quinta-feira, 15 de março de 2012

A Mulher entediada

É fácil pretender possuir aquilo que aos outros faz falta, desde que se conheça a condição humana.
E se esse outro é uma mulher casada, que ainda por cima ama o marido, o jogo torna-se então muito mais fascinante.
Mas o verdadeiro fascínio do caçador não passa necessariamente pela sedução da mulher de outro.
O verdadeiro prazer advem do facto de se verificar que algumas verdades teóricas sobre os comportamentos continuam , ainda hoje, e apesar de toda a informação disponível,a ser válidas.E são uma arma letal quando bem utilizadas.
Algumas mulheres bem casadas e que amam os companheiros sentem-se tremendamente aborrecidas, por vezes quase que entediadas ( algumas passam a comer demais e até ficam com excesso de peso), e procuram desfazer-se desse aborrecimento duma forma tradicional: arranjam um amante!
Saber ouvir, saber concordar,saber fingir cumplicidade, sem nunca tirar conclusões, é quanto basta para prender a atenção.
Porque está então um romance harmonioso condenado a falhar, ao ponto de se tornar fastidioso? Exactamente por isso, por ser harmonioso.
Se neste ponto a mulher entediada soubesse fazer uma análise introspectiva, escolheria outra via para continuar. Mas se ela não sabe, o ego toma o seu lugar.
O ego deixa de ter interesse no romance pois o ego entende que já nada há para conquistar. Tudo é perfeito, tudo é tão suave, sem escolhos, que o romance ou mesmo a vida deixam de existir, deixam de fazer sentido.Se o romance é demasiado harmonioso, a mulher esquece-se totalmente dele. É preciso que haja algum conflito, alguma luta, alguma violência, algum ódio. O amor - o seu chamado amor, - não é muito profundo.
É uma coisa muito superficial.
Mas o seu ódio é muito profundo; é tão profundo quanto o seu ego.
Portanto o ego é como um vento que vai empurrando as esposas entediadas para os braços de quem lhes dê alguma luta, algum desassossego.
E ainda bem que assim é.

Leibniz

Bem, os alemães perderam o Euro 2008, mas têm muito de que se orgulhar.
Quase tanto como daquilo que os estigmatiza, mas essa é outra história.
Falemos de Leibniz, o homem que criou o termo matemático "função".
Na Filosofia, nesta época, manifestam-se os temperamentos nacionais: os Ingleses têm um Estado democrático e são empiristas (como Mário Lino, fundamentam tudo com o recurso à experiência): os Franceses têm um Estado burocrático centralista e são racionalistas como Descartes (e como Teixeira dos Santos); os alemães não têm Estado de qualidade nenhuma, e muito menos têm experiência, assim, vêem-se empurrados para a vereda da especulação e tornam-se idealistas ( para eles, e para Sócrates e Santana Lopes, toda a realidade é espiritual).
Leibniz é um idealista, mas mais velho que eles.
O 1º grande filósofo alemão.
Substitui o modelo mecanicista dos ingleses pelo modelo de uma dinâmica orgânica.
O princípio natural decisivo não é o movimento, mas a Força que actua por trás do mesmo.
Diz Leibniz: « Não há nada no intelecto que não tivesse passado anteriormente pela percepção sensorial, a não ser o próprio intelecto»
Regressamos pois à teoria das ideias inatas defendida por Durão Barroso, de onde se conseguem estabelecer vínculos entre o espírito e a força.
Surgem assim as chamadas "mónadas", que mais não são que átomos espirituais, ou almas individuais.
Como se articulam então os corpos com as mónadas?
Aqui tem que entrar a mónada suprema, ou Deus, elemento essencial para garantir a harmonia.
A felicidade dos humanos é a finalidade divina.
Mas, se os humanos são tão infelizes, significa isso que Deus é um falhado?
Como pode um Deus que causa tanto sofrimento ser sábio, omnipresente, omnipotente e bondoso?
Deus desculpabiliza-se com os Governos.
E Deus diz: "Mais não se pode fazer! Afinal tenho de satisfazer grupos de interesses díspares, tendo de conjugar a maior ordem possível dos conservadores com a maior diversidade possível dos anarquistas. Depois de analisar todas as possibilidades, conclui quee ste é o melhor dos mundos possíveis. É pegar ou largar! "Assim fala Deus.
Para quem não sabe, a este argumento divino chama-se TEODICEIA.
Infelizmente para Deus, houve o terramoto de Lisboa de 1755, e voltaram as críticas com risotas de escárnio.
Voltaire, de que falarei mais tarde, se ainda cá estiver, escreveu "CANDIDE" para o ridicularizar. A seguir Deus foi absolvido por inexistência, e logo executado.
Absolvido Deus, ou mesmo executado, quem resta para arcar com as culpas do sofrimento humano?
O Homem, claro.
A partir daqui, a história universal converte-se em Juizo Universal.
Na época das revoluções, houve sempre culpados que tinham obstruido o caminho para a felicidade: reis, sacerdotes, aristocratas,capitalistas, reacionários, parasitas, inimigos do povo, desviacionistas de direita, de esquerda, traidores da revolução, etc.
Uma vez que já não havia Deus, era a eles que posteriormente se faria o processo, e, na maior parte das vezes, o processo era curto.
O nosso Leibniz tentou, com sucesso, competir com a universalidade de Deus e tornou-se um Leonardo De Vinci da ciência: dominava quase todas as disciplinas; inventou o cálculo infinitesimal e tornou-se o primeiro Presidente da Academia das Ciências de Berlim.
Digam lá se a Filosofia não é interessante.
Afinal somos todos vítimas destes pensadores.
Se nós não pensarmos.....haverá sempre quem o faça por nós.
Não é verdade, Engº Mário Lino?

