez tivesse ficado surpreendido com aquela conclusão, mas recompôs-se rapidamente, depois flutuou desde o parapeito da janela, onde se encontrava sentado com os pés para o lado de fora e o tronco voltado para dentro, e colocou-se de cócoras aos pés da cama.
Ele não se surpreendia já com aquele exibicionismo do fantasma. No início surpreendeu-se pois o homem estava todo torcido e parecia divertir-se com o seu espanto, mas depressa percebeu que os fantasmas não são exactamente como os humanos vivos apesar de terem o mesmo aspecto exterior. O mesmo é como quem diz. São um pouco transparentes e azulados, vê-se através deles como se fossem vidro fosco, parece que não têm nada no interior, são ocos, um esboço de uma pessoa. Apenas se veem uns contornos acinzentados, uma espécie de massa gelatinosa que vai mudando de forma conforme o movimento, ou mesmo um líquido dentro de uma garrafa.
Ele sentou-se também, encostando as costas à cabeceira da cama estilo Dom José, mas tendo o cuidado de interpor uma almofada para não tirar o brilho da cera original, como lhe dizia a esposa inúmeras vezes. Felizmente, ela tinha um sono pesado e não acordava durante as visitações, o que a acontecer poderia ser motivo para divórcio por justa causa.
“Será um fantasma do sexo feminino?” - pensou, e tentou adivinhar-lhe as feições.
- Nós também já fomos humanos e devemos ter tido as mesmas dúvidas - disse o fantasma, mas de uma forma pouco exuberante, olhando para as mãos transparentes, como se falasse sozinho ou tentasse convencer-se daquilo que dizia.
- Não tens a certeza? - perguntou ele, vendo-lhe a indecisão que indiciava a dúvida.
- Agora que falas nisso, não sei.
- Há questões que nunca colocamos em vida, como por exemplo se saberemos encontrar o caminho para um determinado planeta ou se devemos levar pasta de dentes na bagagem. É natural que os fantasmas também não façam certas perguntas que acham ridículas.
- É provável. Deves ter razão. Estamos programados para não fazer determinadas perguntas que são desajustadas à nossa condição.
- Deve ser do ADN.
- Talvez - diz o fantasma olhando para o seu interior - Mas não sei se temos ADN, e essa é outra pergunta que nunca passaria pela mente dos fantasmas.
- Têm mente?
- Acho que sim, caso contrário não falava ou pensava. A menos que…
Ele vislumbrou pela primeira vez uma certa tristeza no fantasma. Talvez alguma memória de quando era vivo, ou um pequeno vislumbre de infelicidade. Ia dizer algo sobre essa sua percepção mas o fantasma antecipou-se-lhe com novo assunto.
- Mas estava a falar dos portais. Interessa-te o tema, ao que vejo.
- Já tinha pensado nisso logo da primeira vez que te vi.
- Geralmente é a segunda coisa que me perguntam quando eu apareço.
- A segunda? Apareces a muita gente? - diz ele baixinho pois a esposa virou-se na cama e apesar de estar escuro podia aperceber-se da conversa.
- Qual é a primeira pergunta que queres ver respondida?
- Qual é a primeira pergunta que te fazem? Depois podes responder à outra.
- Se estão a sonhar.
- Estou?
- Não. Mas em caso de emergência, sim.
- Como assim?
- Imagina que a tua esposa acorda e te vê a falar comigo.
- Pois é.
- Mas isso é uma impossibilidade. Os fantasmas que tratam desses detalhes têm tudo programado.
- Têm um plano? Pensava que eram almas penadas, cada uma por si.
- Isso são mitos urbanos fruto da imaginação limitada dos vossos realizadores e escritores. Nós somos como vós, mas a um plano muito mais elevado.
- Não me faças perder o raciocínio. Como explicaria à minha esposa a tua presença.
- É simples. Não tinhas de explicar.
- Não tinha? Tinha, tinha. Não a conheces.
- Não me veria, tão simples como isso.
- Não te veria?
- Não! Só tu me podes ver, pois foste tu o selecionado para me veres. E mesmo tu ao seres acordado pela tua esposa dirias que estavas a sonhar alto.
- A ter pesadelos. Então isto é um pesadelo e estou a sonhar.
- Não. Enquanto tivermos esta ligação, estás desperto no sonho. É uma viagem consciente dentro de um sonho.
- E isso é possível aos humanos?
- Se nós quisermos, sim.
- Quer dizer que se eu acender agora a luz tu desapareces.
- Sim, pois não estaria cá. As condições teriam sido totalmente alteradas.
- Acendi a luz portanto estou acordado, e tu nunca estás quando estamos despertos. É isso?
- Não exactamente, mas não quero perturbar-te.
- Não me perturbas.
O fantasma voou de novo para o parapeito e pôs-se a olhar as estrelas. Ele conseguia ver o céu através do fantasma que se ia esfumando cada vez mais.
- Estás a desaparecer.
- Eu sei. Faz parte do processo. Somos vítimas do tempo.
- Também sofrem disso? Pensei que fossemos apenas nós, os vivos mortais comuns.
- Não te posso dizer tudo num só encontro. Não terias capacidade de absorção.
- Ao menos diz-me de onde vens.
- Venho de um sítio chamado Vida.
- Vida? Curioso. Mas tu estás morto.
O fantasma pareceu sorrir abertamente.
- Há um caminho da Vida para aqui mas não há um caminho daqui para a Vida?
- Deve ser mais complicado. De facto a gente tem consciência que aparece aqui mas nada sabemos quando morremos.
- E se a morte fosse um novo nascimento noutro mundo, noutro conceito.
Ele ficou de braços cruzados durante algum tempo, a pensar no assunto e a ver a dissolução do fantasma.
- Não é fácil acreditar nisso. Mas se tu o dizes. Tenho medo é que não sejas real.
- Não seja real! - repete o fantasma, como se tivesse ouvido aquilo pela primeira vez.
- Achas que podemos repetir a vida de outra pessoa?
- Repetir, como?
- Fazer o mesmo, sabes, a tese da reencarnação.
- Ah, a teoria de alguns humanos que apenas sabem da missa a metade. O que eles não sabem é que há um código.
- Um código?
- Sim! Depois de morrermos, ou renascermos, a vida como a conhecíamos deixa de fazer qualquer sentido.
Ele permaneceu calado, e agora mal conseguia vislumbrar a forma do fantasma, cada vez mais dissipada.
- Sabes que há uma máquina para conseguir ver os fantasmas?
- Já foi inventada?
- Já existe a nível experimental, sim. Mas depois falamos nisso.
Ele tenta adivinhar o movimento do fantasma, agora totalmente invisível, mas não consegue. Vai até à janela, com cuidado para não acordar a esposa, espreita para todos os lados mas nada vê, e regressa à cama em bicos de pés.

