As
palavras
que surgiam espontaneamente na mente e lhe contavam estranhas histórias, pareciam
ter um efeito hipnótico sobre ele, dando-lhe a impressão que estava constantemente
a regressar ao passado. A ele próprio.
Por vezes dava por si absolutamente
absorto numa espécie de vazio aterrador que ia sendo sucessivamente preenchido
por imagens mentais desconexas. Associava esses momentos a sintomas de loucura,
e esforçava-se por identificar antecedentes familiares, sem êxito, numa demanda
febril, quase dolorosa. Isso acontecia sistematicamente sempre que sentia uma
necessidade irreprimível de se isolar, especialmente quando estava rodeado de
pessoas que não conhecia particularmente bem. Reconhecia que não convivia bem
com o desconhecido, que era reservado com as pessoas estranhas, que se sentia
pouco à vontade entre aqueles que não conseguia dominar. Era aquilo a que
genericamente se designa por tímido, mas sabia bem que esse comportamento era
uma subtileza da sua natureza, uma incapacidade de lidar com o desconhecido,
com aquilo que não controlava totalmente.
Será
por isso que me isolo, que me retiro, que não suporto o convívio normal com
pessoas que não conheço particularmente bem?
Talvez receasse não estar à altura dos
acontecimentos, ou detestasse ser confrontado com novas ideias que provassem
que estava enganado, que era incapaz de acompanhar novas tendências ou ideias.
E se tivesse vivido sempre no erro?
E como seria visto aos olhos dos outros?
Uma pessoa inofensiva, uma boa pessoa,
calma e sorridente, de poucas palavras, que se isolava e mantinha a uma certa
distância para não perturbar o grupo.
Só ele sabia que a sua atitude era
meramente estratégica. Ao não se envolver, estava a salvo das eventuais
consequências nefastas de uma decisão conjunta, podia sempre dizer que nada
daquilo lhe dizia respeito.
Aliás, raramente via algum interesse
naquelas reuniões ou assuntos, mas sorria placidamente a cada intervenção,
fingindo interesse ou entusiasmo, imitando assim as reacções da maioria, para
não destoar ou ser confrontado com perguntas incómodas.
Qual
é a sua opinião?
Era esta a pergunta que queria evitar a
todo o custo, para não se envolver.
Ficava na periferia da vida, fugia das
responsabilidades, mas não conseguia escapar das memórias que lhe surgiam
inesperadamente sobre várias formas.
E o mais perturbador era o facto de
essas memórias serem repetitivas, como se houvesse um qualquer bloqueio que
impedia o avanço da história que estaria a ser contada. Mas por quem e a quem,
se aparentemente não tinha qualquer interferência ano processo? E porquê?
Haveria alguma coisa que ele ainda não entendesse e fosse necessário repetir
até à exaustão?
A princípio associou esse facto ao
cansaço. Era a explicação lógica, e até mesmo o especialista que consultou em
Lisboa, a insistência dos pais, tinha emitido essa opinião de uma forma clara. Havia
muito tempo que não dormia profundamente. Não descansava convenientemente. A
profissão que fora obrigado a escolher era muito exigente do ponto de vista
físico e mental. Não que fosse um trabalho pesado ou intelectualmente
desgastante, mas era bastante monótono, repetitivo, e o horário que lhe tinha
caído em sorte limitava-lhe muito a existência.
Miguel era revisor da companhia nacional
do caminho-de-ferro e o seu dia de trabalho começava muito cedo, quando a
esmagadora maioria da população de Lisboa se preparava para entrar no segundo
sono.
Morava num quarto alugado em Benfica, um
dormitório periférico da grande metrópole, e invariavelmente apanhava o
eléctrico das três horas da manhã, impecavelmente fardado e com a malinha de
serviço, onde juntamente com os apetrechos da profissão, um picador, dois
blocos de bilhetes avulsos, um maço de facturas e alguns trocos, juntava uma
sandes de queijo que lhe enganava o estômago antes de poder tomar o
pequeno-almoço lá mais para as oito horas, já com algumas horas de marcha. Era
um estranho na cidade e tencionava continuar assim, incógnito, observador, como
se nada daquilo tivesse a ver com ele. Uma espécie de turista que estivesse ali
apenas de visita e a qualquer momento se despediria com um sentimento de desapego,
sabendo que na realidade não fazia parte daquele mundo. Que o seu verdadeiro
destino ainda se iria realizar, e aquele momento presente não passava de uma
solução provisória para a sua vida até que surgisse a sua verdadeira
oportunidade. Era daí que Miguel tirava a sua tranquilidade. Não havia nele de
forma evidente qualquer tipo de ansiedade, pois nada daquilo era com ele, na
realidade não pertencia àquele mundo, estava apenas de passagem.
