quinta-feira, 15 de março de 2012

Partir de Faro

O feitiço dos braços e dos sons.
Os braços negros dos navios altos, nas docas, que se recortam contra a lua nesta latitude, com as suas histórias de nações distantes.
Estendem-se dizendo: Estamos sós - vem.
E as vozes dizem como eles: Somos teus irmãos.
E o ar fica espesso na sua companhia, quando elas, as vozes, me chamam, a mim, seu amigo desconhecido, seu igual, preparando-me para partir, agitando as asas da sua exultante e terrível amizade.
Comecei por ter uma discussão com a minha mãe, que me visitou.
Assunto: religião.
Para me escapar, opus o relacionamento entre Jesus e o Pai ao de Maria e o seu filho.
Disse que a religião não é uma maternidade.
A mãe mostrou-se indulgente.
Disse que eu tenho uma mentalidade estranha e que li de mais.
Que sou tal e qual o pai.
Não é verdade. Li pouco e compreendi ainda menos.
Depois, ela disse que eu haveria de regressar à religião pois tinha um espírito inquieto.
Isto quer dizer sair da Igreja pela porta das traseiras do pecado e voltar a entrar pela clarabóia do arrependimento.
Não posso arrepender-me.
Disse-lhe isso e depois dei-lhe um beijo.
Riu-se e disse és incorrigível, assim não encontras quem queira viver contigo.
Eu disse que o que queria era conseguir viver de bem comigo.
Depois estaria preparado para o mundo.
Velha mãe,eu talvez não fizesse a viagem que fizeste.
Meus amigos desconhecidos,agradeço-vos sensibilizado os vossos cuidados.
Como disse a minha querida Kátia,baiana por convicção,por vezes as coisas mais simples são as de mais difícil aceitação.

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