quarta-feira, 11 de outubro de 2017

PARANOIA, capítulo 5 (segunda versão ampliada e corrigida)

Miguel sabia há muito que o mundo era um lugar perigoso, e que por isso seria uma presa fácil dessa entidade falaciosamente perigosa, sempre pronta a fabricar os seus mártires. Era indispensável proteger-se, munir-se de uma arma invisível que lhe permitisse passar incólume por esse bairro perigoso a que metaforicamente chamava vida, e se possível que lhe possibilitasse ripostar de forma eficaz, silenciosa, sem se comprometer ou ser comprometido, muito menos denunciado ou apanhado.
Um atirador furtivo, talvez. Mas algo diferente do estereotipo, sem ter de se esconder ou camuflar fisicamente. Pensou até na invisibilidade, e curiosamente foi dessa visão que lhe surgiu a ideia.
A sua máscara seria outra. Teria que se tornar um actor, mas dos bons, talvez mesmo da classe dos excepcionais. E o seu palco não estaria confinado a quatro paredes!
O espectáculo não teria um público limitado pelo espaço disponível. Não! O seu campo de actuação seria a vida, o seu mundo particular, e a peça trataria o relacionamento com os outros. Era portanto um trabalho de representação a tempo inteiro.
“És um fingidor!” - disse-lhe uma vez a professora primária, talvez a única pessoa que lhe tinha entendido a alma, ao observar-lhe as emoções contidas - “ Davas um bom poeta”.
Na altura limitou-se a sorrir e alguns dias depois acabou por contar o episódio aos pais que acharam graça mas não atingiram o sentido profundo daquela observação da professora Eduarda. O que ela queria dizer é que há sempre alguém que nos consegue observar através da máscara, talvez por também usar uma equivalente, mas seguramente por estar atento aos sinais, ter um rasgo consciente que lhe possibilite ultrapassar o mundo ilusório onde vive clandestinamente.
Sob a aparência de uma calma e presença irrepreensíveis, Miguel nunca estava à vontade. Como se ansiasse chegar a casa e não encontrasse o caminho, não se lembrasse sequer da casa, ou se ali estivesse apenas a perder o tão precioso tempo para começar a fazer algo que não sabia bem o que era. E quando o objectivo parecia estar ali ao fundo da rua, ao meio do sonho, há algo que nos impede que lá cheguemos, como se na realidade fosse um local inacessível.
E contudo, na grande cidade, aquele enorme bairro a que decidiu chamar selva, todos pareciam ser felizes e ter objectivos, partilhavam espaços comuns em aparente ordem e equilíbrio. Teriam que estar necessariamente a fingir, pelo menos durante as horas de convívio, pois o mundo não é um lugar perfeito, como sabia por experiência própria. Teria de haver vencedores e perdedores, vítimas e carrascos, ódios ocultos, guerras mudas e diferenças insanáveis.
Miguel lembrava-se de alguém lhe ter dito que um filósofo dissera que o inferno é sempre o outro, e portanto era imperioso estar sempre na defensiva e prontos a antecipar o inevitável ataque. O grande desafio era saber de onde viria o próximo golpe.
Alguma coisa fervilhava, isso era certo, era quase palpável, e notara esse sintoma desde o primeiro dia que integrara aquele bairro na capital. Um ambiente pesado sob a capa de uma alegre convivência, fosse no emprego ou nas relações pessoais.
“Relações pessoais!” - pensava, e tentava encontrar alguma coisa na sua vida que se pudesse integrar naquela frase tão apelativa. Nada encontrou de relevante. depois de pensar um pouco no assunto. Havia o convívio inevitável com os colegas naquele espaço fechado que era o comboio, as trocas de turno, algumas noites no Porto na pensão do costume, os convites para sair que acabaram por desaparecer, porque nunca os aceitava por uma razão qualquer que sempre inventava.
“Relações pessoais!” - repetia.
Talvez consigo mesmo, e ainda assim era um convívio complicado, repleto de angústias e recriminações. Ele e ele próprio! As duas entidades que habitavam aquele corpo franzino e que aparentemente travavam uma luta encarniçada pela supremacia.