Apologia fúnebre de um primeiro ministro

Cometeu inumeros erros, do meu ponto de vista.
Não por ser incompetente, insensível, ou distante.
Falhava porque gostava de experimentar.
Ia até ao limite do razoável, e nem se apercebia de que o bem que procurava facilmente se transformaria no seu oposto.
Chocava a sua total entrega incondicional.
Aos simples.
Aos tristes.
Aos derrotados.
Aos amargurados.
Poucos o entendíamos.
Muitos o adoravam por ser diferente.
Mas queriamos sempre algo que ele não estava preparado para dar.
Penso que seria o veículo de qualquer mensagem que nunca consegui entender.
Alguém fora do tempo e espaço desde criança.
Cativante, inatingível.
Um sedutor.
Penso que se terá tornado insensível à dor que provocava por não ter sido o que todos pensavam que facilmente poderia atingir.
Ria-se das grandes esperanças que depositávamos nele.
Ainda hoje não sei o que pensar.
Provavelmente não seria como nós.

Sonhar com a morte

Podes ver em que sarilho estou metido, querida Fernanda.
Estou pronto para ouvir.
Vou ouvir inteligentemente.
Partirei e hei-de compreender porque sou chamado tão cedo.
Fazer uma viagem sem um propósito que seja.
Parece coisa do Marocas.
Apenas porque se tem que fazer, cedo ou tarde.
Mas não vou cortar as minhas roupas à tua medida, com um pretexto qualquer.
Não te conheço, mas reconheço-te.
Encontro em ti uma razão da minha encurtada existência.
E noutros encontros que nunca terei.
Partirei com o espírito de tentar entender as coisas ( o que dizem ser errado do ponto de vista espiritual).
"...Não se deve tentar, deve estar-se consciente... blá, blá....
Nunca fui, nunca estive.
Só quando te aconselhava, meio a sério, meio a brincar.
O interessante é que tu me levavas a sério.
Fazias-me sorrir.
Fiz-te chorar e rir algumas vezes.
Eu, levado a sério!Por isso mesmo posso ir parar ao Inferno.
Espero que seja como Dante o imaginou.
Quem me receberá?
E fa-lo-à de braços abertos?
Terei visita guiada?
Tanto tu como eu iremos entrar na linha.
Irei o mais longe que puder.
Se não nos pudermos encontrar, tanto pior.
Mas no que diz respeito à verdade, tu tens muito mais que andar.
Se achas que não vale a pena, lamento muito.
Seria um desperdício de muitos quilómetros de boa estrada.
Até agora, não fui capaz, ou nunca ganhei o hábito, de dizer a pura e simples verdade sobre o meu estado.
Desta vez sou.
Acabaste de a ouvir.

Junqueiro

Portugueses - Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta .
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis.
Um poder local, esfregão de cozinha do executivo de Lisboa, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que prometer "jobs for the boys".
A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos (PS e PPD), sem ideias, sem planos, sem convicções, sem vergonha, incapazes,vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar ....
E é este mesmo povo que gasta bytes e tempo de antena a discutir os malandros que os hão-de governar.

Centro de Saúde

Eram 10 horas da manhã.
A fila de utentes estendia-se até ao parque de estacionamento.
A maioria pessoas de terceira idade, mas também muitas mulheres grávidas e algumas crianças.
O velho chegou, e devia estar muito doente.
Tinha uns olhos típicos de um indivíduo que foi baleado no estômago por uma arma de calibre quarenta e cinco.
O velho ficou sentado à sombra, gemendo, enquanto o acompanhante se dirigiu para o interior do CS, pedindo desculpa pelo acto aos muitos utentes na fila.
- Bom dia, minha senhora - dirigiu-se à recepcionista, que estava ao telefone, aparentemente indiferente - há aqui algum médico que possa ver o meu pai rapidamente?
- Agora não temos cá nenhum médico, - disse a telefonista, visivelmente incomodada por ter que interromper o telefonema - o Doutor JL. só vai chegar por volta do meio-dia.
- Meio-dia? Assim o meu pai ainda morre ali fora.
- Lamento, mas o Doutor saiu ontem daqui à pressa para abrir o seu novo consultório nas G., e ainda lá deve estar a tratar da burocracia. Sabe como são estas coisas. O Estado paga tão mal aos médicos, que eles coitados têm que se virar. Veja que o Senhor Doutor JL apenas ganha 8000 Euros por mês para trabalhar 6 horas diárias.
- Só? Mais do que isso ganho eu num ano! Coitado.
- Pois! O que vale é que ele praticamente só cá vem metade desse tempo, por causa das eleições.

- Eleições para a Ordem dos Médicos?
- Não! Para a Câmara Municipal.
- Mas então não há aqui nenhum profissional de saúde que me possa ajudar?
- Vou ver se encontro alguém - Já volto a ligar-te,! - diz entretanto para o outro lado da linha, -tenho aqui um problema.Desliga o telefone, sai para o interior do CS, e regressa pouco depois com um ar desalentado.
- Só me faltava mais esta. A Enfermeira Chefe só vai cá estar às duas da tarde.Coitada, provavelmente está a dar apoio ao Dr. G, de quem é muito chegada. Mas também de pouco serviria, pois ela está desligada da profissão há muito tempo. Agora só faz a gestão possível.- Gestão? - Diz o acompanhante do velho moribundo?
- Sim, que pensa? O Estado finge que pega e a Senhora Enfermeira finge que trabalha. É o país que temos. Se lhe dissesse qual o meu ordenado. Aqui ninguém sabe muito bem o que faz, mas fá-lo com toda a intensidade.
- Que devo fazer, então - diz o acompanhante com lágrimas nos olhos.
- Espere, vou mandar vir a Enfermeira Subchefe. -Vá lá atende - diz para si mesma a recepcionista, impaciente, falando paar o bocal do telefone.
- A Enfermeira Subchefe que venha aqui rapidamente, R, por favor.
- O quê? Foi tomar o pequeno-almoço há já meia hora e anda não voltou? Aqui ninguém faz o que deve, cada um faz o que pode, mas todos participam.Desliga o telefone rapidamente e vai a correr para o exterior do CS.
- Vou chamar o nosso motorista para levar o seu pai ao hospital. Deve estar ali fora a fumar um cigarro. Estas novas leis são boas para todos menos para os políticos.
Volta pouco depois, já em pânico.
- Tenho que pedir uma ambulância. O motorista foi fazer um biscate ao doutor JL. no consultório e está incontactável. Valha-me Deus.
O acompanhante quase desmaia.
-Já consegui a ambulância. A Junta de Freguesia vai ajudar.
A ambulância chega, o doente com olhos de baleado é introduzido, já sem sentidos, no seu interior, e parte, perante os olhares incrédulos dos utentes numa fila que entretanto aumentara consideravelmente, e tentavam proteger-se do sol abrasador.
-Próximo! - Diz a recepcionista.
E a vida continua...

