quarta-feira, 11 de outubro de 2017

PARANOIA - Primeiro capítulo

As palavras que surgiam espontaneamente na mente e lhe contavam estranhas histórias, pareciam ter um efeito hipnótico sobre ele, dando-lhe a impressão que estava constantemente a regressar ao passado. A ele próprio.
Por vezes dava por si absolutamente absorto numa espécie de vazio aterrador que ia sendo sucessivamente preenchido por imagens mentais desconexas. Associava esses momentos a sintomas de loucura, e esforçava-se por identificar antecedentes familiares, sem êxito, numa demanda febril, quase dolorosa. Isso acontecia sistematicamente sempre que sentia uma necessidade irreprimível de se isolar, especialmente quando estava rodeado de pessoas que não conhecia particularmente bem. Reconhecia que não convivia bem com o desconhecido, que era reservado com as pessoas estranhas, que se sentia pouco à vontade entre aqueles que não conseguia dominar. Era aquilo a que genericamente se designa por tímido, mas sabia bem que esse comportamento era uma subtileza da sua natureza, uma incapacidade de lidar com o desconhecido, com aquilo que não controlava totalmente.
Será por isso que me isolo, que me retiro, que não suporto o convívio normal com pessoas que não conheço particularmente bem?
Talvez receasse não estar à altura dos acontecimentos, ou detestasse ser confrontado com novas ideias que provassem que estava enganado, que era incapaz de acompanhar novas tendências ou ideias.
E se tivesse vivido sempre no erro?
E como seria visto aos olhos dos outros?
Uma pessoa inofensiva, uma boa pessoa, calma e sorridente, de poucas palavras, que se isolava e mantinha a uma certa distância para não perturbar o grupo.
Só ele sabia que a sua atitude era meramente estratégica. Ao não se envolver, estava a salvo das eventuais consequências nefastas de uma decisão conjunta, podia sempre dizer que nada daquilo lhe dizia respeito.
Aliás, raramente via algum interesse naquelas reuniões ou assuntos, mas sorria placidamente a cada intervenção, fingindo interesse ou entusiasmo, imitando assim as reacções da maioria, para não destoar ou ser confrontado com perguntas incómodas.
Qual é a sua opinião?
Era esta a pergunta que queria evitar a todo o custo, para não se envolver.
Ficava na periferia da vida, fugia das responsabilidades, mas não conseguia escapar das memórias que lhe surgiam inesperadamente sobre várias formas.
E o mais perturbador era o facto de essas memórias serem repetitivas, como se houvesse um qualquer bloqueio que impedia o avanço da história que estaria a ser contada. Mas por quem e a quem, se aparentemente não tinha qualquer interferência ano processo? E porquê? Haveria alguma coisa que ele ainda não entendesse e fosse necessário repetir até à exaustão?
A princípio associou esse facto ao cansaço. Era a explicação lógica, e até mesmo o especialista que consultou em Lisboa, a insistência dos pais, tinha emitido essa opinião de uma forma clara. Havia muito tempo que não dormia profundamente. Não descansava convenientemente. A profissão que fora obrigado a escolher era muito exigente do ponto de vista físico e mental. Não que fosse um trabalho pesado ou intelectualmente desgastante, mas era bastante monótono, repetitivo, e o horário que lhe tinha caído em sorte limitava-lhe muito a existência.
Miguel era revisor da companhia nacional do caminho-de-ferro e o seu dia de trabalho começava muito cedo, quando a esmagadora maioria da população de Lisboa se preparava para entrar no segundo sono.
Morava num quarto alugado em Benfica, um dormitório periférico da grande metrópole, e invariavelmente apanhava o eléctrico das três horas da manhã, impecavelmente fardado e com a malinha de serviço, onde juntamente com os apetrechos da profissão, um picador, dois blocos de bilhetes avulsos, um maço de facturas e alguns trocos, juntava uma sandes de queijo que lhe enganava o estômago antes de poder tomar o pequeno-almoço lá mais para as oito horas, já com algumas horas de marcha. Era um estranho na cidade e tencionava continuar assim, incógnito, observador, como se nada daquilo tivesse a ver com ele. Uma espécie de turista que estivesse ali apenas de visita e a qualquer momento se despediria com um sentimento de desapego, sabendo que na realidade não fazia parte daquele mundo. Que o seu verdadeiro destino ainda se iria realizar, e aquele momento presente não passava de uma solução provisória para a sua vida até que surgisse a sua verdadeira oportunidade. Era daí que Miguel tirava a sua tranquilidade. Não havia nele de forma evidente qualquer tipo de ansiedade, pois nada daquilo era com ele, na realidade não pertencia àquele mundo, estava apenas de passagem.
