domingo, 18 de março de 2012

Violência doméstica

O odor espesso de incenso encheu-lhe as narinas e a boca, enquanto avançava prudentemente no interior do quarto, para uma mancha pálida que parecia flutuar.
Era o rosto de Paulo.
Paulo começara a ter o hábito de se vestir de negro sempre que lhe batia, e refugiava-se no interior da divisão, confundindo-se com a obscuridade, rezando pelos seus pecados.
Pensava assim esquecer rapidamente a sua recaída, depois de tantas promessas.
Mariana olha-o agora de perto, e diz, para si mesma:
"É tão belo!"
Paulo dormia. Tinha um meio-sorriso cândido, a cabeça inclinada, como se quisesse acariciar a face com o ombro.
Mariana tenta recapitular o que se passara havia pouco:
Ao primeiro golpe que lhe abrira o sobrolho, Mariana quase desmaiara, e Paulo ficara de repente como um animal, olhando-a com espanto, como se não a reconhecesse.
Ao segundo golpe, Mariana caira e batera violentamente com o rosto numa cadeira.
Paulo dera então um pequeno gemido, como se tivesse recuperado a consciência, e a sua mão fez um gesto de repulsa.
Mariana olhara para ele com um ar duro, enquanto se afastava para o quarto, como costumava acontecer.
"Como irá ele acordar?". Isso preocupava-a.
Sabia que aquilo não era o seu marido.
Tinha medo que ele acordasse com os olhos rasos de lágrimas, de remorso, como sempre.
"Como sou estúpida! Será que tenho feito o possível para evitar estas alucinações de Paulo?"
Será que ele enlouqueceu por minha causa? Será que um dia as suas feições ficarão permanentemente toldadas e nem sequer se aperceberá disso? Será que enlouquecerá e me vai matar?"
Mariana curva-se sobre a mão de Paulo e pousou os seus lábios ensanguentados nela.
"Matar-te-ei antes!"

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