Gestação

Há no mundo, claramente, uma falha grave.
Os poentes são labaredas roxas com resquícios de escarlate e dois, três grandes jactos violetas que se estendem pelo céu - uma maravilha quimérica.
A outra primavera prolonga-se: superabundância de flores nas árvores, espiritualidade na matéria, como se as árvores antes de morrer se esgotassem em sonho.
Mais flores, mais poentes onde o oiro e o roxo predominam, mais gritos no mundo, mais vulcões de cores, que pressagiam catástrofes, e um ruido apagado, esquisito, insuportável dentro de nós próprios, que comparo ao som de uma borboleta esvoaçando contra as paredes de um vaso.
É a morte que faz falta à vida.

Paira sobre o mundo uma alma monstruosa, um fluido magnético, onde se misturam todas as cóleras, todos os interesses e paixões, e essa alma envolve, penetra e reclama a dor.
Formam-se tempestades e terrores electricos.
Ainda ávida, desencadeia catástrofes, desaba desgrenhada, com uivos nocturnos de desespero. Cala-se - é pior: ninguem lhe suporta o peso.
Produz jactos de oiro, auroras boreais, grandes incendios no céu, como s eo globo ardesse. Despenha-se em montanhas de cor, em abismos roxos, paira em campos etéreos de uma solenidade elísea.
São talvez os mortos que reclamam mortos.
É talvez a vida universal perturbada.
São outras gerações esquecidas, camadas informes de que ninguem suspeita o nome, legioes sobre legioes incógnitas - é a vida embrionária que reclama a sua entrada na vida...

Para os meus ex-colegas do LNF

Uma vida resume-se em duas linhas, sintetiza-se em dois ou três factos.
Se a vida fosse só isso não valia a pena vivê-la.
A vida é muito maior pelo sonho do que pela realidade.
Pelo que suspeitamos do que pelo que conhecemos.
Se nos contentamos com a superfície, não há nada mais estúpido - se nos quedamos a contemplá-la faz tonturas.
É por isso que eu teimo que a Morte não tem apenas cinco letras, mas o mais belo, o mais tremendo, o mais profundo dos mistérios.
Preparem-se!

Incêndios de verão

Ouço sempre o mesmo ruído de morte, que devagar rói e persiste...será um jogo , uma inevitabilidade?

Utilizadfores da Net

Sob estas capas de vulgaridade, de anonimato doentio,há talvez sonho e dor que a ninharia ou mesmo a futilidade , e o hábito, não deixam vir à superfície.
Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro de pedra: talvez queiram falar, gritar, pedir ajuda, talvez não o possam fazer....

O Capitalismo na Madeira

 A Madeira é um jardim!... Tens duas vacas mas estão em nome do teu sobrinho que trabalha no casino e joga na bolsa. Vendes três para a empresa dele, que é de capital aberto e tem sede no off shore da Madeira. Usaste garantias de crédito emitidas pelo cunhado do teu primo que está na Venezuela. Depois fazes uma troca de dívidas por acções por meio de uma oferta geral associada, de forma que consegues todas as cinco vacas de volta, e para mais com isenção fiscal. Os direitos do leite das tuas seis vacas são transferidos para uma companhia das Ilhas Caimão, da qual o sócio maioritário és tu mas só o teu sobrinho é que sabe dessa cláusula secreta. Vendes os direitos das sete vacas novamente para a tua empresa. O relatório e contas do exercício de 2002, com o devido parecer dos revisores oficiais de contas e demais auditores, diz que a tua empresa possui oito vacas, com opção para mais uma. Vendes uma vaca para comprar o novo presidente da SAD do teu clube de futebol. És um homem de sucesso, com honras de telejornal. E agora ainda mais rico: acabas de vender ao Governo regional a m... que as vacas foram c... ao longo destes anos todos.

Silva Dias

Era o homem mais cortês da Internet.
Prezava-se de nunca ter sido grosseiro, neste espaço onde há tantos insuportáveis velhacos que vinham sentar-se ao pé dele para lhe contarem as suas desventuras e até para lhe declamarem os seus versos.

O livro proibido

Sei de uma bárbara região cujos habitantes repudiam o vão e supersticioso costume de procurar sentido nos livros, e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão...

Admitem que os inventores, os criadores da escrita, possam evocar os vinte poemas de amor de Pablo Neruda (que alguém insensato transformou em apenas doze), ou apenas os vinte e cinco simbolos naturais, mas afirmam que essa aplicação é casual e que os livros em si nada valem ou significam.

Esta opinião, como se pode facilmente provar, não é totalmente falaciosa.....

Maddy

Não posso deixar de comentar o caso (tantos já o fizeram.....)

« ...A misericórdia é, no sentido em que concebo a palavra, a virtude do perdão - ou antes, e melhor, a sua verdade....»
(Aristóteles: ética a Nicómano )

.....O perdão não pergunta se o crime é digno de ser perdoado, se a expiação foi suficiente, se o rancor durou o tempo necessário...
Não existe falta tão grave que não possa em último recurso ser perdoada.
Nada é impossível à todo-poderosa remissão!
Nesse sentido, o perdão tudo pode.
Onde o pecado abunda, dizia S. Paulo (e diz o Procurador Geral Português), o perdão sobreabunda. (...) .
Se há crimes tão monstruosos que nem mesmo o autor deles pode expiá-los, resta sempre o recurso de perdoá-los, visto que o perdão serve precisamente para estes casos desesperados ou incuráveis...

