quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Alcaçarias, II Capítulo - Sevilha

Sevilha, 1479

Permanentemente embalada pelas águas macias do Guadalquivir que corre suavemente na planície da Andaluzia até entrar no seio materno do Oceano Atlântico, Sevilha é de uma animação permanente, com as ruas a fervilhar de movimento, cor e alegria.
É a cidade mais importante de Castela, profundamente influenciada pelas culturas árabe, cristã e judaica, e parece ter bebido de todas as fontes, formando uma estonteante miscelânea de tradições e costumes que se revelam nas artes, na arquitectura, e também na forma de estar das suas gentes.
Sevilha, neste ano de mil quatrocentos e setenta e nove, tem mais judeus convertidos do que qualquer outra região do mundo.
Ocupada durante séculos pelos muçulmanos que concediam aos judeus e cristãos liberdade de culto a troco de um imposto especial, o sul da Península, e Sevilha de uma forma particular, tornou-se um refúgio ideal e palco privilegiado de um intenso intercâmbio cultural entre elementos das culturas cristã muçulmana e judaica.
Entre os frutos desse intercâmbio destaca-se a Astrologia, quase desaparecida da Europa durante alguns séculos e que retornara ao continente exactamente pela via do contacto com o mundo islâmico na região do Mediterrâneo.
Com a progressiva unificação da Espanha, resultado da união dos reinos de Leão e Castela e mais tarde, destes com Aragão, os muçulmanos e os judeus foram aos poucos empurrados para o sul, obrigados a migrar para Marrocos ou a fazer uma conversão forçada ao cristianismo.
Tal conversão era sempre vista com desconfiança, já que, motivada pela perseguição religiosa, era apenas aparente, pois na intimidade de seus lares muitos judeus continuavam em segredo a praticar os velhos cultos.
Havia por toda a Sevilha uma enorme excitação entre a população devido aos trabalhos de construção da sua Catedral, iniciada quarenta e cinco anos antes, sendo o seu arquitecto o mestre Carlín, e que era um edifício enorme, gigantesco mesmo, que se deveria tornar, para espanto e orgulho de todos os sevilhanos, na maior igreja do mundo.
Nenhuma outra se lhe compararia.
Seria absolutamente deslumbrante, e a sua construção era acompanhada a par e passo pelos habitantes que não se cansavam de admirar a obra.
A cidade tinha apenas um conjunto de velhas igrejas arruinadas depois de séculos de cultura muçulmana. A construção da catedral tinha sido motivo de muita contestação por parte da população muçulmana, uma vez que esta nova Igreja fora edificada sobre as ruínas de uma mesquita almohada-mudejar mandada construir pelo emir Abu Yacub Yussuf, em 1184.
A contestação apenas terminaria com a promessa de manter sobre uma das portas a frase: o poder pertence a Alá!
Depois da reconquista cristã de Sevilha uma nova cultura tinha tomado a cidade, a cultura judaica.
Vinham de todos os lugares, principalmente de Toledo, e alguns dos mais influentes assumiram posições de destaque na sociedade sevilhana.
Dotados de uma imaginação fértil e natural apetência para os negócios, artes e ciência, não tiveram dificuldade em assumir de algum modo um lugar cimeiro na sociedade.
Nunca foram bem vistos, pela sua posição económica e pela rivalidade que tinham com alguns clérigos.