“Quem perdes és tu” - dizia o primo Manuel, quando o conseguia convencer a ir lá a casa, na outra margem, almoçar em família uma refeição decente, e quem sabe, cair em amores pela filha da vizinha Gracinda, a doce Alice que ficara fascinada com a cor suave dos seus olhos, um tom indefinível entre o esverdeado e o azul pálido, apesar de não lhe ter conseguido arrancar meia dúzia de palavras que lhe revelassem a alma.
- Uma boa rapariga - disse a prima Fátima, esposa de Manuel, com o seu habitual sorriso - Muito inteligente e prendada. E acho que gosta de ti.
Miguel suspendeu o gesto que iniciara e ficou com os talheres na mão, perto da fatia de carne que se preparava para cortar. Aqueles almoços em família, ele e os primos em comunhão, reminiscente dos tempos da aldeia, na enorme sala de jantar, devolviam-lhe alguma serenidade, apesar da relutância inicial em dar aquela maçada à família, como justificara para declinar os primeiros convites. Olhou para Fátima, depois para Manuel, como se não tivesse entendido muito bem a alusão à rapariga que já tinha encontrado um par de vezes, pois era vizinha dos primos naquele pátio onde todos se conheciam.
- Não ligues à tua prima - disse-lhe Manuel, piscando-lhe o olho - As mulheres não descansam enquanto não virem os rapazes metidos nos sarilhos da vida conjugal.
- Vê lá se te cai um dente - atalhou Fátima - Tens muita razão de queixa!
- Estou a brincar, mulher. Deixa lá o rapaz em paz. O que tiver que ser, será, não achas, Miguel?
- Claro, primo. Mas tudo tem o seu tempo, e o tempo se encarregará de fazer o que tem de ser feito.
O casal entreolhou-se e depois Manuel apressou-se a dizer:
- Isso mesmo, Miguel. O que tiver de ser tem muita força.
“Alguma coisa está a fervilhar” - pensava Miguel, já no autocarro que o levaria a Cacilhas para apanhar o barco para o Terreiro do Paço - “Mas não é fácil a identificação”.
Sentou-se no último banco de dois lugares lá trás, perto da janela esquerda, logo a seguir àquele assento contínuo de seis lugares, a que vulgarmente se chamava “pontapé nas costas” por causa dos solavancos. Ia olhando distraidamente para a paisagem que atravessavam, sempre a descer até Cacilhas, com muitas paragens e também muita escuridão, que a iluminação pública era cara, e por isso, esparsa. Os solavancos tinham a virtude, ou o defeito, de lhe provocar a sonolência, mas ao mesmo tempo também lhe davam o ensejo de ir revendo a sua vida. Haveria de recordar com saudade aquelas viagens de regresso que terão sido seguramente um dos seus momentos de maior introspecção. Curiosamente referiu isso uma vez ao seu analista, numa consulta posterior, alguns anos depois, e ele concordara com a tese do abanão consciente. Seria?
A travessia da avenida principal de Almada devolveu-lhe a atenção para o momento e num instante viu-se a entrar para o velho cacilheiro depois de descer aquela plataforma de acesso bastante insegura devido ao cachão provocado pelas diversas atracações e a algum vento que vinha do mar da palha. Era normal, segundo lhe confidenciou o marinheiro que de cigarrinho ao canto da boca ia segurando a corda da amarração. Miguel fez um gesto imperceptível com a cabeça mas a sua mente já estava noutro mundo e sentou-se á janela, no piso superior, onde apenas estavam mais dois passageiros com um ar estranho. O início da manobra ainda lhe mereceu alguma atenção, mas logo caiu naquele poço sem fundo povoado pelos seus pensamentos.
E se tentasse modificar a sua vida, ao modificar alguns aspectos da sua existência? - pensava nisto olhando de forma distraída para as águas algo revoltas do Tejo que entretanto fora coberto pela negrura da noite. Do outro lado as luzes da cidade que iam ganhando intensidade à medida que o barco avançava, algo devagar, e atrás de si ficava cada vez mais longe o local onde eventualmente ficara aquela que lhe poderia modificar a existência.
“Alice!” - repetia, com um vago sorriso, lembrando-se das primeiras palavras trocadas com a jovem. Tinha mais estudos do que ele, era inteligente, carinhosa e sensível, mas tinha uma relação umbilical com a mãe, que de certa forma o preocupara. Gostava dela, sem dúvida, sentia-se até empolgado pela perspectiva da próxima visita, e quase se esquecia daquele outro ser que o atormentava constantemente.