- Nem sequer lhe perguntei o nome!

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Portugal, a origem do mal - Conclusão

D levanta-se do enorme cadeirão onde se sentara durante a conversa, e passando a mão pelos ombros do amigo, dirigiu-se silenciosamente para uma das janelas sobranceiras a um frondoso jardim.

Após alguns momentos de silêncio, dirige-se ao amigo, sem contudo se virar:
- Meu amigo J, ninguém melhor que nós sabe que o poder, bem como a Felicidade, são transitórios, pois nos escapam constantemente, ou simplesmente deixam de existir de um momento para o outro, deixando-nos num estado de desespero, um gosto a cinza na boca e no espírito.
- Sim, esse é o nosso fardo, que transportamos por amor de Deus.
- E quando se trata do Poder da Europa, estamos a falar da vontade de Deus.
- Absolutamente, D.
- Estou preocupado com o que se passa no nosso país. Segundo sei o afastamento das leis do "déficit" faz-se aí de forma despudorada. Temos de travar isso imediatamente.
- Estou consciente desse perigo, melhor que ninguém. SarK, contudo, tem sido um defensor da nossa política.
- Sim, mas o que verdadeiramente me preocupa é o futuro, a sua sucessão.
Seria desastroso que o que se conseguiu até aqui tão arduamente fosse por água abaixo.
- A nossa influência na Ibéria é grande, a minha sobrinha Constança é casada com um primo do príncipe herdeiro, que apoia a nossa política, e a sua capacidade de persuadir o marido tem sido eficaz.
- Sei, D, tens feito um trabalho extraordinário, mas peço-te por Deus que penses numa solução a longo prazo.
DB esboça um sorriso, e após uns momentos de hesitação, duma mal disfarçada ansiedade , responde:
- Tenho uma solução perfeita, S.
Penso que com ela estará garantida a Felicidade dos contribuintes em Portugal, e a autoridade do Estado, que é a nossa, a minha e a tua, entendes.
Apenas necessito de algum tempo, esse bem precioso e incorpóreo que tantas vezes nos escapa.

Portugal - a origem do mal, parte V


- Conseguimos algo de muito valioso, sim, JS , pois a hierarquia política europeia foi reformada dum modo por todos aceite.
- Não sem alguma resistência, D, pois não é fácil, mesmo para os europeistas convictos como nós, abandonarmos o poder pessoal, a riqueza que nos advém dos cargos que ocupamos.
- Se falarmos então dos "off shores"…gracejou D.
- Com a graça de Deus conseguirás demover também os mais teimosos.
- Os alemães são muito mais renitentes, demasiado ricos para se preocuparem com Deus.
AM mantém-nos bem presos pela bolsa.
- Mas sei que te surgem novos apoios, colaboradores que lutam heroicamente pela verdade.
- Sim José, e são atitudes como essas que me enchem a alma de coragem e alegria para prosseguir a minha cruzada.
- Foi preciso muita coragem para teres decretado este ano, pela Quaresma, que os barões e nicolitas seriam excomungados se não renunciassem aos cargos ilegitimamente adquiridos, ou à presidência da sempresas fictícias, contrariamente à lei europeia.
- Ganhaste com isso um inimigo perigoso, ardiloso.
- SKOSI é um déspota, mas com a ajuda de Deus, conseguirei vencer, e comigo toda a Europa civilizada...

(continua...)

Portugal - a origem do mal, parte IV


O problema colocava-se nas grandes Empresas multinacionais que a Comissão europeia possuía.
Com efeito, nos últimos dez anos ela havia recebido numerosas doações de negócios falidos, e os barões e outros poltrões de toda a Europa administravam tais monopólios virtuais como grandes senhores feudais.
Surgia, assim, o problema político da relação temporal entre o Presidente da Comissão e os diferentes poderes políticos da CE.
Era natural que o PCE (Presidente da Comissão Europeia) exigisse uma certa sujeição temporal dos governos, enquanto senhor de grandes Empresas falidas na CE.
Mas, pouco a pouco, para assegurar essa fidelidade, os governos europeus passaram a nomear Comissários de sua confiança para as grandes áreas de actividade.
DB então investia-os com uma espécie de anel e báculo.
Não apenas lhes outorgava a área de intervenção como feudo, mas também decidia quem seria sagrado director.
Em vista disso, geralmente os candidatos às diversas comissões, tinham uma espécie de cheque em branco para conseguirem de qualquer forma a eleição.
A autoridade jurídica da CE sobre os Comissários assim nomeados perdia-se, porque eles ficavam sujeitos à autoridadepolítica do país ae origem.
Este tipo de investidura tornou-se, pouco a pouco, um facto consumado que era necessário erradicar, sob pena de a CE perder a sua independência.
E ainda, para piorar as coisas, os Comissários assim nomeados pelo PCE pretendiam que o seu cargo se transmitisse por herança à sua família.
Para isso, procuravam ter descendência, e não olhavam a meios par ao conseguir.
- Essa é a minha luta de mais de três anos, JS.
- E tem sido travada com a máxima sabedoria, meu amigo. As notícias das tuas sábias reformas têm chegado a Lisboa.
Rezo pelo teu sucesso, que é o nosso, incessantemente.
Os nossos contribuintes em Portugal também...


(continua...)

Portugal - a origem do mal, parte III

O estado de decadência em que se encontrava a CE fazia-o sofrer, ao mesmo tempo que aumentava a sua disposição e ânimo para uma autêntica luta.

- Mas agora és o Presidente, és o mais importante, e como tal estás em excelente posição para lutar pela Europa, por nós.
- Sem dúvida, meu amigo e é por isso que pedi que viesses a Bruxelas. Tenho um grande sonho que pretendo realizar em vida. Muita coisa está mal na Europa, no mundo civilizado.
- O espírito das trevas é muito poderoso e está a afastar as pessoas da Fé política. Sabes que tenho lutado contra isso toda a minha vida.
- Bem sei, meu amigo, tu és a excepção. A minha observação do mundo político diz-me que é muito difícil encontrar alguém como tu, pois raros são aqueles que chegam ao topo por vias legais, e que levem uma vida conveniente, conduzindo os seus eleitores(e contribuintes) no espírito de caridade, e em direcção ao redil.
- E se falarmos dos príncipes por aí espalhados…
- Não conheço nenhum que prefira a glória do seu país à sua própria glória, a justiça ao interesse…são piores que os judeus ou mesmo os pagãos!
- Como sabes, estou activamente empenhado e até aqui com sucesso, pela graça de Deus, na luta das investiduras, no que concerne a dádivas de regalias aos países da UE.
- Presidentes e Chefes de Governo de toda a Europa comportam-se como grandes senhores feudais, e sendo pessoas de pouca fé, veneram mais a propriedade que a Deus.
- Esse é o maior problema que se nos depara, pois a fidelidade, que devia ser dada à Europa e à Democracia, é canalizada para os "boys" que os empossaram.

