O que é que se faz quando a coisa que mais se deseja nos cai do céu? – Perguntou o novo primeiro – ministro ao seu acessor e amigo, enquanto acendia o charuto.
Agora, meu caro, o que tens a fazer é gozar o prazer da conquista e ser feliz. Bem o mereces, depois de toda esta luta – recomendou o acessor.
Lentamente, enquanto olhava para a ponta incandescente do havano, Pedro levantou-se da cómoda poltrona, passou pelo amigo dando-lhe uma pancada amigável nas costas, e olhando pela janela sobranceira aos jardins do palácio, afirmou:
- Meu caro, ninguém melhor do que eu sabe que o poder, bem como a Felicidade, são transitórios, pois nos escapam constantemente, ou simplesmente deixam de existir de um momento para o outro, deixando-nos num estado de desespero, e com um certo gosto a cinza na boca e no espírito.
- Mas esse é o fardo do homem público, daquele que se entrega à nobre luta política para melhorar a vida dos seus concidadãos, para que todos tenham o seu quinhão de Felicidade; infelizmente não podemos agradar a todos, e muitas vezes não nos fazem a devida justiça; Não te reconheço, Pedro, bem sabes que não há nada melhor que o sucesso – apressou-se a comentar Miguel.
- Já o experimentei várias vezes, como sabes, e só esse facto me faz pensar se haverá alguma coisa que fracasse tanto como o sucesso; há inúmeros exemplos de políticos que aparentemente foram bem sucedidos, mas não foram mais felizes por causa disso. Se assim não fosse, porque voltaríamos a tentar vezes sem conta?
- Estás demasiado cansado com toda esta luta que finalmente te deu a vitória, e por isso estás excessivamente contemplativo. Olha que há um país para governar, e os problemas são tantos que não vais ter muito tempo para considerações filosóficas.
- Miguel, sabes bem que eu não viro a cara à luta, que sou extremamente competitivo, que tenho o sentido das responsabilidades – respondeu Pedro, desta vez com a agressividade e frieza que lhe eram bem características – o que eu te tenho estado a tentar mostrar é que o poder, tal como o prazer, é uma faca de dois gumes. Quanto mais nós exigimos, mais desejamos, e sentimos que nos falta…diria que é como tentar esvaziar um oceano com um balde; e quanto mais conseguimos alcançar, maior é o medo de tudo perder. Não sei se me estás a seguir…
Miguel, como que apanhado de surpresa por esta inflexão no discurso do amigo, parou um momento para pensar na resposta, mas apenas conseguiu balbuciar: - Continua…
- Há algo que não podes contestar, seguramente. Também já cá andamos há um bom par de anos, e somos amigos desde os tempos da Faculdade; se conseguimos aqui chegar foi devido ao nosso grande espírito de competição, à nossa esperteza e destreza política.
- Pedro, isso não só é absolutamente verdade, como também é algo de que muito nos orgulhamos.
- Ora aí tens, Miguel. No entanto há algo que tem sido descurado por muitos e que eu, agora que aqui cheguei, não pretendo negligenciar.
- Referes-te exactamente a quê?
- Nós, políticos, já passámos por tanta infelicidade, já obtivemos tanto poder ou prazer à custa da infelicidade dos outros, que nos consideravam seus amigos, que ela passou a fazer parte de nós. Tornamo-nos por assim dizer vítimas do nosso êxito, dai eu ter dito há minutos que não há coisa que fracasse tanto como o sucesso.
- Confesso que ainda não vi onde queres chegar…
- Diria que estamos perante aquilo a que Freud chamaria o Sindroma do Politico moderno, – e Pedro solta uma estridente gargalhada, que teve o condão de aliviar um pouco a tensão que Miguel aparentava.
- Ah! Freud, esse génio que considerava que a Felicidade era contrária à natureza da existência. Parece que no teu caso acertou. Bem, e aparentemente também no meu. O homem não pode ser feliz, pois tem consciência, tem ego, e nós, meu caro, bem, nós os políticos, temos um super ego.
- Meu caro Miguel, tocaste exactamente no ponto que importa não negligenciar nesta legislatura, – disse Pedro, num tom absolutamente solene – A palavra-chave é controlo. Não se pode controlar uma pessoa feliz. Uma pessoa feliz é livre e não pode ser manipulada; só poderemos manipular as pessoas, as opiniões públicas, aqueles que nos elegem, se eles forem imensamente infelizes.
- Mas como pretendes fazer uma coisa dessas?
- É necessário dar aos eleitores a ilusão de que podem conquistar a Felicidade, de que podem ter coisas novas continuamente, de que se podem divertir quando e onde quiserem, de que vivem num país moderno, europeu, que os apoia incondicionalmente nessa demanda. Há que manter a mente das pessoas ocupadas sempre com o futuro, com o amanhã. Não há nada mais incentivador do que os desejos permanentemente adiados.
- Mas isso não é novo! Já foi usado no tempo da ditadura, e agora, em democracia, o que não falta são motivos de distracção, seja nos “media” ou em grandes acontecimentos desportivos ou musicais.
- Concordo, mas há algo inovador que pretendo fazer: pretendo incluir na Constituição o direito inalienável do povo a encontrar a Felicidade. Miguel, irei propor isso na próxima reunião de Conselho de Ministros. Conto contigo!