É aqui, nesta Sevilha em expansão, que vivem e trabalham Samuel e seu pai Levi Gacon, judeus convertidos ao cristianismo, por imposição, que se dedicavam à arte da tipografia.
Vivem e trabalham no pitoresco bairro judeu de Santa Cruz, com as suas teias de ruelas brancas e de pátios coloridos e muito animados, especialmente a partir do momento em que a cidade, beneficiando das aventuras dos Descobrimentos marítimos, assumiu uma crescente importância a nível comercial.
Não vivem isolados, apesar de haver muitos outros judeus que se isolaram voluntariamente, se excluíram propositadamente, como se essa auto-exclusão servisse de alguma forma de penitência para os seus pecados ou pecados de todas as gerações anteriores.
Samuel venerava a vida e tirava dela o melhor que sabia. Nunca sentira na pele aquela desconfiança que por vezes pressentia no rosto do seu pai, Levi, relativamente a uma eventual inveja dos cristãos pela sua prosperidade.
Pensava até que esse era um fardo psicológico, fruto de anos de perseguições, e que se agarrara à pele dos mais idosos como nódoa de azeite em tecido de linho.
Os seus amigos não eram apenas judeus do seu bairro, mas gente de todas as cores e credos.
O importante era serem alegres e espirituosos.
Raramente a questão religiosa era abordado em casa, pois Levi tinha o bom senso de não transmitir ao seu filho a insegurança que o acompanhara a vida inteira.
Há várias gerações vivendo em Sevilha, tudo corria bem para estes judeus sefarditas que se haviam especializado em tipografia, fazendo importantes trabalhos para a comunidade nessa grande metrópole que pululava de vida e animação.
Muçulmanos, judeus e cristãos viviam paredes-meias e em harmonia, respeitando as diferenças que ao invés de os separarem, parecia que os aproximava mais.
Havia seguramente alguma desconfiança, não só pela natural apetência dos judeus para o negócio, onde eram invariavelmente bem-sucedidos, como também a nível religioso, onde se começava a instalar algum mau estar especialmente entre o clero católico.
A nível científico também era enorme o prestígio dos judeus, com altos cargos a nível de corte, nomeadamente nas ciências como a astrologia e em técnicas de navegação.
Samuel estudara em Sevilha e cedo revelou uma apetência especial para as novas matérias de carácter científico que apareceram associadas à época das grandes navegações.
Terminados que foram os estudos elementares, Levi, atento às coisas do progresso e à carreira do filho, tentou que ele fosse estudar Astronomia para a Universidade de Salamanca, onde estudava um aluno brilhante, da idade do seu filho, Abraão Zacuto, que começava a distinguir-se nas ciências exatas como a matemática e também na Astronomia.
A princípio a ideia agradou a Samuel pois gostava de progredir o mais possível a nível intelectual, e esta seria uma oportunidade a não perder.
Começava a haver o hábito, para as famílias de mais posses, de mandar os filhos estudar para Universidades com prestígio de modo a assegurarem uma posição de relevo na sociedade.
Em 1470, com vinte anos de idade, era bem o tempo de dar continuidade à sua formação, a um mais alto nível, coisa que seria impossível na sua Sevilha, uma vez que a intenção do rei Afonso X de ali criar uma Universidade em 1256, não foi adiante.
Os contactos foram feitos e tudo parecia acordado para que Samuel rumasse a terras de Salamanca.
Tal porém não se concretizou, pois Samuel decidiu surpreendentemente não abandonar o pai, que começava a envelhecer, e no fundo tinha também muito interesse em continuar a arte da impressão, que considerava das mais nobres, uma vez que permitia a divulgação da cultura por mais pessoas.
Também havia alguma relutância da sua parte em abandonar Sevilha, a Catedral ou o Pátio de los Naranjos, onde se refugiava em momentos de introspecção, muito perto da sua casa no Bairro de Santa Cruz.
E também seria insuportável o afastamento da sua namorada Sara, filha de um rabi muito importante da comunidade, que crescera com ele, atravessando juntos a idade da inocência e das brincadeiras despreocupadas, até se terem apercebido da enorme atracção que sentiam um pelo outro.
Os passeios frequentes ao entardecer, perto do Real Alcácer, ou os beijos trocados à sombra da Torre de Ouro, com o rio a seus pés, eram sensações demasiado poderosas, que o acorrentavam à sua vida presente.
O seu maior receio, contudo, era inconfessável, e sofria-o em silêncio.
De facto a Inquisição instalara-se havia cinco anos na cidade, e tudo mudou, pois a partir de então a falsa conversão de alguns judeus e muçulmanos justificavam actos inquisitivos na cidade.
De repente todas as referências de Samuel desapareceram como que por encanto, e a atmosfera, até então alegre, despreocupada, a sã convivência, os risos e passeios, desapareceram.
Dificilmente se poderia dizer que Sevilha era a mesma cidade, e começou a ser um local perigoso para os judeus.
O perigo adensara-se no ano anterior com a nomeação do Inquisidor-Mor Tomás de Torquemada, o dominicano, confessor de Isabel de Aragão, e a face mais negra do ser humano. Os acontecimentos precipitavam-se e Samuel, atento aos detalhes, estava muito preocupado.
A comunidade judaica de Sevilha conhecia bem o que se passava, pois era grande a rede de informação que se estendia por todo o reino e muitas as informações que chegavam de Toledo, com algum atraso é certo, emitidas por Isaac Aboab de Castela, o sábio.

O futuro próximo ir-lhe-ia dar razão.

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