UMA EXPLICAÇÃO PARA O PROBLEMA PORTUGUÊS
I – Roma, Setembro 1074
A sala estava
mergulhada na penumbra e o ambiente era de grande austeridade, contrastando
claramente com a afabilidade dos dois homens, o papa Gregório VII e Santo Hugo,
Abade de Cluny.
- O tempo é o
mundo e a Eternidade é Deus, Hugo. Se quisermos assegurar a nossa passagem à
Eternidade temos de controlar o mundo.
- Quer dizer, o
homem, Hildebrando.
- Certamente meu
amigo! Devemos garantir os interesses divinos, que são os nossos, através de
uma mão de ferro no mundo cristão.
- Tens de te
acautelar, pois as forças seculares são muitas e muito fortes. Podes contar com
a minha colaboração incondicional.
- Agradeço-te
meu amigo, e tenho de facto algo a pedir-te nesse sentido, de extrema
importância para o futuro da cristandade.
- Tudo o que
estiver ao meu alcance.
- Entreguei-me
de todo o coração a esta missão, Hugo, e nada nem ninguém me fará recuar. Tenho
esperança que a Igreja reencontre os caminhos da fé há muito perdidos.
- Tens então
esperança de ser bem sucedido…
- Se não tivesse esperanças em
melhores tempos e em ser útil à Igreja, não me tinha conservado em Roma, Deus o
sabe, como preso, durante vinte anos, entre uma dor que se renovava
quotidianamente e uma esperança muito longínqua! Acometido por mil tempestades,
a minha vida foi uma agonia continuada.
Hugo, Abade de Cluny, viera
visitar o amigo, um ano depois da sua investidura como Papa com o nome de
Gregório VII. Era grande a amizade entre estes dois homens, que decidiram
dedicar a sua vida à fé cristã.
Hildebrando nascera
em Itália, filho de um pequeno proprietário de terras, e tornou-se monge na
célebre abadia de Cluny, em França, na época em que Hugo dirigia como abade
esse extraordinário mosteiro, onde o espírito feudal iria encontrar o seu pleno
equilíbrio católico.
Em 1049, ali foi
procurá-lo Monsenhor Brunon, Bispo de Toul, que havia sido nomeado Papa pelo
seu parente, o Imperador Henrique III. Tal método de designação de um
Papa, válido na altura, tinha-se tornado abusivo. Brunon, como Sumo Pontífice,
adoptou o nome de Leão IX. Levou o monge Hildebrando consigo para Roma e
nomeou-o arquidiácono, primeira dignidade do Sacro Colégio de Cardeais e
administrador da Santa Igreja.
O estado de decadência em que se encontrava a Igreja
fazia-o sofrer, ao mesmo tempo que aumentava a sua disposição e ânimo para uma
autêntica luta.
- Mas agora és o
sumo pontífice, és o Papa, e como tal estás em excelente posição para lutar
pela Fé.
- Sem dúvida,
meu amigo e é por isso que pedi que viesses a Roma. Tenho um grande sonho que
pretendo realizar em vida. Muita coisa está mal na Igreja, no mundo cristão.
- O espírito das
trevas é muito poderoso e está a afastar as pessoas da Fé católica. Sabes que
tenho lutado contra isso toda a minha vida.
- Bem sei, meu
amigo, tu és a excepção. A minha observação do mundo católico diz-me que é
muito difícil encontrar alguém como tu, pois raros são os sacerdotes que chegam
ao episcopado por vias canónicas, e que levem uma vida conveniente, conduzindo
os seus rebanhos no espírito de caridade.
- E se falarmos
dos príncipes seculares…
- Não conheço
nenhum que prefira a glória de Deus à sua própria glória, a justiça ao
interesse…são piores que os judeus ou mesmo os pagãos!
- Como sabes,
estou activamente empenhado e até aqui com sucesso, pela graça de Deus, na luta
das investiduras, no que concerne a dádivas de terras à Igreja.
- Bispos e
abades de toda a Europa comportam-se como grandes senhores feudais, e sendo
pessoas de pouca fé, veneram mais a propriedade que a Deus.
- Esse é o maior
problema que se nos depara, pois a fidelidade, que devia ser dada a Deus e à
Santa Igreja, é canalizada para os senhores que os empossaram.
O problema
colocava-se nas grandes propriedades de terras que a Igreja possuía. Com
efeito, durante séculos Ela havia recebido numerosas doações de terras, e os
bispos e abades de toda a Europa administravam tais propriedades como grandes
senhores feudais.
