A lentidão da cidade de Faro.
Lentidão - uma palavra para a qual descobrimos um novo sentido, como se nunca a tivéssemos conhecido.
Assim, de repente, parece-me evidente que falar de lentidão significa falar de memórias.
E falar de memórias é falar de tudo.
De tudo e de nada.
Desses pequenos nadas que compõem o todo intangível da nossa memória.
Memória, essa pequena consolação que no fim sobra, de uma vida inteira de sobressaltos.
Desse tudo que em si encerra o drama do ser humano que habita Faro.
O de ter consciência da inutilidade de todos os seus esforços, e no entanto repeti-los incessantemente.
Todos os dias.
Todas as horas dos mesmos dias.
Ou serão diferentes?
Caroline vem instalar-se a meu lado, na cadeira do café, sobre a doca de Faro.
Doca onde nadei várias vezes na juventude, e onde o corpo do meu bisavô foi retirado sem vida em Julho de 1949, ainda eu era um pensamento.
"Olha ali, digo-lhe eu.
"Onde?
"Ali, é o Luis.Não o reconheces?
"O Neto? O teu colega?
"Sim, mas receio que vá depressa de mais.
"Ele gosta de andar depressa? Também ele, tão calmo no passado.
"Espera um segundo.
Quase dormito sob o calor abrasador que me aconchega e relembra as longas tardes da infância.
Quero contemplar um pouco mais o barco que lentamente se dirige par a ria, antes que a maré suba demasiado e não possa passar sob a ponte do combóio.
Quero saborear o ritmo do seu avanço: quanto mais se aproxima, mais lento é o seu navegar, como se receasse sair do porto.
Nessa lentidão reconheço um vago sinal de felicidade.
Alguém passa e cumprimenta-me, a medo, receoso de não ter acertado na pessoa.
Pára, pergunta, esboça um sorriso e parte.
A doca fervilha de excitação.
Em breve repousará.
A noite aproxima-se e com ela os seus mistérios.
Noto que já não há pardais nas palmeiras do jardim, atrás de mim.
Fugiram para outras paragens
Tornaram-se mais rápidos?
A noite de Faro cai.
Sem ouvintes.
Sem espectadores.
Sem amanhã.
Por favor Luis, sê feliz.
Um moço do meu tempo.
Tenho a vaga impressão de que da sua capacidade de ser feliz reside a nossa única esperança.
O empregado vem, pago e depois arranco.
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