O Santo

O destino gosta de inventar desenhos e figuras.
A sua dificuldade reside no que é complicado.
A própria vida, porém, tem a dificuldade da simplicidade.
Só tem algumas coisas de uma dimensão que nos excede.
O santo, declinando o destino, escolhe estas coisas por amor a Deus.
Mas que a mulher, segundo a sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, isso evoca a fatalidade de todos os laços de amor: decidida e sem destino, como um ser eterno, fica ao lado dele, que se transformará.
Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino.
A sua entrega quer ser sem medida: esta é a sua felicidade.
A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: exigirem-lhe que limitasse essa entrega.

Lição de história

Peça retirada de excertos de redacções de um Curso de Educação de Adultos, publicados originalmente no saudoso Diário de Lisboa, na sua edição de 1 de Novembro de 1963. ...

Uma metáfora sobre os políticos do Estado Novo, que pensaram que o portuga , na escola, não devia aprender mais do que ler, escrever e contar...

SALAZAR - O Salazar fez estradas, fez pontes e até fez a minha professora. É um gajo porreiro!

A MINHA CASA - Gosto muito da minha casa, pois é lá que vivo com a minha patroa e é lá que fiz os meus filhos. Assim que saio do meu trabalho, vou logo para casa. O operário de hoje já não vai para a taberna embebedar-se e dar-se com esses gajos depois quando chigavam a casa davam porrada nas mulheres e se calhavam fazerem filhos nessa altura vinham doentes.

A PÁTRIA - A Pátria é a terra onde criam os nossos pais, os galos e os nossos irmãos. A Pátria é linda querida dos portugueses e dos nossos antepassados, e dos irmãos e dos nossos tios e avós. A Pátria é uma terra enorme e tem lá muitas igrejas e capelinhas e tabernas e lá vivem gente como na serra da estrela. Eu nunca fui à Pátria.

O INFANTE D. HENRIQUE - O Infante D. Henrique foi o primeiro rei de Portugal. O Infante D. Henrique descobriu três terras que são Madeiras e Açores. O Infante D. Henrique mais os Portugueses descobriram muitas terras com os mouros. O Infante D. Henrique foi primeiro casado com D. Filipa de Lencastre deixou cair o regaço de flores que D. Duarte beijou que eram de Stª Maria. O Infante estava a ver que nunca mais chegava ao Brasil por causa das carrancas do mar.

A REVOLUÇÃO DE 1640 - A revolução de 1640 foi descoberta no reinado de Filipe III. A revolução de 1640 foram os portugueses que a descobriram. A revolução de 1640 durou muitos anos porque estiveram debaixo dos Filipes. Filipe III descobriu a guerra da independência. Eu gosto muito da Revolução de 1640. A revolução de 1640 deu-se para descobrirem o Miguel de Vasconcelos que estava num armário de papéis.

A CAÇA - A casa é um disporto. Para casar é preciso licença. Pode-se casar de duas maneiras à cachaporrada e à paulada mas à cachaporrada é mais perigoso. No tempo defeso não se pode casar. Quem casa sem licença vai preso.

A VACA - A vaca tem 4 partes: a dianteira e a traseira e depois o rabo ainda tem pelos. Debaixo da vaca está a leitaria. Com o rabo enxota as moscas. O marido da vaca é o boi. Não dá leite por isso não é mamífero. Dos chifres preparam-se botões de madrepérola. A vaca é muito útil. Come-se por dentro e bebe-se por fora.

O LEITE - O leite é para nós bebermos. O leite faz queijo e manteiga. O leite é branco e eu gosto muito de leite. O leite vem dos animais que dão à gente. Os animais que dão leite são: a vaca, a cabra, a ovelha, os burros e o Sr. prior da Lata da Mourisca também dá leite mas é em pó.

em http://blogueforanada.blogspot.com/

Introspecção

Introspecção - do Lat. introspectione - s. f., exame dos pensamentos, impressões e sentimentos próprios; observação e análise dos processos da própria mente; auto-exame da consciência.
- experimental: método que permite definir as noções, a intenção e a atitude da consciência.

As mulheres, em geral, têm tendência para amar os homens pelo seu carácter enquanto os homens têm tendência para amar as mulheres pela sua aparência.

A este respeito os homens mostram-se inferiores às mulheres, pois as qualidades que apreciam no outro sexo são em tudo menos agradáveis do que as apreciadas pelas mulheres nos homens.
Contudo, uma mulher será extremamente infeliz se for incapaz de inspirar amor ao homem, pois isso priva-a do maior prazer que a vida lhe pode dar.

Cedo ou tarde essa privação acaba por destruir nela todo o gosto de viver e produz a introversão que muitos de nós identificamos duma forma simples, ao ler por exemplo algumas linhas em certos blogues femininos, por exemplo.
Não estou contudo certo que seja mais fácil adquirir um bom carácter que uma boa aparência; em todo o caso, os meios necessários para conseguir uma boa aparência são melhor compreendidos e seguidos mais facilmente pelas mulheres do que os meios necessários para adquirir um bom carácter o são pelos homens.
De qualquer modo, falamos sempre de poder, que é seguramente o que ambos, homem e mulher perseguem, e para isso lutam......numa guerra sem tréguas, que acaba invariavelmente na cama.

E o Sistema Social agradece...

Logística 2

Passado recente
Estratégia Empresarial
1. A estratégia e o meio envolvente
Dado o carácter sistémico, de cariz aberto, as Empresas são confrontadas com a necessidade de se adaptarem ao meio envolvente e de fazer com que elas prosperem nesse mesmo meio.

A estratégia empresarial, que tem sido uma forma de as empresas pensarem o seu futuro, definindo objectivos, está condicionada e relacionada com as duas dimensões da envolvente: uma tecnico-económica e outra socio-poíitica .