(continua...)

Portugal - a origem do mal, parte II


JS, primeiro-ministro de Portugal e dos Portugueses e Portuguesas, viera visitar o amigo, um ano depois da sua investidura como Presidente da Comissão Europeia (CE), com o nome de José ou Joseph.
Era grande a amizade entre estes dois homens, que decidiram dedicar a sua vida à fé política.
DB nascera na diocese de Lisboa, filho de um pequeno proprietário de terras, e tornou-se primeiro-ministro de Portugal, na época em que JS dirigia o partido socialista, então como oposição, onde o espírito feudal iria encontrar o seu pleno equilíbrio católico.
O actual Presidente da CE, europeu convicto, impressiona os portugueses e o mundo, não só pela sua capacidade de trabalho e inteligência mas essencialmente por dominar fluentemente várias línguas.
Em Novembro de 2004, ali foram procurá-lo as altas esferas da CE ,com o intuito de o convidar a suceder ao italiano Prodi num cargo que mais ninguém queria, alegadamente por ser mal remunerado, e ser vazio de poder.
Tal método de designação de um Presidente da CE, válido na altura, revelar-se-ia abusivo. DB, como Presidente da CE, adoptou o nome de Cherne Joseph.
Levou o amigo VA consigo para Bruxelas e nomeou-o arquidiácono, primeira dignidade do Sacro Colégio de Comissários Europeus e administrador das Relações externas...


(continua...)

Portugal - a origem do mal, parte I


A sala estava mergulhada na penumbra e o ambiente era de grande austeridade, contrastando claramente com a afabilidade dos dois homens, DB e JS.

- O tempo é o mundo e a Eternidade é Deus, JS. Se quisermos assegurar a nossa passagem à Eternidade temos de controlar o mundo.
- Quer dizer, o homem, DB.
- Certamente meu amigo! Devemos garantir os interesses europeus, que são os nossos, através de uma mão de ferro no mundo civilizado.
- Tens de te acautelar, pois as forças contrárias são muitas e muito fortes. Podes contar com a minha colaboração incondicional.
- Agradeço-te meu amigo, e tenho de facto algo a pedir-te nesse sentido, de extrema importância para o futuro da Europa.
- Tudo o que estiver ao meu alcance.
- Entreguei-me de todo o coração a esta missão, JS, e nada nem ninguém me fará recuar. Tenho esperança que a velha Europa reencontre os caminhos da esperança há muito perdidos.
- Tens então esperança de ser bem sucedido…
- Se não tivesse esperanças em melhores tempos e em ser útil à Europa, não me tinha conservado em Bruxelas, Deus o sabe, como preso, durante três anos, entre uma dor que se renovava quotidianamente e uma esperança muito longínqua! Acometido por mil tempestades, a minha vida tem sido uma agonia continuada.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Liberdade das areias movediças - REENCONTRO

REENCONTRO

Demorou-se muito tempo na contemplação do horizonte.
Tinha um um ar sério, a testa enrugada, como se algo o preocupasse. Não se conseguia libertar daquela estranha sensação de que algo não estava bem. O momento estava incompleto, sentia-o, mas não poderia dizer exactamente o que faltava. Nem mesmo a vista maravilhosa sobre o mar que dali se disfrutava o conseguia retirar daquela espécie de melancolia que o invadia continuamente. Fixou-se de uma forma hipnótica nos mastros dos veleiros que balouçavam ao ritmo da pequena ondulação provocada pelo movimento da marina, e sentiu uma espécie de apelo. Fez um sinal discreto ao empregado de mesa.
Decidiu caminhar um pouco pela borda da marina. Pagou o café ao simpático funcionário e ensaiou uma espécie de esgar para retribuir a amável saudação que o jovem funcionário lhe prestou, enquanto arrumava a cadeira. Pensou nisso durante breves segundos, surpreendido com a facilidade com que certas pessoas se dedicavam a cada momento, à sua vida. Ele não conseguia, denotava sempre um ar de alguma ansiedade, como se fosse um intruso da própria vida, estivesse ali a mais, ou a sua existência se devesse a um puro engano, e a qualquer momento algo ou alguém surgiria para o desmascarar.
Caminhava agora perto da água e perguntava-se como seria possível que a edilidade não mandasse instalar ali uma protecção para impedir, dificultar, quedas acidentais ou mesmo intencionais, que seriam necessariamente perigosas, fatais. A este pensamento tem um arrepio. Seria tão fácil acabar com aquele sofrimento atroz que o impedia de ser feliz. Sobreveio o seu instinto de sobrevivência. Afasta-se da bordinha num gesto brusco, como se tivesse optado no derradeiro instante pela salvação. Como se estivesse na linha férrea à espera que o comboio o atingisse e resolvesse salvar-se no último instante. Alguém que o observasse ficaria com dúvidas sobre a sua sanidade mental, ou julgaria que tivesse sido picado por uma vespa.
“Terei sobrevivido a alguma coisa? Terei sido traído por algo em quem confiava e que já não posso identificar?” - vai pensando enquanto retoma o controlo emocional e o coração recupera o ritmo normal.
Passa a linha férrea e decide caminhar pelo passadiço de madeira que entra pela ria adentro. Nunca ali tinha ido, apesar de saber da sua existência. Tenta encontrar uma explicação para essa lacuna, como sempre fazia quando se confrontava consigo mesmo. Geralmente quedava-se na sua contemplação atrás do pequeno muro caiado de branco, restaurado ao abrigo de um financiamento atribuído pela autarquia. Eram já poucas as automotoras que circulavam naquela linha mas o perigo era notório e ali estavam os avisos sonoros e escritos em painéis vermelhos para se evitarem os acidentes. Não encontra explicação válida mas a mente não lhe dá tréguas:
“Como é possível que nunca me tenha atrevido a vir até aqui” - pensa, mas de súbito é surpreendido pela beleza da paisagem.
A passadeira era bastante comprida, teria no mínimo uma centena de metros e permitia o distanciamento suficiente da cidade para que se pudesse fazer esse exercício de a observar à distância. Começou por olhar para a ria, voltando costas à cidade, admirando aquele mundo maravilhoso que só agora contemplava com alguma atenção.
Estranho! Aquela beleza sempre ali estivera mas para ele era como se nunca tivesse existido, apesar de saber que existia. 
“ Desconhecimento aparente do conhecido”. 
Ficou a pensar nisto enquanto tentava seguir com o olhar o voo errático de umas aves brancas e grandes que não sabia identificar. Não eram cegonhas nem patos, isso sabia bem, mas aquele desconhecimento indicava-lhe claramente que se devia ter interessado um pouco mais por aquele mundo ali tão perto. Afinal fazia parte da cidade, complementava-a, e ele apenas conhecia uma parte do todo. Este pensamento sobressaltou-o e repentinamente virou costas ao mar. Encostou-se à estrutura de madeira encerada que delimitava o passadiço. Algumas gaivotas repousavam na água à sua frente e pareciam observá-lo com curiosidade. Encarava agora o casario de frente, mas de longe, num silêncio que apenas não era total, profundo, pois ouviam-se os gritos das aves, espaçadamente, o salto de um ou outro peixe naquele espelho de água que o rodeava, e o ruido de um motor de embarcação, ao fundo, como ecos distorcidos de mundos mágicos.
“Talvez também tenha perdido a verdadeira alma da cidade!” - decidiu, e sentiu um enorme alívio no seu cérebro - “ Nunca é tarde para se reencontrar aquilo que nunca se perdeu pois nunca se teve”.
Aquela pressão que o afligia permanentemente e obrigava a pensar na sua génese, pareceu tê-lo abandonado como por magia.
Esteve durante bastante tempo a olhar para um e outro lado, como se fosse uma criança que vê o mundo pela primeira vez, sem tentar adjectivar ou sequer entender. 
Olhava apenas. 
Percebeu então que aquela sensação de vazio que experimentava constantemente não se devia a qualquer escolha errada feita no passado, a qualquer lacuna emocional, mas ao simples facto de não ter vivido integralmente todos os momentos da sua vida. Pensava demasiado, e nesse frenesim perdera o essencial, aquilo que é. 
De tal forma que interiorizou que o que existia era aquilo de que tinha conhecimento e não aquilo que verdadeiramente era. Fazia o mundo à sua imagem e com essa atitude redutora passava ao largo da verdadeira imagem do mundo.
Da sua própria imagem, pois ele integrava esse mundo.

