sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Nada

É um conceito complexo, o nada, o vazio.
Não me surpreende por isso que estejamos sempre a pensar em qualquer coisa.
Um mecanismo de defesa, o pensamento.
Nunca tinha pensado nisso, confesso. Pelo menos, desse modo, com essa imagem.
Curioso.
Será mesmo que a mente funciona como sentinela dos nossos medos?
Como se fosse alguém que nos sacode pela aba do casaco cada vez que cabeceamos e ameaçamos repousar?

Medo

Será verdade que a mente funciona como sentinela dos nossos medos?

A palavra

A palavra, sim, é claramente um mecanismo de defesa.
Usamo-la para ocultar os nossos pensamentos.

3ª Lei de BELLIS


A Mente mente continuamente, numa progressão geométrica.

1ª Lei de BELLIS

Quando os relacionamentos humanos (casamentos, amizades, ódios...) se passam a reger pela 1ª Lei de Newton,... tá tude xarengáde.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Polémica de retrete

Posso dizer que no princípio da minha aventura universitária, foi em dois espaços exíguos, duas retretes, que tomei consciência dos aspectos fundamentais que me permitiram sobreviver na autêntica selva em que se transformaria a vida académica.
Na retrete do comboio, em primeira classe, apercebi-me que não podemos ter tudo, pelas razões já apontadas.
Dias mais tarde, na retrete da associação de estudantes do instituto, lendo as palavras gravadas a canivete na parede “a polémica de retrete é inconsequente”, apercebi-me que não valia muito a pena ter consciência de certos factos, se não agisse em conformidade.
Como? Não percebeu a relação?

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Leme

O país parece-se cada vez mais com um paquete à deriva no mar aberto.
Os turistas (os portugueses) vão dançando no convés superior ao som da orquestra, confiando que o capitão ( o governo) está ao leme (a resolver os problemas fundamentais (despesa, economia, emprego, estado social), mas ele há muito que foi evacuado pelo único helicóptero disponível.
Vamos em piloto automático.

Miopia

Invariavelmente vemos aquilo em que queremos acreditar e não a realidade.
Seja na política, no amor ou noutras situações igualmente perigosas

Lost

Se alguém não segue o mesmo caminho que nós não tem que estar necessariamente perdido

Falências

São duas as grandes lacunas da democracia portuguesa: Industrialização e Honestidade.
A primeira conduz à falência económica.
A segunda à falência moral.

A sério

Seria possível alguém achar que a sua vida era extraordinária?
Só se o fosse apenas por oposição à vida dos demais, sempre tão apressados, tão inconscientes, andando de um para o outro lado, tentando resolver a todo o custo os problemas que eles próprios inventavam, para justificar a sua existência.

Redoma

“Parece-me por vezes que vivo numa espécie de redoma psicológica, que me obriga a amar o que me esmaga, e a ter esperança num mundo que não existe”, penso eu, em voz alta , como costumo fazer sempre que encontro o meu amigo imaginário.
E com o braço direito aceno ao funcionário.

"O amigo imaginário"

Relvado

Tiro o chapéu ao Doutor Miguel Relvas.
É certo que aldrabou, exigindo equivalência a disciplinas que nunca frequentou.
Mas ao menos teve a ombridade de escolher cadeiras que nem sequer existiam.
Desse modo não subverteu o ensino, não fez concorrência desleal aos que verdadeiramente estudam.
Temos ministro!

Justitiae

A Justiça portuguesa é um embuste, um entrave ao progresso, um manto diáfano da corrupção do Estado.

A Espera

Depois de muitos estudos matemáticos, físicos e filosóficos, cheguei à seguinte conclusão:
O Ser Humano define-se pela capacidade de esperar.
Esperamos por nascer, pelo autocarro que vai chegar, pelo comboio que já partiu, pela carta que já foi escrita, pela nossa vez na bicha, pela hora de saída.....

Desgoverno

A política governamental deixou de fazer o menor sentido.
Mas é fascinante do ponto de vista psiquiátrico.

Acoite

Os monges copistas pecavam principalmente por pensamentos inadequados.
Pensavam em jovens esbeltas e virginais, imaginando-as por perto, tentando-os.
E flagelavam-se por isso, açoitando-se sem dó nem piedade.
O delicioso atrativo exercia-se muito poderosamente à distância.
Por isso, na presença da beleza feminina, contenho-me:
Faço um pequeno teste, e peço à musa virginal que conjugue o verbo soer no imperfeito do conjuntivo.
Se a gramática não corresponder à natureza, liberto-me do fardo e poupo-me ao sacrifício.

"O Monge ilógico", de hpbellis (2005)

Vida inquietante

Nada disto faz sentido, a vida.
É fascinante do ponto de vista filosófico, mas não consigo imaginar-me num palco, representando para um diretor escondido pela penumbra da plateia vazia

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Esquizofrenia

Expomo-nos demasiado nas redes sociais.
Esquecemos todas as regras básicas de bom-senso.
E ficamos à mercê de alguns esquizofrénicos e sociopatas que por ali pululam.
Prefiro enfrentar essas pessoas ao vivo.
Olhos nos olhos.
No éter fico sem jeito
A única forma de agir é voltar a ser como sempre fui.

A Verdade da mentira

As pessoas acreditam de tal maneira nas minhas mentiras, que até me convenço que falo sempre verdade.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A minha filosofia

Onde é que eu ia na análise das mulheres que escolhi, e que penso eu, tentava encaixar na minha filosofia de vida, como se de facto as nossas escolhas inconscientes reflectissem um desejo da alma, uma filosofia que se revela quando não pensamos nisso

quinta-feira, 29 de março de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

Compreender, para quê?

A compreensão separada da prática mantém-nos ineficazes!

