Inquisição
No dia dezassete de Setembro de mil quatrocentos e oitenta, frei Alfonso de Ojeda
apresentou aos reis católicos Fernando e Isabel o relatório elaborado pela
comissão instituída dois anos antes, e o mundo conhecido nunca mais seria o
mesmo.
Nesse mesmo dia, com o beneplácito real,
Tomás de Torquemada nomearia dois frades dominicanos como primeiros
inquisidores do renovado santo ofício.
Os novos inquisidores receberiam ordens para
partir imediatamente para Sevilha e de assumirem os seus deveres na cidade que
os purificadores da fé consideravam o alfobre da heresia em Espanha.
Dois anos antes, no dia um de Novembro de
1478, o papa Sixto IV assinara a bula Exigit
sincerae devotionis affectus através da qual se fundava uma nova Inquisição
na Espanha.
Redigida como resposta às petições dos Reis
Católicos, Fernando e Isabel, essa bula reproduzia os argumentos régios sobre a
difusão das crenças e dos ritos mosaicos entre os judeus convertidos ao
cristianismo em Castela e Aragão, atribuía o desenvolvimento dessa heresia à
tolerância dos bispos e autorizava os reis a nomear três inquisidores entre os
prelados, religiosos ou clérigos seculares com mais de quarenta anos, bacharéis
ou mestres em teologia, licenciados ou doutores em direito canónico, para cada
uma das cidades ou dioceses dos reinos.
Esse poder concedido aos príncipes era um acontecimento
inédito: até então, a nomeação dos inquisidores, cuja jurisdição se sobrepunha
à jurisdição tradicional dos bispos em matéria de perseguição das heresias,
estava reservada ao papa.
Fernando e Isabel tinham conseguido os seus
objectivos, pois ameaçaram o Papa de retirarem o apoio militar à Santa Sé, se o
pedido lhes fosse recusado.
A bula, com efeito, permitia aos Reis
Católicos não apenas a nomeação mas também a revogação e a substituição dos
inquisidores.
Munidos desse documento fundador, os Reis
Católicos demoraram algum tempo para colocá-lo em prática: esperaram até
Setembro de 1480 para nomear dois inquisidores, os dominicanos frei Juan de San
Martín e frei Miguel de Morillo, respectivamente bacharel e mestre em teologia,
para perseguir os crimes de heresia nos seus reinos.
Havia duas subtilezas nessa carta: a
designação abstracta dos crimes de infidelidade, heresia e apostasia, estendendo
a acção dos inquisidores a todos os domínios do comportamento e das crenças
desviadas, e a ausência de delimitação geográfica da jurisdição dos novos
inquisidores.
Por outras palavras, havia luz verde para os
inquisidores fazerem o que lhes apetecesse, onde lhes aprouvesse, com o mínimo
de resistência, deixando um enorme campo de manobra às relações informais, como
se a prática devesse ficar livre de regras bem precisas.
A sala estava mergulhada na penumbra e o
ambiente era de grande austeridade, em linha com a postura dos três homens,
Tomás de Torquemada, Miguel de Morillo e Juan de San Martín.
Tomás de Torquemada era um homem corpulento,
de cara fechada, nariz grande e sobrancelhas espessas e desalinhadas, lábios
finos, bem delineados, que nunca esboçavam qualquer sorriso.
A sua presença era altamente intimidatória, e
tal faceta só se comparava ao seu poder, que era enorme, quase absoluto, e
representava a face mais sinistra da Igreja Católica. Era o inquisidor-geral dos reinos de Castela e Aragão por
nomeação do papa Sixto IV e confessor da rainha Isabel a Católica.
Ainda jovem, tornou-se frade dominicano no Convento de São
Paulo na sua cidade natal, Valladolid. Em 1452 foi eleito prior do Convento de
Santa Cruz, em Segóvia.
A estratégia de Torquemada, acordada com os Reis Católicos, passava pela exploração da
desconfiança popular em relação aos judeus convertidos e difundia a suposta
necessidade de que o país contasse apenas com sangre limpia, ou seja, sangue puramente cristão.
Na prática era uma
ficção, pois como a Espanha tinha a maior comunidade judaica da Europa e como
eram comuns os casamentos inter-étnicos e as conversões religiosas, pouquíssima
gente na Espanha tinha sangue realmente puro.
O próprio Torquemada era neto de judeus convertidos, facto
que ele escondia cuidadosamente. Mas Torquemada não se deixou abater por este
detalhe. Decidido a purificar o país, estava obcecado em realizar um trabalho
metódico, frio e impiedoso de perseguição aos marranos, nome depreciativo dado
aos judeus convertidos.
Os dois homens que respeitosamente se perfilavam diante
dele eram em tudo semelhantes: lábios finos, descoloridos, tez clara,
esbranquiçada, barba rala e olhos cavados, altura mediana e exageradamente
magros.
Em pouco se distinguiam, sendo que Miguel era ligeiramente
mais alto que Juan, em tudo o resto semelhantes, na frieza do olhar e no rosto
alucinado e encovado, que denotava grande sofrimento interior. Eram profundos
conhecedores de Teologia e seguramente detinham a verdade.
- O
tempo é o mundo e a Eternidade é Deus, Miguel. Se quisermos assegurar a nossa
passagem à Eternidade temos de controlar o mundo - diz Torquemada.