“ Libertei-me por momentos dos fantasmas e dos pensamentos compulsivos” - constatou, para seu grande espanto - “Mas por quanto tempo?”.
 Mas estaria à altura dela, sendo apenas um modesto revisor do caminho-de-ferro, enquanto a jovem seguia uma carreira promissora na função pública? Notara a forma elegante como ela articulava o discurso, acompanhado sempre por expressões faciais que revelavam doçura, aquela qualidade feminina de que a mãe lhe falara em criança. Até ficou algo comprometido por não ter entendido o significado de algumas palavras que ela proferiu, mas não deu parte de fraco e manteve aquela atitude expectante, pensando na forma de superar aquele problema.
Era sempre a mesma coisa, e conseguia admiti-lo. Só pensava nele, de certa forma, mesmo quando tentava dar atenção a Alice, tão doce, tão bela, tão simples. Contudo, sentia no ar a atmosfera de um eventual relacionamento sério. Notara a enorme cumplicidade entre ela e a mãe, uma senhora alegre e prazenteira que enviuvara demasiado cedo e se vira obrigada a lutar duramente para educar a filha e proporcionar-lhe uma vida feliz. Era algo que o incomodava mas ainda não sabia porquê.
E de que forma uma eventual vida em comum lhe retiraria o controlo da sua vida, subitamente transformada naquilo a que se chama uma vida em comum? Cairia entre as duas mulheres, mãe e filha, como mosca na sopa, um corpo estranho que longe de complementar o quadro, poderia afinal borrar a pintura.
As preocupações com o Depois chegaram exactamente no momento em que o barco encostava ao cais com alguma violência, o que levou a que um passageiro se magoasse ligeiramente.
“Não ligam ao que está escrito em letras garrafais em vários quadros espalhados pelo barco, conforme é da norma do trânsito fluvial, e depois acontece isto” - lamentava-se o marinheiro de atracação, referindo a informação bem visível que pedia aos passageiros para não se levantarem antes da completa imobilização do barco. Miguel fez aquele esgar habitual que podia ser interpretado como concordância, mas não proferiu palavra e avançou para o cais. Coisa sem importância, e logo depois caminhavam todos em segurança pelo passadiço, bastante inclinado pela maré baixa, em direcção à sala de visitas de Lisboa.
Resolveu caminhar um pouco e sentir o pulso à cidade àquela hora tardia. O relógio do arco batia as onze horas. Demorara-se mais que o habitual, e a isso, Alice não era indiferente.
“De certo modo já está a afectar a minha vida!” - pensou, e logo o sorriso franco deu lugar a uma súbita dúvida que se revelava naquele franzir de testa que lhe devolvia a preocupação.
Esperou que o semáforo abrisse para os peões, apesar de não haver trânsito àquela hora. Observou com um ar crítico aqueles dois rapazes que atravessaram a passadeira mesmo com o sinal vermelho, mas guardou para si as interjeições pouco simpáticas que a mente de pronto lhe indicou.
“Cá estão os malditos sintomas! Nunca mais aprendo” - pensou de imediato, ao sentir a reacção do corpo àquela indignação. Não aprendia com a experiência muitas vezes repetida de personalizar todos os acontecimentos, de não reconhecer em tempo útil que reagia emocionalmente, instantaneamente, aos pensamentos que lhe povoavam a mente. O coração bateu mais depressa, os músculos contraíram-se, a respiração tornou-se mais acelerada. E como não verbalizara a sua indignação, por receio ou incapacidade, aquela energia negativa não fora dissipada. Voltava para a mente para aumentar a sua indignação e ansiedade e sabe Deus o mal que estaria a fazer ao funcionamento harmonioso do seu corpo.
Quando o sinal verde abriu, atravessou a passadeira, mas só descontraiu verdadeiramente quando os tais jovens desapareceram do seu campo de visão depois de passarem o Arco.
