quinta-feira, 15 de março de 2012

Fernando Pessoa

Nos 120 anos do nascimento das minha bisavós Aurora Dias Reis Viegas (1888-1979) e Januária da Conceição Alexandre (1888-1925)

Há muitas coisas sobre elas que eu desconheço.
Entre elas, que sabem elas a meu respeito?
Será que elas conhecem o lugar onde me encontro?
Como poderiam conhecê-lo?
Nunca falei dele a ninguém.
Nenhum ser humano conhece verdadeiramente como são os outros seres.
O mais que pode fazer é supô-los semelhantes a si.
Agora, aqui sentado, ao abrigo do vento, observando o subir do mar, escurecido pelo céu sombrio, pergunto a mim próprio se todos os homens e mulheres têm um lugar, se desejam tê-lo ou dele têm necessidade.
Às vezes surpreendo em certos rostos olhares de animal emlouquecido à procura de um sítio calmo, secreto, onde o espírito pudesse sossegar e o homem se reencontrasse para fazer o exame de consciência.
É evidente que conhecemos teorias do regresso às origens, do desejo de morte.
Podem ser verdadeiras para alguns, mas não para mim.
Considero isso uma forma ligeira de falar de algo muito complexo.
No meu lugar faço apenas o meu inventário.
Há quem lhe chame rezar.

Sem comentários:

Enviar um comentário