No âmbito das mutações económicas e tecnológicas, coexistem 3 tendências: globalização, turbulência tecnológica e estagnação económica .

A globalização vem redefinir as fronteiras da Indústria, bem como incrementar o número de concorrentes; A electrónica, a par dos progressos na biologia, é o suporte da terceira revolução industrial, permitindo o desenvolvimento de novos produtos e mercados, levando a que as Empresas sintam a necessidade de aumentar a produtividade e de redefinir os processos e de melhoria continua dos mesmos; as políticas anti-inflacionistas têm conduzido a uma fraca taxa de crescimento económico.

Todos estes aspectos tiveram um impacto na envolvente mediata, fazendo com que a esfera competitiva se ampliasse e o mercado se hiper-fragmentasse; fica patente então a alteração do paradigma concorrencial, que vai obrigar a estratégia empresarial a definir instrumentos de gestão de mudança.

Na dimensão socio-politica, emergem o desemprego, a temática ambiental e a satisfação de clientes cada vez mais exigentes e conhecedores.

A envolvente actual é caracterizada por grande turbulência, condicionando a concepção da estratégia empresarial, afigurando-se de crucial importância consagrar novas formas de concepção, e é aí que entrou a Logística.

2. Definições de estratégia


Após a 2ª Guerra Mundial, verifica-se um grande crescimento económico e um progresso social significativo, de modo que o conceito de “ produzir para vender “ fica ultrapassado. Os consumidores são mais exigentes e assiste-se ao advento do Marketing .

Assiste-se então à génese da estratégia empresarial, baseada no facto de as organizações empresariais terem de gerir as mudanças ocorridas no exterior, que têm inevitavelmente implicações a nível interno; definem-se metas e objectivos.

A definição de estratégia não foi consensual ,havendo várias versões: assim, Igor Ansoff (Corporate Strategy- 1965) advoga que a estratégia é pensada e formulada baseada numa gestão por objectivos e planos, e não é mais que uma tríade composta por produtos e mercados, crescimento e vantagens competitivas, trajectória empresarial. A essência é a Escolha.

Michael Porter (Competitive Strategy-1980), define 3 etapas neste processo: análise do meio, análise interna e implementação estratégica. A Empresa não pode ser vista como um todo, e assim se introduz o conceito de “cadeia de valor”; quanto à estratégia, a empresa vai optar pela liderança pelos custos, pela diferenciação ou ainda pela focalização.
Há no entanto outras fontes de diferenciação como por exemplo as de natureza logística ou de serviço a clientes.

Nos anos 90, assiste-se a uma alteração dos paradigmas concorrenciais, pelo surgimento de novos processos e metodologias. A eficiência operacional e a estratégia são ambas essenciais para se atingir um bom desempenho. No entanto Porter reconhece que erradamente, as metodologias (TQMP, Benchmarking, Time Based Competition...) têm vindo a substituir a estratégia.
Para autores como Henry Mintzberg (The rise and Fall of strategic planning- 1994), a estratégia é emergente, isto é, formada pela consistência de comportamentos.
Ainda para outros autores, como Gary Hammel ou C.K.Prahalad (Competing from the future – 1994), a estratégia deverá ser criativa e inovadora, considerando que existem 3 tipos de empresas: as que levam os clientes para onde não querem ir; as que ouvem os clientes e as criam o futuro, levando os clientes para onde querem ir se bem que ainda não o saibam ainda. Estas últimas para serem bem sucedidas terão de reavaliar recursos e fornecedores, e interrogarem-se sobre que competências terão que construir.

Na década de 80, Michael Porter diz que o processo de definição estratégica tem por base 3 etapas: análise do meio envolvente mediato e imediato da Empresa (análise externa); análise interna da Empresa; formulação e implementação da estratégia. Afirma o autor que “ a vantagem competitiva não pode ser entendida olhando a Empresa como um todo” – há que decompor cada unidade estratégica de negócio nas suas actividades especificas em termos de “posição de valor e não de custo” – cadeia de valor. Existem assim 3 estratégias genéricas: liderança pelos custos, diferenciação e focalização .

Em finais da década de 90, Porter diz que se tende a confundir eficiência operacional com estratégia , de facto, muitas metodologias como o TQMP, Benchmarking e Time based Competition têm vindo a substituir a estratégia.

Mas isso é outra história.

Logística - 1

Logística, estratégia empresarial e criação de valor

Da análise anterior, verifica-se que há um ponto comum aos vários conceitos; a ideia de que a estratégia deverá permitir a rendibilidade da Empresa, o que só é possível se as organizações conseguirem um desempenho eficiente e ao mesmo tempo conseguirem satisfazer os seus clientes .

A adaptação da capacidade produtiva e das características dos produtos/serviços às exigências da procura parece ser a fórmula mágica para a sobrevivência; para tal as empresas usaram diversas metodologias como a investigação operacional, definindo modelos de optimização, ou a teoria dos sistemas.

No entanto nos nossos dias, a satisfação dos clientes e o desempenho eficiente estão condicionados por várias restrições, pelo que as soluções apresentadas devem contemplar instrumentos que permitam às empresas um incremento gradual e contínuo da sua eficiência.

Importa assim meditar sobre os atributos logísticos e sobre as características da Logística empresarial. O papel a desempenhar pela Logística na concepção estratégica e na sua implementação radicará no seu contributo para a consecução de uma estratégia empresarial que permita às empresas fidelizar os seus clientes e consumidores e promover uma laboração eficiente, criando valor.

A Logística empresarial , através do seu papel de gestora de fluxos físico e informacional, de carácter bidireccional, condiciona todo o processo de transformação dos inputs e outputs o que, só por si, lhe confere um papel central na gestão das empresas. Se a estratégia empresarial, nos dias de hoje, deve promover a eficiência e a satisfação dos clientes, então a Logística, pelo seu cariz, poderá assumir um papel central e condutor na concepção e implementação dos mesmos.