A
capital!
Aquilo afinal é que era a capital do
reino, a grande Lisboa de que toda a vida ouvira falar lá na sua terra
distante, aquela imensa cidade onde estava sediado o governo do doutor Oliveira
Salazar que o havia requisitado para defender a nação como um todo. Se alguma
virtude a tropa tivera foi a de lhe ter dado a sensação de que afinal era
importante. Ou seria esse falso protagonismo apenas o engodo para que ele se
visse na obrigação de colocar a sua vida em perigo? Ainda lhe ocorrera a ideia
de ir a salto para França, como fizeram dois amigos lá da freguesia, mas o pai
acabou por o dissuadir ao dizer que um Ferreira nunca vira costas aos perigos.
Aos
perigos!
Também
pode ser stress pós traumático - sugerira o psiquiatra,
torcendo o nariz - Aquilo em Angola deve
ter sido terrível - sugeriu, mas a postura tranquila do paciente levou-o a
inclinar-se para o excesso de trabalho e sobretudo para os sonos trocados.
Terrível!-
pensou
Miguel, enquanto esboçava um sorriso irónico que o doutor interpretou
erradamente - Se lá tivesse estado, logo
via.
Pobre pai! Não fazia a mínima ideia do
que lhe estava destinado em África, nem ele teve coragem de lhe revelar a
verdadeira dimensão da tragédia que vivenciou como testemunha involuntária
privilegiada. O que lhe valeu foi a sua extraordinária capacidade de se afastar
das situações, de ser apenas uma testemunha, uma espécie de espectador de um
filme cujo elenco não integrava.
Acabado o serviço militar no ultramar,
teve que se fazer à vida. As opções eram poucas. Ou seguia as pisadas dos pais,
da família, e se dedicava à agricultura, ou aproveitava as eventuais
oportunidades que o seu quinto ano liceal lhe daria lá na capital distante.
Para o seu espírito reservado, algo fechado, metido consigo mesmo, o apelo da
grande cidade foi mais forte que o apego quase vegetal à terra onde nasceu,
cresceu e se fez homem para logo ir bater com os costados em Angola, para
defender uma terra que o Doutor Salazar dizia ser de todos os portugueses.
Angola
é nossa!
Sempre desconfiou desta frase mas não
perdeu tempo a contestá-la pois sabia que era uma perda de tempo e energia.
Tinha consciência da inutilidade de todos os seus eventuais protestos e já
assumira que era carne para canhão e tudo o que tinha a fazer era sobreviver e
manter os olhos no chão e o bico calado. Nesse sentido sentia-se um passo à
frente dos colegas que resmungavam em surdina e amaldiçoavam a vida. Ele
limitara-se a aceitar o facto de que tinha sido apanhado pelo destino, nascera
no tempo errado e no local errado, e essa tinha sido a escolha do destino. Caso
houvesse essa tal coisa chamada destino, mas não era muito dado às coisas da
filosofia, e essa sua postura definia na perfeição a sua própria psicologia. O
que tinha de ser, tinha muita força, e não perderia tempo a discutir a
realidade. Era como se estivesse a cumprir pena, só que em vez de estar atrás
das grades, estava à frente de um eventual pelotão de fuzilamento. Talvez o
tempo passasse mais rápido e nem dessem por ele, qual fantasma invisível em
terras perigosas, voltando incólume, como prometera à sua mãe, lavada em
lágrimas no cais de Alcântara naquele dia quente de Julho.
Com a ajuda do Manuel Joaquim, um primo
do pai, que vivia há muitos anos na margem esquerda do Tejo, conseguiu o tal
lugar de revisor da CP, e também fora fácil contratar o aluguer daquele quarto
em Benfica, num terceiro e último andar de um prédio mesmo em frente da paragem
do eléctrico. O aspecto negativo era o facto das traseiras do edifício dar para
a linha do comboio, e se sentir uma espécie de tremor de terra a cada passagem
das composições. Mas até isso lhe pareceu premonitório e reagiu com um raro
sorriso a essa observação da senhora Matilde, a dona do quarto, dita com algum
receio. Não fazia mal, pois depressa se habituaria à situação.
- Nem tens de andar muito, Miguel -
disse-lhe o primo Manuel, para o animar, com aquele sotaque característico das
beiras - Sais de casa, entras no eléctrico, atravessas meia cidade sem te
cansares, e estás no emprego.
- E vai observando as vistas -
acrescentou Matilde, tentando animá-lo, pois Miguel já tinha regressado ao seu
registo habitual, e evidenciava agora uma total e absoluta inexpressão na face,
não deixando transparecer qualquer emoção.
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