Mais, ele era o mundo, e só agora o entendia.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Metamorfoses espirituais (O MURO) - Ensaios de HP Bellis

O MURO

Passamos a vida a pensar que somos uma espécie de pessoa e de repente damos por nós a fazer tudo aquilo que sempre evitámos ”.
Grazina não consegue evitar este pensamento enquanto ajusta com evidente dificuldade o encosto da cadeira articulada que colocou na varanda, virada a leste, para ver o nascer do sol, como explicou, quando os dias começaram a aquecer.
“ Terei estado enganado a vida inteira?”
Não é seu hábito estender a ociosidade na varanda da casa, mas aquela tranquilidade e frescura eram demasiado tentadoras para serem ignoradas.
Não se podia estar lá dentro!
Por uma vez o manda-chuva tinha acertado nas previsões e o verão estava a ser extremamente quente, rico em fogos florestais e outras calamidades, um pouco por todo o país.
- Deixa arder! - disse baixinho - Quem vier atrás que feche a porta.
Estava farto daquela hipocrisia universal que caracterizava os donos do planeta, os donos disto tudo, como lhes chamava, aos presidentes e chefes dos estados mais ricos do mundo e seus apaniguados do mundo financeiro e empresarial, por analogia com o banqueiro que estava na berra.
“Cambada de hipócritas! Assinam tratados um pouco por todo o mundo com pompa e circunstância, batem no peito e juram defender o planeta, debitam em horário nobre a sua intenção de limitar a emissão dos gases de estufa, financiam filmes reveladores do perigo que a Natureza corre, mas na prática nada muda. O mundo está mesmo a morrer, ou pelo menos a tornar-se inabitável para o homem”.
“A mim pouco me importa” - reconhece, depois de ter encontrado a melhor posição na espreguiçadeira - “ Já vivi pelo menos três quartos da minha vida, não tenho descendência…” - faz uma pausa no raciocínio para ajustar os braços da cadeira ou para mergulhar no seu deve e haver - “ Espero é que nada aconteça até fazer a minha saída do palco”.
Vai já na casa dos setenta e evidencia as mazelas físicas de uma vida devotada ao trabalho no campo. Seco de carnes, mãos ásperas, pele curtida pelo sol, costas ligeiramente encurvadas, pernas inchadas por problemas antigos de circulação sanguínea. Ainda assim, mantém o serviço central, como lhe chama, em perfeitas condições. Coração e cabeça funcionam na perfeição. O primeiro não foi sujeito a grandes testes, pois não enfrentou desgostos de amor nem se desgastou a correr atrás de ilusões. Teve o seu quê de preocupações, pois claro, quem as não tem, mas nunca se entregou a desilusões ou a quimeras.
“Nunca me deixei levar. Apaixonei-me, como toda a gente, mas soube sempre reconhecer os sinais da ilusão e do erro, e saí por cima de algumas situações de vida, os chamados problemas”.
Terminaria a caminhada sozinho, mas feliz e sem amarguras. Nunca encontrou o tal amor verdadeiro que vem do fundo da alma, mas também não se viu enredado naqueles dramas que fazem parangonas diárias na comunicação social. Enche o peito de ar e expira fundo antes de concluir o raciocínio com a sua metáfora preferida:
“O bom general sabe reconhecer o momento da retirada, e melhor que isso, sabe escolher o campo de batalha. Melhor ainda, sabe evitar os conflitos”.
Começou por ser empregado de balcão, antes da tropa e depois dos estudos. Fez o quinto ano do antigo liceu mas por falta de recursos empregou-se na mercearia do senhor Júlio, amigo de infância do pai, lá em Lisboa. A tropa retirou-lhe compulsivamente desse purgatório mas em troca ofereceu-lhe o inferno da guerra na África a que chamavam nossa. Três anos e meio depois devolveu a sua parte ao Estado e regressou a casa. Mais velho, mais sábio e consciente. Esteve seis meses em Lisboa no antigo emprego, mas a morte dos pais, um a seguir ao outro, como se não suportassem estar afastados por muito tempo, mudou-lhe o destino. Filho único, tomou posse daquele pequeno monte lá na terra, voltando definitivamente costas aos apelos da grande cidade. 
O trabalho de sol a sol que a partir de então decidiu abraçar, salvou-o desses inimigos mortais que estão ligados às memórias do passado incompleto ou cruel. A cabeça também não o atraiçoou, soube recompensá-lo, pois chegou à recta final da vida em excelentes condições físicas e económicas, permitindo-lhe a autonomia que muitos dos seus amigos e conhecidos não tinham.
“A máquina foi bem estimada, reconheço. Não a sobrecarreguei com pensamentos, desejos ou memórias nefastas, antes a alimentei com emoções e desafios saudáveis que ainda gosto de explorar” - pensa, com algum orgulho mal dissimulado.
Lê muito, escreve bastante, notas soltas, pensamentos, pequenas histórias mais ou menos sérias, mais ou menos ingénuas. O que gosta mesmo é de observar o mundo exterior e compará-lo com a sua experiência através de metáforas simples e alegorias apelativas.
“Tenho jeito para isso e apenas lamento não ter conseguido publicar”.
Talvez pudesse ter tido sucesso como escritor. Ou não. Mas o importante é desabafar, passar a papel as emoções, tenha isso o valor que tenha.
“ Que importa à flor escondida na floresta que nunca alguém a observe?” - pensou uma vez, já a noite caíra sobre o seu mundo.
E nesse momento, ao observar as estrelas na noite escura, veio-lhe à cabeça um estranho pensamento.
- Metamorfoses espirituais! - balbuciou devagar, como se quisesse saborear as duas palavras estranhas que acabava de juntar - Será que Deus se deu a conhecer através da mente humana, ou foi apenas uma invenção do homem, numa tentativa de colmatar a sua frustração em entender as estrelas?
Grazina descontrai completamente. Sabe reconhecer esse estado de leveza pela forma como o corpo se ajusta à almofada. Começa um exercício respiratório relaxante, inspirando o ar profundamente pelo nariz, forçando-o a inchar o abdómen, e depois expira pela boca com violência, imaginando que está a expulsar uma massa cinzenta que contem todos os seus problemas, dúvidas e medos. Repete esse exercício algumas vezes, imaginando que com o ar puro inspirado absorve um feixe de luz purificadora que lhe preenche o cérebro e depois vai descendo pela espinal medula, espalhando-se por todas as células do corpo. À quarta repetição está completamente descontraído e quase adormecido. Todos os seus sentidos se aguçam quando fecha os olhos e lhe acontece o derradeiro pensamento consciente:
“Haverá mesmo um cordão de prata? Poderemos sair do corpo que nos limita e protege?”
Sabe que por detrás do pequeno muro de pedra que delimita a varanda onde está recolhido nesse final de dia quente de verão, existe uma estrada movimentada.
Começa a pensar nestas coisas assim que se encosta numa inclinação estudada, e apenas depois de se certificar que ninguém o pode observar dos prédios contíguos. Talvez apenas do ar possa vir o perigo, algum drone, algum satélite espião que veja nele um motivo de interesse. Não acredita que seja assim tão importante para que as potências invistam no controlo da sua pessoa. Mas nunca se sabe, e queda-se por momentos na contemplação do céu que começa a escurecer. É da distracção e do facilitismo que advêm muitos problemas inesperados.
“Estou a ficar paranoico com a idade”.
Sorri a este pensamento, e finalmente decide que está só. Só e livre para pensar.
O ruido contínuo dos veículos que se deslocam num e noutro sentido é absolutamente fascinante, e comprova que aquilo que existe provém sempre daquilo que não tem existência. Já consegue identificar, sem ver, apenas guiado pelas matizes sonoras, se um veiculo se afasta ou aproxima, e em que sentido vai. Se vem da direita ou da esquerda, a grande ou pequena velocidade, e até já se atreve a interpretar o estado de espírito dos condutores, e a calcular o número de passageiros.
Por breves momentos, faz-se silêncio.
“Parece que nada existe!”
Ouve então as vozes de alguns pássaros que por ali passam, invisíveis, talvez regressando tardiamente aos seus ninhos depois de um dia inteiro de voos nervosos.
“Será que os pássaros sabem o que é o dia?”
Nesse intervalo ouve o grasnar de um pato. Depois, o silêncio total. Breve.
Dizem que o espaço infinito é silencioso. Nada se pode ouvir, apenas ver. Um mundo de surdos. As explosões estelares, as mortes e os nascimentos silenciosos de mundos infinitos e desconhecidos. Desse momento faz a eternidade e imagina que tem alma e que ela consegue flutuar numa espécie de poço sem limites onde nada há para ver nem ninguém com quem falar, gesticular. Assusta-se com esse vazio, dizem que a mente não o suporta mas na realidade é ele quem tem esse arrepio, e volta rapidamente para a espreguiçadeira, recolhendo o cordão de prata, ou lá o que é que prende a alma ao corpo enquanto este está vivo por dentro. O seu porto de abrigo de onde pode testemunhar o silêncio sem se assustar. Pode sempre agarrar os braços de madeira algo gasta, ou sentir a textura da pequena almofada.
“A morte tem de ser sentida sem este corpo” - imagina, para se reconfortar.
Logo voltam os ruídos familiares, vagos indícios de vozes humanas, algo distorcidas pela distância ou por qualquer fenómeno físico ligado à propagação do som através de camadas de ar de diferentes densidades, como explicaram num daqueles programas de televisão de carácter científico da grelha de programação. Chegam aos soluços ora mais nítidos ora mais ténues e não consegue perceber de onde vêm. Talvez sejam ondas longínquas que por qualquer motivo vieram morrer perto da sua varanda só para o confundir. De qualquer maneira têm o condão de o fazer refletir na importância do silêncio, aquela coisa a que se dá um nome mas não sabemos exactamente o que seja, e por isso explicamos pela negativa.
“Silêncio é a ausência de som, e não se fala mais nisso, senhor Grazina” - disse-lhe um cientista em resposta à sua pergunta, algo aborrecido com a sua insistência numa definição positiva.
“É como a escuridão, então” - comparou, e o professor limitou-se a olhar para ele com cara de poucos amigos, pensando que ele estava ali para lhe criar dificuldades.
Desistiu aí de frequentar aquela universidade da terceira idade que lhe tinham recomendado, pois achou que já chegara a uma idade em que não se contentava com meias respostas. Veio-lhe logo à cabeça as longínquas aulas da instrução primária em que os professores não admitiam perguntas estranhas fora do padrão estabelecido e as coisas eram assim porque vinham escritas nos livros e vinham escritas nos livros porque eram assim.
“Que silêncio!”
Mais vozes humanas agora mais perto e mais nítidas libertam-no dos pensamentos negativos, mas são de imediato abafadas pelo ruido estridente e inconfundível da sirene de uma ambulância. Vai com pressa, pela forma como o som se propaga, e Grazina apenas pode imaginar se vai salvar ou se já salvou alguém, se vai acudir a um acidentado ou a um doente.
É claro que o silêncio total não existe. Pelo menos ali no local onde está. Não vê mas ouve e isso coloca-o na posição do invisual que se guia pelo som. Toca agora o relógio de pêndulo da sala enquanto lá em cima, algures no ar, passa um avião a pouca altitude, talvez vá aterrar no aeródromo militar ali perto. Agora que escreve isto torna-se claro para ele que o silêncio total é coisa rara. Há sempre um carro a passar, a estacionar ou a arrancar lá em baixo em frente ao prédio ou na estrada ali em frente, ou um avião que se faz à pista, seja a comercial na grande cidade, ou a militar na vila mais próxima.
Ouve agora um ruido diferente, em fundo. Parece o som de um pequeno agrupamento de pessoas que pretende falar baixinho mas que acaba por fazer um ruido de intensidade média, irritante. Deve ser mais um velório, e para confirmar o facto ouve a voz da vizinha de cima que terá assomado à sua varanda.
“ Mais um funeral!” - desabafa ela, e Grazina não sabe se a senhora fala com alguém ou consigo mesma, e lá vai lamentando, alto e bom som, a hora em que a casa mortuária abriu ali em frente, no outro lado do passeio, num anexo da igreja nova e redonda que a diocese finalmente mandou construir depois de anos de promessas.
Esta sua vizinha detesta a morte e terá que a reviver diariamente até que o seu próprio passamento a liberte dessa angústia.
Fecha os olhos por uns segundos aproveitando um raro momento de silêncio.