Surgia, assim, o
problema político da relação temporal entre o rei e o bispo ou o abade, como
proprietário de terras. Era natural que o rei exigisse uma certa sujeição
temporal do bispo, enquanto senhor de grandes domínios dentro do reino. Mas,
pouco a pouco, para assegurar essa fidelidade, os imperadores passaram a
nomear leigos de sua confiança para os grandes feudos eclesiásticos. O imperador
então investia-os com o anel e o báculo. Não apenas lhes outorgava a
terra como feudo, mas também decidia quem seria sagrado bispo. Em vista disso,
geralmente os candidatos às abadias e aos bispados não eram eclesiásticos, mas
simples leigos, que pagavam ao imperador enormes somas pela investidura. A
autoridade jurídica da Igreja sobre os clérigos assim nomeados perdia-se,
porque eles ficavam sujeitos à autoridade civil. A investidura laica
tornou-se, pouco a pouco, um facto consumado que era necessário erradicar, sob
pena de a Igreja perder a sua independência.
E ainda, para
piorar as coisas, os bispos assim nomeados pelo imperador pretendiam que o seu
cargo se transmitisse por herança à sua família. Para isso, procuravam ter descendência,
e não respeitavam o celibato, que havia séculos fora estabelecido na Igreja do
Ocidente.
- Essa é a minha
luta de mais de vinte anos, Hugo.
- E tem sido
travada com a máxima sabedoria, meu amigo. As notícias das tuas sábias reformas
têm chegado a Cluny. Rezo pelo teu sucesso, que é o nosso, incessantemente.
- Conseguimos
algo de muito valioso, sim, Hugo, pois a hierarquia eclesiástica foi reformada
dum modo por todos aceite.
- Não sem alguma
resistência, Hildebrando, pois não é fácil, mesmo para os clérigos, abandonarem
o poder temporal, a riqueza que lhes advém da venda das propriedades.
- Se falarmos
então do celibato…gracejou Sua Santidade.
- Com a graça de
Deus conseguirás demover também os mais renitentes.
- Os alemães são
muito mais renitentes, demasiado ricos para se preocuparem com Deus. Henrique
mantém-nos bem presos pela bolsa.
- Mas sei que te
surgem novos apoios, colaboradores que lutam heroicamente pela verdade.
- Sim Hugo, e
são atitudes como essas que me enchem a alma de coragem e alegria para
prosseguir a minha cruzada.
- Foi preciso
muita coragem para teres decretado este ano, pela Quaresma, que os simoníacos e
nicolitas seriam excomungados se não renunciassem aos cargos ilegitimamente
adquiridos, ou à mulher com quem viviam maritalmente, contrariamente à lei
canónica.
- Ganhaste com
isso um inimigo perigoso, ardiloso.
- Henrique é um
déspota, mas com a ajuda de Deus, conseguirei vencer, e comigo toda a cristandade.
Hildebrando
levanta-se do enorme cadeirão onde se sentara durante a conversa, e passando a
mão pelos ombros do amigo, dirigiu-se silenciosamente para uma das janelas
sobranceiras a um frondoso jardim. Após alguns momentos de silêncio, dirige-se
ao amigo, sem contudo se virar:
- Meu amigo
Hugo, ninguém melhor que nós sabe que o poder, bem como a Felicidade, são
transitórios, pois nos escapam constantemente, ou simplesmente deixam de
existir de um momento para o outro, deixando-nos num estado de desespero, um
gosto a cinza na boca e no espírito.
- Sim, esse é o
nosso fardo, que transportamos por amor de Deus.
- E quando se
trata do Poder da Santa Igreja, estamos a falar da vontade de Deus.
- Absolutamente,
Hildebrando.
- Estou
preocupado com o que se passa na Península Ibérica, Hugo. Segundo sei o
afastamento das leis da Igreja faz-se aí de forma despudorada. Temos de travar
isso imediatamente.
- Estou
consciente desse perigo, melhor que ninguém. Afonso de Leão, contudo tem sido
um defensor da nossa política.
- Sim, mas o que
verdadeiramente me preocupa é o futuro, a sua sucessão. Seria desastroso que o
que se conseguiu até aqui tão arduamente fosse por água abaixo.
- A nossa
influência na Ibéria é grande, a minha sobrinha Constança é casada com Afonso,
que apoia a nossa política, e a sua capacidade de persuadir o marido tem sido
eficaz.
- Sei, Hugo,
tens feito um trabalho extraordinário, mas peço-te por Deus que penses numa
solução a longo prazo.
Hugo esboça um sorriso, e após uns
momentos de hesitação, de uma mal disfarçada
ansiedade,
responde:
- Tenho uma
solução perfeita, Hildebrando. Penso que com ela estará garantida a Felicidade
dos reinos cristãos da Península Ibérica, e a autoridade da Igreja. Apenas
necessito de algum tempo, esse bem precioso e incorpóreo que tantas vezes nos
escapa.



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