Viro à esquerda, e sigo pela Rua Rebelo da Silva , olhando para a casa, agora em ruinas, que foi morada dos meus bisavós.
Reentro, à altura da Gardy, na Rua de Santo António, e de repente encontro-me no Jardim Manuel Bivar.
A Rua Francisco Gomes, clara ainda, está deserta e já perdeu a sua breve glória da manhã.
Já nada a distingue, a estas horas, das ruas vizinhas.
Levanta-se de repente um vento muito forte.
Estou sozinho; as pessoas ainda não recuperaram do ritmo mais lento do domingo.
Domingo que lhes deixou um vago sabor a cinza, e já o seu pensamento se vira para mais uma segunda-feira de rotinas.
Mas, para mim, não há domingo nem segunda-feira; há dias que se empurram uns aos outros em desordem, e depois...iluminações como esta.
É isto a liberdade?
À minha frente o pequeno jardim de recordações longínquas espreguiça-se suavemente até à doca.
Antevejo a ria, leve, imóvel. Reflexos de barcos no espelho de água.
Subitamente passa por mim o "Lugre", representado há uns anos largos, a um canto da doca.
Vejo um Pavão jogar-se à água.
Representa.
Está um dia bonito.
Sou livre; já não me resta nenhuma razão para viver; todas as que experimentei cederam, e já não posso imaginar outras.
Estou contudo ainda bastante novo, tenho ainda forças para recomeçar.
Mas recomeçar o quê?
Só agora entendo que no auge dos meus tremores, tinha contado com Faro para me salvar.
O meu passado morreu, as minhas referências morreram.
Referências que, se reapareceram, foram apenas para me retirar toda a esperança.
Estou sozinho nesta rua branca, bordada por jardins e cheiro a maresia.
Só e livre.
Mas esta liberdade parece-se um pouco com a morte.
Hoje chega ao fim a minha vida.
Em breve terei abandonado pela segunda e última vez esta cidade.
Faro não será mais do que um simples nome, aburguesado, contemplativo, acomodado, atarracado, indiferente.
Na solidão da viagem definitiva, perguntarei então a mim mesmo:
-Mas afinal, quando estava em Faro, que fazia eu o dia inteiro?
E deste sol, desta luminosidade, não restará nem sequer uma recordação.
A minha vida está toda atrás de mim.
Vejo-a inteira, vejo-lhe as formas e os lentos movimentos que me trouxeram até aqui.
Pouco há a dizer dela; é uma partida perdida, eis tudo.
Ao mesmo tempo aprendi que se perde sempre.
Sabemo-lo no fundo de nós, mas insistimos.
Insistimos sempre.
Os mais adormecidos de nós, investem tudo nela, na vida.
Mas acaba por ser um mau negócio.
Olho para as copas das árvores atrás de mim.
Ainda terão retidas na folhagem as imagens dos que já não vivem?
Volto as costas ao mar e sigo pela Avenida da República.
A meio caminho viro à direita na Travessa da Madalena.
Páro por uns instantes à entrada da Rua da Barqueta, onde viveram e morreram muitos dos meus antepassados.
Fecho os olhos, sorrio vagamente, e entro definitivamente na Fábrica do Gelo.
Até sempre.
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