terça-feira, 13 de março de 2012

Água e gelo

Poucas coisas me transmitem uma sensação de paz e levitação moral, como a água a fluir. Seja a que sai de uma simples torneira, ou a que corre, calma ou tumultuosamente, entre as margens de um rio.
Tenho o meu curso de água preferido, que permanece intocável, perto da casa da minha infância, esquecido que foi da fúria civilizadora dos homens como eu.
E sempre que regresso ao seio materno, quedo-me na contemplação serena daquele pequeno curso de água, que flui constantemente, sem nunca estagnar, protegido por acessos só de mim conhecidos.
A Natureza tenta dar-nos lições importantes através de imagens simples, mas a nossa imaginação e arrogância são tão grandes, que eliminamos à partida as coisas elementares. Apenas quando, num acto de humildade, nos esquecemos do nosso ego, podemos descodificar o que a Natureza insistentemente nos tenta transmitir.
Olho, de pé, na margem do ribeiro, o pequeno caudal informe, que se vai adaptando aos obstáculos que surgem no seu caminho, moldando-se às irregularidades do leito, sempre protegido e orientado, nunca limitado pelas margens, de um e outro lado. A minha consciência consegue descodificar a mensagem, e a mente faz o resto.
É isso! A água está sempre em movimento, flui e ultrapassa todos os obstáculos, adaptando-se aos escolhos, mudando constantemente, com o único objectivo de chegar à sua foz. Nenhum obstáculo a detém, e nem perde tempo com eles. E nós, que somos quase apenas água, porque razão não imitamos o pequeno curso de água que a meus pés, servilmente, humildemente, me mostra, qual livro aberto, o caminho certo?
Porque continuamos a deter-nos em escolhos da vida, e nos tornamos rígidos, como água tornada gelo, e não nos dedicamos a fluir, apenas, em direcção à nossa foz, à divindade?

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