Parece que o mundo parou.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A CIMEIRA , de HP Bellis

IV – CIMEIRA


 A Professora F. Esposende, ilustre psiquiatra e especialista a nível mundial em desvios comportamentais estava desenvolvendo um trabalho considerado pioneiro, em Bruxelas, sobre as comunidades migratórias ilegais subsareanas, versando essencialmente a identificação de desvios emocionais dos imigrantes aquando das quarentenas impostas pelos países de acolhimento. Fora tal estudo que permitira à Comissão Europeia, que tutela esses casos infelizmente cada vez mais frequentes, chegar à conclusão que algo novo e anormalmente perigoso se estaria a iniciar na mente humana, e que poria em risco, a muito curto prazo, o modelo de sociedade europeu, com riscos elevadíssimos para todos, em especial para a classe política.
 As conclusões que esta cientista apresentou em sessão restrita do parlamento europeu, três meses antes, caíram nos meios políticos como uma bomba.
Era notória a gravidade da situação, especialmente pela total ignorância que os estados tinham quer do seu estado actual de desenvolvimento, quer da sua capacidade de expansão. Mas que se estava perante uma ameaça bem mais terrível que o emergente problema do terrorismo internacional, isso era uma realidade. Uma pandemia!
Imediatamente foram dadas instruções para que todos os chefes de governo europeus viessem a uma reunião a Bruxelas com carácter de urgência. Pela primeira vez era convocada uma reunião sem agenda conhecida, o que desde logo indiciava uma gravidade e urgência fora de comum. Nem o recente conflito Iraquiano tinha sido objecto de um tal procedimento.

O voo correra duma forma excelente, no avião particular, da força aérea. Era para o primeiro-ministro português uma experiência nova pois tratava-se da sua primeira reunião internacional e logo com carácter de urgência.
Viajara de véspera pois assim tinha mais tempo para se adaptar ao clima e aos ambientes da política internacional. Trouxera consigo o assessor para a imprensa, entre outras individualidades que sempre estão presentes nestes voos.
O hotel ficava um pouco distante do parlamento, mas era aquele em que por norma o primeiro-ministro do país utilizava aquando das suas visitas de estado a Bruxelas, por ser mais recatado e onde dificilmente alguém o reconheceria.
Finalmente o dia da reunião chegou. Na viatura oficial que faria o trajecto entre a unidade hoteleira de luxo onde passara a noite e o parlamento, o primeiro-ministro olhava para o relógio com inquietação e esfregou o cotovelo esquerdo, sinal de que se sentia mesmo inquieto. Estavam atrasados dez minutos. Embora tivessem saído cedo do hotel, àquela hora da manhã o trânsito em Bruxelas frustrava qualquer boa intenção de cumprir horários.
Quando era jovem, ainda simples iniciado na política, levado pelo entusiasmo que mais tarde lhe causaria amargos de boca, pregara promessas por comícios e campanhas eleitorais, que afastavam definitivamente as intermináveis filas, quais tentáculos de polvo garrotando a cidade num torniquete de buzinas e fumos.
O primeiro-ministro tornou a verificar as horas e desabafou:
- Estamos atrasados.
- Apenas meia hora, Senhor Ministro. Para ministro até estamos adiantados. Se fosse um secretário de Estado, estávamos na hora.
- Como?
- É como lhe digo, Excelência. O horário de ministro está uma hora atrasado em relação ao TMG.
Por vezes odiava profundamente o seu assessor de imprensa. Este arranjava sempre explicação para tudo. Explicação e justificação. Mesmo quando tinha a certeza de que se espalhara ao comprido, o assessor encontrava uma leitura recompensadora.
- Não digas disparates, Jacinto. Perdi a cabeça no último debate televisivo, mandei à merda a oposição e atribui as culpas dos incêndios à deficiente planificação de D. Dinis, e tu dizes que fui bem? Estás a gozar? Estás?
- Por quem é, Senhor Ministro. Fez muito bem em mandá-los à merda, pois claro.
- Na SIC, em pleno horário nobre!?..
- É uma linguagem que as audiências entendem. E é para as audiências que o Senhor Ministro governa. Por acaso os programas culturais têm audiências? Sua Excelência sabe bem que não!
- Seja como for1
Exasperava-o nunca cometer disparates aos olhos do assessor. Às vezes sentia-se gozado. Porém, era tão grande a vassalagem de Jacinto, a evidência da admiração tão absoluta, que só podia ser estúpido ou génio. Maldita a hora em que o tinha admitido para o cargo, até parece que o antigo colega na Empresa que lhe metera a cunha o tinha feito só para o irritar. Mas amigos são para as ocasiões, e, bem vistas as coisas o idiota até não era tão parvo como se pensava.
Já por algumas vezes lhe vieram à cabeça as tais tretas da teoria da conspiração: será que este gajo era um espião ao serviço da oposição? Será que o favor que o colega lhe fizera há anos teria água no bico e já suspeitassem que o seu brilhantismo o levaria mais cedo ou mais tarde a uma posição no governo?
Tenho que vigiar bem este sacana, só me faltava mais esta - vai pensando com os seus botões enquanto dá uma olhadela para a sua caixa de correio electrónico, com uma mal disfarçada ansiedade.
 Na lista dos jornalistas destacados para cobrir o acontecimento não estava o nome que ele procurava, o que lhe produziu um imenso mal-estar. Haverá mais alguma coisa que possa correr mal? Onde estaria Gabriela a esta hora, a brilhante e sofisticada jornalista da televisão pública que lhe tirava o sono há já um bom par de meses? Por que carga de água não tinha ela vindo a Bruxelas? Será que os seus desejos mais simples já não são respeitados? Não se está a impor o direito feudal de pernada, por amor de Deus.
Não pode um primeiro-ministro ter vida privada?
 Ser responsável político dum país da EU, e logo com o cargo de chefe do governo, acarreta uma grande, uma enorme responsabilidade. Mas esse sempre fora o seu sonho, desde criança, quando, ainda nos bancos da escola se entretinha a inventar leis escritas que obrigava o seu irmão mais novo a seguir religiosamente.
Bons tempos!
Um excelente exercício prático, que o auxiliou bastante quando mais tarde, nos bancos na universidade, vestiu a pele de líder associativo. Os que melhor o conheciam sabiam que a defesa dos estudantes não era a sua primeira preocupação, nem mesmo o sucesso académico, à partida assegurado por via familiar (o tio era catedrático e presidente do conselho pedagógico) e por via da fé, uma vez que se associara à Opus Dei, como lhe fora recomendado por um amigo de família bem colocado na zona do poder. Enfim, tudo se conjugava para que o seu futuro político estivesse assegurado, e o tirocínio associativo foi de facto a pedra de toque. Não fora nos primórdios da nacionalidade essa a receita certa para assegurar o poder? Razão fé e poder, um pouco de carisma, os contactos certos, e tudo se consegue.
Houve algumas coisas menos boas, de facto, a começar pelo afastamento do seu irmão mais novo, que nunca conseguiu acompanhar o seu brilhantismo político, nem nunca lhe perdoou o facto de deliberadamente ter mentido à população estudantil sobre a verdadeira razão de um assalto à academia num certo verão quente. Danos colaterais sempre houve e haverá, e afinal de contas sempre é bom ter na família alguém que acha que faz do trabalho honesto, um modo de vida.
É bom para a imagem.
O trânsito descongestionava-se e o carro acelerou. Estavam atrasados e Pedro acomodou-se no banco traseiro. Ao lado repousava o enorme dossier sobre os incêndios florestais do pequeno jardim europeu, mas não lhe apetecia estudá-lo. Ninguém se poderia admirar. Pedro ainda não fizera cinco meses que tinha sido investido, e aqui estava a sua grande primeira confrontação.
-Merda, que grande merda! Mas que merda de país! Sempre a mesma treta dos incêndios e sempre, sempre no período de férias. Lá vamos nós ter de resolver este problema pelo menos até que chova. E com uma agenda tão preenchida…as autárquicas, as presidenciais….o terrorismo.
- Senhor Ministro, estamos a chegar…penso que já vislumbro os seus colegas, grego e alemão…. …. Afinal não somos os únicos atrasados.