Na constante tentativa de promover a eficiência e a satisfação dos clientes, a gestão do sistema logístico promove a qualidade total, operando continuamente um ciclo de melhoria continua.; de facto demonstra-se que a uma alteração dos requisitos do mercado, o sistema logístico desenvolve as acções necessárias ao ajuste das operações para a promoção da satisfação dos clientes e da eficácia organizacional.

A agilidade das cadeias de abastecimento e organizações passa a ser um requisito fundamental, e os maiores desafios logísticos estão do lado dos fluxos físicos, uma vez que não é ainda possível ,contrariamente ao acto de escolher e pagar virtualmente, receber instantaneamente os produtos. A cadeia física terá de dar passos importantes no sentido da agilização, rapidez e fluidificação para conseguir acompanhar o desenvolvimento dos fluxos de informação.

Como respostas concretas existem as aproximações ao cliente ou consumidor finais, tipificadas por propostas tipo CRM – Customer Relationship Management , ou outras não menos importantes ,como o ECR – Efficient Consumer Response , QR/CR – Quick response / Continuous Replenishment e o CPFR – Collaborative Planning, Forecasting and Replenishment.

Falarei disso (resumidamente) um dia destes.

ISAÚ

Dizem os irónicos que a única lei que se aplica em Portugal é a Lei da Gravidade.
Eu não estou em desacordo com esses pessimistas.
Eu estou totalmente em desacordo com eles.
Há de facto no nosso País excepções bem conhecidas que provam que até a lei de Isaac Newton (ou de Isaú Guerreiro Gonçalves, mas já lá iremos...) não se aplica nesta terra que já foi de tanta gente que nem dá para enunciar.
Agora também é, mas apenas de alguns.
Agora é uma Terra Democrática.
Há de facto alguns ilustres colunáveis da nossa praça que não se sujeitam a essa mesquinha lei que tende a puxar-nos para baixo sempre que estamos em desiquilíbrio.
Eles flutuam.
Sim, flutuam.
Parece que se vão espalhar, cair de borco, bater com a fuça no chão dos mortais, dos sujeitos à gravidade, mas não.
Num passe de mágica, não chegam a cair.
E aí estão, para quem os quiser ver.
Flutuando, levitando mesmo, falando.
Cada vez mais alto, pois a altura a que orbitam é grande e inacessível aos ouvidos dos gravíticos.
ISAÚ Guerreiro Alves foi meu colega no Liceu Nacional de Faro na década de 1960.
Calmo, elegante, sério.
Bom rapaz e grande conquistador.
Na Europa era facilmente confundido pelas sílfides,com um Grego, ou mesmo um Iraniano.
Nunca com um português, baixo e gordo, desprezível, uma raça que não chegou a crescer.
Recordo uma viagem que com ele fiz, depois do Liceu Nacional de Faro.
Na turma era apelidado por Henrique Botto, o colega a quem associei a virtude da polidez, uma quase não-virtude, por "Pai da Física".
Isaac ou Isaú.
Há de facto uma raíz comum..ISA.
Henrique afinal tinha alguma genialidade.

Sobre a felicidade

Vários alunos e professores ,no LNF (Liceu Nacional de Faro) dissertaram sobre a Felicidade nos anos lectivos de 1961/8.
Vou aqui tentar recordar esses magistrais devaneios, numa década em que começou aquilo a que alguns de nós, sobreviventes, haveriam de chamar, entre copos no Procópio, a "Era da Grande Infelicidade".
Começarei pela regra do Professor Fortes:

....."A Felicidade não consiste, primariamente, em ter ou não ter, mas sim em ser, sem descurar os elementos afectivos e emocionais, compatíveis com a serena racionalidade, indispensáveis a uma vida perenemente feliz.
A afectividade faz parte do homem completo e querer excluí-la da vida humana é querer edificar a felicidade sobre bases falsas....
.....Se por um espaço de alguns meses, observarem rigorosamente as prescrições, que se seguem, ver-se-á operar, na vossa vida uma MUTAÇÃO TÃO FAVORÁVEL, que nunca mais poderão esquecê-las. Mas, meus filhos, para que obtenham o êxito desejado, é necessário que adapteis a vossa vida à estrita observância desta minha regra.
É simples e fácil de seguir, mas é preciso observá-la com a máxima perseverança.
Julgam que a Felicidade não vale um pouco de esforço?
Se não forem capazes de por em prática esta regra, tereis o direito de vos queixardes do destino?
Será tão difícil a tentativa de uma prova?
É uma regra legada pela antiga Sabedoria e há nela mais transcendência do que simplicidade, como parece à primeira vista...."

Regra "Fortes":
Antes de tudo, lembrem-se de que não há nada melhor do que a saúde.
Para isso deverão respirar, com a maior frequência possível profunda e ritmicamente, enchendo os pulmões, ao ar livre ou defronte de uma janela aberta.
Beber quotidianamente, a pequenos goles, dois litros de água, pelo menos; comer muitas frutas; mastigar bem os alimentos; evitar o álcool, o fumo e os medicamentos, salvo em caso de moléstia grave.
Banhar-se diariamente, é um hábito que deverão à vossa própria dignidade.

Moldar a alma

Nada mais intangível que a alma humana.
Não se vê, não se sente, não se cheira.
Mas dói, e é sempre jovem.
Atrapalha se mal utilizada.
É a única entidade que existe entre eternidades.
Sobre ela, tomemos o sábio conselho do Padre Patrício, em 1964.

A Lei Patrício:
"...Devem banir absolutamente do vosso ânimo, por mais razões que tenhais, toda a idéia de pessimismo, vingança, ódio, tédio, ou tristeza.
Fugir como da peste, ao trato com pessoas maldizentes, invejosas, indolentes, intrigantes, vaidosas ou vulgares e inferiores pela natural baixeza de entendimentos ou pelos assuntos sensualistas, que são a base as suas conversas ou reflexos dos seus hábitos.
Fujam dos políticos e dos advogados do Diabo.
A observância desta regra é de importância DECISIVA; trata-se de transformar a contextura espiritual de vossa alma. É o único meio de mudar o vosso destino, uma vez que este depende dos vossos actos e dos vossos pensamentos:
A fatalidade não existe..."

