sábado, 17 de março de 2012

Justiça ao almoço

Fui almoçar há dias com uns antigos colegas meus do Liceu Nacional de Faro, envoltos naquele desejo de fazer desaparecer o tempo e retornar às alegrias e sonhos da juventude há muito perdida.
Dois desses meus colegas são hoje advogados, não do Diabo, que este não precisa que o defendam ou ataquem, por ser indefensável e inatacável, mas sim das causas nacionais e internacionais que, se não têm a virtude de ser nobres, são pelo menos financeiramente atrativas.
Moços do meu tempo, que na vida pública aparecem revestidos daquela rigidez inerente aos que usam toga e têm o poder de julgar nas mãos, deixam subitamente cair as várias máscaras com que foram revestindo a sua inocência há muito perdida, e voltam a ser meninos entre o Private Selection e o conhaque da Herdade do Esporão.
Estava um pouco em desvantagem pois tendo seguido uma carreira técnica, levei algum tempo a reentender a linguagem dos patifórios, demasiado intrincada e envolvente nos primeiros instantes.
A pouco e pouco a linguagem que sempre cobre a máscara última foi sendo retirada, não sem alguma dificuldade, pois de tanto ser usada a máscara confunde-se com a pele, e percebi que pelo menos um dos meus ex-colegas estava com um problema de consciência.
Dizia ele, com alguma sinceridade, tanto quanto pude perceber, que tinha sobre si a dúvida que muitas vezes o assolava sobre a maneira de estar a contribuir ou não para a justiça.
Teria ele prejudicado alguém gravemente pelo facto de ser um demagogo?
Teria ele ilibado malandros, que os há para aí aos montes, e sacrificado inocentes a troco do vil metal, duma forma insensivel?
(Para mim não há a amenor dúvida)
Consolei-o, enquanto saboreava o magnífico Torre com que fomos brindados pela administração do Bolotas & Vinagre:
Meu caro M., dá sossego à tua alma. Se alguém foi condenado sem ser culpado, é seguramente culpado por ter sido condenado. E mais, dada a natureza humana dos advogados e mesmo dos juizes, eles são falíveis.
Infalível só o nosso actual Presidente.
Mas este não é humano.
De qualquer modo, justiça faz-se sempre.
Se não for nesta vida, será certamente na outra.
Descansa e aproveita os sonhos.
Não sei se ele acreditou ou se quis ser simpático.
Mas voltou a sorrir.
Assim vai a Justiça em Portugal.

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