Escolher

Encontro-me uma vez mais naquela situação desconfortável em que tenho que escolher. Tenho que me decidir entre a afirmação e a negação, entre o sim e o não.
Mas a minha mente aberta diz-me que quando escolho entre duas possibilidades, fico sempre a perder, pois nunca conhecerei a outra via.
E se houver um ponto de contacto, algures, entre as duas opções, se eles não forem absolutamente contraditórias, se apenas se complementam, como o amor e o ódio, ou a vida e a morte?
Escolher, nestas condições, será sempre um acto de parcialidade, e quem sou eu para julgar a vida e os seus desígnios?
Mantenho-me então apenas como um observador imparcial, esperando pela iluminação, que sei há-de chegar, e me permitirá vislumbrar um ponto de indefinição, em que um ainda não é e o outro já não existe, como naquele milagre diário do nascer do dia.

Jogo de emoções

Senti-me muitas vezes esmagado entre dois conceitos , entre estados de alma contraditórios, diametralmente opostos.
Enfrentei com as mesmas armas e tácticas uma determinada sensação e o seu oposto.
Um erro atribuível à inexperiência, seguramente, que me deixou marcas profundas a nível físico e espiritual.
Fosse nas relações pessoais ou sociais, profissionais, era permanentemente esmagado pelo contraste quando me via enredado nas malhas do amor e do ódio, do desejo e do medo, da alegria e da tristeza, da vitória ou da derrota.
Agora que finalmente entendo as regras do jogo, consigo facilmente usar o dualismo da vida a meu favor e faço-o para me libertar ao invés de me perder em conflitos estéreis.
Deixei de encarar os pólos opostos como inimigos mas como portos seguros onde me recolho sempre que há vendaval ou para onde a sorte dos ventos me conduz.
E ambos são absolutamente protectores, amigos, já não os vejo como ameaças, mas como um jogo que me desafia constantemente e me dá prazer jogar.

Passado

Muito do que hoje faço se deve ao que não fiz no passado.

Fotografias

Fotografias.
Se olharmos atentamente para um álbum de fotos
apenas veremos momentos felizes. Ninguém quer perpetuar algo negativo ou doloroso numa fotografia, tanto quanto se pode chamar de perpétuo a alguma coisa, muito menos uma chapa fotográfica que apenas dura o instante em que é produzida.
Fotografias.
Ninguém quer de facto retratar o que não quer lembrar, ou quer esquecer, para falar positivamente. Ninguém quer guardar algo que queira esquecer. A menos que a dor seja alheia, e aí surgem os profissionais do impacto, os que ganham com o choque, desde que a imagem retratada não lhes seja familiar, no sentido de não lhes tocar pessoalmente.
Fotografias. Há de facto aqueles que lucram com a dor alheia, com o sofrimento, pois a nossa sociedade adora ver no doutros o que não quer que lhe aconteça. E enquanto isso acontece nos outros, parece estar a salvo, parece ter ganho imunidade sobre a desgraça.
Fotografias. Quem as irá ver, quando os que as guardaram, os que nelas se reviram, desaparecerem? E se todos tiverem desaparecido?
Fotografias.
Alguém as encontrará por mero acaso, numa caixa de papelão ou num álbum amarelecido, e terá dificuldade em reconhecer aqueles rostos sorridentes, de diferentes épocas, aparentemente felizes, como se reflectissem a sua verdadeira natureza.
Fotografias.
O verdadeiro retrato da nossa vida, porem, é o que não se fotografa. Só mostramos o que não nos incomoda.
Revelar fotos é muito perigoso pois pode revelar segredos, podem constituir uma autêntica revelação.
A fotografia, bem como o espelho, vieram subverter a mente humana. Antes do espelho e da chapa fotográfica, o ser humano não conseguia ver o seu próprio rosto, e não podia ser confrontado com as suas emoções. Mas entre a chapa fotográfica e o espelho há uma diferença enorme, tão grande quanto aquela que separa o passado, instantâneo, do presente, afinal, a única coisa que temos.
Fotografias.
Que patética tentativa de impedir que o tempo nos derrote.

A Vida

A Vida sempre me pareceu demasiado complicada,
De uma perigosidade induzida.
Como se estivesse a ser testado, constantemente,
Num exercício que nunca poderei superar

Violência

E nem uma palavra sobre a violência juvenil.
Será que todos concordamos com isso, que até gostamos de ver os filmezitos que os rapazinhos colocam na net?
"Que engraçado" - dirá o papá, babado, enquanto dá um murro na mulher - "O rapaz vai longe"

segunda-feira, 19 de março de 2012

Universo e nós

O universo está melhor a cada dia que passa, mas nós apenas olhamos para o retrocesso que é a nossa civilização.
Até nisso somos pequenos, descartáveis, pois não nos apercebemos da perfeição do todo em que insignificantemente nos inserimos, e concentramo-nos na nossa mediocridade, na nossa imperfeição, ignorando que somos apenas uma experiência falhada da criação.

Balanço final

Nasci em tempo de memórias antigas, entrecortadas por recordações imaginárias de descendências estranhas nunca confirmadas. Presumo que por esse facto sempre procurei no meu interior um pequeno sinal, que bem poderia ser um sítio, localizado entre o pescoço e o coração, ou um sonho misteriosamente guardado nos labirínticos esconderijos do meu cérebro.
Creio que de uma forma clara a segunda teoria prevaleceu sobre a primeira, e comecei desde tenra idade a sondar a minha mente, de uma forma desregrada, abrupta, sem limites, na tentativa de me conhecer, de encontrar o tal sinal que me indicasse a razão da minha existência.
É um facto que tudo o que eu encontrava, geralmente em sonhos, tinha que ser validado pelo coração, e essa sobrecarga emocional acabaria por me condicionar, criando um conflito de interesses entre a razão e a emoção, em que todos, eu, a mente e o órgão vital, sofreriam desnecessariamente.
Vítima precoce do pensamento, cujo dependência nunca consegui precisar com exactidão, cedo comecei a recear a morte, como se dela tivesse conhecimento em vidas anteriores, ou soubesse que ela me impediria de alcançar os meus objectivos.
Perdido entre o mundo real das brincadeiras inconscientes, da vida normal, e o mundo imaginário que desde cedo pensei, nunca consegui estar com os dois pés no mesmo lado do espelho, para usar uma metáfora, e sempre andei perdido, como se não estivesse completo, como se algo me dissesse que o sítio onde me encontrava num determinado instante não era o meu.

