quinta-feira, 15 de março de 2012

Negociar

Há muitos anos, mais propriamente na Idade do Gelo, havia um humano com muito frio e um urso com muita fome.
Hoje, na idade da Grande Insegurança, havia uns humanos com uns poucos camiões pequeninos e outros humanos com muitos e maiores camiões.
Como hoje os humanos são muitos e mais evoluidos, também havia nesta história um grupo de outros humanos, a que se convencionou dar o nome de Governo Português.
Na Idade do Gelo, o humano que tinha muito frio e o urso que tinha muita fome, decidiram negociar sobre as suas necessidades, e encontraram-se numa caverna neutra.
Hoje, na idade da Grande Insegurança, os humanos dos camiões pequenos e poucos, decidiram negociar com os humanos dos camiões grandes e muitos, na zona aparentemente neutra do Governo Português.
O urso e o homem da Idade do Gelo estiveram algumas horas na caverna, e finalmente apareceram à luz do dia.
O urso já não tinha fome e o homem das cavernas já não tinha frio.
Os humanos com os camiões poucos e pequenos não tiveram direito a entrar na caverna do Governo Português pois eram muitos e mal-cheirosos.
Só entraram os dos camiões muitos e grandes, pois não tinham estado nos piquetes de greve, e como tal tinham tomado banho.
-Senhor Ministro, os homens dos camiões poucos e pequenos podem entrar no seu gabinete?
-"Jamais" - disse o humano que era aquilo a que se chamava na altura Ministro.
Passadas algumas horas, já noite dentro, os homens dos camiões grandes e muitos sairam com os representantes do Governo e disseram aos homens dos camiões poucos e pequenos:
-Já podem ir tomar banho, pois a greve acabou. Nós já não temos fome, e se quiserem podem comer um bocadito do que sobrar da nossa ceia.
Os homens dos camiões pequenos e poucos, cansados como estavam, e cheios de fome, disseram logo que sim.
Não perceberam bem porquê, mas disseram logo que sim.

Temos então aqui duas situações negociais paradigmáticas - ambas são negociações em que todos parecem ganhar.
A questão é saber como será a médio prazo.
Há sempre quem ganhe mais que o outro, e isso só se verá daqui a uns tempos.
Poderá o urso viver sem pele?
O homem poderá viver sem fígado?
Os homens dos carros pequenos e poucos não sabem, mas estão condenados ao desaparecimento.
E os dos carros grandes e muitos?
Bem, aqui há que dizer outra coisa.
Como agora há muitos humanos, eles podem organizar-se em redes.
A Antram é uma dessas redes.
Quem faz parte da Antram são não só os transportadores como também os produtores, os grandes e os muito grandes.
Que muitas vezes, ou pelo menos no caso dos mais importantes humanos, são uma e a mesma coisa.
Isto é: A Antram não foi negociar com os humanos do Governo, mas sim exigir mais contrapartidas aproveitando a greve dos seus primos afastados, do ramo pobre da família.
Devo confessar que na Idade do Gelo as coisas pareciam mais simples e honestas: comiam-se e estropiavam-se uns aos outros, mas sem demagogia.

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