domingo, 18 de março de 2012

MANAUS

Atravesso a pé as duas ruas que separam o hotel da grande praça diante do Teatro Amazonas, a grande Ópera de Manaus.
A camisa está húmida, o cabelo empapado em suor.
Manaus.
Buganvílias em flor, rosadas, vermelhas, uma praça quase vazia, o ruído em fundo dos autocarros.
Cinco horas da tarde.
Procuro desesperadamente uma brisa qualquer enquanto me encaminho dolorosamente para a fachada do imenso edifício rosado.
Quem imaginou e contruiu este teatro na selva só podia estar possuído pelos demónios.
E aqui há muitos.
Fantasmas dos portugueses da borracha, que em 1880 construiram este teatro no fim do mundo.
Preciso desesperadamente de beber algo fresco,respirar melhor.
Saio da Ópera e passo para a rua adjacente, não a dos turistas, mas a outra , a que leva ao bar que me indicaram.
Ninguém a quem pedir informações.
Encontro finalmente o Bar do Neilson, que afinal era uma varanda pendurada sobre o rio, um balcão sobrevoando o crepúsculo.

No centro da varanda, uma mesa de bilhar onde o pano verde rasgado não destoava da balaustrada de madeira envelhecida, nem do cheiro de peixe que vinha da cozinha.
Algum dia Deus teria agradecido este retrato do Rio Negro, um entardecer húmido e silencioso, que ia escondendo as casas miseráveis e a roupa suja das crianças à medida que a luz desaparecia do outro lado do rio.
O soalho rangiu quando a rapariga perfeita me trouxe a primeira garrafa de cerveja.
Um pequeno barco aproximou-se da margem, por baixo da casa, junto a uma pequena ladeira. O homem saltou do barco, arrumou os remos e saltou para o lodo.
-Tucunaré, tambaqui, pirapitinga,aruanã,pirarucu, bicuda, jacundá, traira e pirarara - dise o homem - peixe do rio, a gente frita eles ,dá uns golpes muito finos para cortar as espinhas e aí se pode comer à vontade.
Manaus, um amontoado de prédios enegrecidos pela luz de uma tragédia desconhecida, uma espécie de rendição ao clima, à temperatura.
Pergunta-me se sou argentino. Quando digo que sou português,esboça um sorriso e pergunta se viajo muito .
O Brasil ri de si próprio com grande classe, recuperando a honra perdida ao longo da hstória.
E é por isso que de certo modo aqui estou .
Para aprender a rir com classe de mim mesmo.
O riso abafa a tragédia, a desgraça e a corrupção dos poderosos.
Convido o homem para a minha mesa. Chama-se Luciano.
À terceira cerveja Brahma, Luciano diz-me que no Brasil se peca bastante. Há sempre criminosos do Amazonas em toda a parte.
Um verdadeiro filósofo .
Ampliando a natureza do pecado, aumentando a área do pecado,aumenta-se também o seu preço. Logo, há mais pecadores. Há mais clientes para o negócio do templo, diz Luciano.
Escuto, olhando o rio e suando em bica.
Havendo mais pecadores, há mais fiéis, mais lucro nas igrejas.
Sem saber como, a noite cerrada chegou.
Acabei comendo o tucunaré e posso assegurar que vou voltar.
Nem que seja para voltar a ouvir Luciano, enquanto observo o rio gigantesco, negro, lodoso e de profundidades desconhecidas, um coro de vozes vindas de todo o lado, das margens, dos céus, das florestas, dos igarapés desenhados sem ordem nem precisão, pássaros de todas as cores .
Manaus, terra de exilados,terra de consciências fortes.
Até sempre!

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