domingo, 18 de março de 2012

A amiga virtual

Ela é imensamente famosa e conhecida nas redes sociais.
Ela tem o humanismo no sangue.
É um facto incontornável.
Respira humanidade e conhecimento por todos os poros, em todas as suas intervenções.
Ainda por cima encanta, com a sua beleza intangível e inacessível.
Pelo menos tem esse efeito em nós, pobres amigos virtuais que nos satisfazemos platonicamente com as suas fotos, os seus sorrisos, as suas viagens, as suas festas mundanas.
E damos por nós a ler e reler as suas frases de encantamento impregnadas, escorrrendo baba pelos cantos da boca.
Ela regozija-se quando está "on-line".
No momento em que descobre um dos seus amigos, sem mesmo o conhecer verdadeiramente, sente simpatia por ele.
Gosta do seu corpo, da maneira como está articulado, dos joguinhos que joga, dos postais virtuais e lindos que envia.
Gosta ainda das suas pernas que se abrem e fecham à vontade quando sobe a rua empinada outrora percorrida apenas por animais de tiro, e disso faz notícia na primeira entrada do dia.
Ela adora sobremaneira a forma como os seus amigos sorriem nas festas de garagem, revivendo os momentos em que eram felizes sem o saber, e desconheciam o medo.
Ela ama também o comportamento dos que foram feridos pela reeducação virtual, a sua capacidade de reinventarem os hábitos, os seus comportamentos, ajustando-os à nova moral virtual estabelecida.
Os amigos atiram-se aos seus comentários com gulodice, lêem-nos recostados na sua cadeira de escritório, pensam no grande amor infeliz e discreto que ela lhes tráz, e isso consola-os de muitas coisas, como serem feios e barrigudos, covardes, cornudos, de terem sido despedidos ou enganados.
E dizem da sua última intervenção:
"Gosto!"

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