Faro

FARO - O nome muitas vezes utilizado pela população do Concelho de Faro - Ossónoba - deriva da expressão fenícia Osson Êba, armazém no sepal e reporta-se ao período VIII a.c., período em que se estabeleceu uma área comercial no morro da Sé. Durante a ocupação árabe o nome Ossónoba prevaleceu, desaparecendo apenas no séc. IX, dando lugar a Santa Maria do Ocidente. Após o governo de Said Ibn Harun na taifa de Santa Maria, no séc. XI a cidade passa a designar-se Santa Maria Ibn Harun. Depois da conquista por D.Afonso III os portugueses designaram a cidade por Santa Maria de Faaron ou Santa Maria de Faaram. No séc. XVI a XVII o nome evoluiu para Farom , Faroo e Farão. O nome Faro surgiu no séc. XVIII e permaneceu até aos dias de hoje.
A água é igual ao tempo e fornece à beleza o seu duplo.
Parcialmente feitos de água, nós também servimos da mesma forma a beleza.
Aflorando a água, Faro apura as feições do tempo, embeleza o futuro.
Nisso consiste o papel desta cidade no Universo.
Porque a cidade é estática, ao passo que nós nos movemos.
A lágrima é disso a prova.
Porque nós passamos e a beleza fica.
Porque nos dirigimos para o futuro, enquanto a beleza é o eterno presente.
A lágrima é a nossa tentativa de permanecer, de ficar para trás, de nos fundirmos com a cidade.
Mas isso é contra as regras.
A lágrima é um retrocesso, um tributo do futuro ao passado.
Ou então é o resultado que se obtém quando se subtrai a maior da menor parcela: a beleza, do homem.
O mesmo vale para o amor, porque também o nosso amor é maior do que nós.

Até sempre

O Velho professor

O Velho Professor vivia a sua vida como se estivesse num estado hipnótico.
Nem se apercebia que tinha à sua frente um conjunto de alunos.
Por vezes os alunos iam saindo da sala sem que de tal, ele, o Velho Professor, se apercebesse.
Debitava a sua sabedoria, ou no mínimo, os seus conhecimentos, com os olhos postos no chão.
Certos ou errados.
É assim com a grande maioria dos professores da década de 60, no Liceu Nacional de Faro.
Envelheceram, mas não cresceram.
Não se tornaram sensatos.
E envelhecer não significa tornar-se sensato.
Houve um que até costumava cuspir para a vidraça , pensando que esta estava aberta.
E nem disso se apercebia.
Debitava.
Talvez tivesse sido um louco na sua juventude.
Agora, velho, apenas era um velho louco.
Talvez até mais louco que na juventude, pois agarrou-se a hábitos mecânicos, como o de cuspir para a janela.
Como um bom português, no dizer do director da ASAE, António Nunes.

Seguem-se alguns sutras para identificarmos os sintomas de velhice :

1. "Um velho é aquele que usa óculos na cama para ver melhor as raparigas com quem sonha..."
2. Um velho é aquele que só namorisca as raparigas nas festas e cocktails para que a esposa o leve para casa..."
3. O velho é aquele que por ser demasiado velho para dar um mau exemplo, começa a dar bons conselhos..."
4. As mulheres gostam das coisas simples da vida - por exemplo dos homens velhos. Deixaram de meter medo, são perfeitamente aceitáveis..."
5. Dentro de cada velho há sempre um jovem que se pergunta o que é que terá acontecido..."

Um dia de Inverno no LNF

"Faze todo o bem ao teu alcance.
Auxilia todo o infeliz sempre que possas, mas sempre de ânimo forte.
Sê enérgico e foge de todo o sentimentalismo.
Esquece todas as ofensas que te façam.
Ainda mais, esforça-te por pensar o melhor possível do teu maior inimigo.
Tua alma é um templo que não deve ser profanado pelo ódio. "

Esta foi a contribuição do Professor de Música, Professor Dores, numa manhã de Inverno, em 1962.

A lentidão

A lentidão da cidade de Faro.
Lentidão - uma palavra para a qual descobrimos um novo sentido, como se nunca a tivéssemos conhecido.
Assim, de repente, parece-me evidente que falar de lentidão significa falar de memórias.
E falar de memórias é falar de tudo.
De tudo e de nada.
Desses pequenos nadas que compõem o todo intangível da nossa memória.
Memória, essa pequena consolação que no fim sobra, de uma vida inteira de sobressaltos.
Desse tudo que em si encerra o drama do ser humano que habita Faro.
O de ter consciência da inutilidade de todos os seus esforços, e no entanto repeti-los incessantemente.
Todos os dias.
Todas as horas dos mesmos dias.
Ou serão diferentes?
Caroline vem instalar-se a meu lado, na cadeira do café, sobre a doca de Faro.
Doca onde nadei várias vezes na juventude, e onde o corpo do meu bisavô foi retirado sem vida em Julho de 1949, ainda eu era um pensamento.
"Olha ali, digo-lhe eu.
"Onde?
"Ali, é o Luis.Não o reconheces?
"O Neto? O teu colega?
"Sim, mas receio que vá depressa de mais.
"Ele gosta de andar depressa? Também ele, tão calmo no passado.
"Espera um segundo.
Quase dormito sob o calor abrasador que me aconchega e relembra as longas tardes da infância.
Quero contemplar um pouco mais o barco que lentamente se dirige par a ria, antes que a maré suba demasiado e não possa passar sob a ponte do combóio.
Quero saborear o ritmo do seu avanço: quanto mais se aproxima, mais lento é o seu navegar, como se receasse sair do porto.
Nessa lentidão reconheço um vago sinal de felicidade.
Alguém passa e cumprimenta-me, a medo, receoso de não ter acertado na pessoa.
Pára, pergunta, esboça um sorriso e parte.
A doca fervilha de excitação.
Em breve repousará.
A noite aproxima-se e com ela os seus mistérios.
Noto que já não há pardais nas palmeiras do jardim, atrás de mim.
Fugiram para outras paragens
Tornaram-se mais rápidos?
A noite de Faro cai.
Sem ouvintes.
Sem espectadores.
Sem amanhã.
Por favor Luis, sê feliz.
Um moço do meu tempo.
Tenho a vaga impressão de que da sua capacidade de ser feliz reside a nossa única esperança.
O empregado vem, pago e depois arranco.