O sentido da morte

Uma vida sem morte seria insuportável.
A morte define a vida, dá-lhe uma espécie de intensidade, e como esta me foge, cada momento que me resta torna-se precioso.
Se vivêssemos para sempre, quem se iria importar, se o amanhã estava garantido?
Mas como amanhã há a morte, ela força-me a viver aqui e agora.
Até no mundo virtual, onde se fizeram conhecimentos, trocaram-se confidências, dissemos algumas verdades, sinto-me obrigado a mergulhar intensamente, ir até ao fundo, porque provavelmente, o próximo momento pode não acontecer.

Teatro e guerra

Antes de estilhaçar os corpos e as almas no campo de batalha, a guerra surge como ideia na alma dos homens poderosos, que entre dois digestivos resolvem produzir esse acontecimento, como se de um espectáculo teatral se tratasse.
São os produtores de um espectáculo que deverá ter sucesso de forma a garantir determinados objectivos que só eles conhecem.
Para tal contratam os realizadores, indivíduos com experiência comprovada na área da demagogia, a mesma que os fez alcançar o poder político, e que têm uma vasta carteira de actores, que não conhecem os produtores e apenas sabem que têm que seguir à risca as suas indicações, pois do seu desempenho depende o futuro da sua companhia.
Estes actores têm papéis de risco, pois o mais pequeno deslize até lhes pode custar a vida, ou a saúde, mas não conhecem todo o guião, nem a génese da trama, apenas conhecem o seu papel.
Resta-lhes no fim lamber as feridas, receber aplausos que mal conseguem ouvir, e descrever as suas tragédias pessoais, pensando que foram os protagonistas da acção.

Augusta Duarte Martinho

Faria hoje 96 anos (12.02.1915 - 2002?).
Nasceu no mesmo ano do meu pai, apenas um mês antes.
Esteve morta em sua casa, entregue ao mais insidioso isolamento e esquecimento, da família, do país, de Deus, durante nove anos.
Este é o paradigma dos paradigmas do estado a que chegou uma sociedade que se diz de pessoas civilizadas.
E tudo isto aconteceu sem que uma única voz se ouvisse no Parlamento, a casa da chamada democracia, para levantar este caso que reflete bem o estado de degradação social, comportamental, humanística, a que chegou o Estado, as famílias, as instituições, os nossos sentimentos.
O país está reduzido a números, estatísticas. E para o comprovar aí está o facto de que apenas as Finanças, na sua cega loucura de reduzir as pessoas a números, a euros, conseguiu arrombar a porta da casa de Augusta Duarte Martinho.
Já não há pessoas, emoções.
Ninguém esboça um sorriso, um cumprimento.
Somos máquinas, apenas.
Já não há lugar para os sonhos, para a solidariedade, para o amor pelo próximo.
Os presságios avolumam-se.
No reino animal, toda uma manada, alcateia, matilha, se junta para proteger um seu membro em dificuldades.
Os humanos, não.
Dizemo-nos civilizados, mas haveríamos de ouvir as opiniões dos outros animais sobre nós.
Ficaríamos clarificados.

Ambição?

A sociedade dá a doença e promove a cura.
Uma das formas mais bem sucedidas que ela tem de propagar a doença é através da promoção da ambição.
Qualquer jovem, hoje em dia, acha que, se seguir a política de casino promovida pelos midia, conseguirá fama e riqueza sem ter que se esforçar muito.
Sem ter que trabalhar.
As ambições são contagiosas e facilmente os mais desprevenidos são infectados por essa febre.
Começamos por avançar numa direcção que não é a nossa, começamos a fazer coisas que nunca pensámos antes, só porque estamos na companhia de alguém que a isso nos tivesse induzido.
Os pais, os amigos, as televisões....
A ambição é a causa primordial da loucura, e por isso devemos tentar entendê-la.
O nosso esforço, o esforço de Renato, para ser alguém neste mundo (e ele já era alguém, como todos nós) levou-o à loucura.
Não largou a ambição, não começou a viver, não conseguia viver, pois estava sempre a adiar essa introspecção. Estava sempre a ser incentivado por aqueles que agora o condenam, os midia, os falsos moralistas, os fazedores de loucuras.
A vida de Renato, a sua vida real iria ser amanhã, e o amanhã nunca chega.
As pessoas ambiciosas estão condenadas a ser agressivas e violentas, e as pessoas agressivas estão condenadas a enlouquecer.
A pessoa ambiciosa está sempre com pressa, a correr, a precipitar-se, em direcção a qualquer coisa que sente vagamente que existe, mas nunca vai encontrar.
É como o horizonte, ele não existe, apenas parece existir.

Máscaras

"Eu represento o papel da pessoa que tu queres que eu seja, e tu representas o papel da pessoa que eu quero que tu sejas".
Nada mais verdadeiro!
Só que estes papéis, que se assumem por exemplo no início de uma relação amorosa, numa paixão ou numa lua-de-mel, no feicebuke, não podem ser mantidos indefinidamente.
O amigo do feicebuke tem uma imagem mental não apenas de quem a outra pessoa é, mas também de quem ele é, aquele amigo com quem interage.
Por isso ele não está a estabelecer uma relação com a outra pessoa.
A pessoa que ele pensa ser está a estabelecer uma relação com a imagem que faz do outro, e vice-versa.
A imagem conceptual que o amigo do feicebuke faz de si mesmo, criada pela sua mente, está a estabelecer uma relação com a sua própria criação, ou seja, com a imagem conceptual que faz do outro.
A mente da outra pessoa faz seguramente a mesma coisa.
Por isso qualquer interação no feicebuke, egóica, como se demonstrou, entre duas pessoas, dois amigos, é na realidade uma interação entre quatro entidades conceptuais fabricadas pela mente, que em última instância, não passa de ficção.
Por isso não admira que haja tantos conflitos nas relações com as pessoas, de que o caso recente do modelo e do jornalista é um exemplo extremo.

