Eram 10 horas da manhã.
A fila de utentes estendia-se até ao parque de estacionamento.
A maioria, pessoas de terceira idade, mas também muitas mulheres grávidas e algumas crianças, e também algumas pessoas aparentemente saudáveis que começam o dia com uma ida ao centro de saúde. Um hábito de que não prescindem, antes da caminhada matinal, da bica e do cigarrinho numa esplanada da zona.
O velho chegou, e devia estar muito doente.
Tinha uns olhos típicos de um indivíduo que foi baleado no estômago por uma arma de calibre quarenta e cinco.
O velho ficou sentado à sombra, gemendo, enquanto o acompanhante se dirigiu para o interior do CS, pedindo desculpa pelo acto aos muitos utentes na fila.
- Bom dia, minha senhora - dirigiu-se à recepcionista, que estava ao telefone, aparentemente indiferente - há aqui algum médico que possa ver o meu pai rapidamente?
- Agora não temos cá nenhum médico, - disse a telefonista, visivelmente incomodada por ter que interromper o telefonema - o Doutor G. só vai chegar por volta do meio-dia.
- Meio-dia? Assim o meu pai ainda morre ali fora.
- Lamento, mas o Doutor saiu ontem daqui à pressa para abrir o seu novo consultório na baixa, e ainda lá deve estar a tratar da burocracia. Sabe como são estas coisas. O Estado paga tão mal aos médicos, que eles coitados têm que se virar. Veja que o Senhor Doutor JL apenas ganha 8000 Euros por mês para trabalhar 6 horas diárias.
A fila de utentes estendia-se até ao parque de estacionamento.
A maioria, pessoas de terceira idade, mas também muitas mulheres grávidas e algumas crianças, e também algumas pessoas aparentemente saudáveis que começam o dia com uma ida ao centro de saúde. Um hábito de que não prescindem, antes da caminhada matinal, da bica e do cigarrinho numa esplanada da zona.
O velho chegou, e devia estar muito doente.
Tinha uns olhos típicos de um indivíduo que foi baleado no estômago por uma arma de calibre quarenta e cinco.
O velho ficou sentado à sombra, gemendo, enquanto o acompanhante se dirigiu para o interior do CS, pedindo desculpa pelo acto aos muitos utentes na fila.
- Bom dia, minha senhora - dirigiu-se à recepcionista, que estava ao telefone, aparentemente indiferente - há aqui algum médico que possa ver o meu pai rapidamente?
- Agora não temos cá nenhum médico, - disse a telefonista, visivelmente incomodada por ter que interromper o telefonema - o Doutor G. só vai chegar por volta do meio-dia.
- Meio-dia? Assim o meu pai ainda morre ali fora.
- Lamento, mas o Doutor saiu ontem daqui à pressa para abrir o seu novo consultório na baixa, e ainda lá deve estar a tratar da burocracia. Sabe como são estas coisas. O Estado paga tão mal aos médicos, que eles coitados têm que se virar. Veja que o Senhor Doutor JL apenas ganha 8000 Euros por mês para trabalhar 6 horas diárias.
- Só? Mais do que isso ganho eu num ano! Coitado.
- Pois! O que vale é que ele praticamente só cá vem metade
desse tempo, por causa das eleições.
- Eleições para a Ordem dos Médicos?
- Não! Para a Câmara.
- Mas então não há aqui nenhum profissional de saúde que me possa ajudar?
- Vou ver se encontro alguém - Já volto a ligar-te,! - diz entretanto para o outro lado da linha, tenho aqui um problema.
Desliga o telefone, desaparece no interior do CS, e regressa pouco depois com um ar desalentado.
- Só me faltava mais esta. A Enfermeira Chefe só vai cá estar às duas da tarde.Coitada, provavelmente está a dar apoio ao Dr. G, de quem é muito chegada. Mas também de pouco serviria, pois ela está desligada da profissão há muito tempo. Agora só faz a gestão possível.
