terça-feira, 10 de outubro de 2017

PARANOIA - Capítulo 5

Miguel sabia há muito que o mundo é um lugar perigoso, e que por isso seria uma presa fácil dessa entidade sempre pronta a fabricar os seus mártires. Era indispensável proteger-se, munir-se de uma arma invisível que permitisse passar incólume por esse bairro perigoso a que metaforicamente se chama vida, e se possível que lhe possibilitasse ripostar de forma eficaz, silenciosa, sem se comprometer ou ser comprometido, muito menos denunciado ou apanhado.
Um atirador furtivo, talvez. Mas algo diferente do estereotipo, sem ter de se esconder ou camuflar fisicamente.
A sua máscara seria outra. Teria que se tornar um actor, mas dos bons, mesmo da classe dos excepcionais. E o seu palco não estaria confinado a quatro paredes, o espectáculo não teria um público limitado pelo espaço disponível. Não! O seu campo de actuação seria a vida, o seu mundo particular, e a peça trataria o relacionamento com os outros. Era portanto um trabalho de representação a tempo inteiro.
“És um fingidor!” - disse-lhe uma vez a professora primária, talvez a única pessoa que lhe tinha entendido a alma, ao observar-lhe as emoções contidas - “ Davas um bom poeta”.
Ele limitou-se a sorrir e depois acabou por contar o episódio aos pais que acharam graça mas não atingiram o sentido profundo daquela observação da professora Eduarda. Há sempre alguém que nos consegue observar através da máscara, talvez por também usar uma equivalente mas estar atento aos sinais, ter um rasgo consciente que lhe possibilite ultrapassar o mundo ilusório onde vive clandestinamente. Sob a aparência de uma calma e presença irrepreensível, Miguel nunca estava à vontade. Como se ansiasse por chegar a casa e não encontrasse o caminho, ou se estivesse ali e agora a perder tempo tão precioso para começar a fazer algo que não sabia bem o que era. E quando o objectivo parecia estar ali ao fundo da rua, ao meio do sonho, há algo que nos impede que lá cheguemos, como se na realidade fosse um local inacessível.
E contudo, na grande cidade, aquele enorme bairro a que decidiu chamar selva, todos pareciam felizes, tinham objectivos, e partilhavam espaços comuns em aparente ordem e equilíbrio. Teriam que estar necessariamente a fingir constantemente, pelo menos durante as horas de convívio, pois o mundo não é um lugar perfeito, como sabia por experiência própria. Teria de haver vencedores e perdedores, vítimas e carrascos, ódios ocultos, guerras mudas e diferenças insanáveis. Miguel lembrava-se de alguém lhe ter dito que um filósofo dissera que o inferno é sempre o outro, e portanto era imperioso estarmos sempre na defensiva e prontos a antecipar o inevitável ataque. O grande desafio é saber de onde virá o próximo golpe.
Alguma coisa fervilhava, isso era certo, era quase palpável, e notara esse sintoma desde o primeiro dia que integrara aquele bairro na capital. Um ambiente pesado sob a capa de uma alegre convivência, fosse no emprego ou nas relações pessoais.
“Relações pessoais!” - pensava, e tentava encontrar alguma coisa na sua vida que se pudesse integrar naquela frase tão apelativa. Nada encontrou de relevante. depois de pensar um pouco no assunto. Havia o convívio inevitável com os colegas naquele espaço fechado que era o comboio, as trocas de turno, algumas noites no Porto na pensão do costume, os convites para sair que acabaram por acabar porque nunca os aceitava por uma razão qualquer.
“Relações pessoais!” - repetia. Talvez consigo mesmo, e ainda assim era um convívio complicado, repleto de angústias e recriminações. Ele e ele próprio! Aquelas duas entidades que habitavam aquele corpo franzino e que aparentemente travavam uma luta encarniçada pela supremacia.