Leitura possível

A literatura é um pouco como o amor.
Tem que nos seduzir à leitura.
Ler por obrigação é como fazer do amor um dever matrimonial.
Aqui a boa vontade não basta.
O exame à sensibilidade é associado à espontaneidade.
Afinal as pessoas não têm que passar a vida a apaixonar-se.
Mas se não o fizermos pelo menos uma vez na vida, uma luz sinistra é lançada sobre o estado da nossa alma.
No meu tempo os jovens eram iniciados nos segredos do amor físico mandando-os ao bordel, onde a troco de dinheiro uma cortesã experimentada o levava cuidadosamente a perder a timidez.
Do mesmo modo, qualquer um deveria ler, por assim dizer, para se iniciar, um grande romance nem que fosse por uma espécie de sentido de obrigação, a fim de , seguidamente, se reger pelos seus próprios impulsos.
Poderá depois dizer com alívio "nunca mais" ou então ter-lhe ganho o gosto.
Em ambos os casos, o iniciado verá franqueda a porta do conhecimento.

Ensino escamoteado

Fui professor no IST durante duas décadas, como assistente convidado, que a minha vocação é a indústria, onde o prazer de criar só se equipara ao de amar.
E saí do ensino porque tudo começou a ficar subvertido.
É natural que as notas sirvam de comparação, como o dinheiro, afinal, e tornem o incomparável comparável.
Por cada bom aluno haverá sempre um aluno mau ou mediocre que dele se distingue. Aliás não haveria bons alunos se não houvessem maus alunos.
O que sucede é que a partir de determinada altura, as notas foram inflacionadas. Como no ensino básico ou secundário, afinal.
Foi como a inflação com o dinheiro. Toda a gente tem a carteira recheada de notas de 500 euros, mas não consegue comprar nada com elas.
Cada aluno que não seja particularmente retardado recebe hoje um a classificação aceitável ou mesmo elevada.
Mas isso já nada vale, perdeu todo o seu sentido. As notas passaram a estar para a escola como as frases feitas para a linguagem: deixaram de fazer sentido.
Para os alunos que o são efectivamente, a escola deixou de interessar, os professores que o são verdadeiramente, foram acometidos pelo desprezo e entregaram-se diariamente a um destino terrivel, o de ver a sua utopia desmoronar-se.

Ter ou Dar?

Um copo colorido pode encerrar em si uma metáfora importante: retem todas as cores com excepção da cor que oferece.

É a essência do ser.

É-lhe dado o nome, não por aquilo que ele possui, mas pelo que nos oferece.

Próstata

A política de contenção do governo português cada vez se assemelha mais a uma micção prostática: sai às mijinhas, de uma forma dolorosa, e não resolve o problema.

Revolução Industrial

O desenvolvimento do sistema económico actual já não é determinado pela pergunta:
"O que é bom para o homem?" ,
mas por uma outra:
"O que é bom para o sistema?".
Os políticos tentam ocultar a desonestidade deste conflito assumindo que o que é bom para o crescimento do sistema também é bom para o povo.
Esta interpretação é suportada por uma outra opinião : as características que o sistema exige dos seres humanos - egocentrismo, egoísmo e avidez - são inatas na sua natureza, e portanto não é apenas o sistema que as alimenta, mas a própria natureza humana.
De que nos queixamos nós afinal?
Não entendo assim como nos podemos incomodar, indignar, revoltar (eufemisticamente, como soi em Portugal), com o facto de o sistema correr na direcção da banca com o regaço cheio de euros, numa patética tentativa de salvar a vaquinha cujo úbero secou de tantas chupadelas.
E são aqueles que agora a correm a salvar, ainda com os beiços cheios de leite, que dizem que tal é fundamental para o sistema e concomitantemente, para o povo, para qu epossa viver feliz, naquele bem-estar que todos agora reconhecem ser ilusório.

Gatos e bruxas

Bastava, antigamente, uma mulher demonstrar gosto por animais, andar sozinha nos campos ou na floresta, ou colher plantas medicinais para ser rotulada de bruxa.
Depois era torturada e queimada na fogueira.
O sagrado feminino era demoníaco.
Obviamente que face a esta reminiscência,não me admira que algumas mulheres não gostem de gatos.
Sentem-se estigmatizadas.
Têm medo de ser novamente torturadas.

O último lar

A maior parte das pessoas, nesta sociedade que se apelida de moderna, corre desesperadamente atrás dos problemas que criou inconscientemente, na procura de soluções.
Soluções que são invariavelmente de carácter económico ou financeiro, pois na sociedade do TER, nós somos aquilo que temos, e portanto, se nada tivermos, nada somos.
Surge então, inevitavelmente, aquele que eu considero o grande mal da sociedade moderna: a indiferença.
Indiferença para com aqueles que ficam para trás nessa corrida perversa, e apenas sobrevivem num qualquer canto da cidade indiferente ,ou para com aqueles, que sendo do nosso sangue, e tudo fizeram para nosso bem, são agora considerados um lastro que temos que descartar para não perdermos a corrida louca em que nos metemos voluntária ou involuntariamente.
Pura e simplesmente vemo-nos livres dos velhos.
Ser velho nesta sociedade é um anátema. Par que raio queremos nós quem já não produz riqueza, quem já nada pode acrescentar à nossa conta bancária?
Do ponto de vista do TER, essa abordagem é absolutamente correcta, pois na maior parte dos casos, um velho não tem rendimentos que se vejam.
Felizmente há os lares, para limpar as nossas consciências.
Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, e até pagamos algum do nosso bolso pois a pensão dos velhos não chega.
Talvez o lar não tenha todas as condições, talvez até o pessoal seja incompetente e esteja lá para ganhar mais algum dinheiro.
Quem os pode criticar?
Nós somos aquilo que temos, e se depois de um dia a trabalhar alguém quiser fazer mais umas horitas a tomar conta de velhos pela noite, tudo bem.
Estamos descanados, e já nos livrámos do excesso d epeso.
Pode até acontecer que o svelhos morram mais depressa, o que no seu caso até pode ser uma bênção.E se as mortes forem consideradas suspeitas, enfim, a responsabilidade é do lar, é do Estado, que não inspeccionou devidamente as condições de funcionamento.
Nós, os filhos, os netos, fizemos o que podíamos.
Um velho já não tem futuro e ninguém quer saber da sua tão proclamada experiência de vida.
Para isso existe o Google.
Talvez até seja um bem o seu desaparecimento.
Graças a Deus que sou novo.
Deus me conserve assim.