- Gestão? - Diz o acompanhante do velho moribundo?
- Sim, que pensa? O Estado finge que pega e a Senhora Enfermeira finge que trabalha. É o país que temos. Se lhe dissesse qual o meu ordenado. Aqui ninguém sabe muito bem o que faz, mas fá-lo com toda a intensidade.
- Que devo fazer, então - diz o acompanhante com lágrimas nos olhos.
- Espere, vou mandar vir a Enfermeira Subchefe. -Vá lá atende - diz para si mesma a recepcionista, impaciente, falando paar o bocal do telefone.
- A Enfermeira Subchefe que venha aqui rapidamente, R, por favor.
- O quê? Foi tomar o pequeno-almoço há já meia hora e anda não voltou? Aqui ninguém faz o que deve, cada um faz o que pode, mas todos participam.
Desliga o telefone rapidamente e vai a correr para o exterior do CS.
- Vou chamar o nosso motorista para levar o seu pai ao hospital. Deve estar ali fora a fumar um cigarro. Estas novas leis são boas para todos menos para os políticos.
Volta pouco depois, já em pânico.
- Tenho que pedir uma ambulância. O motorista foi fazer um biscate ao doutor G. no consultório e está incontactável. Valha-me Deus.
O acompanhante quase desmaia.
-Já consegui a ambulância. A Junta de Freguesia vai ajudar.
A ambulância chega, o doente com olhos de baleado é introduzido, já sem sentidos, no seu interior, e parte, perante os olhares incrédulos dos utentes numa fila que entretanto aumentara consideravelmente, e tentavam proteger-se do sol abrasador.
-Próximo! - Diz a recepcionista.
E a vida continua...
- Vou ver se encontro alguém - Já volto a ligar-te,! - diz entretanto para o outro lado da linha, tenho aqui um problema.
Desliga o telefone, desaparece no interior do CS, e regressa pouco depois com um ar desalentado.
- Só me faltava mais esta. A Enfermeira Chefe só vai cá estar às duas da tarde.Coitada, provavelmente está a dar apoio ao Dr. G, de quem é muito chegada. Mas também de pouco serviria, pois ela está desligada da profissão há muito tempo. Agora só faz a gestão possível.
- Gestão? - Diz o acompanhante do velho moribundo?
- Sim, que pensa? O Estado finge que pega e a Senhora Enfermeira finge que trabalha. É o país que temos. Se lhe dissesse qual o meu ordenado. Aqui ninguém sabe muito bem o que faz, mas fá-lo com toda a intensidade.
- Que devo fazer, então - diz o acompanhante com lágrimas nos olhos.
- Espere, vou mandar vir a Enfermeira Subchefe. -Vá lá atende - diz para si mesma a recepcionista, impaciente, falando paar o bocal do telefone.
- A Enfermeira Subchefe que venha aqui rapidamente, R, por favor.
- O quê? Foi tomar o pequeno-almoço há já meia hora e anda não voltou? Aqui ninguém faz o que deve, cada um faz o que pode, mas todos participam.
Desliga o telefone rapidamente e vai a correr para o exterior do CS.
- Vou chamar o nosso motorista para levar o seu pai ao hospital. Deve estar ali fora a fumar um cigarro. Estas novas leis são boas para todos menos para os políticos.
Volta pouco depois, já em pânico.
- Tenho que pedir uma ambulância. O motorista foi fazer um biscate ao doutor G. no consultório e está incontactável. Valha-me Deus.
O acompanhante quase desmaia.
-Já consegui a ambulância. A Junta de Freguesia vai ajudar.
A ambulância chega, o doente com olhos de baleado é introduzido, já sem sentidos, no seu interior, e parte, perante os olhares incrédulos dos utentes numa fila que entretanto aumentara consideravelmente, e tentavam proteger-se do sol abrasador.
-Próximo! - Diz a recepcionista.
E a vida continua...

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