- Obrigado, Jacinto, dá-me só uns segundos para compor o meu cabelo.

ALCAÇARIAS 3º Capítulo - Inquisição

Inquisição

No dia dezassete de Setembro de mil quatrocentos e oitenta, frei Alfonso de Ojeda apresentou aos reis católicos Fernando e Isabel o relatório elaborado pela comissão instituída dois anos antes, e o mundo conhecido nunca mais seria o mesmo.
Nesse mesmo dia, com o beneplácito real, Tomás de Torquemada nomearia dois frades dominicanos como primeiros inquisidores do renovado santo ofício.
Os novos inquisidores receberiam ordens para partir imediatamente para Sevilha e de assumirem os seus deveres na cidade que os purificadores da fé consideravam o alfobre da heresia em Espanha.
Dois anos antes, no dia um de Novembro de 1478, o papa Sixto IV assinara a bula Exigit sincerae devotionis affectus através da qual se fundava uma nova Inquisição na Espanha.
Redigida como resposta às petições dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, essa bula reproduzia os argumentos régios sobre a difusão das crenças e dos ritos mosaicos entre os judeus convertidos ao cristianismo em Castela e Aragão, atribuía o desenvolvimento dessa heresia à tolerância dos bispos e autorizava os reis a nomear três inquisidores entre os prelados, religiosos ou clérigos seculares com mais de quarenta anos, bacharéis ou mestres em teologia, licenciados ou doutores em direito canónico, para cada uma das cidades ou dioceses dos reinos.
Esse poder concedido aos príncipes era um acontecimento inédito: até então, a nomeação dos inquisidores, cuja jurisdição se sobrepunha à jurisdição tradicional dos bispos em matéria de perseguição das heresias, estava reservada ao papa.
Fernando e Isabel tinham conseguido os seus objectivos, pois ameaçaram o Papa de retirarem o apoio militar à Santa Sé, se o pedido lhes fosse recusado.
A bula, com efeito, permitia aos Reis Católicos não apenas a nomeação mas também a revogação e a substituição dos inquisidores.
Munidos desse documento fundador, os Reis Católicos demoraram algum tempo para colocá-lo em prática: esperaram até Setembro de 1480 para nomear dois inquisidores, os dominicanos frei Juan de San Martín e frei Miguel de Morillo, respectivamente bacharel e mestre em teologia, para perseguir os crimes de heresia nos seus reinos.
Havia duas subtilezas nessa carta: a designação abstracta dos crimes de infidelidade, heresia e apostasia, estendendo a acção dos inquisidores a todos os domínios do comportamento e das crenças desviadas, e a ausência de delimitação geográfica da jurisdição dos novos inquisidores.
Por outras palavras, havia luz verde para os inquisidores fazerem o que lhes apetecesse, onde lhes aprouvesse, com o mínimo de resistência, deixando um enorme campo de manobra às relações informais, como se a prática devesse ficar livre de regras bem precisas.
  