Medina

A soberba mistificação dos políticos consiste em fazer crer a todos nós que TEMOS que ter um orçamento.

"O Orçamento ou o caos"
E foi tão bem urdida esta mistificação, que todos, incluindo Medina Carreira, dizem que sendo péssimo , é INEVITÁVEL a sua aprovação.
O que acontece é que as enormes benesses dos beneficiários do regime, incluindo Medina, ficariam comprometidas.
Uma chapelada para o Joseph Goebbels nacional.

Jogo

O ser humano tem jogado com ele mesmo, desde sempre, um jogo perverso: esconde-se, e depois vai à procura de si próprio.

Amor teatral

O amor por vezes parece-se muito com um lugar num espectáculo teatral: aquele que nós pretendemos, está invariavelmente ocupado.

Sorriso amarelo

Depois da vinda dos chineses, que tanto foram criticados recentemente por uma espécie de ideologia cujo significado há muito se perdeu, a questão do Orçamento de Estado caiu no esquecimento. É verdade que depois do ouro do Brasil,do volfrâmio das Beiras, das especiarias da Índia e dos dinheiros da CEE, só mesmo o sorriso amarelo dos chineses para nos dar novo alento.
Em que nos tornámos afinal, ao receber de braços esticados aqueles que à viva voz criticávamos pelo desrespeito pelos direitos humanos, pelo Dalai Lama, pelo nobel da paz?
O povo português, afinal uma amálgama de raças e vontades, decai de dia para dia. Arrastado pelo peso da mediocridade, incompetência e avidez dos que mandam nisto.
Parece que cresceu à sua volta uma floresta de urtigas que lhe impedem de ver seja o que seja em qualquer direcção. E ainda por cima é sistematicamente picado cada vez que esboça um movimento. Bem no interior do seu sonambulismo, defendido pelas portas e janelas trancadas da ignorância e imobilismo , o povo vai vagueando, inerte, em direcção ao fim, como um enterrado vivo.

Newton

"A matéria atrai a matéria na razão directa das massas"
Newton, Lei da Atracção Universal, 1682

Amigos e Deus

Há muito que deixámos de ter amigos.
Temos conhecidos, colegas, admiradores, sócios, investidores, financiadores, aduladores, parceiros, amantes.
Mas amigos verdadeiros, não.
E apostamos na virtualidade, compensamos a qualidade da amizade com a quantidade, na esperança que alguém tão inconsciente e supérfluo como nós nos faça o favor de nos dedicar alguns segundos, finja interesse, admiração e empatia.
E pecamos continuamente.Alguns de nós até têm o desplante de falar de religião, que pode contribuir para a moral, de múltiplos modos. A religião autêntica deverá constituir mais um impulso para a acção ética. Quando se pergunta no Facebook pelo fundamento último da moral na sua incondicionalidade, é difícil não ser confrontado com a ideia vaga de religião e o absoluto de Deus. Depois, a religião dá horizonte de futuro, mesmo quando se falhou e se precisa de perdão e novo alento e abre à esperança de sentido último. E chega-se à conclusão, com Nietzsche, que Deus está morto.
E urge então perguntar:
"Agora que não há Deus, quem nos irá perdoar tanta superficialidade?"

Ética consequencial

A propósito da acção do governo português face à crise:
Uma ética que consista apenas em deveres específicos, como por exemplo "Não matarás", não é de difícil aplicação.
De facto, poucos ou nenhuns serão assassinos no Governo.
Mas já não é tão fácil evitarem que morram inúmeros seres humanos inocentes.
Haverá no futuro próximo muita gente a morrer de fome ou sem assistência médica.
Se o Estado puder ajudá-los e não o fizer, está a deixá-los morrer.
Se a regra contra provocar a morte se aplicasse a omissões, tornaria a vida de acordo com essa regra, uma marca de santidade ou heroísmo moral.
Assim, uma ética que ajuiza as acções consoante violam ou não regras específicas, coloca o peso moral na distinção entre actos e omissões.
Uma ética que ajuiza as acções pelas suas consequências não procede assim, pois as consequências de um acto ou de uma omissão são muitas vezes indistinguíveis.
Os governantes, mediocres, hoje, no nosso país,estão a vestir a pele daquele pediatra que não mata a criança com uma malformação congénita irreversível, o que seria um mal, mas se recusa a tratá-lo, dizendo que acabará por morrer, e isso será um bem.

domingo, 18 de março de 2012

Beleza interior

Alguns pensamentos passados a letrinhas, juntinhas de uma forma harmoniosa, imprevista, instintiva, tiram-me completamente a capacidade de argumentar.
As belezas, a de dentro e a de fora são insondáveis.
Resta-me apenas a consolação de reservar para o banho de imersão, que religiosamente , ao som de Telemann tomo às duas da madrugada, a pergunta inevitável:
Como poderemos colocar a segunda à frente da primeira sem lhe fazer sombra?

Raízes

Portugal prefere ser uma aristocracia política a ser uma democracia próspera de gente inteligente .
É o fruto que colhemos de um lascismo secular e de tradições que agora se consolidam, de falsos valores morais.
Dessa distorção moral advêm todos os nossos males.
As raízes do oportunismo e da ganância rebentam por todos os lados, sob a forma de sentimentos, de hábitos,de preconceitos.
Gememos sob o peso da nossa pouca exigência.

