sábado, 17 de março de 2012

Beatas e água benta

Observando com atenção as calçadas portuguesas vemos que também estão cheias de beatas. Não as que antigamente povoavam as igrejas, rondando os párocos bem parecidos, na esperança de com eles se despojarem, mas aquelas que saem de bocas de fumadores e fumadoras, de todos os tamanhos e feitios, com ou sem dentes, cheirando invariavelmente mal, e são usualmente acompanhadas de um valente escarro, que se pode distinguir da beata pelo seu tom amarelo-esverdeado, que adquire matizes castanhas com o tempo.
 E
ste facto induz uma certa meditação, e nela se podem vislumbrar dois elementos distintos:

A pia de água benta em que o país foi em determinada época transformado, e em que as beatas ensopavam os dedos antes de se persignarem, pedindo ao alto que lhes concedesse os favores do homem de negro, e o cinzeiro em que agora foi metamorfoseado o país, e onde debitamos as beatas acompanhadas pelo escarro nacional, onde se condensa a frivolidade da nossa vida miserável com o venenoso prazer que ela nos dá...


In "O livro da Idiossincrasia" de Jamal de Suad

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