A sala estava mergulhada na penumbra e o ambiente era de grande austeridade, em linha com a postura dos três homens, Tomás de Torquemada, Miguel de Morillo e Juan de San Martín.
Tomás de Torquemada era um homem corpulento, de cara fechada, nariz grande e sobrancelhas espessas e desalinhadas, lábios finos, bem delineados, que nunca esboçavam qualquer sorriso.
A sua presença era altamente intimidatória, e tal faceta só se comparava ao seu poder, que era enorme, quase absoluto, e representava a face mais sinistra da Igreja Católica. Era o inquisidor-geral dos reinos de Castela e Aragão por nomeação do papa Sixto IV e confessor da rainha Isabel a Católica.
Ainda jovem, tornou-se frade dominicano no Convento de São Paulo na sua cidade natal, Valladolid. Em 1452 foi eleito prior do Convento de Santa Cruz, em Segóvia.
A estratégia de Torquemada, acordada com os Reis Católicos, passava pela exploração da desconfiança popular em relação aos judeus convertidos e difundia a suposta necessidade de que o país contasse apenas com sangre limpia, ou seja, sangue puramente cristão.
 Na prática era uma ficção, pois como a Espanha tinha a maior comunidade judaica da Europa e como eram comuns os casamentos inter-étnicos e as conversões religiosas, pouquíssima gente na Espanha tinha sangue realmente puro.
O próprio Torquemada era neto de judeus convertidos, facto que ele escondia cuidadosamente. Mas Torquemada não se deixou abater por este detalhe. Decidido a purificar o país, estava obcecado em realizar um trabalho metódico, frio e impiedoso de perseguição aos marranos, nome depreciativo dado aos judeus convertidos.
Os dois homens que respeitosamente se perfilavam diante dele eram em tudo semelhantes: lábios finos, descoloridos, tez clara, esbranquiçada, barba rala e olhos cavados, altura mediana e exageradamente magros.
Em pouco se distinguiam, sendo que Miguel era ligeiramente mais alto que Juan, em tudo o resto semelhantes, na frieza do olhar e no rosto alucinado e encovado, que denotava grande sofrimento interior. Eram profundos conhecedores de Teologia e seguramente detinham a verdade.
 - O tempo é o mundo e a Eternidade é Deus, Miguel. Se quisermos assegurar a nossa passagem à Eternidade temos de controlar o mundo - diz Torquemada.
 -Quer dizer, o homem, Tomás - comenta Juan de San Martín, dominicano e bacharel em Teologia.
- Certamente meu irmão! Devemos garantir os interesses divinos e dos nossos soberanos Fernando e Isabel, que são os nossos, através de uma mão de ferro, no mundo cristão.
- Temos de nos acautelar, pois as forças contrárias são muitas e muito fortes. Podeis contar com a minha colaboração incondicional - atalha Miguel de Morillo, mestre em Teologia.
- Agradeço-vos meus irmãos, e tenho de facto algo a pedir-vos nesse sentido, de extrema importância para o futuro da cristandade.
- Tudo o que estiver ao nosso alcance - responde Miguel de Morillo, com o assentimento de Juan de San Martín.
- Entreguei-me de todo o coração a esta missão, e nada nem ninguém me fará recuar. Tenho esperança que a Igreja reencontre os caminhos da fé há muito perdidos e se livre dos hereges, mouros e judeus.
- Tendes então esperança de ser bem-sucedido, de lavar o sangue de Espanha”.
- Se não tivesse esperanças em melhores tempos e em ser útil à Igreja e aos nossos soberanos, não tinha aceitado o cargo. Deus o sabe, como tenho vivido, entre uma dor que se renova quotidianamente e uma esperança muito longínqua! Acometido por mil tempestades, a minha vida tem sido uma agonia continuada - diz Torquemada numa voz grave e arrastada, enquanto dava uns passos em direcção a uma janela que abria sobre um jardim interior.
O estado de decadência em que se encontrava a fé fazia-o sofrer, ao mesmo tempo que aumentava a sua disposição e ânimo para uma autêntica luta contra aqueles a quem atribuía todas as desgraças do mundo.
- Mas agora sois o Inquisidor-mor, e como tal estais em excelente posição para lutar pela Fé, para resolver o problema, com a graça de Deus e a bênção papal - apressou-se a dizer Miguel de Morillo, o mais expansivo dos dois empossados.
- Sem dúvida meus irmãos, e é por isso que vos irei nomear como primeiros inquisidores. Tenho um grande sonho que pretendo realizar em vida. Muita coisa está mal na Igreja, no mundo cristão. E conto convosco para resolver este problema. Começareis de imediato.
- O espírito das trevas é muito poderoso e está a afastar as pessoas da Fé católica. Sabeis que temos lutado contra isso a vida inteira. Penso que não faltarei à verdade se disser que falo em nome de ambos” -diz Juan, voltando-se para Miguel, que parecia petrificado de emoção.
- Bem sei, meus irmãos, vós sois a excepção. A minha observação do mundo católico diz-me que é muito difícil encontrar alguém como vós, pois raros são os monges que levam uma vida conveniente, conduzindo os seus rebanhos no espírito de caridade.
- Temos que ser inflexíveis e rigorosos, mas não nos esqueçamos que a Igreja não suja as mãos de sangue. Nós apenas recomendamos a purificação dos hereges, dos judeus. O século que o faça.
- Conhecemos bem a situação e tiraremos dela o maior partido - diz Miguel, empolgado.
- Sabeis bem o que os nossos soberanos esperam de nós: ao mesmo tempo que limpamos o sangue nas Espanhas, deveremos arrecadar o maior proveito material possível para honrar a Santa Igreja e ajudar o reino na luta contra os mouros, que ainda não terminou.
Tomás de Torquemada levanta-se do enorme cadeirão onde se sentara durante a última parte da conversa, e passando a mão pelos ombros de Miguel, dirigiu-se silenciosamente para uma das janelas sobranceiras a um frondoso jardim. Após alguns momentos de silêncio, em que aparentemente procurava as palavras certas para encerrar a reunião, volta a falar:
- Meus irmãos, ninguém melhor que nós sabe que o poder, bem como a Felicidade, são transitórios, pois nos escapam constantemente, ou simplesmente deixam de existir de um momento para o outro, deixando-nos num estado de desespero, um gosto a cinza na boca e no espírito.
- Sim, esse é o nosso fardo, que transportamos por amor de Deus - diz Juan.
- E quando se trata do Poder da Santa Igreja, do poder dos nossos soberanos Fernando e Isabel, estamos a falar da vontade de Deus - conclui.
- Absolutamente, Excelência - dizem ao mesmo temo Miguel e Juan, empolgados.
- Estou preocupado com o que se passa em Sevilha. Segundo sei, o afastamento das leis da Igreja faz-se aí de forma despudorada. Temos de travar isso imediatamente.
- Estou consciente desse perigo, melhor que ninguém. Os nossos informadores confirmam que mesmo os marranos não se furtam de celebrar as suas superstições - vocifera Miguel.
Tomás de Torquemada esboça um sorriso, imperceptível para os outros dois, e após uns momentos de hesitação, de uma mal disfarçada ansiedade, proclama:

- Temos a solução final, meus queridos monges. Penso que com ela estará garantida a felicidade dos nossos soberanos e a autoridade da Igreja. Temos já pouco tempo, esse bem precioso e incorpóreo que tantas vezes nos escapa. Partireis hoje mesmo para Sevilha e que Deus vos acompanhe.