Declíneo

Há quem pense que o grande declínio da instituição família, no ocidente, advém da excessiva liberdade das mulheres, que, querendo igualar os homens em oportunidades, os ultrapassaram nos erros e nos vícios.

As armas e os barões

Cavaco Silva, na visita que fez em Abril passado à República Checa, nem sequer se indignou com as críticas agressivas de Václav Klaus sobre o défice excessivo de Portugal e o Tratado de Lisboa.
Uma prova inequívoca de que o nosso país está a ser governado por indivíduos sem alma, sem carisma, que fariam corar de vergonha os assinalados barões de Camões.

Uma noiva para Renato

Renato Prates precisa urgentemente de uma mulher.As intenções dele são puramente práticas - apenas necessita de alguém sensivel e convenientemente amorosa para posar como sua noiva durante alguns meses entre a sociedade refinada.
Ele tem o seu próprio plano e uma falsa noiva manterá as caçadoras de maridos ao largo enquanto ele trata do seu negócio.
A solução mais simples é contratar uma.
Afinal de contas, a miserável que aceite tal emprego ficará decerto grata por qualquer favor.
No entanto, encontrar a candidata ideal é um desafio maior do que ele espera - até encontrar a menina Carolina Caillaut.
Os seus hábitos mundanos, a sua desocupação, a sua elegância mal tratada, os seus cabelos espetados, não conseguem esconder a sua figura encantadora e o fogo dos seus olhos dourados.
E a sua condição infeliz, introspectiva, fechada sobre si mesma,faz com que a genersa oferta de Renato seja inegavelmente apelativa.
Mas Carolina está insegura sobre o que este disfarce pode exigir.
Claramente Prates está a esconder um ou dois segredos, e as coisas parecem estranhamente erradas na sua magnífica casa em Hammersmith.
Descobrirá então que os segredos dele são mais sombrios do que a decoração da casa, e que aquela brincadeira será uma aventura muito mais perigosa do que a tinham feito crer.
Renato, por seu lado, sente o seu coração racional a ser agitado por aquela mulher bela, inteligente e sensual.
A pouco e pouco nasce entre eles uma forte cumplicidade que os levará a percorrer os caminhos perigosos do Soho em busca de um inimigo mortal de Renato.
Poderá alguma vez o amor vencer o desejo de vingança, de destruição?
Poderá a procura de um objectivo positivo ser mais forte que a necessidade imperiosa de destruição?

O Acordo

Não procuro aqui uma solução para o ateísmo ou para o problema de identidade de Deus, ou mesmo a chave para os enigmas do Universo, a solução para as finanças e economia para este país.
Procuro apenas uma satisfação íntima, convosco...

(Discurso do primeiro-ministro, em tom conciliador, na AR, antes da cimeira da OTAN)

Homenagem no feminino

Hoje quero homenagear a mulher, e faço-o em silêncio, em consciência, escutando a mãe Natureza.
A doçura é uma virtude feminina, mesmo quando esse feminino tende a usar mais a mente, mais a lógica da interpretação, e menos o lado misterioso que a vida tem para oferecer.
O que a doçura tem de feminino, ou pelo menos o que aparenta tê-lo, é uma coragem sem violência, uma força sem dureza, um amor sem cólera.
É o que tão bem ouvimos em Schubert, o que lemos tão bem em Jorge Amado.
Paz interior, uma vivência apenas no presente, aqui e agora, sem lembranças do passado ou projecções no futuro.
A doçura feminina é uma paz real ou desejada; é o oposto da guerra, da crueldade, da indiferença, da brutalidade, da violência.
A doçura é o que em meu entender aproxima mais a mulher do humano do que o homem.
Mantenham pois a doçura, essa virtude graças à qual a humanidade tem algum humanismo.
E não usem a mente,caminhem na vertical, conheçam-se e sejam felizes.

CARONTE

Vamos todos para o mesmo sítio.
Apenas por caminhos diferentes.
Imagino a estupefacção dos que instintivamente tentarem puxar do cartão de crédito, ou do cartão do partido...

Mistificação

Habituei-me a viajar sem bagagem, com pouco peso.
Sempre pronto a partir.
Considero-me de certa forma um privilegiado, se bem que o meu ego ache que fiz por merecê-lo.
Quando as coisas começam a cheirar mal neste cantinho onde nasci e onde nasceram os meus antepasssados (até Leonor Velho Pereira, que nasceu na Galiza em 1620), abro as asas e dou o salto. Não tenho paciência. Desisti. Refugio-me em Belo Horizonte, onde posso descansar numa rede, seminu, ouvindo a voz da floresta de água, sonhando com os sabores da Dádá, ou enfio o chapéu de côco e vou tomar o breakfast em Picadilly.
Manias, diz o meu irmão, que nunca entendeu as minhas necessidades em ir para tão longe, quando tenho o mar de Sagres onde mergulhar e ver a tempestade passar por cima..

Tudo isto por causa da confusão em que os políticos, os de cá e os da Europa, nos meteram.
Cansei-me desses aventureiros sem escrúpulos, nem alma, que fizeram da "arte de Sócrates" uma profissão, e depois a transformaram numa espécie de cartel, onde tudo vale para enriquecer facilmente.
Confesso que tive muitas esperanças em Abril, como quase todos os da minha geração.Mas rapidamente fui lendo nas entrelinhas e fiz o retrato-robô.
Ouço com um sorriso nos lábios, de comiseração, sem espanto, as pessoas dizerem, na rua, no feicebuk, ou no plano inclinado:
"Temos de exigir aos políticos que desempenhem bem as suas funções.Foram mandatados para desenvolver o país e cometeram imensos erros) !?
As pessoas comuns, desatentas, por lascismo, comodismo, ignorância ou inconsciência (inclino-me para esta opção), pensam que estes políticos, que nós pensamos que elegemos, mas que foram previamente escolhidos pelas máquinas partidárias, pensam, dizia eu, que eles ERRARAM.
Mas não! Eles fizeram exactamente aquilo que se propuseram fazer: Melhoraram a sua vida, enriqueceram, ganharam poder, teceram a rede que os há-de segurar quando os alicerces cairem.
E curiosamente, os portugueses, habituados a serem mandados, na monarquia, e governados, na república, acham que com as próximas eleições tudo irá mudar.
Continuam, no seu sonambulismo,a acreditar na mistificação

Casalítico

Muitos casais encaram o casamento como os partidos o poder:
- Quando o atingem perdem a vontade de implementar as ideias que os levaram lá!