O rosto e as máscaras

O verdadeiro perigo esconde-se sempre por baixo das máscaras.
E se há cidade mascarada, é a minha.
Faro.
O ser humano usa inúmeras máscaras e por vezes mais do que uma num só dia, numa só hora.
Acaba por usar uma mais vezes do que as outras.
E essa torna-se tão banal, tão real, que por fim se transforma no seu verdadeiro rosto.
E o ser humano deixa de reconhecer o seu verdadeiro Eu.
Transformou-se definitivamente.
Em Faro há vários tipos de máscaras, mas como sempre, comecemos pelo princípio.
A máscara mais utilizada é a que cobre a indiferença. Muitos falam , até escrevem e muito sobre os problemas da cidade, os seus defeitos, as suas limitações.
Mas o objectivo esgota-se na escrita.
Uma vez publicada, esquece-se o tema e passa-se para outro.
É a indiferença mascarada de preocupação.
Indiferença pelas pessoas com valor, as que nos podiam estimular.
Como Elviro, ignorado pela falsa preocupação.
E se nós nos preocupássemos connosco, para variar?
Mais tarde ou mais cedo, vamos ser obrigados a isso.
À primeira vista parece impossível (estamos tão preocupados em denunciar, em escrever, em ser lidos....)
Deixar que nos levem, a nós, na mesma carrada que os outros?
Dizer que vemos isto, que sentimos aquilo, tememos, esperamos, ignoramos, saberemos?
Sim, dirá o nosso verdadeiro Eu.
Impassível, imóvel, mudo, segurando o queixo, a máscara (o blogador) gira, alheia para sempre às nossas fraquezas.
Deitamos-lhe uns olhos suplicantes, uma necessidade de ajuda.
Não olha para nós, não nos reconhece, não lhe falta nada, à máscara.
Só nós é que somos humanos.
As máscaras, imensamente perigosas, são divinas.

A filosofia de Lino

Mário olhou para o relógio com inquietação e esfregou o cotovelo esquerdo, sinal de que se sentia mesmo inquieto.
Estavam atrasados dez minutos.
Embora tivessem saído cedo do Ministério, àquela hora da manhã o trânsito em Lisboa frustrava qualquer boa intenção de cumprir horários.
Quando era jovem, ainda simples iniciado na política, levado pelo entusiasmo que mais tarde lhe causaria amargos de boca, pregara promessas por comícios e campanhas eleitorais, que afastavam definitivamente as intermináveis filas, quais tentáculos de polvo garrotando a cidade num torniquete de buzinas e fumos.
Mário tornou a verificar as horas e desabafou:
- Estamos atrasados!
- Apenas meia hora, Senhor Ministro. Para ministro até estamos adiantados. Se fosse um secretário de Estado, estávamos na hora.
- Como?
- É como lhe digo, Excelência. O horário de ministro está uma hora atrasado em relacção ao TMG.
Por vezes odiava profundamente o seu assessor de imprensa.
Melo Gouveia arranjava sempre explicação para tudo.
Explicação e justificação.
Mesmo quando tinha a certeza de que se espalhara ao comprido, o assessor encontrava uma leitura recompensadora.
- Não digas disparates, Melo. Jamais!
Perdi a cabeça no último debate televisivo, mandei à merda a oposição e atribui as culpas dos incêndios à deficiente planificação de D. Dinis, e tu dizes que fui bem? Estás a gozar? Estás?
- Por quem é, Senhor Ministro. Fez muito bem em mandá-los à merda, pois claro.
- Na SIC, Melo, em pleno horário nobre!?...
- É uma linguagem que as audiências entendem. E é para as audiências que o Senhor Ministro governa. Por acaso os programas culturais têm audiências? Sua Excelência sabe bem que não!
- Seja como for, jamais!
Exasperava-o nunca cometer disparates aos olhos do assessor.
Às vezes sentia-se gozado.
Porém, era tão grande a vassalagem de Melo Gouveia, a evidência da admiração tão absoluta, que só podia ser estúpido ou génio.
O trânsito descongestionava-se e o carro acelerou.
Faltava uma hora para chegar a Faro e Mário acomodou-se no banco traseiro.
Ao lado repousava o enorme dossier sobre os incêndios, mas não lhe apetecia estudá-lo.
Ninguém se poderia admirar.
Mário ainda não fizera cinco meses que tinha sido investido na pasta , e aqui estava a sua grande primeira confrontação.
- Merda, que grande merda! Mas que merda de país! Sempre a mesma treta dos incêndios e sempre, sempre no período de férias.
Lá vamos nós ter de resolver este problema pelo menos até que chova.
E com uma agenda tão preenchida…as autárquicas, as presidenciais….
À medida que se aproximavam da Serra do Caldeirão, o cheiro a queimado e a neblina que ia engrossando duma forma extremamente preocupante, fez com que o pânico se instalasse na parte traseiro da viatura oficial.
O mais prudente seria voltar para Lisboa, onde felizmente não havia florestas para arder.
- Mas que raio de altura para o Sócrates estar de férias…..ainda vão dizer que o país está a arder e o governo bronzeia-se mas duma forma muito mais calculada. E nós com tanta coisa importante para decidir…OTA, TGV, Portucalem, Galp..
- Senhor Ministro, estamos a chegar…penso que já vislumbro o Presidente da Câmara e os representantes dos bombeiros….
-Porra! Só me faltavam agora esses gajos.
-Ministro outra vez, jamais...