“Quem perdes és tu” - dizia o primo Manuel, quando o conseguia convencer a ir lá a casa, na outra margem, almoçar em família uma refeição decente, e quem sabe, cair em amores pela filha da vizinha Gracinda, a doce Gisela que ficara fascinada com a cor suave dos seus olhos, um tom indefinível entre o esverdeado e o azul pálido, apesar de não lhe ter conseguido arrancar meia dúzia de palavras que lhe revelassem a alma.
- Uma boa rapariga - disse a prima Fátima, esposa de Manuel - Muito inteligente e prendada. E acho que gosta de ti.
Miguel suspendeu o gesto que iniciara e ficou com os talheres na mão, perto da fatia de carne que se preparava para cortara. Aqueles almoços em família, ele e os primos, na enorme sala de jantar, devolviam-lhe alguma serenidade, apesar da relutância inicial em dar aquela maçada à família, como justificara para declinar os primeiros convites. Olhou para Fátima, depois para Manuel, como se não tivesse entendido muito bem a alusão à rapariga que já tinha encontrado um par de vezes pois era vizinha dos primos naquele pátio onde todos se conheciam.
- Não ligues à tua prima - disse-lhe Manuel, piscando-lhe o olho - As mulheres não descansam enquanto não virem os rapazes metidos nos sarilhos da vida conjugal.
- Vê lá se te cai um dente - atalhou Fátima - Tens muita razão de queixa!
- Estou a brincar, mulher. Deixa lá o rapaz em paz. O que tiver que ser, será, não achas, Miguel?
- Claro, primo. Mas tudo tem o seu tempo, e o tempo se encarregará de fazer o que tem de ser feito.
O casal entreolhou-se e depois Manuel apressou-se a dizer:
- Isso mesmo, Miguel. O que tiver de ser tem muita força.
“Alguma coisa fervilhava” - pensava Miguel, já no autocarro que o levaria a Cacilhas para apanhar o barco para o Terreiro do Paço - “Mas não é fácil a identificação”.
E se tentasse modificar a sua vida, ao modificar alguns aspectos da sua existência? - pensava nisto olhando de forma distraída para as águas algo revoltas do Tejo que entretanto fora coberto pela negrura da noite. Do outro lado as luzes da cidade que iam ganhando intensidade à medida que o barco avançava, algo temeroso, e atrás de si ficava cada vez mais longe o local onde eventualmente ficara aquela que lhe poderia modificar a existência.
“Gisela!” - repetia, com um vago sorriso, lembrando-se das primeiras palavras trocadas com a jovem. Tinha mais estudos do que ele, era inteligente, carinhosa e sensível, mas tinha uma relação umbilical com a mãe, que de certa forma o preocupara. Gostava dela, sem dúvida, sentia-se até empolgado pela perspectiva da próxima visita, e quase se esquecia daquele outro ser que o atormentava constantemente.
“ Libertei-me dos fantasmas e dos pensamentos compulsivos” - constatou, para seu grande espanto.
 Mas estaria à altura dela, sendo apenas um modesto revisor do caminho-de-ferro, enquanto ela seguia uma carreira promissora na função pública? E de que forma uma eventual vida em comum lhe retiraria o controlo da sua vida, subitamente transformada naquilo a que se chama uma vida em comum?
As preocupações com o Depois chegaram exactamente no momento em que o barco encostava ao cais com alguma violência, o que levou a que alguém se magoasse. Coisa sem importância, e logo depois caminhavam todos em segurança pelo passadiço, bastante inclinado pela maré baixa, em direcção à sala de visitas de Lisboa.
Resolveu caminhar um pouco e sentir o pulso à cidade àquela hora tardia. O relógio do arco batia as onze horas. Demorara-se mais que o habitual, e a isso, Gisela não era indiferente.

“De certo modo já está a afectar a minha vida!” - pensou, e logo o sorriso franco deu lugar a uma súbita dúvida que se revelava naquele franzir de testa que lhe devolvia a preocupação.

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