A capital!
Aquilo afinal é que era a capital do reino, a grande Lisboa de que toda a vida ouvira falar lá na sua terra distante, aquela imensa cidade onde estava sediado o governo do doutor Oliveira Salazar que o havia requisitado para defender a nação como um todo. Se alguma virtude a tropa tivera foi a de lhe ter dado a sensação de que afinal era importante. Ou seria esse falso protagonismo apenas o engodo para que ele se visse na obrigação de colocar a sua vida em perigo? Ainda lhe ocorrera a ideia de ir a salto para França, como fizeram dois amigos lá da freguesia, mas o pai acabou por o dissuadir ao dizer que um Ferreira nunca vira costas aos perigos.
Aos perigos!
Também pode ser stress pós traumático - sugerira o psiquiatra, torcendo o nariz - Aquilo em Angola deve ter sido terrível - sugeriu, mas a postura tranquila do paciente levou-o a inclinar-se para o excesso de trabalho e sobretudo para os sonos trocados.
Terrível!- pensou Miguel, enquanto esboçava um sorriso irónico que o doutor interpretou erradamente - Se lá tivesse estado, logo via.
Pobre pai! Não fazia a mínima ideia do que lhe estava destinado em África, nem ele teve coragem de lhe revelar a verdadeira dimensão da tragédia que vivenciou como testemunha involuntária privilegiada. O que lhe valeu foi a sua extraordinária capacidade de se afastar das situações, de ser apenas uma testemunha, uma espécie de espectador de um filme cujo elenco não integrava.
Acabado o serviço militar no ultramar, teve que se fazer à vida. As opções eram poucas. Ou seguia as pisadas dos pais, da família, e se dedicava à agricultura, ou aproveitava as eventuais oportunidades que o seu quinto ano liceal lhe daria lá na capital distante. Para o seu espírito reservado, algo fechado, metido consigo mesmo, o apelo da grande cidade foi mais forte que o apego quase vegetal à terra onde nasceu, cresceu e se fez homem para logo ir bater com os costados em Angola, para defender uma terra que o Doutor Salazar dizia ser de todos os portugueses.
Angola é nossa!
Sempre desconfiou desta frase mas não perdeu tempo a contestá-la pois sabia que era uma perda de tempo e energia. Tinha consciência da inutilidade de todos os seus eventuais protestos e já assumira que era carne para canhão e tudo o que tinha a fazer era sobreviver e manter os olhos no chão e o bico calado. Nesse sentido sentia-se um passo à frente dos colegas que resmungavam em surdina e amaldiçoavam a vida. Ele limitara-se a aceitar o facto de que tinha sido apanhado pelo destino, nascera no tempo errado e no local errado, e essa tinha sido a escolha do destino. Caso houvesse essa tal coisa chamada destino, mas não era muito dado às coisas da filosofia, e essa sua postura definia na perfeição a sua própria psicologia. O que tinha de ser, tinha muita força, e não perderia tempo a discutir a realidade. Era como se estivesse a cumprir pena, só que em vez de estar atrás das grades, estava à frente de um eventual pelotão de fuzilamento. Talvez o tempo passasse mais rápido e nem dessem por ele, qual fantasma invisível em terras perigosas, voltando incólume, como prometera à sua mãe, lavada em lágrimas no cais de Alcântara naquele dia quente de Julho.
Com a ajuda do Manuel Joaquim, um primo do pai, que vivia há muitos anos na margem esquerda do Tejo, conseguiu o tal lugar de revisor da CP, e também fora fácil contratar o aluguer daquele quarto em Benfica, num terceiro e último andar de um prédio mesmo em frente da paragem do eléctrico. O aspecto negativo era o facto das traseiras do edifício dar para a linha do comboio, e se sentir uma espécie de tremor de terra a cada passagem das composições. Mas até isso lhe pareceu premonitório e reagiu com um raro sorriso a essa observação da senhora Matilde, a dona do quarto, dita com algum receio. Não fazia mal, pois depressa se habituaria à situação.
- Nem tens de andar muito, Miguel - disse-lhe o primo Manuel, para o animar, com aquele sotaque característico das beiras - Sais de casa, entras no eléctrico, atravessas meia cidade sem te cansares, e estás no emprego.

- E vai observando as vistas - acrescentou Matilde, tentando animá-lo, pois Miguel já tinha regressado ao seu registo habitual, e evidenciava agora uma total e absoluta inexpressão na face, não deixando transparecer qualquer emoção.

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