Chiste machista

Qué hubiera sucedido si en lugar de 3 Reyes Magos, hubieran sido 3 Reinas Magas?

- Ellas habrían pedido ayuda para llegar.
- Habrían llegado a tiempo.
- Habrían ayudado en el parto.
- Habrían hecho una limpieza en el establo.
- Habrían llevado regalos útiles.
- Habrían llevado una comidita.

Pero... ¿qué hubieran dicho al salir de allí? Tan pronto hubieran salido dirían...

- ¿Vieron las sandalias que María estaba usando con aquella túnica?
- El niño no se parece a José.
- ¿Cómo es que ella puede dejar todos aquellos animales dentro de la casa?
- Y el burro que ellos tienen está bastante acabado...
- Yo sólo quiero ver, cuándo ella te va a devolver la cazuela, que le llevaste con el macarrón.
- Me dijeron que José está desempleado...
- Virgen que caramba! Yo me acuerdo muy bien de ella, en la época del colegio!

Becas

Há momentos que consegue reservar apenas para si.
Revê os ensinamentos que foi captando aqui e ali, esforça-se por aplicá-los e subitamente o milagre acontece: fica só diante de si mesma.
Nesse instante mágico, sentada na sua cadeira que quase ocupa totalmente o exíguo espaço onde medita, tem a impressão que toda a vida à sua frente, e pensa:
"É tudo uma maldita mentira! Não vale a pena pois estou acabada. A minha vida está à minha frente, terminada, fechada, como um saco de compras, e contudo tudo o que lá está dentro, está inacabado".
Durante um breve instante, Fátima tentou julgar-se. Foi tentada a dizer:
"É uma vida bela!"
Mas subitamente cai em si. Não era possível julgá-la, pois tratava-se simplesmente de um esboço. Becas tinha passado toda a sua vida a disparar contra a eternidade, não tinha entendido nada.
Com que dureza corria Becas atrás da felicidade, atrás do amor, atrás da liberdade.
Para quê? Gostaria de se libertar das amarras da vida, tinha casado, tinha sido infeliz, recuperara, criara uma página social, falava e escrevia em sessões públicas.
Levava tudo a sério, como se fosse imortal.
Não tinha saudades de nada. Havia muitas coisas de que poderia ter saudades: o primeiro beijo, o primeiro filho, de quem não tem notícias há muito, a praia no mês de Setembro, aquela viagem à Índia...
Mas a desilusão tinha desfeito o encanto de tudo.
Pensou chorar, olhando-se no pequeno espelho que refletia o seu rosto seráfico. Qualquer coisa passa sempre daquele para este lado.
"É sempre assim quando olho para dentro de mim. Qualquer coisa passa dela para mim. Pensei que esta sensação tivesse acabado", sussurra.
Se insistisse na concentração, se entrasse mais fundo na sua alma, o seu olhar ficaria preso para sempre na contemplação.
Estava só.

Ethos

O que mais me chamou a atenção na cimeira da OTAN foi a imagem sorridente e patética de um jornalista da rtp1, que dizia, em horário nobre, com um ara perfeitamente extasiado e orgástico:
"Coloquei duas questões ao presidente Obama, e ele chamou pelo meu nome"(?!).

Já estou a imaginar a reacção do mesmo jornalista quando comparecer perante Deus, e este, depois de pronunciar o seu nome, lhe disser:
"Podes colocar as questões que entenderes, Vitor, mas és tu quem terá que responder, em consciência".
Provavelmente estará morto!

Decadência

Visitei-a no passado domingo.
Essencialmente, deixei-a falar. Tudo o que dizia , dizia-o com dificuldade, mas com vivacidade.
O discurso é previsível, até aos mais ínfimos pormenores.
Sorrio com enlevo, vendo o prazer que lhe dá contar uma vez mais as suas memórias, que no fim a deixam esgotada.
Em breve substitui-la-ei como protagonista da tragédia pessoal.
Observo-a com toda a atenção, e dou-lhe a mão, como se de um fio condutor se tratasse.
Uma mão que se estende a quem está a ser puxado para o abismo.
Não posso deixar de estabelecer comparações, o que faço freneticamente, para não ser vencido pela emoção.
Digo-lhe filosoficamente, daquela maneira que ela tanto aprecia, que resolvi os meus problemas ao deixar de pensar neles.
Dantes, quando tinha saúde, Fernanda costumava levantar os ombros, mostrando indiferença. Agora limita-se a levantar as sobrancelhas.
Depois da doença lhe ter tornado o corpo pesado, substituiu os gestos, que agora a fatigam excessivamente, por jogos fisionómicos . Diz que sim com os olhos, não com os cantos da boca, levanta as sobrancelhas em vez do sombros.
Sinto que tem pressa que eu me vá embora.
Não gosta que a veja assim, tão vulnerável e despojada.
Beijo-a com um sorriso confiante, e digo-lhe um até amanhã, desejo-lhe as melhoras.
Fernanda relaxa finalmente do esforço que fizera para aparentar uma réstea de vitalidade, e afunda-se no travesseiro, esgotada, quando desapareço.
Finalmente posso chorar.

2010

Winston Smith questiona a opressão que se exerce nos cidadãos. Se alguém pensar diferente, comete crimidéia , e fatalmente será vaporizado. Desaparece, deixa de ser contável.
Daí, que hoje, na ditadura do partidarismo, poucos se atrevam a protestar pelas arbitrariedades (dizem que são inevitáveis) e muitos se percam nas coisas virtuais, mais simples, mais complexas.