-Quer
dizer, o homem, Tomás - comenta Juan de San Martín, dominicano e bacharel em
Teologia.
- Certamente meu irmão! Devemos garantir os
interesses divinos e dos nossos soberanos Fernando e Isabel, que são os nossos,
através de uma mão de ferro, no mundo cristão.
- Temos de nos acautelar, pois as forças contrárias
são muitas e muito fortes. Podeis contar com a minha colaboração incondicional
- atalha Miguel de Morillo, mestre em Teologia.
- Agradeço-vos meus irmãos, e tenho de facto algo
a pedir-vos nesse sentido, de extrema importância para o futuro da cristandade.
- Tudo o que estiver ao nosso alcance -
responde Miguel de Morillo, com o assentimento de Juan de San Martín.
- Entreguei-me de todo o coração a esta
missão, e nada nem ninguém me fará recuar. Tenho esperança que a Igreja
reencontre os caminhos da fé há muito perdidos e se livre dos hereges, mouros e
judeus.
- Tendes então esperança de ser bem-sucedido,
de lavar o sangue de Espanha”.
- Se não tivesse
esperanças em melhores tempos e em ser útil à Igreja e aos nossos soberanos,
não tinha aceitado o cargo. Deus o sabe, como tenho vivido, entre uma dor que se
renova quotidianamente e uma esperança muito longínqua! Acometido por mil
tempestades, a minha vida tem sido uma agonia continuada - diz Torquemada numa
voz grave e arrastada, enquanto dava uns passos em direcção a uma janela que
abria sobre um jardim interior.
O estado de decadência em que se encontrava a
fé fazia-o sofrer, ao mesmo tempo que aumentava a sua disposição e ânimo para
uma autêntica luta contra aqueles a quem atribuía todas as desgraças do mundo.
- Mas agora sois o Inquisidor-mor, e como tal
estais em excelente posição para lutar pela Fé, para resolver o problema, com a
graça de Deus e a bênção papal - apressou-se a dizer Miguel de Morillo, o mais
expansivo dos dois empossados.
- Sem dúvida meus irmãos, e é por isso que vos
irei nomear como primeiros inquisidores. Tenho um grande sonho que pretendo
realizar em vida. Muita coisa está mal na Igreja, no mundo cristão. E conto
convosco para resolver este problema. Começareis de imediato.
- O espírito das trevas é muito poderoso e
está a afastar as pessoas da Fé católica. Sabeis que temos lutado contra isso a
vida inteira. Penso que não faltarei à verdade se disser que falo em nome de
ambos” -diz Juan, voltando-se para Miguel, que parecia petrificado de emoção.
- Bem sei, meus irmãos, vós sois a excepção.
A minha observação do mundo católico diz-me que é muito difícil encontrar
alguém como vós, pois raros são os monges que levam uma vida conveniente,
conduzindo os seus rebanhos no espírito de caridade.
- Temos que ser inflexíveis e rigorosos, mas
não nos esqueçamos que a Igreja não suja as mãos de sangue. Nós apenas
recomendamos a purificação dos hereges, dos judeus. O século que o faça.
- Conhecemos bem a situação e tiraremos dela
o maior partido - diz Miguel, empolgado.
- Sabeis bem o que os nossos soberanos
esperam de nós: ao mesmo tempo que limpamos o sangue nas Espanhas, deveremos
arrecadar o maior proveito material possível para honrar a Santa Igreja e
ajudar o reino na luta contra os mouros, que ainda não terminou.
Tomás de Torquemada levanta-se do enorme
cadeirão onde se sentara durante a última parte da conversa, e passando a mão
pelos ombros de Miguel, dirigiu-se silenciosamente para uma das janelas
sobranceiras a um frondoso jardim. Após alguns momentos de silêncio, em que
aparentemente procurava as palavras certas para encerrar a reunião, volta a
falar:
- Meus irmãos, ninguém melhor que nós sabe
que o poder, bem como a Felicidade, são transitórios, pois nos escapam
constantemente, ou simplesmente deixam de existir de um momento para o outro,
deixando-nos num estado de desespero, um gosto a cinza na boca e no espírito.
- Sim, esse é o nosso fardo, que transportamos
por amor de Deus - diz Juan.
- E quando se trata do Poder da Santa Igreja,
do poder dos nossos soberanos Fernando e Isabel, estamos a falar da vontade de
Deus - conclui.
- Absolutamente, Excelência - dizem ao mesmo
temo Miguel e Juan, empolgados.
- Estou preocupado com o que se passa em
Sevilha. Segundo sei, o afastamento das leis da Igreja faz-se aí de forma
despudorada. Temos de travar isso imediatamente.
- Estou consciente desse perigo, melhor que
ninguém. Os nossos informadores confirmam que mesmo os marranos não se furtam
de celebrar as suas superstições - vocifera Miguel.
Tomás de Torquemada esboça um sorriso, imperceptível
para os outros dois, e após uns momentos de hesitação, de uma mal disfarçada ansiedade,
proclama:
- Temos a solução final, meus queridos monges.
Penso que com ela estará garantida a felicidade dos nossos soberanos e a
autoridade da Igreja. Temos já pouco tempo, esse bem precioso e incorpóreo que
tantas vezes nos escapa. Partireis hoje mesmo para Sevilha e que Deus vos
acompanhe.
Sem comentários:
Enviar um comentário