quinta-feira, 15 de março de 2012

A filosofia de Lino

Mário olhou para o relógio com inquietação e esfregou o cotovelo esquerdo, sinal de que se sentia mesmo inquieto.
Estavam atrasados dez minutos.
Embora tivessem saído cedo do Ministério, àquela hora da manhã o trânsito em Lisboa frustrava qualquer boa intenção de cumprir horários.
Quando era jovem, ainda simples iniciado na política, levado pelo entusiasmo que mais tarde lhe causaria amargos de boca, pregara promessas por comícios e campanhas eleitorais, que afastavam definitivamente as intermináveis filas, quais tentáculos de polvo garrotando a cidade num torniquete de buzinas e fumos.
Mário tornou a verificar as horas e desabafou:
- Estamos atrasados!
- Apenas meia hora, Senhor Ministro. Para ministro até estamos adiantados. Se fosse um secretário de Estado, estávamos na hora.
- Como?
- É como lhe digo, Excelência. O horário de ministro está uma hora atrasado em relacção ao TMG.
Por vezes odiava profundamente o seu assessor de imprensa.
Melo Gouveia arranjava sempre explicação para tudo.
Explicação e justificação.
Mesmo quando tinha a certeza de que se espalhara ao comprido, o assessor encontrava uma leitura recompensadora.
- Não digas disparates, Melo. Jamais!
Perdi a cabeça no último debate televisivo, mandei à merda a oposição e atribui as culpas dos incêndios à deficiente planificação de D. Dinis, e tu dizes que fui bem? Estás a gozar? Estás?
- Por quem é, Senhor Ministro. Fez muito bem em mandá-los à merda, pois claro.
- Na SIC, Melo, em pleno horário nobre!?...
- É uma linguagem que as audiências entendem. E é para as audiências que o Senhor Ministro governa. Por acaso os programas culturais têm audiências? Sua Excelência sabe bem que não!
- Seja como for, jamais!
Exasperava-o nunca cometer disparates aos olhos do assessor.
Às vezes sentia-se gozado.
Porém, era tão grande a vassalagem de Melo Gouveia, a evidência da admiração tão absoluta, que só podia ser estúpido ou génio.
O trânsito descongestionava-se e o carro acelerou.
Faltava uma hora para chegar a Faro e Mário acomodou-se no banco traseiro.
Ao lado repousava o enorme dossier sobre os incêndios, mas não lhe apetecia estudá-lo.
Ninguém se poderia admirar.
Mário ainda não fizera cinco meses que tinha sido investido na pasta , e aqui estava a sua grande primeira confrontação.
- Merda, que grande merda! Mas que merda de país! Sempre a mesma treta dos incêndios e sempre, sempre no período de férias.
Lá vamos nós ter de resolver este problema pelo menos até que chova.
E com uma agenda tão preenchida…as autárquicas, as presidenciais….
À medida que se aproximavam da Serra do Caldeirão, o cheiro a queimado e a neblina que ia engrossando duma forma extremamente preocupante, fez com que o pânico se instalasse na parte traseiro da viatura oficial.
O mais prudente seria voltar para Lisboa, onde felizmente não havia florestas para arder.
- Mas que raio de altura para o Sócrates estar de férias…..ainda vão dizer que o país está a arder e o governo bronzeia-se mas duma forma muito mais calculada. E nós com tanta coisa importante para decidir…OTA, TGV, Portucalem, Galp..
- Senhor Ministro, estamos a chegar…penso que já vislumbro o Presidente da Câmara e os representantes dos bombeiros….
-Porra! Só me faltavam agora esses gajos.
-Ministro outra vez, jamais...

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