O silêncio da cidade adormecida que tantas vezes saboreava no interior do eléctrico, era agora saboreada com os pés bem assentes no chão. Naquele espaço mítico, o Terreiro do Paço, sala de visitas de Lisboa, parecia que todos os seus medos e dúvidas se dissipavam. À sua esquerda a estátua imponente do rei que vivera o terramoto terrível e que agora olhava permanentemente o rio à sua frente. Estava tão perto da história de que em criança ouvira falar nos bancos da escola, mas agora que olhava para aquele bloco de pedra já não achava que havia heróis. Apenas memórias depositadas pela cidade por sobreviventes que talvez tivessem segundas intenções. Não fora em nome da história do país que se sacrificara durante dois anos numa terra que afinal acabou por não conhecer minimamente?
“Quem irá observar com calma um local onde se pode perder a vida a cada instante?”
Fora claramente usado e tinha absoluta consciência disso. Era imperativo que alguém fosse confrontado com esse crime, aquelas mortes gratuitas que testemunhara, todo aquele sofrimento e ansiedade permanente em nome de símbolos mortos, de ídolos de pedra que justificavam todos os sacrifícios. Que sequelas lhe teriam ficado, que sofrimentos estariam ainda para surgir, que memórias adviriam quando menos se esperasse? Sofrera e agora ninguém sabia disso, era um ser incógnito na grande cidade, e estava entregue a si mesmo. O país usara-o, e no fim despedira-se dele com um sorriso e um aperto de mão de um general qualquer que nem sequer o olhou nos olhos. Talvez estivesse com pressa para ir almoçar ou fazer algo mais agradável do que estar ali naquela cerimónia pública a condecorar aqueles idiotas que se supunham heróis.
Estava a entrar na rua Augusta e a luminosidade despertou-lhe os sentidos.
Talvez estivesse a falar alto, e a esse pensamento sobressaltou-se e olhou em redor. Onde estava a coragem que os seus pensamentos compulsivos indiciavam?
Afinal era apenas um indivíduo sem qualquer importância social, um simples revisor do caminho-de-ferro, e a cidade estava cheia de informadores. Regressou ao seu estado normal de vigilância. Eram poucas as pessoas que caminhavam algo apressadas por aquelas artérias pombalinas. Algumas quase corriam na direcção do rio, talvez fossem apanhar os últimos barcos para a outra margem. Outras subiam a rua Augusta de forma mais tranquila, mas em silêncio, desconfiando daqueles com que se cruzavam na rua, a avaliar pela forma como o observavam.
Havia um certo medo no ar, era essa a sua convicção.
Sentia o perigo a cada olhar, a cada observação, a cada esquina. Os polícias que patrulhavam as ruas largas fariam seguramente parte do plano arquitectado, fosse isso o que fosse, e de nada lhe valeria argumentar que dera dois anos da sua vida e da sua saúde à pátria. Talvez o tomassem por um provocador, um comunista, e só de pensar nisso resolveu voltar à sua esquerda e embrenhou-se naquelas ruas paralelas, mais estreitas e sujas, menos iluminadas, enquanto estugava o passo.
Talvez tivesse cometido um erro ao não esperar pelo eléctrico na paragem da praça do comércio. Mas agora não havia como voltar atrás. Seria suspeito e não estava disposto a correr esse risco. Tinha que estar atento e pronto a saltar, sem contudo baixar a guarda. Não era por acaso que chamava a esse estado “o turno da noite”.
Olhou para o relógio. Onze e quarenta e cinco! Às cinco tinha que estar na paragem do eléctrico. Respirou fundo ao chegar ao Rossio, resistiu à tentação de subir o Chiado e dar uma volta pelo bairro Alto. Talvez pudesse fazer uma directa, mas depois como poderia desempenhar o seu trabalho de forma profissional com uma noite em branco aos ombros, a barba por fazer, as olheiras. E ainda teria de se lavar e mudar de camisa e cuecas e meias. E a Dona Matilde proibira os banhos depois da meia-noite para não incomodar os inquilinos do prédio.
“Talvez para a semana” - prometeu a si mesmo, depois de tomar a decisão de subir a avenida da Liberdade e ir apanhar o eléctrico da uma ao Marquês.

Caminhava agora em passo firme, atento a tudo e a todos, como o pássaro face ao mínimo ruído, pois sabia que dessa atenção levada ao paroxismo dependia a sua sobrevivência.

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