terça-feira, 19 de setembro de 2017

Liberdade das areias movediças - REENCONTRO

REENCONTRO

Demorou-se muito tempo na contemplação do horizonte.
Tinha um um ar sério, a testa enrugada, como se algo o preocupasse. Não se conseguia libertar daquela estranha sensação de que algo não estava bem. O momento estava incompleto, sentia-o, mas não poderia dizer exactamente o que faltava. Nem mesmo a vista maravilhosa sobre o mar que dali se disfrutava o conseguia retirar daquela espécie de melancolia que o invadia continuamente. Fixou-se de uma forma hipnótica nos mastros dos veleiros que balouçavam ao ritmo da pequena ondulação provocada pelo movimento da marina, e sentiu uma espécie de apelo. Fez um sinal discreto ao empregado de mesa.
Decidiu caminhar um pouco pela borda da marina. Pagou o café ao simpático funcionário e ensaiou uma espécie de esgar para retribuir a amável saudação que o jovem funcionário lhe prestou, enquanto arrumava a cadeira. Pensou nisso durante breves segundos, surpreendido com a facilidade com que certas pessoas se dedicavam a cada momento, à sua vida. Ele não conseguia, denotava sempre um ar de alguma ansiedade, como se fosse um intruso da própria vida, estivesse ali a mais, ou a sua existência se devesse a um puro engano, e a qualquer momento algo ou alguém surgiria para o desmascarar.
Caminhava agora perto da água e perguntava-se como seria possível que a edilidade não mandasse instalar ali uma protecção para impedir, dificultar, quedas acidentais ou mesmo intencionais, que seriam necessariamente perigosas, fatais. A este pensamento tem um arrepio. Seria tão fácil acabar com aquele sofrimento atroz que o impedia de ser feliz. Sobreveio o seu instinto de sobrevivência. Afasta-se da bordinha num gesto brusco, como se tivesse optado no derradeiro instante pela salvação. Como se estivesse na linha férrea à espera que o comboio o atingisse e resolvesse salvar-se no último instante. Alguém que o observasse ficaria com dúvidas sobre a sua sanidade mental, ou julgaria que tivesse sido picado por uma vespa.
“Terei sobrevivido a alguma coisa? Terei sido traído por algo em quem confiava e que já não posso identificar?” - vai pensando enquanto retoma o controlo emocional e o coração recupera o ritmo normal.
Passa a linha férrea e decide caminhar pelo passadiço de madeira que entra pela ria adentro. Nunca ali tinha ido, apesar de saber da sua existência. Tenta encontrar uma explicação para essa lacuna, como sempre fazia quando se confrontava consigo mesmo. Geralmente quedava-se na sua contemplação atrás do pequeno muro caiado de branco, restaurado ao abrigo de um financiamento atribuído pela autarquia. Eram já poucas as automotoras que circulavam naquela linha mas o perigo era notório e ali estavam os avisos sonoros e escritos em painéis vermelhos para se evitarem os acidentes. Não encontra explicação válida mas a mente não lhe dá tréguas:
“Como é possível que nunca me tenha atrevido a vir até aqui” - pensa, mas de súbito é surpreendido pela beleza da paisagem.
A passadeira era bastante comprida, teria no mínimo uma centena de metros e permitia o distanciamento suficiente da cidade para que se pudesse fazer esse exercício de a observar à distância. Começou por olhar para a ria, voltando costas à cidade, admirando aquele mundo maravilhoso que só agora contemplava com alguma atenção.
Estranho! Aquela beleza sempre ali estivera mas para ele era como se nunca tivesse existido, apesar de saber que existia. 
“ Desconhecimento aparente do conhecido”. 
Ficou a pensar nisto enquanto tentava seguir com o olhar o voo errático de umas aves brancas e grandes que não sabia identificar. Não eram cegonhas nem patos, isso sabia bem, mas aquele desconhecimento indicava-lhe claramente que se devia ter interessado um pouco mais por aquele mundo ali tão perto. Afinal fazia parte da cidade, complementava-a, e ele apenas conhecia uma parte do todo. Este pensamento sobressaltou-o e repentinamente virou costas ao mar. Encostou-se à estrutura de madeira encerada que delimitava o passadiço. Algumas gaivotas repousavam na água à sua frente e pareciam observá-lo com curiosidade. Encarava agora o casario de frente, mas de longe, num silêncio que apenas não era total, profundo, pois ouviam-se os gritos das aves, espaçadamente, o salto de um ou outro peixe naquele espelho de água que o rodeava, e o ruido de um motor de embarcação, ao fundo, como ecos distorcidos de mundos mágicos.
“Talvez também tenha perdido a verdadeira alma da cidade!” - decidiu, e sentiu um enorme alívio no seu cérebro - “ Nunca é tarde para se reencontrar aquilo que nunca se perdeu pois nunca se teve”.
Aquela pressão que o afligia permanentemente e obrigava a pensar na sua génese, pareceu tê-lo abandonado como por magia.
Esteve durante bastante tempo a olhar para um e outro lado, como se fosse uma criança que vê o mundo pela primeira vez, sem tentar adjectivar ou sequer entender. 
Olhava apenas. 
Percebeu então que aquela sensação de vazio que experimentava constantemente não se devia a qualquer escolha errada feita no passado, a qualquer lacuna emocional, mas ao simples facto de não ter vivido integralmente todos os momentos da sua vida. Pensava demasiado, e nesse frenesim perdera o essencial, aquilo que é. 
De tal forma que interiorizou que o que existia era aquilo de que tinha conhecimento e não aquilo que verdadeiramente era. Fazia o mundo à sua imagem e com essa atitude redutora passava ao largo da verdadeira imagem do mundo.
Da sua própria imagem, pois ele integrava esse mundo.

Mais, ele era o mundo, e só agora o entendia.


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