Pathos

Ethos consiste na credibilidade, magnificiência, cultura, estado social, capacidade intelectual do orador.
Pathos representa o jogo com as paixões e emoções dos ouvintes.
A forma como o orador se dispõe a conquistar os corações do seu público, fazendo-o prescindir do controle racional das opiniões.
Podemos concluir que no facebook existe uma ética patológica?

Violência doméstica

O odor espesso de incenso encheu-lhe as narinas e a boca, enquanto avançava prudentemente no interior do quarto, para uma mancha pálida que parecia flutuar.
Era o rosto de Paulo.
Paulo começara a ter o hábito de se vestir de negro sempre que lhe batia, e refugiava-se no interior da divisão, confundindo-se com a obscuridade, rezando pelos seus pecados.
Pensava assim esquecer rapidamente a sua recaída, depois de tantas promessas.
Mariana olha-o agora de perto, e diz, para si mesma:
"É tão belo!"
Paulo dormia. Tinha um meio-sorriso cândido, a cabeça inclinada, como se quisesse acariciar a face com o ombro.
Mariana tenta recapitular o que se passara havia pouco:
Ao primeiro golpe que lhe abrira o sobrolho, Mariana quase desmaiara, e Paulo ficara de repente como um animal, olhando-a com espanto, como se não a reconhecesse.
Ao segundo golpe, Mariana caira e batera violentamente com o rosto numa cadeira.
Paulo dera então um pequeno gemido, como se tivesse recuperado a consciência, e a sua mão fez um gesto de repulsa.
Mariana olhara para ele com um ar duro, enquanto se afastava para o quarto, como costumava acontecer.
"Como irá ele acordar?". Isso preocupava-a.
Sabia que aquilo não era o seu marido.
Tinha medo que ele acordasse com os olhos rasos de lágrimas, de remorso, como sempre.
"Como sou estúpida! Será que tenho feito o possível para evitar estas alucinações de Paulo?"
Será que ele enlouqueceu por minha causa? Será que um dia as suas feições ficarão permanentemente toldadas e nem sequer se aperceberá disso? Será que enlouquecerá e me vai matar?"
Mariana curva-se sobre a mão de Paulo e pousou os seus lábios ensanguentados nela.
"Matar-te-ei antes!"

Indiferença

Estou a pensar se a nossa indiferença perante as tragédias quotidianas que nos são servidas suculosamente pelos media, não terão a ver com a globalização.
No meu tempo, quando havia uma desgraça, só dela tomávamos conhecimento indo lá, vendo e cheirando a morte.
Agora, tudo é servido à distância, e muitos de nós se interrogam se aquilo será mesmo assim.
Assim a modos como as crianças de hoje que pensam que as galinhas são aqueles bichos que existem no Supermercado.

Infelicidade de Maria B

Maria B. divorciou-se recentemente de um político conhecido, depois de um casamento de quinze anos.
Dizia ela, com uma lágrima furtiva ao canto do olho:
"Hélio, sinto-me tremendamente infeliz!"
"Porquê? Convenhamos que um político e uma psicóloga honesta nunca poderiam funcionar" - disse-lhe, para a animar.
"Não tem nada a ver com isso.
Sinto-me infeliz pelo facto de não sentir qualquer infelicidade pela separação".

Carne pracanhão

Na guerra, como na política, quem expõe o peito às balas é o chamado povo.
E se por acaso cometer algum feito heróico, como salvar o dia, ou o país, é sempre secundarizado pelos ratos que surgem então de todos os lados para se apoderarem dos louros e dos euros.
Assim foi com Salgueiro Maia, assim será com a classe média portuguesa, impotente para se defender do estupro a que a sujeitam.
Por culpa própria, diga-se.

Listening to Engels

As dependências económicas não são mais que um efeito ou um caso particular da violência política.
Elas são sempre portanto factores de segunda ordem, e são sempre as mais sensíveis.
É preciso encontrar o elemento primordial na violência política imediata, e não somente num poder económico indirecto.
A crise por que passamos é pois fruto de uma violência premeditada de que poucos se apercebem.
Pudera!
Com tantas distracções, tanto lascismo, tanta ignorância, tanta inconsciência.

Beatriz

Em ambiente viciado pelo ódio ou mesmo pelo desespero, ou ainda pela indiferença, Beatriz iniciou uma brilhante carreira como autora de sonhos e esperanças reais, no feicebuk. Reproduzia nos seus @amigos a capacidade de desvendar os seus segredos mais íntimos e sórdidos ;tal facto iria contudo desencadear reacções muito diversas...

Sandra e eu

A realidade e a ficção entrecruzam-se para mostrar uma única escapatória perante o absurdo da existência e da morte em que decorre o dia a dia de Sandra : a sua inegualável vontade de transcender qualquer sucesso na própria vida, numa tentativa de corrigir os estragos do tempo, que acabam sempre por transformar (por falta de maturidade, creio eu) o amor em ódio, a beleza em fealdade, a lealdade em traição e o idealismo em corrupção.
Mas Sandra sabe que nos meus braços está em segurança.
Diria que fomos feitos um para o outro.
Atingimos aquele ponto em que podemos dizer ou fazer tudo o que o coração ou o corpo nos ditar, uma vez que tudo o que em conjunto fazemos emerge do nosso centro; o amor partilhado até à exaustão, com que enchemos a nossa noite é como que um bálsamo que nos permite enfrentar o dia seguinte de alma limpa.
E assemelha-se a uma ode à esperança, a única capaz de desvelar as miragens da natureza humana, de que por acaso fazemos parte.

Loucuras de Outono

Somos de tal modo "recheados" com conhecimentos, desde crianças, que provavelmente já nos esquecemos do nosso destino; do mesmo modo que a beleza de um corpo nu só pode ser admirada por aqueles que andam geralmente vestidos.
Pois se andamos todos nus....
Temos que nos afastar (ou aproximar) da morte para podermos viver?
Quem nunca viveu constrangido nunca sentirá a liberdade, quem nunca esteve perto da morte nunca entenderá a verdadeira vida?
Enfim, loucuras....