Agora, meu caro, o que tens a fazer é gozar o prazer da conquista e ser feliz. Bem o mereces, depois de toda esta luta – recomendou o acessor.
Lentamente, enquanto olhava para a ponta incandescente do havano, Pedro levantou-se da cómoda poltrona, passou pelo amigo dando-lhe uma pancada amigável nas costas, e olhando pela janela sobranceira aos jardins do palácio, afirmou:
- Meu caro, ninguém melhor do que eu sabe que o poder, bem como a Felicidade, são transitórios, pois nos escapam constantemente, ou simplesmente deixam de existir de um momento para o outro, deixando-nos num estado de desespero, e com um certo gosto a cinza na boca e no espírito.
- Mas esse é o fardo do homem público, daquele que se entrega à nobre luta política para melhorar a vida dos seus concidadãos, para que todos tenham o seu quinhão de Felicidade; infelizmente não podemos agradar a todos, e muitas vezes não nos fazem a devida justiça; Não te reconheço, Pedro, bem sabes que não há nada melhor que o sucesso – apressou-se a comentar Miguel.
- Já o experimentei várias vezes, como sabes, e só esse facto me faz pensar se haverá alguma coisa que fracasse tanto como o sucesso; há inúmeros exemplos de políticos que aparentemente foram bem sucedidos, mas não foram mais felizes por causa disso. Se assim não fosse, porque voltaríamos a tentar vezes sem conta?
- Estás demasiado cansado com toda esta luta que finalmente te deu a vitória, e por isso estás excessivamente contemplativo. Olha que há um país para governar, e os problemas são tantos que não vais ter muito tempo para considerações filosóficas.
- Miguel, sabes bem que eu não viro a cara à luta, que sou extremamente competitivo, que tenho o sentido das responsabilidades – respondeu Pedro, desta vez com a agressividade e frieza que lhe eram bem características – o que eu te tenho estado a tentar mostrar é que o poder, tal como o prazer, é uma faca de dois gumes. Quanto mais nós exigimos, mais desejamos, e sentimos que nos falta…diria que é como tentar esvaziar um oceano com um balde; e quanto mais conseguimos alcançar, maior é o medo de tudo perder. Não sei se me estás a seguir…
Miguel, como que apanhado de surpresa por esta inflexão no discurso do amigo, parou um momento para pensar na resposta, mas apenas conseguiu balbuciar: - Continua…
- Há algo que não podes contestar, seguramente. Também já cá andamos há um bom par de anos, e somos amigos desde os tempos da Faculdade; se conseguimos aqui chegar foi devido ao nosso grande espírito de competição, à nossa esperteza e destreza política.
- Pedro, isso não só é absolutamente verdade, como também é algo de que muito nos orgulhamos.
- Ora aí tens, Miguel. No entanto há algo que tem sido descurado por muitos e que eu, agora que aqui cheguei, não pretendo negligenciar.
- Referes-te exactamente a quê?
- Nós, políticos, já passámos por tanta infelicidade, já obtivemos tanto poder ou prazer à custa da infelicidade dos outros, que nos consideravam seus amigos, que ela passou a fazer parte de nós. Tornamo-nos por assim dizer vítimas do nosso êxito, dai eu ter dito há minutos que não há coisa que fracasse tanto como o sucesso.
- Confesso que ainda não vi onde queres chegar…
- Diria que estamos perante aquilo a que Freud chamaria o Sindroma do Politico moderno, – e Pedro solta uma estridente gargalhada, que teve o condão de aliviar um pouco a tensão que Miguel aparentava.
- Ah! Freud, esse génio que considerava que a Felicidade era contrária à natureza da existência. Parece que no teu caso acertou. Bem, e aparentemente também no meu. O homem não pode ser feliz, pois tem consciência, tem ego, e nós, meu caro, bem, nós os políticos, temos um super ego.
- Meu caro Miguel, tocaste exactamente no ponto que importa não negligenciar nesta legislatura, – disse Pedro, num tom absolutamente solene – A palavra-chave é controlo. Não se pode controlar uma pessoa feliz. Uma pessoa feliz é livre e não pode ser manipulada; só poderemos manipular as pessoas, as opiniões públicas, aqueles que nos elegem, se eles forem imensamente infelizes.
- Mas como pretendes fazer uma coisa dessas?
- É necessário dar aos eleitores a ilusão de que podem conquistar a Felicidade, de que podem ter coisas novas continuamente, de que se podem divertir quando e onde quiserem, de que vivem num país moderno, europeu, que os apoia incondicionalmente nessa demanda. Há que manter a mente das pessoas ocupadas sempre com o futuro, com o amanhã. Não há nada mais incentivador do que os desejos permanentemente adiados.
- Mas isso não é novo! Já foi usado no tempo da ditadura, e agora, em democracia, o que não falta são motivos de distracção, seja nos “media” ou em grandes acontecimentos desportivos ou musicais.
- Concordo, mas há algo inovador que pretendo fazer: pretendo incluir na Constituição o direito inalienável do povo a encontrar a Felicidade. Miguel, irei propor isso na próxima reunião de Conselho de Ministros. Conto contigo!
Sem comentários:
Enviar um comentário